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ROGÉRIO NASCIMENTO
Doutor em Ciências
Sociais pela PUC-SP e professor de Antropologia na Universidade
Federal de Campina Grande, campus de Campina Grande na Paraíba.
Publicou Florentino de Carvalho, pensamento social de um
anarquista, Rio de Janeiro: Achiamé, 2000.

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Escolas de Indisciplina:
notas sobre sociabilidades anarquistas no
Brasil em inícios do século XX
Rogério Nascimento
Pesquisar
pensamentos e realizações relacionadas ao movimento anarquista no
Brasil no período de sua maior envergadura, de fins do século XIX
até as quatros primeiras décadas do século XX, impõe reflexão pelo
menos sobre dois aspectos significativos: primeiro, existe uma
expressiva amplitude em possibilidades de abordagens dos materiais
disponíveis nos arquivos e bibliotecas públicas; segundo, é
necessário considerar que o olhar do pesquisador consiste num
enfoque atravessado por diversas questões: as colocadas por seu
tempo histórico, por sua biografia, pela sua formação intelectual,
só para destacar alguns elementos constitutivos da sua pessoalidade.
Em que pese às pesquisas publicadas e
as encerradas e depositadas nas bibliotecas das universidades, estas
são duas dimensões importantes para quem deseje iniciar pesquisas
neste que é um campo ainda muito vasto. A primeira destas dimensões
é promissora uma vez apontar para um abundante acúmulo de registros
históricos. Os arquivos públicos no Brasil, sobretudo no eixo
sul-sudeste, regiões de maior vigor do anarquismo, guardam
considerável variedade de documentos relativos ao movimento
anarquista. Contudo, mais que isto, além da abundância destes
materiais em instituições públicas à espera de pesquisadores
interessados, as possibilidades de abordagem são deveras amplas.
Documentos de associações, livros, jornais, revistas, resoluções de
congressos, peças de teatro operário favorecem diferentes maneiras
de enfoque analítico.
A segunda destas dimensões, pelo
contrário, deve atuar como uma constante advertência ao pesquisador
e interessado no assunto. Isto porque, por exemplo, questões
relativas à antiguidade destes materiais muito facilmente distraem a
atenção do estudioso quando se trata de apreender aspectos
particulares dos dinamismos societários que estes documentos podem
fazer emergir. O amarelado das páginas, as folhas ressecadas pela
ação do tempo, outras marcas como formas de grafias consideradas
hoje antiquadas, termos em desuso há muito tempo, o incômodo do odor
de mofo, os ácaros, além de outros elementos, podem acionar e
amplificar automatismos na pessoa do pesquisador. Deste modo, há
maior probabilidade em manifestar-se, através de processos que
naturalizam relações sociais, pré-conceitos profundamente
arraigados.
Caso o estudioso não consiga manter-se
atento a estas armadilhas, deixará facilmente passar ao largo de seu
discernimento uma quantidade consideravelmente ampla de sinais,
significados e sentidos característicos. Este procedimento seletivo
é mais rapidamente instalado quando o campo de estudos abordado
transborda com os limites da sociedade da qual o pesquisador é
integrante. Ao mesmo tempo, as conclusões levantadas pelo
pesquisador têm maior probabilidade de serem acatadas pelos seus
pares na medida em que operam dentro das fronteiras reconhecidas
pelos costumes convencionalmente estabelecidos.
É perfeitamente aceitável a assertiva
sustentando que diversos grupos de pessoas interagindo numa
contemporaneidade podem instaurar modalidades de sociabilidades com
diferentes graus de espontaneidade. Creio que ninguém levante
objeções a esta possibilidade quando de distanciamentos
territoriais. Há grupos que possuem maior disposição para
instaurarem imediatamente espaços de liberdade nas suas relações.
Noutros grupos, o grau de liberdade é menor. Fica fácil perceber que
procurar compreender o espaço de maior liberdade a partir da
perspectiva do espaço de menor liberdade resultaria num quadro com
significativas limitações. Sobretudo se pensarmos no que, da
sociabilidade mais liberada, escapou ao enfoque àquela de liberdade
mais restrita.
Pois bem, com isto estou querendo
dizer que a época atual, a sociedade vigente, com todas as suas
particularidades é, comparada com os experimentos realizados pelos
anarquistas do período considerado, este espaço de menor grau de
liberdade. Ainda nesta linha de exercício de abstração, proponho, em
contraposição à disposição cultural da sociedade atual naturalizando
sua concepção de tempo, desconsiderar desta temporalidade linear a
qualidade de possuir realidade concreta e objetiva. Neste caso fica
mais fácil sugerir uma comparação das modalidades de relações
instauradas não apenas entre grupos societários de diferentes
espaços territoriais, mas também de coletividades em diferentes
escalas de tempo.
O pesquisador atual, com seu perfil
sócio-histórico específico (de formação escolar rígida, integrante
de uma sociedade cujas principais instituições foram forjadas a
partir de referenciais totalitários, cujos costumes culturais
consagram o patriarcado e as relações sociais hierarquizadas) é
formado profissional e pessoalmente numa sociedade assimétrica. Caso
este pesquisador esteja absolutamente convencido da necessidade e da
naturalidade deste seu modo de vida, terá, muito provavelmente,
dificuldades em estabelecer em suas investigações relações outras,
avessas ou contrapostas, a seu pessoal campo conceitual e
existencial.
Este é, portanto, um obstáculo não
desprezível às pesquisas voltadas para o conhecimento do pensamento
e das realizações do movimento anarquista no referido período
histórico. No meu entender, uma perspectiva disciplinar –
naturalizando a hierarquia na sociabilidade humana como também
aprofundando as fronteiras dividindo pessoas e áreas do conhecimento
– possui sérias limitações para dar conta de experimentos
instauradores de indisciplina. É impermeável a um enfoque
disciplinar, domesticador por excelência, a selvageria contundente
da indisciplina. E é exatamente disto que se trata nas
associações anarquistas no período delimitado: espaços de
indisciplina, nomadismo, condição existencial selvagem, constante e
intenso processo de descentramento, iconoclastia, multilateralidade,
antropofagia, negativismo.
*
A fim de poder escapar da reprodução
de procedimentos analíticos viciados, o pesquisador deveria, no meu
entendimento, instaurar, em primeiro lugar, um esforço em abandonar
deliberadamente a disposição disciplinar nos seus estudos. É claro
que não é nada fácil, não diria desconstruir, mas, mais que isto,
destruir toda uma mentalidade já um tanto quanto cauterizada por
conta de anos sob processos de amestramento pela escolarização.
Acredito ser este um exercício necessário para podermos abordar as
vivências anarquistas daquele período com maior grau de
descolamento. Caso contrário o pesquisador corre o risco de projetar
sobre o campo de pesquisa demandas que possivelmente lhes sejam
totalmente alheias. Exemplos de procedimentos desta natureza estão
expostos em diversas publicações de liberais e marxistas tratando do
pensamento e das realizações anarquistas.
Marxistas e liberais projetam, de
maneira recorrente sobre os anarquistas, demandas que dizem respeito
apenas a eles próprios. Suas reflexões dão voltas em torno de si,
enredadas em ciclos de pensamentos e concepções altamente ciosas de
mesmice. Seus escritos partem de pressupostos externos às
conceituações e categorias com as quais os anarquistas no geral se
movem. As publicações de liberais e marxistas são fartas em
cobranças, voltadas para os anarquistas, que dizem respeito única e
exclusivamente a seus próprios campos conceituais, sem que estas
façam qualquer sentido no multiverso conceitual e existencial dos
anarquismos. Materialismo histórico, dialética esclarecida da
história, neutralidade axiológica do conhecimento e objetividade da
ciência são exemplos disto que acabei de me referir.
São estes tipos de abordagens que
produzem o mesmo e reproduzem um conhecimento de antemão
previsível em suas conclusões. Nos saberes estabelecidos no campo
gravitacional do positivismo existe por cima o estudioso e por baixo
a “matéria-prima” da pesquisa; por cima o sujeito da pesquisa e por
baixo o seu “objeto”, a sua “coisa”. Isto assim mesmo, nesta
disposição hierárquica. A abolição intencional destes referenciais
positivistas seria indubitavelmente uma boa maneira de intensificar
e afinar a sensibilidade da pessoa do pesquisador para uma melhor
compreensão de outras modalidades de vida que sejam refratárias a um
diapasão verticalizador para a sociabilidade humana. Isto é mais
verdadeiro em relação àquelas pautadas pelo princípio de liberdade e
em franca oposição as que se referenciam no princípio de autoridade.
Nesta direção, seria bastante
interessante abordar os documentos guardados nas instituições de
preservação da memória e do patrimônio cultural, para além da
concretude de sua materialidade, concebendo-os enquanto verdadeiras
emanações de subjetividades outrora existentes. Pensemos, no caso
dos documentos do movimento anarquista, em como a elaboração,
publicação e divulgação destes materiais inicialmente empolgava um
número mais restrito de pessoas e como, em seguida, contagiava
leitores, correspondentes e agentes em diversas localidades.
Contagiava até oponentes ideológicos como também setores
governamentais.
Um dos primeiros temas discutidos
entre os interessados, podemos imaginar, poderia ter acontecido em
torno do título do jornal
ou revista até que se chegasse, em fim, a um consenso quanto ao nome
mais adequado para aquela associação. Por sua vez o título seria
como que uma maneira de anunciar assinatura coletiva. Um nome que
espelhasse o poder das vontades associadas, expressando,
simultaneamente, pseudonimia grupal, pensamento coletivo e
assinatura coletiva.
Por estas razões entendo que o
pesquisador deve considerar em seus estudos a possibilidade da
existência de sociabilidades opostas às hierarquias, permanecendo
constantemente atento para um modo de vida que desonera fronteiras.
A disposição dos estudos da sociedade instaurando ruptura entre a
pessoa do pesquisador com o campo de estudo é adequada à
sociabilidade verticalizada, como consagrado na perspectiva
positivista de estudo da sociedade.
No caso dos jornais e revistas, o
coletivo editorial era composto por pessoas que tinham em comum à
vontade de experimentar imediatamente as idéias anarquistas. Esta
disposição por inventar a liberdade na intensidade do agora era o
fogo a arder em todos os envolvidos. Inicialmente, a negação do
princípio de autoridade constituía ponto de encontro de todos os
anarquistas. Qualquer que seja a expressão mais simpática a esta ou
àquela correnteza anarquista, todos estão juntos quando da negação
da hierarquia. E é este aspecto particular que distingue anarquismo
do positivismo. Enquanto este afirma a universalidade e fatalidade
da hierarquia na sociabilidade humana, os anarquistas negam. Por
esta razão negativismo é o único campo a partir do qual é possível
falar em anarquismo, no singular. Depois disto, existem
anarquismos, no plural.
A disponibilidade para criar
associações e enfrentar os riscos
da subversão era atitude inquestionável nos integrantes destes
coletivos. Basta não esquecer que toda a ambiência social à época
era altamente desfavorável a qualquer questionamento, que dirá às
propostas libertárias para a sociabilidade humana. As condições de
trabalho adversas, envolvendo alto grau de insalubridade nos
ambientes de trabalho, superexploração, salários irrisórios, os
constantes acidentes, as multas e castigos corporais – que eram
ainda mais intensos em relação à mulher e à criança trabalhadora –
não constituíam um panorama social alentador.
Os dinamismos postos em atividade por
estas subjetividades partem deste ponto inicial negativista, se
desdobrando em iconoclastia, indisciplina e
nomadismo. A negação do princípio de autoridade era reafirmada
em vidas ausentes de idolatrias. Na continuidade deste enfoque,
estes anarquistas procediam desrespeitando fronteiras estabelecidas
pelos convencionalismos. Seus pés e imaginação transitavam por entre
campos de conhecimento, desconsiderando limites artificiais. Por
conta disto diversos anarquistas deportados do Brasil retornavam e
insistiam em permanecer em espaços que a lei lhes negava. Ao
recusarem seguir as determinações das classes dirigentes, não
reproduziam a relação mando-obediência.
É assim também que se apropriavam dos
saberes e dos fazeres disponíveis, dando-lhes um uso interessado e
pessoal. Transitavam livremente pelos campos da Sociologia,
Antropologia, Literatura, Estética, Filosofia, Paleontologia,
Política, Poesia, Biologia, Astronomia, Física, entre outras
especialidades, compondo, ainda mais com sua própria trajetória de
vida, seus escritos e experimentos. Deste modo, mais que
disciplinar, multidisciplinar, interdisciplinar ou
transdisciplinar, os anarquistas em questão instauravam em
suas vidas e associações, processos estritamente realizados num
intenso dinamismo indisciplinar.
*
É neste sentido que pode ser muito
enganoso abordar as realizações dos anarquistas sem considerar a
amplidão, profundidade e intensidade dos pensamentos em interlocução
em cada acontecimento. Por isto quero assinalar o caráter
eminentemente grupal e relacional dos processos societários
instaurados neste período pelos anarquistas. Num ambiente de cultivo
e incentivo à experiência da alteridade, aconteciam significativos
embates de idéias e concepções. Diversos jornais, por exemplo,
registram em suas páginas os dinamismos de indisciplina
instaurados pelo coletivo editorial e que se espraiavam em outras
localidades como num contágio. As matérias publicadas em suas
colunas espelhavam intensos debates realizados entre os integrantes
do grupo de editores.
Também havia ocasião de se estabelecer
debates com adversários do anarquismo. Estes acontecimentos tanto
resultavam por vezes no prolongamento da polêmica por diversos
números do jornal, como também produzia a organização de
conferências seguidas de debates com a assistência. É fácil imaginar
o desenho de um efeito em cachoeira na seqüência destes
acontecimentos.
Retomemos, então, a partir do entorno
social no qual estas associações aconteciam. Sabemos que o cenário
mais amplo da sociedade era desfavorável para as idéias e
experimentos refratários aos costumes estabelecidos. A repressão e
violência patronal e estatal se davam de maneira intensa. As classes
dirigentes não economizavam esforços para jugular adversários,
sobretudo as organizações proletárias. Neste contexto, os
trabalhadores tiveram que desenvolver estratégias de sobrevivência.
Para escapar às perseguições policiais inventavam pseudônimos a fim
de melhor continuarem a publicar artigos, proferir conferências,
realizar viagens de propaganda, enfim, viver da maneira que tinham
vontade.
Sob diversos pseudônimos os
trabalhadores conseguiam driblar os olhos discricionários do
governo, prolongando e distendendo sua liberdade. Algumas vezes
retornavam clandestinamente de processos de deportação e continuavam
no país por conta do uso de expedientes desta natureza. Este recurso
individual era também usado por associações. O nome do jornal, por
exemplo, funcionava enquanto pseudonimia coletiva, como dito mais
acima. Este processo grupal assinala a elaboração de um pensamento
coletivo, um saber surgido das relações estabelecidas entre
pessoas como entre associações. Contrariamente aos processos
escolares vigentes na sociedade contemporânea, altamente
individualizantes, o dinamismo posto em atividade aqui é
eminentemente coletivo.
Indisciplina diz respeito a um
processo intencional de ruptura com o pensamento do mesmo, este que
reinstala essencialismos, substancialismos, reducionismo,
determinismos. Os anarquistas se jogavam de corpo e alma nos
arriscados experimentos com jornais, revistas, associações,
congressos, conferências, livros, panfletos, organização de comitês,
manifestações, greves, escolas, etc. A perspectiva instaurada pelos
trabalhadores anarquisantes visava à diluição dos mecanismos sociais
escorados em engessamentos, em enfoques dogmáticos, rígidos e
auto-referentes.
Assim que, por exemplo, um mesmo
espaço era utilizado pelos anarquistas para funcionar como escola,
sindicato, local de reunião do coletivo editorial de um jornal e
como ponto para realização de conferências entre os trabalhadores.
Estes locais também funcionavam para eventos organizados pelos
professores das escolas anarquistas. Tais eventos eram direcionados
aos estudantes, pais, amigos e interessados pela questão
educacional. Todos eram instados a comparecer, se envolvendo com um
processo educacional que transcendia o aprendizado conteudista,
meramente técnico e intelectual.
Da mesma forma que na escola
anarquista, nos coletivos editoriais, nas associações, nos
sindicatos, nas tipografias, nos grupos de teatro, aconteciam uma
multiplicidade de eventos simultaneamente. Disto resultava a
instalação de uma perspectiva nomádica em constante deslocamento:
lugar do saber não é a escola; lugar da produção não é a fábrica,
oficina ou fazenda; lugar do deleite estético não é o teatro ou a
galeria de artes plásticas. Des-lugar. Na verdade, cada ambiente
abriga lugares diversos. A procura era pela intensificação das
possibilidades de interlocução, favorecendo a troca de experiências.
Aqui encontramos uma maneira de se
colocar na vida encarando a razão do outro como sua própria
condição. Nesta perspectiva a razão do outro é, portanto, mais que
um objeto de curiosidade. Todo este processo indisciplinar
instaurava, sob diversas formas, um pensamento caracteristicamente
coletivo. Um saber e uma postura existencial diluindo escola e vida,
saber e poder emergia dos encontros e dos contágios estabelecidos
entre as subjetividades e entre associações. A abolição dos exames,
das provas e das avaliações, dos castigos e das premiações, dos
títulos e honrarias, dos programas universalistas, caracteriza um
processo educacional com distância astronômica da perspectiva
escolarizante vigente naquela época como na contemporaneidade.
Getúlio Vargas foi o criador, no
início dos anos trinta do século XX, do Ministério da Educação.
Francisco Campos, o primeiro ministro deste ministério, é
considerado seu mentor intelectual. Foi ele quem, ao projetar a
idealidade de uma sociedade totalitária, seguiu os moldes lançados
inicialmente pelo bolchevismo e, na seqüência, pelo nazi-fascismo.
Evidenciou, nesta sua intenção ditatorial, o lócus privilegiado
ocupado pela escola, traçando-lhe uma silhueta que em nada mudou ao
longo de várias reformas educacionais instauradas seguidamente
décadas afora. O último destes reparos procura avançar estes seus
limites com a nova LDB,
os Parâmetros Curriculares Nacionais e os temas transversais.
É este modelo totalitário de sociedade
que prevalece até hoje no espaço escolar oficial. Os programas, que
são oficiais, são pensados para serem ‘aplicados’ em escala
nacional. Desta disposição universalista e obrigatória podemos
deslindar seu caráter totalitário. Os processos de melhoramentos e
aprimoramentos havidos desde o início da era Vargas têm como efeito
o refinamento cada vez maior das concepções autoritárias da
sociedade e, nesta, da escola. Quanto mais presenciamos discussões,
debates e encontros visando aprimorar mecanismos educacionais
vigentes, mais podemos observar “melhoramentos”... em processos
nitidamente fascistas.
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Pois bem, todo um dinamismo
indisciplinar instaurado nos diversos agrupamentos anarquistas,
inclusive em suas escolas, é inapreensível ao olhar narcisista de
perspectivas disciplinares e disciplinadoras. É assim que os
aspectos coletivos altamente valorizados não apenas pelos
professores anarquistas – estes que atuavam simultaneamente nos
sindicatos entre outras associações como coletivos editoriais de
jornais ou revistas, organizavam manifestos, integravam comitês de
trabalhadores, realizavam viagens de propaganda, publicavam livros,
etc. –, mas no conjunto do pensamento anarca, não são considerados
em sua dimensão mais significativa por um enfoque marcado pelas
limitações da disciplina.
Tanto que a maneira de tornar
inteligível ao ponto de vista disciplinar o fato de
trabalhadores sem formação escolar dominarem diversas línguas, nas
formas escritas e faladas, discutirem com desenvoltura sobre os mais
variados temas da questão social, conhecerem diversos pensadores e
cientistas das mais variadas áreas de conhecimento, se dá
costumeiramente a partir da noção de autodidatismo. Esta é a
maneira recorrente de pacificar questionamentos acerca das
especificidades do dinamismo existencial instaurado nos agrupamentos
anarquistas em questão, mantendo intacto o edifício disciplinar.
Assinalar os esforços, a disposição e força de vontade das
individualidades no processo de configuração de um saber proletário
é escamotear uma abordagem mais rica que tem há ver com um dinamismo
relacional. Por maior que fosse a vontade e os esforços
individuais, de nada adiantariam caso não houvesse um suporte
coletivo ao alcance.
Os trabalhadores construíram a duras
penas bibliotecas, ateneus, escolas, associações, sindicatos, teatro
operário, tipografias, colocando a disposição do movimento materiais
com os quais os trabalhadores manipulavam a fim de melhor se
situarem diante dos desafios de sua época. Não havia subsídio
estatal nem patronal. Foi a partir dos esforços dos próprios
trabalhadores, num processo ainda não devidamente valorizado pelos
estudiosos em torno de uma gestão coletiva de recursos financeiros
das classes proletárias, que montaram uma infra-estrutura material
para suas atividades.
Para não demorar demasiadamente nestas
reflexões, que a propósito já estão muito alongadas, gostaria de
evidenciar alguns apontamentos finais sobre o tema. De início
acredito existir muito ainda a ser aprendido e apreendido com os
estudos dos documentos e registros históricos do movimento
anarquista no Brasil. As pesquisas disponíveis, publicadas e
arquivadas nas bibliotecas, nos oferecem material importante para um
melhor conhecimento do tema. Entretanto, longe de ter sido esgotado,
há ainda muito a ser analisado e debatido pelos estudiosos da
matéria. A começar pelo dinamismo relacional e
indisciplinar instaurado nas coletividades anarquistas, muitas
lições podem ser tiradas de seus experimentos.
Numa abordagem relacional está
em foco a emergência de um pensamento coletivo, um saber marcado por
processos e dinamismos envolvendo a experiência da alteridade. Como
em antropofagia, a diferença é matéria nutritiva para o guerreiro
selvagem.
Por sua vez o ‘civilizado’, depois de intensos processos de
domesticação, procede de maneira recorrente a vomitar os “outros”.
Para o momento, portanto, não cabe mais, por inadequada, a
centralidade da concepção liberal de indivíduo. No
liberalismo esta categoria aponta para processos autoreferentes e
para a existência de uma entidade pretensamente autônoma e
inalcançável a contágios e aos caldeamentos da existência.
A vida, numa perspectiva
indisciplinar, instaura-se enquanto campo de contundentes
experimentos com os riscos implicados. Nesta vibração, ‘fronteira’ é
vocábulo desconhecido e desprovido de sentido para nomadismos.
Os limites convencionais, separando áreas específicas do
conhecimento como também, antes disso, as linhas separando vida e
conhecimento, saber e poder, são objetos de abolição aos
indisciplinados. Aqui se caminha livremente por entre as áreas
específicas do conhecimento como também sobre territórios.
A não existência de regras, manuais ou
receituários para a vida é um desafio constante e uma das lições
mais significativas aprendidas com as experiências realizadas dentro
do movimento anarquista. As estratégias de ação eram definidas não
de maneira apriorística, mas considerando uma significativa
amplitude de implicações relativas às contingências do vivido. O
estudo de suas táticas e dos embates ocorridos no contexto social
das primeiras décadas do século XX no Brasil, com o movimento
anarquista enquanto principal protagonista desta análise, abre para
estas possíveis relações.
Para finalizar, uma pergunta que não
quer calar: o que os anarquistas do período referido estavam mesmo
fazendo quando inventavam escolas, jornais, associações,
manifestações públicas, comitês, entre outras atividades? A resposta
vem rápida e certeira: instauravam processos existenciais
igualitários, libertários e liberados; estabeleciam vibrações em
multilateralidades, erupções intempestivas esvaziando concepções e
hábitos que gangrenam os sentidos do viver. Assim, na escola, como
noutros espaços, experimentavam o estabelecimento de relações
intensas, como também quando faziam jornais expressavam seus
pensamentos, realizavam ações, produziam e socializavam saberes,
sentidos e sentimentos. Isto é a ruína da hierarquia e das relações
de exploração.
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