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MÁRIO
MAESTRI
Historiador e professor do Curso de
História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS

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A Guerra
contra o Paraguai
História e
Historiografia: da instauração à restauração historiográfica
[1871-2002] – parte II
Mário Maestri
Restauração historiográfica
Em
fins de 1990, com a consolidação do movimento geral de restauração
historiográfica no Brasil, impulsionada pela mídia; por programas de
pós-graduação; por agências financiadoras; por grandes editoras,
etc., criavam-se as condições ideais para a concretização desse
processo quanto à Guerra do Paraguai, de singular importância,
devido o caráter central daqueles fatos para a ideologia de Estado e
ao sucesso de público de Genocídio americano: a Guerra do
Paraguai, de J. J. Chiavenatto.
Em
1889, Francisco Doratioto defendeu a dissertação de mestrado “As
Relações entre o Império do Brasil e a República do Paraguai.
(1822-1889)”, na Universidade de Brasília. Em 1991, publicou estudo
de divulgação, pela Editora Brasiliense – A guerra do Paraguai:
2ª visão – e, em 1996, ensaio mais alentado, pela Editora Ática
– O conflito com o Paraguai: a grande guerra do Brasil.
Os cinco anos de diferença entre os dois trabalhos registram
importante evolução na leitura dos fatos pelo autor.
Na
“Introdução” de A guerra do Paraguai: 2ª Visão, Doratioto
prometeu superar as limitações da “historiografia tradicional” que
“personalizara” a história, ao “apontar as ambições do ditador
Solano López como causadoras da guerra” e da “teoria
‘imperialista’”, então “dominante”, que responsabilizara a
Inglaterra pelo confronto. Para o autor, o conflito seria
essencialmente produto da “formação e definição do caráter dos
Estados nacionais, em que setores da classe dominante seriam
hegemônicos na organização estatal e, portanto, mais beneficiados
por ela, na região do Rio da Prata.”
Portanto, uma proposta de análise que se dispunha superar a
historiografia nacional-patriótica e os lapsos das leituras
revisionistas brasileiras.
Em
análise sobretudo político-nacional, Doratioto apresenta
sinteticamente a conjuntura do Prata quanto aos países envolvidos
nos acontecimentos, da crise do regime colonial ao início da guerra,
enfatizando a tentativa da burguesia mercantil portenha de impor sua
hegemonia regional, grande razão da independência e do isolamento
paraguaio, como proposto.
Assinala que a vontade de domínio hegemônico do Prata levou
igualmente Império a obstaculizar a reconstituição nacional do
Vice-Reinado do Prata em torno de Buenos Aires.
O
autor analisa o relacionamento entre o Império e o Paraguai,
determinado pela vontade do último de demarcar as fronteiras a
partir da situação quando do fim do regime colonial, enquanto o
Império, interessado na livre navegação dos rios paraguaios para
escoamento da produção mato-grossense, defendia delimitação apoiada
no princípio do uti possidetis de facto, ou seja, na ocupação
dos territórios por seus habitantes em contínua expansão. Ressalta
que o Império e a Argentina mobilizavam-se para que o Paraguai não
se tornasse potência regional.
Em
1852, a queda de Rosas e a consolidação da oligarquia mercantil
portenha criaram nova situação. Na década seguinte, o esforço
autonômico do governo uruguaio blanco levou a que o Brasil se
aproximasse da Argentina liberal-mitrista que concordou com
intervenção apoiada nos colorados uruguaios, associados à
manutenção da submissão em relação à Argentina e sobretudo ao
Império. Ao contrário, os blancos uruguaios contavam com o
apoio ou simpatia da província de Entre Ríos, dos federalistas
argentinos e do Paraguai, interessado em garantir uma saída ao mar.
Hegemonia compartida
A
aquiescência da Argentina mitrista enfraquecida à intervenção
imperial selaria a sorte do Paraguai. Segundo o autor, “no final dos
anos 1850 e inícios da década seguinte, a hegemonia do Império só
não era completa no Prata devido à resistência do governo de
Assunção.”
O controle do Uruguai e do porto de Montevidéu punha fim à
possibilidade de livre saída ao mar do Paraguai e assentava golpe
terrível no federalismo argentino, ensejando que o governo paraguaio
determinasse, conseqüentemente, a intervenção no Uruguai como
casus belli.
Em
1864, a intervenção no Uruguai ensejou o envio de tropas paraguaias
para ocupar as terras em litígio com o Brasil, no atual Mato Grosso
do Sul, e pedido à Argentina, nas mãos dos liberais portenhos, de
direito de passagem de tropas por Corrientes, para atacar ao
Império. Em 1856, a Confederação Argentina acordara aquele direito
ao Império, contra o Paraguai. A esperada negativa de Mitre de
conceder a autorização motivou declaração de guerra à Argentina que
enfraqueceu o apoio paraguaio naquele país.
Apesar
da ênfase nas relações político-diplomáticas, o ensaio esforça-se em
definir sociologicamente os grandes protagonistas históricos, em
superação de historiografia meramente político-descritiva. Juan
Manuel de Rosas é proposto como “líder dos produtores de charque
para exportação”, apoiado pelos “comerciantes e financistas
portenhos, monopolizadores do comércio exterior.”
Propõe que os colorados uruguaios representassem sobretudo os
“comerciantes” e as “potências européias” vinculados às “idéias
liberais”, enquanto os blancos, os “proprietários rurais”
“que se opunham à intervenção européias no país”.
Os
unitários argentinos são definidos como “basicamente”
“comerciantes de Buenos Aires”, que “defendiam um modelo
centralizado”, enquanto os federalistas, como grandes
estancieiros, “pequenos manufatureiros e comerciantes vinculados ao
mercado regional”, favoráveis à descentralização.
Afirma-se que “apenas a burocracia imperial” era capaz de defender a
escravidão, ao dispor “de meios diplomáticos e políticos capazes de
se oporem às pressões britânicas” anti-tráfico e possuir a
capacidade de confirmar as “prerrogativas dos grandes proprietários
rurais” de “manter a ordem” e seus “privilégios”.
Portanto, um
conflito que envolvia as principais classes sociais da região, mais
do que as nações nas quais se organizavam.
O
autor propõe sobre o governo de Carlos López: “Na ausência de um
setor social com experiência administrativa e capital financeiro
para tanto, o Estado assumiu essa dinamização, passando a
representar os interesses da nascente burguesia rural, ligados à
expansão do regime capitalista, com base na exploração da
agropecuária e mão-de-obra barata e disciplinada, visando ao mercado
externo.”
Dois caminhos
Sobretudo nas páginas finais, o ensaio empreende justificativa
sistemática da ação do Império, acompanhada sempre da apresentação
da busca de hegemonia pelas “classes dominantes” do Império e da
Argentina que desembocou no terrível drama. É também clara no estudo
a tendência a uma leitura relativista da ação das nações, como jogo
normal de defesa de seus interesses, estranho a qualquer valoração
ética: “A guerra iniciada em 1865 interessava, por diferentes
motivos, a todos os Estados envolvidos.”
Visão em contradição com a apresentação da forte pugna no interior
de Estados como a Argentina e o Uruguai.
Como
prometera o autor, o ensaio supera substancialmente as apresentações
maniqueísta da historiografia nacional-patriótica brasileira do Dr.
Francia, de Carlos Antonio López e, sobretudo, de Francisco Solano
López, apresentados como estadistas interessado na promoção de suas
nações. Em Guerra do Paraguai: 2ª Visão, não encontramos
sequer uma das tradicionais demonizações do chefe de Estado
paraguaio ou de suas tropas, próprias à literatura tradicional
brasileira.
Ao
contrário, o autor tenta circunscrever as razões objetivas da
derrota paraguaia, que se deveria, “basicamente” a “dois motivos”.
“De um lado, Urquiza faltou aos compromissos que contraíra com
Solano López, privando-o de apoio efetivo dentro da Argentina. Por
outro, no Uruguai, os blancos não se mantiveram numa
resistência prolongada em Montevidéu, como era esperado [...].”
Na
conclusão, o autor retoma a crítica à tese “imperialista”,
apresentada como “resultado de bandeiras das lutas políticas dos
anos 60 e 70 – como o antiamericanismo e terceiro-mundismo –,
projetadas na análise do passado, em busca de fundamento histórico”.
Visão não de todo incorreta, apesar de redutora e imparcial, de uma
tese inglesa esposada por apenas parte da literatura
revisionista, em geral de corte popular-americanista. Lembra
pertinentemente que a superestimação do imperialismo sugere a
incapacidade dos povos e estados periféricos de determinarem
sua própria história.
Uma
crítica a [parte do] revisionismo [brasileiros] que não impede o
reconhecimento da sua importância historiográfica: “Cabe, porém, ao
revisionismo o mérito de demonstrar a fragilidade da historiografia
tradicional sobre o tema e questionar a utilização dessa guerra na
construção de mitos. Enfim, o revisionismo fez ressurgir o interesse
pela guerra [...], a qual, no Brasil, até então era quase
exclusivamente motivo para comemorações, nas datas das grandes
batalhas, e de referência ao se buscar as origens da construção do
Exército que derrubaria a Monarquia em 1889.”
Na sua
brevidade, A Guerra do Paraguai: 2 ª Visão, de 1991,
constituiu importante contribuição ao conhecimento histórico
daqueles acontecimentos que apontava para duas grandes
possibilidades de desdobramento: a radicalização crítica da leitura
revisionista ou a recaída na defesa apologética das ações do Estado
imperial. Paradoxalmente, parecia pender mais para a primeira
alternativa.
Uma
Nova Leitura
Em
O conflito com o Paraguai: a grande guerra do Brasil, de
1996, Doratioto avança a análise, abordando o conflito propriamente
dito. O ensaio caracteriza-se pela inflexão do esforço de
interpretação sociológica e estrutural dos sucessos e pela ênfase da
defesa da ação do Estado imperial, em um viés não raro já claramente
nacional-patriótico.
Em verdade, o trabalho inicia com a afirmação paradoxal de que o
“Império demonstrou [no Paraguai] sua capacidade de travar uma
guerra com características inéditas que o obrigaram a mobilizar
recursos humanos e materiais em larga escala”.
E retoma,
igualmente, a proposta de Salles da modernidade das forças armadas
paridas no confronto: “Foi o Exército, que o Estado imperial
estruturara durante a guerra do Paraguai em padrões modernos de
organização e armamento, o instrumento que pôs fim a Monarquia
[...].”
No
segundo capítulo, empreende apresentação das disputas do Plata
anteriores ao confronto, sem o destaque ao amplo papel desempenhado
pela oligarquia portenha no conflito do primeiro ensaio, no contexto
de uma já permanente absolvição-relativização das responsabilidades
do Estado imperial, em geral através da ignorância de questões
fundamentais, como a disposição do Brasil em entrar em guerra com o
Paraguai, muito anterior ao conflito, e a garantia da independência
uruguaia por aquele país, como condição para sua autonomia nacional.
A
guerra do mate
O
autor utiliza recursos narrativos para elidir contradições
históricas, como a referência neutra à “queda de Rosas”, sem
registro da também participação do Império, ou a pasteurização
textual das responsabilidades imperiais na intervenção no
Uruguai, em 1864, com apoio da oligarquia portenha. “O governo
argentino, que rompera relações diplomáticas com o Uruguai,
reconheceu o direito [sic] de o Império agir contra esse país,
sempre respeitando [sic] a integridade territorial [sic] e a
independência uruguaias. [sic].”
A
abordagem telegráfica da sociedade paraguaia e semi-ignorância do
caráter das sociedades brasileira, uruguaia e argentina sinalizam a
retomada substancial de análise político-factual, de “trincheira”,
desde a ótica das classes dominantes imperiais, da historiografia
nacional-patriótica. A própria decisão de Pedro II de prosseguir a
hecatombe é elogiada: “Foi a persistência [sic] do imperador, no
crítico ano de 1868, em favor do prosseguimento da luta [sic] que
abortou qualquer discussão sobre seu fim que não fosse pela vitória
militar.”
Ainda
que matizada, retoma-se a diabolização tradicional do inimigo,
totalmente ausente no primeiro trabalho, como assinalado: “[...] o
navio de guerra paraguaio Iporá, [...] tinha ‘à vista do
público, uma corda contendo grande quantidade de orelhas humanas,
postas a secar, que pertenciam aos infelizes tripulantes da
[canhoneira] Anhambaí.”
Afirma-se sobre o combate de 3 de novembro de 1867: “A
soldadesca [sic] paraguaia, em lugar de continuar a combater,
entregou-se ao saque [...].”
A tropa
imperial, salvo engano, não recebe jamais tal tratamento.
Embrenhado nas contradições da historiografia nacional-patriótica,
para explicar a tibieza das tropas imperiais, que reconhece
numerosas e bem armadas, retoma os argumentos tradicionais da falta
de preparo inicial dos exércitos; de conflitos políticos internos;
das “peculiaridades do conflito”, etc., como se esses handicaps
negativos contassem apenas para as tropas imperiais.
Pequeno e mal-armado
Sobre
a invasão do Rio Grande, afirma: “[...] o Exército brasileiro [em
senso estrito] era pequeno e mal armado, contando com no máximo
dezoito mil soldados com moral baixo [...].” “Durante a guerra do
Paraguai não houve trégua na encarniçada luta política” entre
liberais históricos, liberais progressistas e conservadores.
“Compreende-se [...] a facilidade com que as forças paraguaias
avançaram em território brasileiro”. Esquece que apenas o Rio
Grande tinha população maior do que a assinalada para o Paraguai,
superando os 430 mil habitantes, em 1872.
A
inoperância da Armada deveria-se ao fato de seus navios terem
“dificuldades para manobrar em vias fluviais” e às “desconfianças de
Tamandaré para com o aliado argentino”.
A passividade do almirante nasceria também de sua “idade avançada”,
apesar de não ter ainda 57 anos ao assumir o comando no Plata,
enquanto que, ao entrar em Assunção, Caxias cumpriria os 66 anos! O
autor convém que o substituto de Tamandaré não primou também pela
decisão, sem explicar tal fato.
Quando da guerra, com a acusação de que Tamandaré sofresse de
“decrepitude precoce”, criticava-se ironicamente a sua falta de
decisão nos combates.
Acompanham as justificativas do vexame militar imperial no Plata
elogios áulicos dos oficiais maiores. Sobre Osório, lemos: “Seu
retorno ao Paraguai teve efeito psicológico positivo sobre o
Exército imperial, pois esse general gozava de grande prestígio
perante os soldados graças à sua capacidade tática [sic], a coragem
e frieza em combate e pela camaradagem com os subalternos.” Não se
registra como tal prestígio fogueou as tropas imperiais no combate
aos paraguaios e não há referimento às duras críticas sofridas pelo
general, como as realizadas pelo oficial-engenheiro André Rebouças.
Lê-se
sobre Caxias na batalha da ponte de Itororó, em 6 de dezembro de
1868: “[...] Caxias, que acompanhava a luta de uma colina,
desembainhou a espada e aos gritos de ‘Vivas ao Imperador e ao
Brasil’!, lançou-se sobre a ponte, gritando para a tropa que o
seguisse, sendo alvejado [sic] pelas balas dos defensores que
chegaram a matar seu cavalo. Graças a esse ato temerário, Caxias
conseguiu pôr fim à debandada de seus soldados, que, entusiasmados,
retornaram ao ataque e conquistaram a ponte.”
Proposta que abandona de todo a historiografia para abraçar a
legenda militar-patriótica.
Esses
elogios áulicos não são extensivos a Solano López: entretanto, se
explicarmos a produtividade dos exércitos como conseqüência
direta de seus oficiais superiores, posição para nós inaceitável, o
paraguaio mereceria o denominativo de “Napoleão do Prata”, ao
conseguir resistir com escassas tropas mal-armadas, por tanto tempo,
ao enorme esforço militar aliancista!
Retomam-se as explicações da combatividade paraguaia como produto da
repressão; atraso nacional; galvanização carismática. “Durante a
guerra o governo paraguaio estendia a punição daqueles acusados de
falta grave, como tradição, rendição ou deserção, também aos
familiares. [...] todo soldado paraguaio era responsável pelo seu
companheiro de trincheira [...].” Fatos que transforma a “fidelidade
e sacrifícios extremos que caracterizaram os combatentes
paraguaios”, além da sua “combatividade”, fenômenos sem explicação.
Já em
1979, no citado Ensaio sobre a Ditadura do Paraguai, Raul de
Andrada e Silva dissertava longamente sobre a singularidade do
exército paraguaio, “um dos setores públicos que mereceu
preferencialmente os cuidados do governo” do Paraguai independente,
com os “soldos” “superiores aos de qualquer categoria burocrática”.
Tropas formadas através do “recrutamento” seletivo dos “jovens mais
fortes e bem apessoados de cada localidade”, através de um país
essencialmente camponês. Jovens que, ingressando nas tropas como
soldados, podiam ascender aos “postos da hierarquia, cujo maior grau
era o de Capitão”. Portanto, um exército de perfil fortemente plebeu
e nacional, em tudo estranho às tropas imperiais, expressão de um
Estado escravista.
O
Soldado e o Oficial
A
incompreensão do baixo desempenho dos soldados e dos oficiais
imperiais diante da paradoxal resistência paraguaia, sobretudo
quando os soldados guaranis defendiam os territórios nacionais
atacados, deve-se à ignorância das determinações tendenciais dos
exércitos e de seus comandantes pelas estruturas sociais profundas e
suas vinculações com as mesmas. A indiscutível genialidade
militar Napoleão foi produto de forças militares ensejadas pela
França nacional-cidadã parida pela Revolução que identificava a
população à nação e alçava ao oficialato seus homens mais capazes.
A
surpresa de Taunay com formas paraguaias de combate não enquadradas
pela oficialidade era idêntica a dos monarquistas que combatiam os
patriotas franceses: “Usavam [...] de uma manobra nova: deitavam-se
por traz dos acidentes do terreno e daí nos faziam fogo, deixando
ver apenas as cabeças; depois, [...] furtavam-se à nossa vista.”
Luta de homens livres impossível de ser utilizada pelos exércitos
imperiais e argentinos sob a ameaça permanente da deserção.
Por
além da falsa modernidade, as forças armadas imperiais sofreram
sempre a determinação de sociedade escravista não-nacional.
Realidade registrada na visão aristocrática da oficialidade
brasileira da bravura como valor intrínseco, que valorizava ataques
frontais e exposição ao perigo, resultado de mortandades
desnecessárias sobretudo de soldados. Falando dos momentos finais
da guerra, Taunay recordava: “Osório queria atacar logo de frente
desfazendo os meios de resistência do inimigo. ‘Leva-se tudo,
afirmava ele, a cachações num instante.’ ‘Mas por que perder
inutilmente gente?’” – objetava o conde D’ Eu, que servira em
exércitos europeus.
Realidade fixada na ojeriza de Caxias à tropa formada
substancialmente por negros livres, libertos, alforriados, etc., não
adaptados a um exército moderno, devido ao caráter não-cidadão e
não-nacional do Império, e não à má qualidade racial, como
propunha o Barão. Em correspondência confidencial de 13 de dezembro
de 1868, o velho militar, fogueado no combate aos cativos
sublevados, lembrava que: “[...] todas as vitórias alcançadas, desde
que me coube a honra de assumir o Comando do Exército Brasileiro,
têm sido em grande parte devidas ao cuidado com que nunca consenti
que forças nossas, quer de infantaria, quer de cavalaria se batessem
com as do inimigo sem se acharem muito superiores em número.”
Destaque-se no ensaio as interessantes páginas sobre “O açougue
paraguaio”: a impopularidade da guerra”, que retomam a tese
revisionista da oposição da população brasileira livre ao
confronto, o que impediu a constituição do exército nacional
proposto, formado por homens livres voluntários, obrigando o
arrolamento coercitivo e a compra de cativos, sobretudo quando se
esvaíram as ilusões gerais da vitória em alguns meses: “Tais
desapropriações [sic] eram bem pagas, a ponto de talvez terem
apresentado, segundo Sodré, a maior despesa brasileira no conflito.”
130
Anos Depois
Em 23
de novembro de 1994, a Biblioteca Nacional promoveu seminário sobre
a Guerra do Paraguai, sob a coordenação do historiador Carlos
Guilherme Motta, com a participação do historiador inglês Leslie
Bethell; do sociólogo peruano radicado no Brasil Enrique Amayo; do
historiador Fernando Novaes; do historiador argentino radicado no
Brasil León Pomer; do contra-almirante Max Justo Guedes; do
historiador Eduardo Silva; do historiador Francisco Alambert; do
advogado e crítico de arte paraguaio Ticio Escobar e de Alberto da
Costa e Silva, então embaixador do Brasil em Assunção.
Patrocinado pelo Banco Real e pela Fundação Roberto Marinho [Rede
Globo], com introdução especial de Leslie Bethell, o livro Guerra
do Paraguai: 130 anos depois reuniu as breves intervenções
desses destacados intelectuais, sobretudo paulistas e fluminenses,
não raro sem pesquisas específicas sobre o tema. O trabalho
destacou-se sobretudo pela critica do historiador inglês à tese da
influência do imperialismo britânico no conflito, não raro retomada
como palavra definitiva sobre a polêmica historiográfica.
O livro apresenta alentada “Bibliografia da Guerra do Paraguai”, com
trabalhos depositados na Biblioteca Nacional.
Na
introdução “A guerra do Paraguai: história e historiografia”,
profundamente simpática à “Tríplice Aliança”, Leslie Bethell
apresenta a guerra como decisão de Solano López – “erro que traria
conseqüências trágicas para o povo uruguaio” –, motivada por razões
entre as quais o eventual impulso de “personalidade megalomaníaca”
com o objetivo de realizar o “sonho de construir um império”.
Assinala igualmente a “pouca atenção por parte dos historiadores”
que o conflito conhecia naquele então, não apenas no Brasil.
No
texto “O imperialismo britânico e a Guerra do Paraguai”, questiona a
tese da responsabilidade direta e indireta do imperialismo
britânico, que lembra ser perfilhada, no geral ou no particular, por
autores como Eric
Hobsbawm,
André Gunder Frank [1929-2005], León Pomer, José Alfredo Peñalba,
etc.
Registra enorme admiração pela hegemonia mundial do capitalismo
britânico no século 19; questiona a determinação mesmo “informal” da
política sul-americana pelo imperialismo; sugere as vantagens
advindas do relacionamento dos latino-americanos com os
súditos da Rainha.
Quando
à questão em análise, destaca a importância do Brasil e da Argentina
para os interesses do capitalismo britânico na América Latina e a
pouca relevância do Paraguai, certamente em parte devido à
especificidade daquela nação, da Independência até a Guerra, ou
seja, de política estatal de controle público das terras e do
comércio exterior, de sentido profundamente anti-liberal e
livre-cambista e, conseqüentemente, anti-inglês. Assinala o
interesse britânico na “unidade política” da Argentina, ou seja,
apoio à oligarquia portenha e à sua política, e na “manutenção da
livre navegação nos principais rios da região”.
Progresso & civilização
Leslie
Bethell lembra a posição “acentuada e abertamente antiparaguaia” de
sir Eduard Thornton (1817–1906), representante diplomático
inglês no Plata, que acompanhou as confabulações contra o governo
uruguaio “blanco” e defendeu diante da representação paraguaia o
direito de interferência armada do Império no Uruguai. Reconhece
que Thornton, como “também a maioria das autoridades britânicas
apoiavam os Aliados”, pois viam “de modo crítico o regime de López”,
considerando, “em última análise”, a Guerra como incentivadora do
“progresso e civilização contra retrocesso e barbárie”. Ou seja,
meio de imposição do domínio pleno do liberalismo livre-cambista na
região, ao igual do que já ocorria no Brasil e na Província de
Buenos Aires.
Destaca os importantes empréstimos concedidos à Argentina mitrista e
ao Brasil imperial para financiarem a Guerra e o abastecimento
permanente dos exércitos da Aliança em navios, canhões, munições,
armas, etc., que justifica a partir da estranha idéia de que o
capital não se preocupa com a política quando pode lucrar. Aceita
que a “Grã-Bretanha praticamente não fez qualquer tentativa de
mediação” para finalizar com o conflito, mesmo tendo López proposto,
durante a guerra, conceder parte dos territórios reivindicados em
troca da paz.
Os
dados e as reflexões do historiador inglês corroboram a tese de que,
mesmo não sendo a Guerra política incentivada diretamente pelo
governo inglês, o ataque dos governos do Império e da Argentina
unitarista contou sempre com a simpatia e com o apoio dos interesses
britânicos. Primeiro, por “desaferrolhar” região de ordem
“barbárica” anti-liberal, que dificultava o “livre comércio”.
Segundo, devido os enormes negócios que assegurou ao capital
britânico, certamente o grande vitorioso nesse conflito.
Leslie
Bethell conclui sua vigorosa defesa do imperialismo em afirmação que
fusiona simploriamente governos e populações nas suas respectivas
nações, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, apresentando-as como
os únicos responsáveis, ontem e hoje, pela hecatombe: “A
Grã-Bretanha – e as suas supostas [sic] ambições imperialista – não
podem mais ser utilizada como bode expiatório para a Guerra do
Paraguai. A responsabilidade primordial dessa guerra cabe à
Argentina, ao Brasil e, em escala menor, ao Uruguai e, naturalmente,
ao próprio Paraguai. A Guerra do Paraguai foi uma guerra civil [sic]
regional, muito embora com uma dimensão internacional muito
interessante e digna de nota [sic].”
Trabalho apresentado no V Encuentro Anual del CEL. “La
Guerra del Paraguay: historiografías, representaciones,
contextos”. Buenos Aires – 3 de novembro de 2008Mesa
Historiografia: Francisco Doratioto (Instituto Río Branco);
Mario Maestri (PPGH - UPF);
Laura Reali
(U. Paris VII)
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