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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil


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Previsões imprevisíveis em tempos
de crise global:
minha astrologia econômica para
2009 (e mais além)
Paulo Roberto de
Almeida
Salvo algum evento
imprevisível, toda passagem de ano eu me dedico a abusar da
paciência dos leitores – e da minha própria incompetência em
prospectar o futuro imediato de maneira irônica – ao formular
previsões impossíveis de se realizarem no ano que começa. Esta é,
aliás, a única particularidade de meu exercício, que apenas se
distingue dos esforços dos astrólogos profissionais pelo fato de
estarem as minhas previsões orientadas para o que NÃO vai acontecer
(ou, pelo menos, para o que não deveria ocorrer). No
mais, meus “chutes” têm tanta chance de serem concretizados quanto
os “chutes remunerados” dos cartomantes de jornais e revistas – com
a grande vantagem de que os meus não pretendem alimentar ilusões em
meus poucos leitores.
Alguns exemplos
antecedentes de minha astrologia amadora podem ser conferidos nos
textos seguintes:
“Sete previsões imprevidentes: minha ‘caixa de surpresas’ para o
novo ano”, Espaço Acadêmico (n. 44, janeiro de 2005);
“Resoluções de Ano Novo: uma nova ‘caixa de surpresas’ para o ano
que se inicia”, Espaço Acadêmico (n. 56, janeiro de
2006);
“Previsões para o ano da graça de 2007: sempre otimista quanto à sua
impossibilidade”, Espaço Acadêmico (n. 68, janeiro de
2007) e
“Minhas previsões imprevidentes para 2008”, Espaço Acadêmico
(n. 81, fevereiro de 2008). O mínimo que se pode dizer é que eu
sou um embromador reincidente (mas não um ilusionista “barato”).
Neste ano, contudo,
como corresponde a uma conjuntura de crise global, pretendo abordar
nosso incerto futuro econômico, certo de que assim contribuirei para
afastar os presságios e vaticínios pessimistas, os profetas do
apocalipse e as aves de mau agouro. Uma importante autoridade chegou
mesmo a dizer que tinha gente que estava torcendo para tudo dar
errado só por motivos eleitorais, apostando então na recessão e no
desemprego, desejando que a marolinha virasse um tsunami financeiro
a ponto de provocar o retrocesso econômico e social do Brasil. Não
sou um desses.
Longe de mim apostar
na desgraça do país e no infortúnio econômico de nossa gente. Mas
quero fazer minhas previsões imprevisíveis para 2009, levando em
conta, como não poderia deixar de ser, a imprevisibilidade da atual
crise econômica e a minha proverbial tendência a ironizar sobre as
desgraças da vida e a especular sobre os imponderáveis da sorte,
essa feiticeira volúvel, sempre bem-vinda numa loteria de futebol e
amaldiçoada em matéria de temporais e trovoadas. Então, é com esse
espírito que formulo estas previsões para os próximos meses:
1) A grande
depressão de 2009 vai ser ótima..., pelo menos para os marxistas e
os historiadores econômicos.
Nem todo mundo vai
sofrer com a crise global, já comparada por muitos à sua distinta
antecessora dos anos 1930, da qual se pretende que esta não seja
pior em seus efeitos, nem mais delongada em sua duração. Aquela, sem
dúvida, deixou saudades, se ouso dizer, pois todos falam dela com
alguma reverência respeitosa, quando não com alguma pontinha de
inveja: se os nossos avôs tiveram a grande chance, se não a duvidosa
“felicidade”, de viver uma crise full scope, de dimensões
hollywoodianas, por que nós seríamos privados de ter a nossa
própria, tão destruidora de empregos e tão nefasta para os negócios
quanto aquela, grandiosa, paradigmática, exemplar, quase em
technicollor?
Pois bem, já temos a
nossa, e espero que não nos arrependamos deste nosso desejo secreto
de reproduzir, pelo menos uma vez na vida, um evento de proporções
bíblicas, tão devastador quanto um tsunami e de conseqüências tão
vastas quanto as sete pragas do Egito antigo. Não tenho certeza de
que estejamos, ainda, na primeira delas; mas valeria, em todo caso,
fazer um seguro preventivo para as outras seis.
Mas eu dizia que nem
todo mundo vai sofrer, e acho que já vislumbro uma tribo de
irrecuperáveis difamadores do capitalismo, na qual alguns abrem um
grande sorriso de satisfação, esfregam as mãos de contentamento
marxo-leninista e, piscando um olho malicioso, cutucam o colega
acadêmico: “Eu não disse? Eu não tinha dito a vocês que o
capitalismo carrega as sementes de sua própria destruição, que as
suas contradições inconciliáveis vão precipitar a derrocada de todo
o sistema e precipitá-lo no segundo círculo do inferno?”
É isso mesmo:
marxistas ingênuos e historiadores espertos estão tirando proveito
(mas às nossas custas?) desta crise, vendendo profecias há muito
esperadas e proferindo vaticínios que soam como demonstrações de
inevitabilidade histórica. Todos eles vão ser muito requisitados
pelos jornais, rádios e TVs, explicando aos desempregados incrédulos
que tudo aquilo estava, de certa forma, determinado pelo próprio DNA
do capitalismo e que essas crises são tão certas quanto 2 e 2 são 3
(ops).
Bem, ao menos para
alguma coisa servem esses detratores do sistema, esses contadores de
eventos do passado, ainda que seja para deformar o sentido da
história e “explicar” coisas que nunca ocorreram, como por exemplo:
a de que Keynes e o New Deal de Roosevelt “salvaram” o capitalismo;
a de que, se não fosse a ajuda estatal, todo o sistema teria
desmoronado como um castelo de cartas e que os mercados são
incapazes de se corrigirem a si mesmos (mesmo que eles estejam o
tempo todo fazendo exatamente isso, só sendo impedidos de fazê-lo
pela ação interventora e intempestiva dos Estados, que prolongam a
agonia da recuperação, ao iniciarem um errático e confuso processo
de ajuda indecisa às vítimas do sistema, distribuindo benesses a
ricos banqueiros e algumas migalhas aos pobres, o que retarda a
auto-correção pelos mercados).
Mas deixemos os
professores de história e os marxistas desempregados conquistar os
seus 15 minutos de fama e de glória, e vamos torcer para que eles
tenham uma nova oportunidade de assistir a mais uma crise ainda
nesta vida. Nós, pelo menos – que corríamos o risco de ter de
escrever nossas memórias sem ter o prazer de assistir a uma boa
crise devastadora –, já podemos ficar tranqüilos e nos deleitarmos
com as belas histórias e os terríveis vaticínios de uns e outros.
Que venha a próxima!
2) Ainda vamos
ter saudades de 2008-2009, pela tranqüilidade fiscal e pela inflação
baixa.
O brasileiro estava
quase se acostumando (mal) a não ter de conviver com a inflação de
novo e de não mais assistir àquele espetáculo grandioso de governos
quebrando, pronunciamentos graves na TV anunciando um iminente
pacote de estabilização, fazendo recomendações sensatas para apertar
os cintos e para vigiarmos novamente listas de preços e orçamentos
domésticos. Pois aqui vamos nós outra vez, graças à
irresponsabilidade fiscal do governo, a seu ímpeto gastador, sua
generosidade com os vizinhos e funcionários públicos (às custas de
nossos impostos), vamos ter de novamente conviver com fantasmas do
passado (que podem ser do futuro, também).
Para não desmentir
nossa extraordinária capacidade em voltar para trás, pelo menos uma
vez a cada geração, teremos um “repeteco” de filmes em preto e
branco, som quase inaudível, de péssima qualidade técnica e com
atores deploráveis: é a boa e velha crise de volta, com
desvalorização, desemprego, depressão e desencanto; enfim, o
espetáculo dos fatídicos “ddds”, que tanto fizeram a glória, em
outros tempos, de economistas financeiros e de funcionários de
terceiro escalão do FMI. Vemo-nos em face do velho espetáculo de
volta: nada como um bom pacote de ajuda externa e um outro pacote de
aumento de impostos.
Também, quem dera?
Por que o governo não fez economias na época de vacas gordas e
escolheu, ao contrário, gastar tudo o que arrecadava e até um pouco
mais? Quem mandou pensar que o ciclo ascendente e as gordas taxas de
crescimento (nem tão gordas assim, para nós) eram eternas? Quem
disse que era para apostar na bonança interminável? Como fomos
acreditar no moto perpétuo econômico e na cornucópia inesgotável? Os
pessimistas de sempre podem ao menos dizer, na companhia de
marxistas e historiadores: “Eu não disse?”
Algo de bom têm
essas crises: elas nos lembram a fragilidade inerente aos ciclos
econômicos e o eterno retorno da velha série de equívocos de nossa
cultura econômica e de nossa gestão apenas humana dos assuntos
públicos: sim, somos capazes de repetir bobagens já cometidas no
passado, algumas delas mais de uma vez (e os argentinos, repetem os
mesmos e repetidos equívocos várias vezes seguidas...).
3) Uma virtual
paralisação das corporações sindicais e dos movimentos sociais.
Tudo tem o seu lado
bom, é preciso novamente lembrar: pelo menos os bancários e os
motoristas de ônibus vão parar de infernizar nossas vidas com suas
greves anuais, e os pedintes habituais do dinheiro público vão (pelo
menos se espera) tomar um “chá de si-mancol” e refrear seus impulsos
esmoleiros com base em nosso dinheiro. Claro, teremos o velho
inferno das greves no setor público, as universidades federais vão
continuar paralisadas e ineficientes na indiferença geral, as filas
do INSS e dos caminhões nos portos vão continuar longas e lentas.
Mas, pelo menos no setor privado, vamos ser privados (se me permitem
a redundância) de novas perturbações.
De fato, essas
crises pelo menos refreiam o ânimo grevista de muitas categorias de
trabalhadores, diminuem a belicosidade dos líderes sindicais e
acalmam o espírito reivindicatório de muitos movimentos sociais (os
sem-isso e sem-aquilo), que em tempos “normais” costumam mamar nas
tetas generosas do Estado (pelo menos neste governo). Claro: o MST
vai continuar invadindo fazendas produtivas e prédios públicos,
talvez até com renovado entusiasmo depredatório, já que isto faz
parte do seu DNA neobolchevique. Mas isso também é esperado: para
que serve uma boa crise se ela não vem com o seu cortejo de
manifestações embandeiradas, gritos retumbantes, palavras de ordem
aguerridas, toda uma mise-en-scène guevarista que encanta
universitários primeiro-anistas, que dão trabalho a fotógrafos e
redatores de jornais? Estaremos bem servidos, tenham certeza
disso...
4) Alguma
hesitação antes da volta, em grande estilo, do capitalismo de
Estado.
Como convém a tempos
bicudos, os keynesianos improvisados já têm o seu receituário pronto
para sair da crise: um pouco de ajuda pública aqui, um socorro
financeiro acolá, um programa de nacionalizações apressadamente
costurado, enfim, o velho menu de medidas anticíclicas que se
acreditava já gastas por uso e abuso e por pouca eficácia relativa.
Não importa se elas produzem poucos efeitos práticos e se, na maior
parte dos casos, acabam provocando, justamente, efeitos contrários
aos pretendidos, segundo a velha lei das conseqüências
involuntárias. O importante não é resolver o problema, e sim dar a
impressão de que se está fazendo alguma coisa, qualquer coisa. A
palavra de ordem é essa mesma: manter o movimento, ainda que se
permaneça no mesmo lugar, justo para transmitir a imagem de um
governo ativo, preocupado com a sorte das pessoas e com o futuro das
velhinhas desamparadas.
Não, nem vou repetir
as receitas-milagre dos keynesianos imaginários, pois seria
enfadonho retomar as mesmas bobagens que vemos praticadas a décadas,
quase que num continuum de ativismo governamental que
assistiu, em todas as partes do mundo, à elevação regular e
constante da carga fiscal, de menos 10% do PIB em tempos
verdadeiramente keynesianos, para praticamente a metade do PIB nos
dias que correm. E alguns ainda dizem que tem Estado de menos e que
é preciso operar algumas “correções macroeconômicas” para ajustar o
novo patamar de receitas públicas às responsabilidades acrescidas do
Estado de bem-estar social, com a preservação do “equilíbrio geral
da economia”, na linguagem pretensiosa dos novos keynesianos.
O mais provável,
portanto, é que tenhamos a volta gloriosa do capitalismo de Estado,
saudado como salvador do sistema e redentor do próprio capitalismo.
Não soa irônico que o capitalismo tenha de ser salvo de seus
próprios instintos suicidários? Na verdade, eu nunca vi um modo de
produção praticar eutanásia, mas tem gente que acredita nisso, desde
o velho Marx até seus mais recentes discípulos. Lênin disse uma vez
– mas ele é certamente suspeito – que os capitalistas venderiam a
própria corda que iria enforcá-los, o que, como estratégia de
negócios, combina com os instintos mercantilistas do sistema, mas
talvez não faça parte das estratégias individuais de cada
capitalista em particular. O mais irônico é que, no caminho dessa
salvação, o capitalismo acaba pagando uma taxa de serviço – depois
incorporada nas receitas gerais do Estado – para que este o salve de
si mesmo. Surrealista, não é mesmo?
Qual o prognóstico
disso tudo? Nenhuma novidade, para ser mais exato, apenas more of
the same: a crise vai refluir, mais cedo ou mais tarde, mas o
Estado terá abocanhado mais uma porção da riqueza social, da qual
ele não mais pretende se desfazer em tempos normais. Querem apostar
comigo que será assim?
5) Um último
alívio orçamentário, antes do estrangulamento do investimento
público, dada a voracidade do funcionalismo, em todos os níveis.
Como para provar que
alguns sempre se saem bem, mesmo na desgraça da maioria, não deve
haver nenhuma dúvida de que uma categoria especial de cidadãos
abnegados estará melhor depois do que antes da crise: a valorosa
classe dos funcionários públicos, aqueles cuja produtividade
exemplar mais do que duplica os salários, em total descompasso com o
que se passa no setor privado, e que, ainda por cima, gozam (o verbo
é mais do que apropriado) de plena estabilidade em toda e qualquer
circunstância.
De fato, o primeiro
sinal de uma crise, depois da quebra nos mercados e da falência de
uma ou outra instituição financeira, é o desemprego setorial, que
pode virar desemprego maciço se a crise se prolonga e adquire um
caráter sistêmico. Servidores públicos estão, para todos os efeitos
práticos, isentos desse temor, o que lhes confere uma grande
vantagem no mercado de trabalho. Além disso, eles desfrutam, como é
sabido, de salários que se situam, em média, num patamar que
representa o dobro daquele ocupado pela mesma categoria de
trabalhadores do setor privado. Salários do funcionalismo, ao lado
de outros gastos correntes dos três poderes nos três níveis da
federação, constituem hoje o essencial das despesas públicas,
deixando pouco espaço para os investimentos, que constituem uma
parte ridiculamente pequena do PIB.
Não é estranho,
nessas condições, que a taxa de crescimento do país seja uma das
menores dos países emergentes. Possivelmente – e esta é uma previsão
previsível – essa taxa vai continuar reduzida, enquanto os gastos
públicos continuarem anormalmente concentrados nos gastos correntes,
numa proporção sempre crescente do orçamento anual. Das duas outras
componentes do orçamento público, despesas previdenciárias e serviço
da dívida pública, esta última parece ser a única que pode de fato
ser diminuída, caso haja uma decisão política de fazê-lo. Bastaria o
governo ajustar suas despesas ao nível real das receitas, parar com
a ficção do superávit primário e empreender uma reforma séria da
previdência.
A rigor, esse
“bastaria” é praticamente impossível – e esta á uma previsão
previsível, também – o que nos leva a concluir que o futuro do
crescimento brasileiro não tem futuro, apenas passado. A carga
fiscal no país, tendo em vista as despesas já encomendadas,
crescentes e válidas pelas próximas décadas, tende a ultrapassar a
barreira dos 40% do PIB em poucos anos, mantendo-se num patamar
elevado pelo futuro previsível. A previsão imprevisível, portanto, é
a do crescimento econômico e a do aumento da renda disponível e dos
níveis de bem-estar para a população brasileira.
6) Um bêbado
equilibrista, antes da degringolada previdenciária.
Justamente, se há
alguma certeza nas contas públicas brasileiras é a de que os gastos
previdenciários vão aumentar continuamente pelos anos e décadas à
frente, por uma simples razão populacional, ao alcance do
entendimento de qualquer pessoa medianamente educada em tendências
demográficas e em problemas fiscais. Para evitar o colapso do
sistema, algumas decisões duras teriam de ser tomadas, como a
extensão dos prazos de contribuições, a redução dos regimes
especiais ainda em vigor – como o tratamento mais favorável ao
público feminino – e a imposição de limites tanto em termos de idade
para aposentadoria (elevando-a na razão da esperança de vida) quanto
para os tetos dos pagamentos efetuados (sendo que algumas categorias
dispõem de rendas anormalmente elevadas, talvez amoralmente
inaceitáveis para a renda geral da população não protegida nessa
forma).
A deterioração tem
sido constante e regular desde muitos anos, a despeito de qualquer
maquiagem contábil que se possa fazer quanto ao que seja,
efetivamente, a parte das retribuições previdenciárias e a parte das
alocações sociais, consideradas aceitáveis no plano moral,
independentemente da inexistência de contribuição prévia. Quaisquer
que sejam as justificativas de políticos e sindicalistas para a
manutenção do sistema atual, uma coisa precisa ficar clara desde já:
ele não é apenas financeiramente insustentável, qualquer que seja a
forma de apresentação dessa contabilidade; mas ele é, também,
moralmente indefensável, tendo em vista as distorções
previdenciárias já acumuladas e em processo de aprofundamento.
O Brasil, aliás, já
exibe os mesmos gastos previdenciários, em proporção do PIB, do que
um país demograficamente envelhecido, como a Alemanha. Pode-se
imaginar que, se isto está ocorrendo agora, o que acontecerá com as
contas públicas dentro de 15 ou 20 anos, quando a população de
aposentados deverá praticamente dobrar? Pretende-se colocar os
idosos para trabalhar novamente? A continuar essa trajetória de
bêbado equilibrista, o caminho só pode conduzir ao colapso total do
sistema num futuro previsível. A próxima geração – se já não for a
nossa, mesmo – já sentirá os efeitos da derrocada do equilíbrio
instável no qual vivemos hoje.
7) Saudades do
Mercosul e de uma América do Sul unida.
Houve uma fase da
integração regional, agora perdida nas brumas do tempo, em que os
discursos integracionistas dos líderes dos países engajados nesses
processos queriam efetivamente representar o que eles estavam
afirmando. Embora se deva descontar algum excesso de retórica, não é
difícil encontrar os registros de discursos que estavam
razoavelmente conciliados com a prática dos países: a força motora
dos processos se apoiava no desgravamento tarifário, no
desmantelamento de barreiras aduaneiras e na abertura geral e
recíproca das economias aos fluxos de bens, serviços e outros
fatores de produção, senão a mão-de-obra, pelo menos os capitais
(sob a forma de investimentos diretos, em grande parte).
Atualmente, quando
se observa o panorama regional com binóculos ou lentes de aumento, a
constatação parece ser a mesma: não existem mais discursos
unificados em favor da integração, não, em todo caso, os que sejam
seguidos de medidas práticas que representem, efetivamente, aquele
conjunto de iniciativas que redundavam no aumento do comércio e na
intensificação dos laços econômicos. Existem, certamente,
iniciativas tomadas para a integração; mas elas se situam, em sua
maior parte, no terreno político, social, cultural, educacional ou
em vários outros terrenos, menos no que deveria efetivamente contar
para dar a sustentação material a todos esses passos pretensamente
integracionistas.
O que se observa, ao
contrário, são renacionalizações, adoção de barreiras tarifárias e
para-tarifárias ao ingresso dos produtos dos vizinhos, um
nacionalismo exacerbado e fora de época, assim como uma forte
retórica anti-imperialista que se assemelha, muito de perto, ao
déjà vu dos anos 1960, ou seja, repetem chavões gastos pelo
tempo e absolutamente irrelevantes em face das novas realidades
econômicas do continente. Seria constrangedor, se não fosse
simplesmente patético, contemplar todos esses exercícios de
integração estatal e de comércio administrado entre uns poucos
países que pretendem, assim, restabelecer não se sabe bem quais
princípios dos grandes “próceres da independência” – Bolívia à
frente –, convertidos em pioneiros de um marxismo revolucionário e
de um anti-imperialismo precoce que só existe na cabeça de quem
formula essas hipóteses.
As iniciativas
tomadas por esses países – ao lado de outros mais sensatos ou
simplesmente mais realistas – são, objetivamente,
anti-integracionistas e a suposta coesão de ideais entre eles só
consegue se exprimir de um modo negativo, na rejeição agressiva de
uma suposta ameaça imperial e no controle cada vez mais estrito de
toda e qualquer atividade econômica pelo velho ogro estatal. O que
parece mais incrível – ao lado, obviamente, dessas invectivas contra
o neoliberalismo que são absolutamente vazias de conteúdo, quanto
desprovidas de qualquer sentido de realidade – é que a experiência
passada do continente já tinha testado e derrotado essas idéias
exóticas de administração econômica, baseadas num emissionismo
irresponsável, daí criando um inflacionismo renitente, seguido do
tabelamento generalizado de preços, que por sua vez provoca queda na
produção de todos os setores, refletida na escassez da oferta e em
novo aumento da inflação, fuga de capitais, desvalorização acelerada
das moedas, enfim, um filme a que já assistimos várias vezes no
passado e que nunca termina bem.
Ao observar,
simplesmente, o Mercosul e ao reler as promessas contidas no artigo
1o. do Tratado de Assunção, fica difícil recusar a
impressão de uma marcha para trás, de uma involução que tornou vazia
a idéia de livre comércio e totalmente sem sentido o conceito de
união aduaneira (para nada dizer do objetivo aparentemente
inatingível do mercado comum). A despeito da superação dos surtos de
hiperinflação dos anos 1980 e início dos 1990, podemos, talvez,
sentir saudades daqueles tempos nos quais as promessas dos líderes
eram seguidas de medidas concretas na direção da integração.
Estaríamos assistindo à desintegração do continente?
8) Esclerose
terminal na educação, graças ao sindicalismo docente.
Todas as pesquisas
de desempenho escolar, em diversos níveis, vêm exibindo um quadro
desolador: a cada ano, os resultados dos alunos do primário e do
médio – e talvez até mesmo do terceiro ciclo – costumam ser ainda
piores do que aqueles registrados no ano anterior. O mais incrível
não é exatamente o quadro de horrores no campo da qualidade do
ensino; é a complacência de todos os envolvidos nessa área.
Alguns meses atrás,
uma revista de grande circulação nacional – detestada pelos círculos
que se comprazem no “nunca antes”, nos “quinhentos anos de atraso” e
no “outro país possível” – trazia um estarrecedor consenso entre
pais, professores e alunos, como constatado em pesquisa nacional:
todos eles achavam que a escola que seus filhos freqüentavam e o
ensino que recebiam era de boa qualidade. O trágico está aí mesmo:
as pessoas sequer têm consciência de quão calamitosa é a qualidade
da educação recebida pelas crianças e jovens nas escolas públicas e
privadas do país, com poucas diferenças entre elas.
Esse quadro
desolador não se deve, paradoxalmente, à falta de dinheiro – embora
se possa dizer que, nessa área, nunca é demais abundância de meios –
para as instituições encarregadas do ensino, como tampouco aos
salários baixos dos mestres do sistema público (que, na média,
ganham mais do que os do setor privado). Ele se deve inteiramente –
e isso deve ser repetido com todas as letras – a que os professores
são simplesmente despreparados, quando não ignorantes. Aqueles que
se esforçam, no sentido de transmitir aos alunos algum conhecimento
real, se deparam com normas e diretrizes tão absurdas quanto
surrealistas. O ensino está lotado de coisas inúteis e carente das
“partículas elementares” de todo ensino de qualidade em qualquer
país: um bom conhecimento da língua pátria, matemáticas básicas e
ciências fundamentais. Em lugar de se concentrar naquilo que é
essencial, as pedagogas do MEC ficam inventando coisas inúteis,
combinadas a uma ideologia subdesenvolvida, quando não racistas ou
puramente compulsórias, em lugar de privilegiar a flexibilidade dos
currículos: estudos afro-brasileiros mesmo para os descendentes de
europeus, a obrigatoriedade de espanhol e de sociologia e filosofia
para crianças e jovens que mal dão conta de aprender o que é
verdadeiramente importante.
Um pouco como na
França, qualquer reforma do sistema educacional se revela
francamente impossível. Ao menor sinal de remuneração por mérito e
premiação por resultados, os sindicatos dos professores se levantam
gritando a isonomia. Não há nada que possa ser feito com ou contra
os professores: o sistema está simplesmente bloqueado. A não ser,
claro, para aumentos de salários e novas vantagens paralelas. A
previsão aqui é, também, totalmente previsível: vamos continuar
afundando na mediocridade educacional e na deterioração do
desempenho escolar. Não há segredo nesta previsão: ela se desenrola
sob nossos olhos todos os dias...
Bem, para não
agregar ao pessimismo desta minha astrologia amadora, deixo de lado
qualquer comentário sobre a conjuntura econômica e sobre os efeitos
de uma crise que ainda desenvolveu todas as suas potencialidades (se
ouso dizer). O cenário provavelmente vai piorar, antes de começar a
melhorar, como prevêem os realistas (que nisso não pecam por
modéstia nas previsões). A verdade é que ninguém sabe até onde vai o
desastre iniciado lá atrás, com a irresponsabilidade do Federal
Reserve dos EUA (e não com os especuladores do mercado, como muitos
pensam). Mas para não dizer que nunca faço alguma previsão
“previsível”, em lugar dessas “imprevisíveis”, vou formular aqui uma
expectativa que considero como certa no terreno econômico, e isto na
negação de recente análise feita pelo ex-ministro Pedro Malan a
propósito da melhor maneira de enfrentar a crise atual.
Em um dos textos que
constam do livro coordenado por Edmar Bacha e Ilan Goldfajn (editado
pelo think tank Casa das Garças), Como Reagir à Crise?:
Políticas Econômicas para o Brasil (Rio de Janeiro: IEPE-CDG,
2008), Malan afirma que a “questão central hoje”, para vencer a
crise, “é a contenção da expansão do gasto público corrente do
Governo e a redução da excessiva vinculação legal de receitas a
determinados tipos de gastos”. E ele acrescenta logo em seguida:
“Este é o único caminho, já que não é mais possível aumentar a carga
tributária, nem permitir a volta da inflação como mecanismo de
financiamento do Governo, nem aumentar muito a dívida pública, e nem
reduzir ainda mais o investimento público, hoje de menos de 2% do
PIB.” (Pedro
Malan, “Aonde queremos chegar”, in Bacha-Goldfajn, op. cit, p. 9)
Pois bem, sem querer
desmentir o ex-ministro quanto ao acertado de seus argumentos, vou
me permitir apostar em todas as hipóteses contrárias: é, sim,
possível aumentar a carga tributária, posto que o governo, with a
little help from his friends da sua base no Congresso, o faz
continuamente, tanto pela criação de novos subterfúgios impositivos,
quanto pela melhoria da fiscalização e conseqüente “extração”
tributária; sim, é possível criar inflação, pela expansão exagerada
do crédito, em ritmo superior ao do aumento da oferta, mas o
objetivo do governo pode ser, sim, pagar suas dívidas em moeda
desvalorizada; sim, é possível aumentar ainda mais a dívida pública,
pois o governo acha que ela ainda é baixa pelos critérios de
Maastricht (que a limitam a 60% do PIB, quando o Brasil tem, pelo
conceito líquido, uma dívida abaixo de 40%); finalmente, é, sim,
possível, reduzir ainda mais o investimento público e é exatamente o
que vai ocorrer, pois que os gastos já encomendados com salários do
funcionalismo, com criação de cargos públicos e a expansão
desmesurada da máquina pública se revelam incontornáveis (e
constitucionalmente irredutíveis para os funcionários).
Exercendo, portanto,
o meu direito a pelo menos um “chute” no terreno da “astrologia
econômica”, ouso afirmar, assim, que teremos, sim, uma combinação
dos quatro elementos acima indicados ao longo de 2009 e no decorrer
de 2010, quando as conveniências eleitorais passarão muito acima da
racionalidade econômica. Esta será, provavelmente, a “herança
maldita” que o governo Lula deixará ao seu sucessor, qualquer que
seja ele. A História julgará se estou errado e o julgará por essa
herança.
Enfim, não quero
estragar o começo de ano de ninguém e por isso deixo para uma
próxima oportunidade comentários em maior grau de detalhe sobre a
atualidade econômica. Nem por isso deixo agora de desejar um bom
2009 a todos os meus cinco leitores...
PS: Como sempre,
seria o caso de rever, no final do ano, as promessas aqui feitas,
para constatar, uma vez mais, quão inúteis elas são, ou foram, em
matéria de astrologia política. Nesse terreno, meu caro leitor,
recomendo a você ficar mesmo com aqueles horóscopos fajutos de
jornal: eles são infinitamente mais rápidos de ler do que estas
minhas “previsões” aborrecidamente pessimistas e, pelo menos, eles
sempre destilam um sentimento de otimismo que deixa cada um
contente, ao “verificar” que os seus desejos por amor, dinheiro e
prestígio serão, pelo menos em parte, satisfeitos, sem que se
precise fazer qualquer coisa de muito difícil…
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