NELSON PILETTI

Professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) e autor de

Dom Helder Câmara: o profeta da paz

(São Paulo: Contexto, 2008), em co-autoria com Walter Praxedes, e de Sônia: Sete Vidas (Florianópolis, 2005), entre outros.

 

 

 

 

Prefácio

 

“A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca...”.

(Eric Hobsbawm. Era dos extremos)

 

O que leva um indivíduo a migrar do interior do Rio Grande do Sul para Porto Alegre e, posteriormente, para a cidade de São Paulo? O que faz com que esse mesmo indivíduo vivencie um radical autodidatismo e chegue tardiamente, e por caminhos transversos, à universidade? O que o conduz a identificar-se com a causa operária e assumir a sua defesa, especialmente por meio da imprensa e de reuniões públicas? O que explica o seu engajamento no projeto político-pedagógico libertário? O que fundamenta seus escritos e sua prática educativa e seus respectivos vínculos com a pedagogia libertária e a pedagogia crítica? O que o motiva a enfrentar criticamente a questão judaica e outras questões cruciais do seu tempo?

Plano divino? Força do destino? Circunstâncias históricas? Determinismo econômico? Condicionantes sócio-culturais? Livre-arbítrio? Na verdade, não diria que há mais perguntas que respostas. Só existem perguntas; não há certezas, apenas suposições; nem confirmação de hipóteses, somente indícios; não se vislumbram caminhos determinados, nada além de pistas.

Pois bem, neste instigante trabalho o professor Antônio Ozaí da Silva dedica-se com notável competência a formular perguntas, construir suposições, descobrir indícios, abrir pistas.

Da trajetória de Maurício Tragtenberg destaca-se, sem sombra de dúvida, a sua luta sem tréguas contra o elitismo burocrático e patrimonialista constitutivo da história sócio-política brasileira, do qual a universidade constitui tanto a mais lídima expressão quanto um dos mais eficazes instrumentos. Elitismo elucidado com maestria por, dentre outros, Sérgio Buarque de Holanda, em seu paradigmático Raízes do Brasil, no qual afirma que “a democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios, os mesmos privilégios que tinham sido, no Velho Mundo, o alvo da luta da burguesia contra os aristocratas. E assim puderam incorporar à situação tradicional, ao menos como fachada ou decoração externa, alguns lemas que pareciam os mais acertados para a época e eram exaltados nos livros e discursos.” E também Raimundo Faoro, no clássico Os donos do poder: “A comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados seus, na origem, como negócios públicos depois, em linhas que se demarcam gradualmente. O súdito, a sociedade, se compreendem no âmbito de um aparelhamento a explorar, a tosquiar nos casos extremos. (...) A autocracia autoritária pode operar sem que o povo perceba seu caráter ditatorial, só emergente nos conflitos e tensões, quando os órgãos estatais e a carta constitucional cedem ao real, verdadeiro e atuante centro de poder político. Em última análise, a soberania popular não existe, senão como farsa, escamoteação ou engodo.”

Mas essa luta de Maurício Tragtenberg reveste-se de características inusitadamente peculiares, na medida em que sugere a aproximação entre a academia e os movimentos sociais populares como uma das suas principais vertentes. Ainda aqui, emerge o caráter especial que distingue a forma como Tragtenberg busca construir essa aproximação, talvez como desdobramento da sua própria experiência vital: mais do que estimular a academia a procurar os movimentos populares, são estes que são provocados a conquistar a universidade.

Talvez um dos fatores ao qual possamos creditar a fecundidade criativa deste trabalho seja a proximidade vital entre pesquisador e pesquisado. O professor Ozaí cursou o Mestrado sob a orientação do mestre Maurício, com ele nutriu uma relativa identidade ideológica e como ele chegou tardiamente e por caminhos transversos à universidade e militou em movimentos sociais, sobre os quais também elaborou vários estudos.

Tanto Maurício, com sua rica e multifacetada trajetória, quanto Ozaí, particularmente com este trabalho, ajudam-nos a estabelecer uma importante “relação orgânica com o passado público da época” em que vivemos e a reduzir aquela “maior parte da História” que, no dizer do cego personagem de Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, “se oculta na consciência dos homens” e que “por isso a maior parte da História nunca ninguém vai saber”.

Em sua opção metodológica, Ozaí parte da “constatação de que os homens fazem a história, mas a fazem sob determinadas circunstâncias; ou seja, os homens são, simultaneamente, produtos das circunstâncias e agentes históricos que agem sobre estas, produtos e produtores da história. (...) Ninguém nasce marxista, liberal ou anarquista. Além de determinado socialmente, a defesa de um pressuposto teórico-filosófico é também uma opção individual. Insistamos: os homens fazem sua história segundo condições históricas específicas. Mas eles não são meros reflexos dessas condições, não são autômatos que obedecem a ordens exteriores: eles têm a possibilidade de escolha, de optarem por um ou outro caminho”.

Fiel à sua “escolha”, Ozaí está longe de reduzir o seu trabalho ao exame, embora crítico, da produção intelectual de Tragtenberg como geralmente ocorre em teses acadêmicas. Nem mesmo parte de tal abordagem, escudando-se neste ponto no procedimento utilizado por Marx e Engels em A Ideologia Alemã, segundo o qual “não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam ou se representam, e também não dos homens narrados, pensados, imaginados, representados, para daí chegar aos homens de carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e, com base no seu processo real de vida representa-se também o desenvolvimento das reflexões e ecos ideológicos deste processo de vida”.

Assim é que, em seu primeiro capítulo, Ozaí, segundo suas próprias palavras, observa “os fatores constitutivos da personalidade de Tragtenberg na sua infância; a condição econômica precária (capital econômico); a maneira como consolida um certo capital social e cultural (a partir da militância, das suas universidades e do convívio na Biblioteca Mário de Andrade, etc.)”.  E, no segundo, centra o seu olhar no peculiar autodidatismo de Tragtenberg e em “sua práxis no espaço da informalidade” – externo às instituições e ao ensino formal – enfatizando a “sua militância enquanto escritor envolvido com o mundo do trabalho e as lutas sociais”.

É na segunda metade do seu livro que Ozaí se concentra na análise da produção propriamente acadêmica de Tragtenberg, investigando, no terceiro capítulo, a sua obra “produzida e orientada para e no espaço formal da instituição acadêmica”, aprofundando-se no estudo de temas notáveis pelo seu ineditismo nas discussões universitárias: burocracia, ideologia e poder; co-gestão; heterodoxia, tolerância e liberdade; crítica ao marxismo-leninismo-trotskismo; marxismo e anarquismo; pensamento e ação. E, no quarto, os seus escritos sobre a universidade e a educação, a sua proposta pedagógica libertária e a sua práxis como docente e intelectual.

Louve-se neste quefazer do professor Ozaí, além da abrangência, da profundidade e do rigor da investigação que lhe deu suporte, o olhar apropriadamente crítico da sua elaboração, de forma coerente com a sua concepção da relação mestre-discípulo. Segundo suas próprias palavras, na conclusão do seu trabalho, “a atitude idólatra do discípulo concede ao texto um caráter dogmático e hagiográfico. Isso torna imperceptível a sua riqueza e os caminhos apontados pelo autor. A melhor homenagem que podemos prestar-lhe é, a partir do seu reconhecimento, tentar ir além dele – tarefa dificílima. Por mais que gostemos, por mais que o respeitemos, devemos superar o encanto e manter a postura crítica: o contrário é desqualificá-lo”.

Esta síntese, apresentada pelo professor Ozaí na conclusão do seu trabalho, certamente não deixará de instigar a curiosidade e o interesse daqueles que ainda não tiveram o privilégio de conhecer a vida e a obra de Maurício Tragtenberg: “Sua crítica a todo e qualquer autoritarismo, da direita à esquerda; seu questionamento constante às formas de opressão e poder, desde as atitudes mais simples e cotidianas; e sua conduta solidária contribuem com o pensamento pedagógico que beba em fontes críticas e libertárias. Sua obra intelectual e sua atitude como professor, orientador e companheiro, configuram-no como um educador libertário e crítico. Sua maior influência está no exemplo; esta é a sua pedagogia”.

Nestes tempos obscuros e parcos de convicções e atitudes coerentes, contaminados pela bajulação interesseira do poder – qualquer poder – e pelo aparente fascínio ante o pensamento dominante, nada como voltar a beber na fonte do espírito crítico e libertário de Tragtenberg. Ainda mais quando guiados pela competência – forjada em sua própria experiência vital - do professor Ozaí.

 

Nelson Piletti

Professor aposentado da Faculdade de Educação da USP

Florianópolis, setembro de 2008

 

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