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ROGER MARCHESINI
DE QUADROS SOUZA
Doutor em Educação
pela PUC-SP, Professor da Universidade Metodista de São Paulo e
da Universidade Bandeirantes de São Paulo.

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Considerações acerca do fracasso
escolar em São Paulo e o Regime de Ciclos com Progressão Continuada
Roger Marchesini de Quadros Souza
Ao longo dos últimos vinte e cinco
anos, os sucessivos governos do Estado de São Paulo, através de seus
representantes na Secretaria de Educação do Estado, têm adotado
diversas medidas para combater a evasão e a repetência que foram,
nesse período, as principais causas da exclusão existentes na rede
pública paulista. Estes fenômenos são denominados por especialistas
em geral; como fracasso escolar e dentro do amplo espectro que pode
ser englobado nesse tema; esse trabalho trata prioritariamente dos
aspectos referentes à denominada correção de fluxo do sistema
escolar.
Na
tabela 1, apresentada a seguir, pode-se observar a evolução dos
números absolutos de matrícula no Ensino Fundamental no Estado de
São Paulo referentes ao período de 1989 a 1996:
Tabela 1 – Números absolutos da
Matrícula final em 1989 e dos alunos promovidos em todas as séries
do Ensino Fundamental no Ensino Público do Estado de São Paulo
referentes ao período de1989/96.
|
Séries |
Matr. Inicial em 1989 |
Matrícula final por ano
|
|
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
1996 |
|
CBI |
673379 |
604371 |
622304 |
587495 |
590929 |
587982 |
594725 |
576140 |
510961 |
|
CBC |
|
562948 |
578837 |
613910 |
584636 |
578719 |
554645 |
597285 |
600615 |
|
3a |
|
497021 |
530851 |
563730 |
582919 |
570664 |
550502 |
553109 |
595312 |
|
4a |
|
430680 |
470952 |
517350 |
544177 |
567007 |
544722 |
543238 |
552395 |
|
5a |
|
352531 |
388140 |
454275 |
495914 |
545350 |
523322 |
528850 |
552623 |
|
Séries |
Matr. Inicial em 1989 |
Matrícula final por ano |
|
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
1996 |
|
6a |
|
291495 |
312941 |
368009 |
416092 |
471949 |
471564 |
493222 |
512730 |
|
7a |
|
233281 |
260376 |
296678 |
341054 |
391190 |
414576 |
433249 |
468673 |
|
8a |
|
201282 |
220478 |
254419 |
289546 |
332871 |
364547 |
391834 |
419997 |
FONTE: Relatório sobre o Desempenho
Escolar na Rede Estadual de São Paulo, SE/ATPCE/CIE, 1997.
As células destacadas, na Tabela 1,
correspondem à evolução das matrículas dos alunos que iniciaram o
Ensino Fundamental, na rede pública estadual paulista, em 1989 e o
concluíram no ano de 1996, período equivalente à duração regular
desse nível de escolarização.
Os números, que são alarmantes,
indicam que 37,63% (253.382) dos alunos que iniciaram o Ensino
Fundamental não o concluíram em 8 anos e que talvez muitos deles
jamais o concluam. Por si só esses números expressam, de forma
inequívoca, a gravidade do problema referente ao fluxo escolar e,
sobremaneira; o seu impacto sobre a vida de milhares de jovens
paulistas.
Na seqüência, a Tabela 2 apresenta
exclusivamente os índices de retenção no Ensino Fundamental das
escolas públicas do Estado de São Paulo no mesmo período da Tabela
anterior:
Tabela 2 – Índice de reprovação
escolar por série no Ensino Fundamental nas escolas públicas
estaduais de São Paulo no período de 1989/95.
|
SÉRIE
|
ANO
|
|
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
|
CBI |
0 |
0 |
0 |
0 |
0 |
0 |
0 |
|
CBC |
29,18 |
28,61 |
26,63 |
26,13 |
25,65 |
27,65 |
24,10 |
|
3a |
15,96 |
15,71 |
13,35 |
13,66 |
12,44 |
13,95 |
11,58 |
|
4a |
10,91 |
11,34 |
9,38 |
9,56 |
8,39 |
9,57 |
7,53 |
|
5a |
21,90 |
23,53 |
19,66 |
19,55 |
15,88 |
19,59 |
16,63 |
|
6a |
16,66 |
18,46 |
13,95 |
14,75 |
11,49 |
16,15 |
12,30 |
|
SÉRIE |
ANO |
|
1989 |
1990 |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
|
7a |
12,19 |
13,97 |
10,02 |
10,40 |
8,05 |
11,28 |
8,94 |
|
8a |
7,03 |
8,36 |
5,09 |
5,14 |
3,69 |
5,79 |
4,77 |
FONTE: Relatório sobre o Desempenho
Escolar na Rede Estadual de São Paulo, SE/ATPCE/CIE, 1996.
Os índices constantes na Tabela dois
são também alarmantes, pois a retenção acumulada ao longo dos oito
anos do Ensino Fundamental aponta para uma proporção de retenções
acumuladas de aproximadamente 65%.
No período compreendido pelas duas
tabelas destaca-se, no Estado de São Paulo, o projeto do Ciclo
Básico (CB) implantado em 1984. Nesta proposta a 1a e 2a
séries do Ensino Fundamental foram agrupadas em um único período,
com dois anos de duração. Esta alteração na seriação garantia aos
alunos no final do primeiro ano do ciclo a mudança para o segundo,
série em que, os alunos deveriam ser reclassificados de acordo com
seu grau de aprendizagem. Somente ao final destes dois anos é que as
crianças seriam avaliadas com o intuito de promoção para a 3a
série ou retenção no mesmo ano do ciclo.
Outras medidas legais foram adotadas a
partir de 1991, como é o caso da Deliberação Número 3/91, que tinha
como principal objetivo, declarado no texto legal, a redução dos
recursos
impetrados contra as escolas ou professores junto ao Conselho
Estadual de Educação (CEE). Esta medida foi alterada em aspectos
formais pelas Deliberações CEE Números 9/92 e 11/96, que não
alteraram sua essência.
Estas ações tinham como principal
meta, no que se refere às retenções, descentralizar a competência de
deliberar sobre possível injustiça ou imperícia cometida por
professores contra alunos da rede pública estadual, por meio da
fiscalização obrigatória, realizada pelos supervisores escolares.
Esta fiscalização deveria ser realizada nos casos de repetência em
uma única disciplina dos alunos das séries intermediárias do Ensino
Fundamental e Médio - 1a à 7a série do Ensino
Fundamental e 1a, 2a e 3a, nos
cursos com duração de quatro anos do ensino médio- e em todos os
casos de repetência das séries terminais, 8a do Ensino
Fundamental e 3a ou 4a do Ensino Médio
dependendo de sua modalidade e duração total.
Durante o ano da implantação, do
referido ciclo, foram realizadas dezenas de horas de treinamento,
que faziam parte de Projeto Ipê. Este programa de treinamento tinha
como um de seus principais objetivos a adaptação dos professores e
especialistas de educação a esta nova estrutura do Ensino
Fundamental denominado à época Ensino de 1o Grau pela Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB) vigente no período em tela.
Pois bem, doze anos depois da
implantação do Ciclo Básico, tempo transcorrido até a promulgação da
atual LDB (1984 a 1996), ainda encontrávamos em todas as escolas da
rede pública paulista comentários desabonadores da proposta de Ciclo
Básico. Esta proposta era vulgarmente e pejorativamente intitulada
de promoção automática, por parcela significativa de
educadores da rede pública, professores polivalentes de 1a
à 4a séries e, também, os de 5a a 8a
séries do Ensino Fundamental.
A esta alteração, foram atribuídas
inúmeras das mazelas referentes a qualidade da formação dos alunos,
tendo em vista a impossibilidade de retenção ao final do primeiro
ano de escolarização, o que causaria a promoção de alunos com nível
insuficiente de aprendizagem para a série subsequente.
Avancemos no tempo, estado de São
Paulo 2008, em pleno século XXI, o terceiro milênio. E as crianças,
adolescentes e adultos que freqüentavam e ainda freqüentam nossas
escolas públicas? Vão bem obrigado?
Tudo indica que sim afinal, neste
Estado, implantou-se na rede pública paulista, sem pestanejar, o
Regime de Ciclos previsto no artigo 23 da atual Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional
(LDB). Em São Paulo cada ciclo possui quatro anos de duração no
Ensino Fundamental. Esta importante alteração supõe a necessidade de
implantação de um novo modelo administrativo, pedagógico e de
organização dos tempos e espaço escolares, que atenda à nova
configuração deste nível de ensino. Este novo modelo, mais do que
reformas estruturais ou físicas impõe a instrumentalização dos
profissionais da educação para sua consecução.
Esta premente necessidade de
preparação dos profissionais de educação faz-se indispensável, pois
é inegável a existência em nossas escolas da denominada cultura
da repetência (PATTO, 1996) indo mais longe, o culto à
repetência, através da tradição histórica da hipervalorização da
nota como fim em si mesma - somatória – ao invés de meio para
atingir um fim - diagnóstica (LUCKESI, 2002). Não podemos nos
esquecer que a escola, enquanto instituição social, é resultado
mediado da sociedade inclusiva e a sociedade capitalista
contemporânea possui forte caráter classificatório, elemento que se
transmite à organização escolar.
Esta tradição, a da repetência como
mecanismo de justiciamento dos alunos, faz parte da cultura
escolar e mais do que isso é referência de educação eficiente
para a maior parte dos adultos que também passaram por este sistema
de avaliação. No qual a aprovação do aluno está condicionada a
somatória de notas ou, quando muito, a uma avaliação subjetiva do
professor.
Como conseqüência do exposto, é comum
ouvir-se dos pais a seguinte indagação, feita aos especialistas de
educação e professores: Porque seus filhos passaram de ano se
não estudaram? O que, por sua vez, reforça, nos professores, a
posição de defesa da avaliação tradicional e do retorno aos
mecanismos de repetência e promoção.
Pior, agora falta ao professor aquilo
que nos intimida no dentista, o motorzinho da broca, ou seu
equivalente na educação a nota que aprova ou reprova. O uso da nota
como elemento de pressão cumpre uma dupla função com caráter
intimidatória e perversa que são, manter a disciplina em sala de
aula e “motivar” o aluno a estudar. Esse é dos únicos mecanismos
conhecidos e disponíveis ao profissional de educação para manter a
disciplina e a motivação do aluno! Portanto, os alunos
não precisam mais se preocupar com o protetor auricular...
E os professores? A qualidade de
ensino?
Pelo jeito vão mal, obrigado! Os
professores perderam a faca e o queijo, o que fazer agora?
Não há nenhum mecanismo que substitua a avaliação em seu papel
classificatório e repressor! Anuncia-se a libertação dos grilhões da
avaliação classificatória e punitiva, mas não se criam os mecanismos
para que essa “liberdade” se transforme em autonomia e seja
praticada em sua plenitude gerando um novo modelo escolar. Também se
ignora o forte caráter classificatório e selecionador, que se
justifica ideologicamente com a meritocracia e que, caracterizam as
sociedades capitalistas contemporâneas e se constitui em elemento
chave para compreender o processo que se produz no interior das
escolas.
A apressada implantação do modelo do
Regime de Ciclos com Progressão Continuada em São Paulo, não
introduziu no sistema educacional paulista nenhum mecanismo de
reorganização efetiva da estrutura e funcionamento da escola que
pudesse garantir, de um lado o aprendizado dos alunos e de outro a
preparação dos professores para essa nova realidade e como lidar com
as questões inerentes ao confinamento de jovens em espaços e tempos
artificialmente impostos. Poder-se-ia remeter à implantação dos
processos de Recuperação e Reforço, porém quando existiu foi isolada
e não sistêmica e a reorganização necessária e indispensável das
salas de aula, do modelo seriado para o modelo de ciclos em virtude
da necessária reclassificação dos alunos passou longe das escolas
públicas estaduais.
A preparação docente ficou no âmbito
dos decretos, da imposição de normas e regulamentos.Estes
profissionais jamais foram consultados ou chamados a participar de
qualquer decisão.
Esta falta de preparação do espaço
físico, da organização dos tempos escolares e dos docentes,
especialistas e comunidade escolar, para a adoção de uma nova
postura frente a relação professor aluno leva a desesperança, a
falta de perspectiva, à desmotivação, que se refletem imediatamente
na qualidade de ensino.
Não houve, por parte dos órgãos
centrais da rede pública paulista, a menor preparação para esta
mudança tão importante quanto necessária para a verdadeira
democratização do acesso e permanência do aluno na escola por, no
mínimo, oito anos, previstas na Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional.
Esta ausência total de compromisso dos
Órgãos Centrais do governo do Estado de São Paulo com a qualificação
dos profissionais de educação e a reorganização da escola, indicam a
precipitação de viabilizar esta proposta, o que revela de um lado, a
exclusiva intenção de barateamento da educação pública paulista e de
outro, a viabilização de um projeto com fins exclusivamente
eleitorais.
Estas afirmações se justificam por
três aspectos. Primeiro, o treinamento dos profissionais de educação
envolveria o investimento de uma grande soma de capital, o que não
parece ser parte integrante das prioridades de um modelo de Estado
que privatiza suas empresas para desonerar os cofres
públicos. Segundo, a permanência de um aluno por mais de um ano em
uma mesma série envolve o dobro de despesas. Terceiro, a implantação
de um projeto tão audacioso implicaria em um longo período de
transição, o que não permitiria resultados estatísticos imediatos no
que se refere à redução das taxas de retenção e evasão de alunos das
escolas públicas paulistas.
Ao que tudo indica há, portanto, o
forte compromisso do governo do Estado de São Paulo com a política
neoliberal adotada pelo Governo Federal, de sucateamento dos
serviços prestados pelo Estado. Ambos não medem conseqüências no que
se refere à implantação de políticas públicas que visem o
barateamento ou viabilizem a privatização dos serviços públicos
essenciais, como a saúde, a educação, a segurança pública, etc.,
todos sem o menor pejo no que se refere ao não atendimento das
necessidades básicas dos setores mais pauperizados da sociedade
brasileira.
Tudo indica, portanto, que como na
odontologia, os protetores auriculares são indispensáveis aos
profissionais de educação que acreditam na necessidade de
reformulação dos processos de avaliação escolar alicerçada na
adequada preparação dos docentes e implantação de um projeto sério
de transição para sua viabilização sem prejuízo da atuação docente e
da qualidade de formação dos alunos e que ainda, não foram
ensurdecidos pela gritaria geral daqueles ferrenhos defensores da
cultura da retenção ou pelo entusiasmo dos que, ingenuamente ou
maliciosamente, defendem incondicionalmente o fim imediato da
retenção.
Referências
BRASIL, Poder Executivo. Lei Federal
No 9394/96. Diário Oficial da União, 1996.
LUCKESI, C. C. . Avaliação da
aprendizagem escolar. São Paulo: Cortez, 12ª Edição,2002.
PATTO, M. H. S. A produção do fracasso
escolar: histórias de submissão e rebeldia. São Paulo, T. A. Queiroz
Editor, 4ª Reimpressão, 1996
SÃO PAULO, Conselho Estadual da
Educação, Deliberação No 11/96, Imprensa Oficial de São Paulo, 1996.
____________,_________________ .
Deliberação No 9/92, Imprensa Oficial de São Paulo, 1991.
____________,_________________ .
Deliberação No 3/91, Imprensa Oficial de São Paulo, 1991.
SOUZA, Roger M. Q. A implantação do
Regime de Ciclos Com Progressão Continuada nas escolas públicas
paulistas: um cenário para o estudo de resistência às mudanças. Tese
de Doutorado. PUC-SP. São Paulo, 2005.
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