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HENRIQUE RATTNER
Professor na Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa
LEAD Brasil e da
ABDL - Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

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Guerra sem fim –
o atoleiro no Afeganistão
Henrique
Rattner
FEA/USP
O
recrudescimento do conflito no Afeganistão, com violentos ataques do
Taleban causando vítimas entre as tropas da OTAN – Organização do
Tratado do Atlântico Norte – e, sobretudo, entre a população civil,
coloca uma dúvida crucial sobre a eficácia das operações militares,
decorridas sete anos após a invasão do país em 2001. Apesar da
presença de 35.000 soldados, em sua maioria norte-americanos, mas
também, ingleses, holandeses, canadenses e poloneses, as chances de
uma solução do conflito parecem cada vez mais remotas. Enquanto o
comando norte-americano exige reforços de seus parceiros da OTAN,
apostando também na retirada e transferência de tropas do Iraque,
vários países aliados têm transmitido sinais inconfundíveis de sua
próxima retirada do país, economicamente destruído, socialmente
desarticulado, politicamente instável e, portanto, militarmente
inseguro.
O Taleban,
derrotado pela invasão norte-americana, encontrara refúgio nas
terras montanhosas e inóspitas do Paquistão, onde recebeu recursos
financeiros e humanos do Irã e da Arábia Saudita que lhe permitiram
reorganizar se, treinar melhor suas milícias e voltar a ameaçar as
rotas de transporte e até cidades desprovidas da proteção por parte
do governo central e das tropas de ocupação. Tornando-se mais forte,
ameaça várias áreas, antes consideradas mais seguras, inclusive os
arredores da capital, Kabul.
Após sete
anos de conflito, com inúmeras vítimas e refugiados entre a
população civil, o país parece estar novamente numa situação de
caos, tão recorrente em sua atribulada história do último século.
Situado no
sudoeste da Ásia, com um território de 711.000 quilômetros quadrados
e 25 milhões de habitantes, o país é atravessado pela cordilheira
Hindu Kush, com o famoso Kyber Pass, que servia como caminho da Rota
da Seda, entre o Oriente Médio e a China e por onde seguiram os
guerreiros mongóis que vinham do leste. O Afeganistão tem fronteira
com o Irã a oeste, com o Paquistão a leste e com as repúblicas
surgidas após o desmoronamento da União Soviética, o Turkmenistão,
Quirguizistão e Tadjikistão, ao norte.
Conquistado
por Alexandre Magno por volta de 330 anos antes da era cristã, o
país sofreu inúmeras invasões e foi palco da dominação estrangeira
até a conquista pelos árabes no século VII da era cristã, que
converteram a população tribal e nômade ao Islamismo. No início do
século treze, o país foi invadido e devastado pelos mongóis, até que
em 1747, surgiu um chefe afegão – Ahmed Shah, da dinastia Durrani –
que conseguiu unificar o país, estabelecendo a capital em Kandahar.
A Grã Bretanha tentou conquistar o país no fim do século 19, ficando
com o controle da política exterior até o fim da primeira guerra
mundial. Os anos entre as duas guerras foram caracterizados por uma
relativa estabilidade, sob o reino do monarca Zahir Shah.
Em 1953, o
general Daoud, primo do rei, tomou o poder como primeiro-ministro e
conseguiu a ajuda econômica e militar da União Soviética, cuja
política em relação ao Afeganistão mantinha as linhas e interesses
do regime imperial czarista. Em 1973, Daoud depôs Zahir Shah,
tomando o poder por meio de um golpe militar. Daoud foi assassinado
em 1978, quando foi proclamada a República Democrática, governada
por um conselho revolucionário presidido por Nur Mohammad al Tariki.
Tariki acabou fuzilado em 1979 por uma facção pró norte americana, o
que levou à invasão do país pelas tropas soviéticas. Durante os dez
anos de ocupação pelas tropas da ex-União Soviética, os Estados
Unidos armaram os guerrilheiros Mujahedin que travaram uma "guerra
santa" (jihad) contra as forças governamentais e os soviéticos. Em
conseqüência desse conflito interminável, cinco milhões de pessoas
fugiram para o Paquistão e o Irã, até a retirada das tropas
soviéticas em 1989, que sofrerem pesadas perdas em homens e
equipamentos, deixando o país dividido e convulsionado por conflitos
sangrentos entre facções rivais das diferentes tribos.
Os combates
se agravaram com a emergência do Taleban, um grupo islâmico
extremista que conseguiu conquistar o poder e impor um regime de
terror, aplicando rigorosamente os preceitos da Sharia – a lei do
Alcorão, com restrições severas às mulheres, obrigadas a vestir a "burkha"
e vedando-lhes o acesso às escolas e ao trabalho profissional.
Transgressores das leis foram sumariamente castigados com extrema
crueldade, cortando os braços de ladrões, apedrejando até a morte
mulheres adulteras e executando em praça pública os inimigos do
regime.
O Taleban –
movimento de estudantes islâmicos sunitas fundamentalistas – tomou o
poder após a guerra civil que seguiu à retirada das tropas
soviéticas. Mesmo depois de derrubado pelas tropas norte-americanas,
conseguiram reagrupar-se e continuar a combater os invasores, a
partir de refúgios nas regiões montanhosas da fronteira com o
Paquistão. Entre os militantes "jihadistas" formou-se em 1998 o
grupo radical Al Qaeda, que planejou e executou o ataque às torres
do World Trade Center, em Nova York.
Em abril de
2008, por ocasião de uma parada militar assistida pelo presidente
Hamid Karzai, este escapou por pouco de um atentado cometido pelos
insurgentes. Desde 2006, as tropas da OTAN enfrentam uma insurreição
do Taleban que causou milhares de mortos entre a população civil e,
também, perdas pesadas às tropas da OTAN. Apesar do poder de fogo
muito superior que lhes permite ganhar batalhas, o sentimento entre
as tropas e mesmo entre o comando da OTAN é que estão perdendo a
guerra. Os analistas e observadores do conflito consideram que as
forças estrangeiras são mais parte do problema do que de sua
solução. Por outro lado, o Taleban exige a retirada das tropas
estrangeiras para iniciar negociações de paz. Propõe-se uma solução
política semelhante à tentada no Iraque, comprando-se, literalmente,
o apoio dos chefes tribais. Mas, no Afeganistão, tal estratégia não
surtirá efeito por falta de autoridade do governo central, pela
lentidão da reconstrução do país e pela ineficiência das forças
armadas afegãs, com armamentos que lhes permitiriam enfrentar e,
eventualmente, vencer os guerrilheiros do Taleban.
Enquanto
milhares de civis são mortos nos combates, os membros das
organizações internacionais de assistência às vítimas e das ONGs –
organizações não governamentais de ajuda – não se arriscam a sair de
suas bases e, entre os diplomatas estrangeiros em Kabul, o
sentimento de uma derrota militar iminente está presente em todas
conversações. Não há sinais de que o Taleban esteja disposto a
negociar, apesar de tentativas de contato do presidente Hamid
Karzai, procurando isolar os elementos mais radicais e extremistas
para entrar em negociações com os mais moderados.
A
negociação pressupõe um mínimo de segurança proporcionada pelo
governo e o restabelecimento de sua credibilidade para conseguir o
apoio da maioria da população. Conter a ofensiva do Taleban e
reverter essa situação exigiria o fortalecimento das forças armadas
afegãs para que assumam progressivamente a luta contra os
insurgentes extremistas. Mas o regime de Karzai, apoiado por George
W. Bush, tem sofrido de corrupção e de falta de eficácia no combate
à corrupção, mesmo quando recursos financeiros foram colocados à sua
disposição. Qual será a atitude do novo presidente a ser eleito em 4
de novembro próximo? Os americanos não parecem inclinados a
abandonar a luta e os dois candidatos à presidência têm prometido
reforços para as tropas que lutam no Afeganistão. Mas suas
preocupações não se referem apenas ao Taleban: os parceiros
britânicos parecem cansados da luta. Altos oficiais têm manifestado
seu pessimismo quanto à solução do conflito por meio da força
militar e apontam para a necessidade de uma solução política,
dividindo o poder com o Taleban. As áreas ocupadas pelo Taleban são
mais bem administradas e são mais seguras devido ao seu regime
brutal e autoritário, enquanto nas outras regiões prevalece a
violência, os atentados de homens bomba e, mesmo derrotando grupos
de insurgentes, os ocidentais se deparam com inúmeras lutas tribais,
antes reprimidas pelo Taleban.
Seria
necessário um profundo estudo antropológico para compreender a
complexa estrutura e dinâmica social da sociedade tribal no
Afeganistão. Cerca de 40% da população pertencem à etnia dos
Pashtuns, 30% são Tadjiks e uma minoria é constituída pelos Hazara,
considerados de inferiores pelos outros. Mas os Pashtuns se dividem
em 60 tribos e 400 clãs que estão em conflito permanente entre si. O
Taleban procurou manter-se acima das lutas tribais que considera um
desvio dos preceitos da Sharia e tenta ganhar o apoio da população,
embora seja mais autoritário. Relaxou as proibições de assistir à
televisão, ouvir música, permitiu o lançamento de pipas e, enquanto
compra armas e munições de policiais e soldados, mantém a lei e a
ordem nos territórios por ele controlados, em oposição às
rivalidades e conflitos das facções tribais.
Estima-se
que 20% a 30% da população apóiam o Taleban cujas forças são
estimadas entre 10.000 a 20.000 homens espalhados pelas diferentes
províncias, tornando a tarefa de controle do país pelas forças da
OTAN quase impossível. Milhares de novos recrutas são treinados nas
"madrassas", escolas mantidas com recursos provindos do exterior e
do comércio com ópio, que asseguram vantagens na luta contra os
estrangeiros, sobretudo nas regiões montanhosas, onde os modernos
armamentos militares da OTAN são de pouca eficácia.
O plantio e
comércio de ópio representam um terço do PIB e seu refino e tráfico
alimentam a corrupção e o crime contra os quais o governo de Hamid
Karzai parece incapaz de agir de forma eficaz. Acusado de
incompetência e corrupção, o governo de Karzai procura desviar o
descontentamento da população com a alta dos preços de alimentos, a
distribuição desigual da ajuda externa e a corrupção da
administração, ameaçando invadir o Paquistão, para caçar os rebeldes
do Taleban que cruzam com facilidade a fronteira oriental, onde têm
seus esconderijos.
Apesar dos
20.000 soldados afegãos e da OTAN que defendem Kabul, os diplomatas
estrangeiros e o comando militar estabelecidos em hotéis de cinco
estrelas transformados em fortalezas não estão seguros, como
comprovou um atentado suicida de quatro homens-bomba do Taleban que
invadiram a entrada e a piscina do hotel, antes de se explodirem,
matando oito funcionários e hóspedes, no início deste ano.
Com esse
quadro, uma retirada das tropas da OTAN agora não seria apenas um
sinal inequívoco da perda do poderio e prestígio dos americanos, mas
também um golpe fatal para a população do Afeganistão, recentemente
libertado do regime de crueldade medieval do Taleban.
Haveria um fim à vista? |
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