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MARCELO RIDENTI
Professor Titular de
Sociologia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), e
pesquisador do CNPq

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Desenvolvimentismo: o retorno
Marcelo Ridenti
Introdução
Ao enfrentar o
desafio de tratar a questão do desenvolvimento, não o farei como
economista, tampouco como sociólogo do desenvolvimento num sentido
estrito. A partir da perspectiva de um estudioso da esquerda
brasileira, especialmente dos anos 1960, tentarei dividir com os
leitores um certo estranhamento acerca da retomada do tema do
desenvolvimento na agenda social e política nos últimos anos,
particularmente por parte de setores expressivos da esquerda
brasileira, entendida num sentido amplo como o conjunto de forças
sociais e políticas empenhadas em transformações que minorem as
desigualdades sociais e econômicas.
Os dois principais
candidatos para a próxima eleição presidencial – pelo que hoje se
anuncia, ainda dois anos antes das eleições – são José Serra e Dilma
Rousseff, o primeiro da oposição, a segunda do atual governo. Ambos
desenvolvimentistas, formados nos debates econômicos, políticos e
sociais dos anos 1960, como profissionais e também como militantes
políticos, um da Ação Popular (AP), outra da Vanguarda Armada
Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). É claro que esse tempo já
vai longe e ambos mudaram, mas trazem as marcas da experiência
passada. Não é à toa que eles representam as correntes ditas
desenvolvimentistas no interior das forças aliadas em torno de seus
respectivos partidos, cada qual a seu modo. Serra ficou conhecido,
durante o governo Fernando Henrique Cardoso, como principal
expressão da corrente desenvolvimentista do Partido da Social
Democracia Brasileira (PSDB), que dava o contraponto então
minoritário a um governo acusado pelos opositores de neoliberal. Por
sua vez, Dilma é a face dita desenvolvimentista do governo do
petista Lula, que abriga também ministros liberais, que foram mais
importantes em seu primeiro governo, mas perderam terreno no
segundo.
Para tomar apenas um referencial mais
à esquerda, o tema do desenvolvimento ressurgiu com força no
livro-Manifesto A opção brasileira, assinado por um conjunto
de intelectuais militantes como o redator César Benjamin, Emir Sader,
João Pedro Stedile, Plínio de Arruda Sampaio e outros, gente que
hoje está no Partido dos Trabalhadores (PT) ou no Partido Socialismo
e Liberdade (PSOL), mas se destaca sobretudo pela participação em
movimentos sociais.
Os nomes desses autores também revela conexões com as esquerdas dos
anos 1960 (Benjamin, MR8; Emir, POLOP-POC; Plínio – democracia
cristã e, depois, Teologia da Libertação)
O livro, de 1998,
foi um dos pioneiros na retomada do tema do desenvolvimento na
agenda política e econômica nacional. Ele o fazia de uma perspectiva
mais radical, mas dentro do mesmo universo das outras duas correntes
citadas: a retomada do desenvolvimentismo. Basta ver a quem o livro
foi dedicado: Celso Furtado, Ignácio Rangel, Caio Prado Jr., Darcy
Ribeiro, Florestan Fernandes e Milton Santos, todos expoentes dos
debates sobre desenvolvimento e dependência nos anos 1960 e 1970. O
livro aponta como “nossa fraqueza maior” aquilo que chama de
“divórcio entre povo e nação” (p.149). E aponta cinco compromissos
para superar essa fraqueza, aqueles com 1. a soberania; 2. a
solidariedade; 3. o desenvolvimento; 4. a sustentabilidade; 5. a
democracia ampliada (p.150-1)
O estranhamento
Pois bem,
explicito agora o estranhamento diante dessa situação de retorno do
desenvolvimentismo, levantando uma pergunta cuja resposta ficará
apenas esboçada. Pergunta que proponho como provocação para refletir
coletivamente: como ressurgiu das cinzas e até mesmo ganhou
predominância no universo político nacional, particularmente entre
as forças de esquerda, uma corrente de pensamento que se julgava
parte da história passada, supostamente morta e enterrada nos anos
1960, o desenvolvimentismo? Essa pergunta tem um desdobramento que
envolve a análise acadêmica, no âmbito das ciências sociais e
econômicas, mas a ultrapassa no sentido da ação política: seria
pertinente retomar o desenvolvimentismo, sem maiores reflexões sobre
seus alcances e limites, tão debatidos nos últimos 40 anos?
Vale a pena fazer uma viagem aos anos
1950 e 1960 para recuperar os termos do debate sobre o
desenvolvimento nacional, que era o grande tema da economia política
de então. Tema que envolve algumas palavras-chave: Estado,
planejamento, industrialização, modernização, urbanização, povo,
nação, superação da pobreza e do subdesenvolvimento. Para tomar a
formulação sintética de um economista que estudou a história do
pensamento no período, o desenvolvimentismo é “o projeto de
superação do subdesenvolvimento através da industrialização
integral, por meio do planejamento e decidido apoio estatal”.
Ricardo
Bielschowsky divide pensamento econômico de então em cinco
correntes: 1. a neoliberal (contraponto ao desenvolvimentismo, ao
enfatizar as forças do mercado para atingir a eficiência econômica –
um economista expoente desse universo seria Eugênio Gudin), 2. o
desenvolvimentismo do setor privado (Roberto Simonsen seria
exemplar), 3. o desenvolvimentismo do setor público não-nacionalista
(Roberto Campos tipificaria), 4. o desenvolvimentismo público
nacionalista (Celso Furtado à frente), e 5. a corrente socialista,
marcada especialmente pelas formulações do Partido Comunista
Brasileiro (PCB).
Para seguir a
proposta de abordar o desenvolvimentismo pelo seu viés de esquerda,
é o caso de recuperar aqui sobretudo as duas últimas correntes, que
seriam derrotadas com o golpe de 1964: o desenvolvimentismo
nacionalista e o socialista, que prefiro chamar de comunista para
atestar sua ligação fundamental com o PCB.
O
desenvolvimentismo envolvia uma concepção dualista, ou uma “razão
dualista” – para usar o termo do economista e sociólogo Francisco de
Oliveira.
Concebia-se a sociedade brasileira cindida em duas: a moderna, em
franco desenvolvimento, conviveria com um Brasil atrasado e
subdesenvolvido, que precisaria ser superado. À esquerda, o dualismo
era disseminado de formas diferenciadas por três matrizes
institucionais: 1. o Instituto Superior de Estudos Brasileiro (ISEB),
criado para dar suporte teórico ao governo de JK ; 2. a Comissão
Econômica para a América Latina (CEPAL), organismo das Nações
Unidas; 3. o Partido Comunista Brasileiro, cuja teoria das duas
etapas da revolução brasileira era incorporada difusa e diversamente
por círculos expressivos de intelectuais.
As análises da
CEPAL apontavam o atraso da estrutura sócio-econômica dos países da
chamada “periferia”, como os da América Latina, em relação ao
“centro” econômico Mundial, com a deterioração dos termos da troca –
relação de intercâmbio entre produtos primários e industrializados
desfavorável para os produtos primários produzidos na periferia. Daí
a incapacidade do mercado desenvolver as economias periféricas e a
necessidade do Estado como centro racionalizador da economia, quer
pelo planejamento, quer pelo financiamento. O Estado seria o indutor
de uma industrialização para o mercado interno, constituindo
economias nacionais sólidas e autônomas, com apoio do capital
estrangeiro disposto a industrializar a periferia, aumentando a
renda e a produtividade, em oposição ao imperialismo comercial e
financeiro.
O ISEB, órgão ligado à Casa Civil da
Presidência da República, foi um centro produtor de ideologias
nacional-desenvolvimentistas diferenciadas, que tinham em comum
apontar como contradição principal na sociedade brasileira o embate
entre “nação” e “antinação”. Elegia o “povo brasileiro” como
principal agente da História – não qualquer classe em especial.Assim, um autor como Hélio Jaguaribe apostava no capitalismo
autóctone na periferia ocidental. Alberto Guerreiro Ramos defendia
que o pesquisador deve assumir o ponto de vista da nação, propondo
uma ideologia do desenvolvimento e uma ideologia da sociologia
nacional. Vieira Pinto apostava nas massas populares no comando do
processo de desenvolvimento e dizia-se marxista, assim como alguns
de seus jovens assessores. Por sua vez, o militar comunista Nelson
Werneck Sodré não pretendia constituir ideologias nacionais, mas
fazer ciência. Contudo, compreendia o nacionalismo como inscrito na
realidade subdesenvolvida; nacionalismo seria “liberação”, verdade
histórica.
Na versão do PCB,
especialmente a partir da Declaração de março de 1958, haveria
resquícios feudais ou semi-feudais no campo, a serem removidos por
uma revolução burguesa, nacional e democrática, que uniria todas as
forças interessadas no progresso da nação e na ruptura com o
subdesenvolvimento (a burguesia, o proletariado, setores das camadas
médias e também os camponeses), contra as forças interessadas em
manter o subdesenvolvimento brasileiro, a saber, o imperialismo e
seus aliados internos, os latifundiários e setores das camadas
médias próximos dos interesses multinacionais. A revolução
socialista viria numa segunda etapa – bem próxima ou ainda muito
distante, dependendo da interpretação de cada corrente partidária.
É conhecida a
crítica de Caio Prado Jr. à posição do PCB herdada do VI Congresso
da Internacional Comunista, realizado em Moscou em 1928, que
propunha para os países coloniais e semicoloniais a revolução
nacional e democrática, uma frente única antiimperialista e
antifeudal.
No Congresso de 1960, o PCB reiterava a existência de duas
contradições fundamentais que exigiam solução radical imediata,
porém pacífica: 1) a nação contraposta ao imperialismo
norte-americano e seus agentes internos; 2) as forças produtivas em
desenvolvimento em contradição com o monopólio da terra (o que
envolvia o conflito entre latifundiários e massas camponesas). O
Brasil estaria assim na etapa da revolução antiimperialista,
antifeudal, nacional e democrática. O partido reconhecia a
contradição entre capital e trabalho, mas entendia que ela “não
exige solução radical e completa na atual etapa da revolução”.
Esse tipo de análise aproximava na
prática comunistas e nacionalistas, todos favoráveis a priorizar o
desenvolvimento, com atuação decisiva do Estado no planejamento e no
financiamento. Ele implicaria o silêncio sobre as lutas de classes e
uma concepção do Estado acima delas, sendo o subdesenvolvimento
visto como “ausência de capitalismo e não o seu resultado”. Era o
que afirmava nos anos 1980 o hoje (não por acaso) Ministro da
Fazenda, Guido Mantega.
Ele apenas reiterava a crítica funda que se fez ao
desenvolvimentismo em todas as suas variáveis a partir do final dos
anos 1960.
Constatava-se que
esse tipo de pensamento não dava conta satisfatoriamente das
complexas relações entre as diversas frações da burguesia
brasileira, os latifundiários, o capital internacional e o próprio
Estado (incluindo aí as Forças Armadas), tampouco fazia uma análise
convincente das classes despossuídas, que em geral sequer eram
tratadas, sem contar uma versão considerada simplificadora da
inserção do Brasil e dos países da chamada periferia na divisão
internacional do trabalho. Evidenciava-se que as forças
conservadoras e o “imperialismo” não eram entraves ao
desenvolvimento capitalista no Brasil.
Fernando Henrique Cardoso e Enzo
Faletto delinearam essa crítica nos anos 1960.
Paul Singer,
Maria da Conceição Tavares
e Francisco de Oliveira seriam outros expoentes que lapidaram tal
pensamento já na década de 1970. Por exemplo, Francisco de Oliveira
sintetizava a sua maneira a (auto)crítica de esquerda ao
desenvolvimentismo:
toda a questão do desenvolvimento foi
vista sob o ângulo das relações externas, e o problema
transformou-se assim em uma oposição entre nações, passando
despercebido o fato de que, antes de oposição entre nações, o
desenvolvimento ou o crescimento é um problema que diz respeito à
oposição entre classes sociais internas. [...o desenvolvimentismo]
cumprindo uma importante função ideológica para marginalizar
perguntas do tipo ‘a quem serve o desenvolvimento econômico
capitalista no Brasil’? ”[11].
A crítica prosseguiria pelos anos
1980. Por exemplo, em O capitalismo tardio, João Manuel
Cardoso de Mello afirmava que “a problemática cepalina é a
problemática da industrialização nacional, a partir de uma situação
periférica”. Propunha em seu lugar uma nova “tarefa – a de repensar
a História latino-americana como formação e desenvolvimento do modo
de produção capitalista”.
Independentemente das críticas, não se
pode negar que – sobretudo no início dos anos 1960 – o avanço das
teses desenvolvimentistas de nacionalistas e comunistas mobilizara
trabalhadores urbanos e rurais, além de setores significativos das
classes médias, sobretudo estudantes, intelectuais e artistas, como
se evidencia na Canção do Subdesenvolvido, a mais célebre do
CPC da UNE, composta por Carlos Lyra e Chico de Assis.
No pós-1964, por um certo período,
predominou um tipo de interpretação tributária do desenvolvimentismo
nacionalista de Celso Furtado, especialmente sua obra
Subdesenvolvimento e estagnação na América Latina, publicada
pela editora Civilização Brasileira em 1966.
O crescimento da economia brasileira estaria bloqueado, num
processo de estagnação insuperável dentro do modelo econômico da
ditadura, excludente da maioria da população. A saída para o
capitalismo no Brasil seria seu desenvolvimento nacional
independente, com a ampliação do mercado pela incorporação das
massas populares secularmente excluídas, projeto que fora derrotado
em 1964.
À revelia da Furtado, esse tipo de
interpretação teve conseqüências inesperadas: se não havia
escapatória dentro da ordem da ditadura para a crise econômica
vivida pela sociedade brasileira, condenada à estagnação, seria
preciso derrubar a ditadura para retomar o desenvolvimento, fosse em
base capitalistas ou até mesmo socialistas. A esquerda armada
nutriu-se particularmente da interpretação de Furtado, buscando
forjar os fatores subjetivos para uma revolução, pois as
circunstâncias objetivas seriam favoráveis com a estagnação
econômica.
Para ficar num só exemplo, tome-se o “Programa” da VAR-Palmares,
segundo o qual
o controle do capitalismo brasileiro
pelo capital imperialista condena o Brasil a permanecer nos marcos
da estagnação e do subdesenvolvimento. [...] na atual situação
histórica, o capitalismo mostra-se claramente incapaz de desenvolver
as forças produtivas do país.
Revela-se nesse
texto um desdobramento socialista do desenvolvimentismo que foi
teorizado por autores como Gunder Frank, Rui Mauro Marini e
Theotônio dos Santos, que não viam alternativas de crescimento para
os países subdesenvolvidos dentro do capitalismo, sistema que nos
países dependentes só poderia ser mantido pela força bruta de
ditaduras.
O chamado milagre
econômico promovido pela ditadura militar e civil logo desmentiria
as teses de estagnação, evidenciava-se a possibilidade de
desenvolvimento capitalista no Brasil e na América Latina, embora
dependente e associado ao capital internacional. Economistas e
sociólogos de esquerda, em geral vindos de experiências no interior
do desenvolvimentismo, viriam a dar conta teoricamente desse
processo de mudança na economia e na sociedade. O suposto
atraso seria estruturalmente indissociável do progresso, o arcaico
inseparável do moderno, o desenvolvimento conviveria com o
subdesenvolvimento.
O retorno
A ditadura militar
e civil levou adiante um modelo autoritário de modernização que
promoveu um desenvolvimento concentrador de riquezas, com arrocho
salarial e restrições às liberdades civis. Era um tempo em que
prevaleceu o mote “segurança e desenvolvimento”. Especialmente no
governo Geisel houve planejamento e intervenção estatal que faziam
lembrar aspectos do desenvolvimentismo das décadas anteriores. O
tema do desenvolvimento ganhava assim um contorno de direita que –
somado às (auto)críticas ao desenvolvimentismo da esquerda
nacionalista e comunista – deixava o desenvolvimento em segundo
plano no pensamento de esquerda, às voltas sobretudo com dois temas:
(re)democratização da sociedade e afirmação da classe trabalhadora.
Grosso modo,
pode-se dizer que alguns setores da esquerda – em geral congregados
na legenda do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB)
após 1980 – privilegiavam o retorno à normalidade democrática
institucional, enquanto outros uniam-se para formar um partido novo,
cuja missão principal seria organizar a classe trabalhadora,
constituindo o PT, com base no tripé entre o novo sindicalismo, as
comunidades eclesiais de base da igreja católica e remanescentes de
partidos e movimentos de esquerda, todos ligados aos movimentos
sociais insurgentes, especialmente nos bairros pobres das grandes
cidades.
Alguns dos
célebres economistas e cientistas sociais que elaboraram a crítica
de esquerda ao desenvolvimentismo ajudaram a construir o PT – como
foi o caso de Weffort, Oliveira, Singer e outros. Por sua vez,
alguns dos críticos do desenvolvimentismo ficaram no PMDB, depois
abandonado para se fundar o PSDB, caso de Fernando Henrique, Serra,
Bresser Pereira e outros mais.
Se, no decorrer da
trajetória do PT, na medida em que o partido se institucionalizava,
a ideologia da organização da classe operária cedia lugar para a
retomada das idéias de povo e nação, por sua vez os antigos críticos
de esquerda do desenvolvimentismo agrupados no PSDB
sensibilizavam-se com os novos ventos da economia internacional, em
que prevalecia o pensamento antípoda do desenvolvimentismo, que
privilegia os mecanismos de mercado para regular a economia. Assim,
os dois governos de FHC (1995-1998 e 1999-2002), decididos a
encerrar a chamada “era Vargas”, promoveram uma expressiva
privatização econômica.
Não obstante, o
esgarçamento do neoliberalismo já era perceptível ao menos desde o
final dos anos 1990 em escala internacional, o que daria espaço para
novas elaborações da presença do Estado no planejamento da economia
capitalista.
O principal
aspecto da crítica de esquerda ao desenvolvimentismo foi o de que
ele encobria as contradições de classe, impedindo assim que se
constituísse uma classe trabalhadora autônoma e consciente de seus
interesses, que acabavam diluídos na proposta de desenvolvimento
nacional. Ora, o fim do chamado socialismo real no leste europeu, a
reestruturação produtiva, a mudança na organização do trabalho, os
altos níveis de desemprego, certa reconstituição e reinvenção das
formas de submissão do trabalho ao capital, que alguns chamariam de
crise da sociedade do trabalho, acompanhada da consolidação
institucional da democracia e da crescente dificuldade de
organização das classes trabalhadoras, tudo isso tende a deixar em
segundo plano a questão da emancipação do proletariado e da
possibilidade de socialismo, pelo menos de imediato. Assim, em
sintonia também com os impasses em que o neoliberalismo colocou a
economia mundial, é compreensível que o pensamento e a ação política
de esquerda retomem o tema do desenvolvimento, fortemente vinculado
ao planejamento e à iniciativa econômica estatal.
Então, uma primeira resposta à
pergunta formulada no princípio da exposição (como ressurgiu a
corrente de pensamento desenvolvimentista, que se julgava parte da
história passada?) passa por esses dois pontos: a crise do
neoliberalismo e a crise das esquerdas. As dificuldades do mercado
de um lado, e de outro os impasses na viabilização de uma
alternativa socialista, com as dificuldades de organização dos
despossuídos,
trazem de novo propostas (diferenciadas) na atuação do Estado para a
retomada do desenvolvimento nos marcos do capitalismo.
São várias as
possibilidades econômicas e políticas para um desenvolvimentismo
remodelado. Não vou avançar mais e dizer quais são os caminhos que
me parecem mais adequados, pois não seria o caso de forçar demais o
limite acadêmico do debate, fazendo propostas de ação política. As
possibilidades desenvolvimentistas podem ser bem diversas, tanto que
são levantadas por diferentes partidos e forças sociais. Contudo,
sejam quais forem essas propostas, parece que não seria sábio
retomar o desenvolvimentismo nas bases em que se formulou nos anos
1950 e 1960. Sejam quais forem as retomadas desse pensamento,
indissociável da ação, é preciso não esquecer as críticas clássicas
a ele e indagar-se: a quem serve o desenvolvimento? A que grupos e
classes sociais? Qual seu custo em termos ambientais? O risco de
ignorar questões como essas seria repetir os erros do velho
desenvolvimentismo, sem necessariamente reviver seus acertos.
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