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ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)
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Mefisto, de Klaus Mann: a personificação
do Mal
Antonio Ozaí da Silva
Perdôo no autor todos
os defeitos do homem;
mas no homem não
perdôo nenhum dos defeitos do autor
Goethe, Wilhelm Meister
Mefisto:
romance de uma carreira, escrito por Klaus Mann
(São Paulo: Estação Liberdade, 2000, 318p.), é uma daquelas obras
que envolvem o leitor e instigam a reflexão. É impossível ficar
indiferente diante da brilhante e comprometedora narrativa sobre a
carreira do ator Hendrik Höfgen no contexto da ascensão do nazismo.
Este, com apenas trinta e nove anos de idade e sob a proteção de uma
das principais eminências do regime nazista, tornou-se o diretor do
Teatro Nacional. Era o ápice de uma carreira, cuja ascensão foi
vertiginosa. Höfgen, porém, à maneira faustiana, colocou a
consciência e a alma sob o abrigo dos que tinham o poder de vida e
morte sobre milhões de mortais, um poder maligno, o Mal em toda a
sua banalidade.
O romance de Klaus Mann é um libelo
antinazista e comprometedor no duplo sentido: do autor com a
realidade política e social, que exigia a denúncia e a luta contra o
nazismo; e, do leitor, na medida em que induz ao posicionamento
político, ainda que tenha consciência do caráter ficcional. Mesmo
este, porém, está sob discussão. Com efeito, o personagem Hendrik
Höfgen tem Gustaf Gründgens,
ex-genro do autor, como modelo.
A fronteira entre realidade e ficção é
tênue. Escrito e publicado no ano de 1936, em Amsterdã, em língua
alemã, só vinte anos depois que o romance foi editado em solo alemão
pela à editora Aufbau, de Berlim (Oriental). Em 1963, a editora
Nymphemburger anunciou a publicação de Mefisto, entre outras
obras do autor. Em março de 1964, o filho adotivo de Gustaf
Gründgens acionou o Tribunal Regional de Justiça de Hamburgo
pleiteando a proibição do romance na República Federal da Alemanha.
Peter Gorski almejava salvaguardar a honra do pai, falecido seis
meses antes.
A justiça se viu sob o dilema de
proteger os direitos do morto ou garantir a liberdade de expressão.
Ela rejeita o pleito do herdeiro e este entra com recurso na Corte
de Apelação de Hamburgo. Esta indeferiu e decidiu que a obra poderia
ser publicada, até a decisão final do processo, mas com o seguinte
prefácio:
“Ao Leitor:
O autor Klaus Mann emigrou
voluntariamente em 1933 levado por seus ideais, e em 1936
escreveu esse romance em Amsterdã. Em virtude de suas idéias de
então e de seu ódio contra a ditadura hitlerista, criou um
quadro crítico da história do teatro da época em forma de
romance. Ainda que não se possa negar que tenha tomado por
modelo pessoas daquela época, ele configurou os personagens do
romance fazendo uso apenas de sua imaginação literária. Isso
vale sobretudo para o personagem principal. De qualquer modo, as
ações e ideais atribuídos ao personagem no romance correspondem
em grande parte à imaginação do autor. Daí ele ter acrescentado
à obra a seguinte explicação: ‘Todos os personagens deste livro
representam tipos, e não pessoas reais.’ O Editor.”
O processo continuou e, na prática, o
romance permaneceu proibido na ex-Alemanha Ocidental.
O caso envolve aspectos importantes sobre a relação entre a arte e a
vida, a ficção e a realidade, o processo de criação e a reprodução
literária, o direito dos indivíduos – vivos ou mortos – à proteção
jurídica da honra pessoal versus o direito e a liberdade de
expressão do autor. Esta polêmica politiza a criação literária e lhe
dá um significado ainda mais profundo.
*
Seja como for, Hendrik Höfgen faz o
pacto com o demônio. Bem que ele tenta apaziguar a consciência com o
argumento de que sua decisão foi a mais acertada, que a sua aliança
era a maneira de ajudar os perseguidos pelos ditadores. Ele tenta
convencer o seu amigo comunista, Otto Ulrichs, de que esta tática é
não só inteligente como necessária: “Não é uma tática cômoda, mas
tenho de perseverar. Encontro-me em pleno acampamento do inimigo.
Vou minar o poder por dentro...”, diz (p. 274). É o discurso surrado
dos que pactuam com o poder opressivo. Às vezes até acreditam
verdadeiramente no que dizem. Ingenuamente ou não – que importa?! –
terminam por serem cooptados e adaptados aos costumes e idéias que
diziam – ou ainda dizem – combater.
No auge da sua fama, o diretor Höfgen se
dá à liberdade de manter, às próprias custas, um indivíduo
considerado ‘pária’, ou seja, não-ariano, como seu secretário
particular. Ele é inteligente:
“Os duzentos marcos pagos todos os
meses representavam uma interferência mínima, quase
imperceptível em seu orçamento e além disso traziam-lhe
benefícios. Pois eram justamente eles que davam a essa boa ação
um peso especial e lhe aumentavam o efeito. O jovem Johannes
Lehmann ocupava uma posição importante no ativo do balanço
daquelas “salvaguardas” que Höfgen podia se permitir sem grandes
riscos. Precisava delas; sem elas dificilmente suportaria aquela
situação; sua felicidade seria destruída por uma consciência
pesada, que de modo estranho não queria se calar nunca, e pelo
medo do futuro que às vezes perseguia o grande homem até nos
sonhos” (p.259).
A consciência culpada necessita de
acalento. É difícil definir até que ponto atitudes que incorrem em
riscos, em determinados contextos, são realmente sinceras ou mero
estratagema para conciliar-se com os outros e consigo. Será que o
que fazemos pelos outros é verdadeiro altruísmo ou apenas mascara
interesses inconfessáveis à nossa própria consciência? E se as
nossas belas e boas ações nada mais forem do que um artifício para
apaziguar a culpa que sentimos em nosso âmago?
Hendrik Höfgen sabe usar as influências
que conquistou sem comprometer-se. Ele resguarda-se. É um homem de
sorte: “Incidira sobre ele o vislumbre daquele brilho intenso que
envolve o poder” (p.209). Poder, porém, que se sustenta sobre
cadáveres. O ator Höfgen partilha desse poder; também caminha sobre
os mortos e a escada que o eleva ao cume é construída pela carne,
ossos e sangue dos que tombaram nas garras do Mal absoluto
transubstanciado em forma humana.
O ator Höfgen joga com as aparências no
imenso palco da vida. Sua atuação é cativante e poucos são os que
conseguem ver atrás da sua máscara do personagem que encarna,
Mefisto, o verdadeiro Hendrik Höfgen. Os espasmos da consciência
culpada não o impedem de admirar a força do Mal e de se identificar
com este.
“Como o Mal é forte!”, pensou o ator
Höfgen num arrepio de respeito. “Que coisa ele pode se dar ao
luxo de fazer e permanecer impune! Neste mundo, tudo acontece
realmente como nos filmes e nas peças cujo herói muitas vezes
pude interpretar.” Aquilo, no momento, era o que ele de mais
ousado se atrevia a pensar. Mas prevendo algo, e sem querer
admiti-lo ainda, percebeu pela primeira vez uma conexão
misteriosa entre seu próprio ser e aquela esfera extraordinária,
pervertida, na qual trapaças vulgares e calhordas como aquele
incêndio eram idealizadas e exceutadas” (p185).
Klaus Mann se refere ao incêndio do
Reichstag, o Parlamento alemão, perpetrado por criminosos e
provocadores nazistas para incriminar os judeus e a oposição. Höfgen,
nesse momento, estava em Paris, e, diante da ascensão do nazismo,
com medo de retornar à Alemanha. Afinal, ele andara em companhia dos
bolcheviques e assumira idéias execradas pelo novo regime político.
Mesmo à distância, porém, percebeu as conexões que envolviam a
idealização e execução desse crime provocador. Essa percepção não o
impediu de, na primeira oportunidade que teve, se reconciliar com o
inimigo e voltar ao país natal.
O momento crucial da consagração do
pacto com o Mal ocorre, após o seu retorno, com a encenação da peça
Fausto, de Goethe, cuja interpretação coroou a sua fama e
ascensão de autor. Mefisto foi seu grande papel, ator e personagem
se confundiam. Agora, na platéia está o todo-poderoso
primeiro-ministro. Este faz questão de cumprimentá-lo e sela a sua
fama e a certeza de que conquistara a confiança do poder.
“O primeiro-ministro levantou-se:
ficou de pé em toda a sua grandeza e opulência faiscante e
estendeu a mão ao autor. Estava cumprimentando-o pelo seu belo
desempenho? Era como se o potentado estivesse fazendo uma
aliança com o comediante.
Todos na platéia arregalaram os
olhos boquiabertos. Acompanharam os gestos das três pessoas lá
em cima no camarote como se fosse um espetáculo extraordinário,
uma pantomima mágica intitulada “O ator seduz o poder”. Nunca
Hendrik fora alvo de tanta inveja. Como devia estar feliz!”
(p.207).
Sim, ele seduzira o poder e, numa
simbiose macabra, fora seduzido por este. O ator provinciano se
elevara ao Olimpo. Não importa o custo, nem que tenha sacrificado os
verdadeiros amigos e a si mesmo no altar de tais divindades; não
importa que a sua estrada tenha sido pavimentada por cadáveres. Nada
importa! Tudo o que importa é compartilhar do poder encarnado pelo
primeiro-ministro. Ele, contudo, tem consciência do significado do
seu ato. Ele já não se pertence:
“Eram apenas a felicidade e o
orgulho que o faziam tremer? Ou sentia também alguma outra coisa
– para a sua própria surpresa? E o que seria essa outra coisa?
Seria medo? Era algo parecido com asco... “Agora estou realmente
sujo”, pensou Hendrik consternado. “Agora tenho uma mancha na
mão que jamais conseguirei tirar... Agora me vendi... Agora
estou marcado!” (p.207-208).
Estava certo! Mas vencera e tornara-se o
diretor do Teatro Nacional. Não tardou e foi recebido pelo “Messias
de todos os germanos” (p.279), o Führer. Todavia, o poder e a
opulência não eram suficientes para fazê-lo esquecer os fantasmas
que o atormentavam. Não há como fugir de si mesmo!
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