|
MARISE GÂNDARA LOURENÇO
Mestranda em Teoria
Literária pela Universidade Federal
de Uberlândia.

|
|
O diabo que encanta
Marise
Gândara
Lourenço
Resumo:
O artigo
tem como objeto de estudo o conto popular “Toca por pauta”. Dentre os contos
populares coletados na Paraíba, é um dos que
apresentam
um ser
endiabrado
bem peculiar,
contrariando os padrões convencionais de sua
estirpe. Trata-se de um diabo loiro, de olhos azuis, que
toca um violão de apenas
quatro cordas.
Nesse intuito, realizou-se
uma análise relacionando o tal
diabo com o mito de Orfeu. Conclui-se que
se trata de
um
Orfeu às avessas,
devido
ao hibridismo cultural que o
compõe, confirmando, assim, a sua brasilidade.
O
conto
popular “Toca
por pauta”,
de origem
paraibana, foi recolhido por
Ademar Vidal. Posteriormente, Câmara Cascudo o incluiu em sua obra, Contos Tradicionais do Brasil, como também o
fez Atimar Pimentel em Estórias do diabo. Segundo Câmara Cascudo, grande estudioso da etnografia
brasileira, esse
conto pertence
ao ciclo catequístico, como todos os contos brasileiros
da intervenção
satânica.
Porém, em
sua obra
Contos Tradicionais do Brasil, ele se encontra
na classe de
contos
do “Demônio Logrado”.
Nessa
coletânea
de contos
brasileiros,
Câmara Cascudo declara ter tido o cuidado
de não
alterar
vocabulário algum
dos contos e de
manter, na maioria
dos casos, a
linguagem original
dos narradores. Isto não quer dizer que Altimar
Pimentel não tenha sido fiel ao narrador. Mas,
por ser sua versão do conto mais próxima da oralidade,
ele oferece outras possibilidades de enredo e explicita o pacto com o diabo.
Pacto
este que,
em Câmara Cascudo, é tratado de
forma dúbia e
obscura, dando
margem
à dúvida, ao
fantástico.
Assim, por
estas razões, a
versão
do conto “Toca
por pauta”
escolhida para
este
estudo é a de Câmara
Cascudo.
O referido conto
tem como
ponto
central a
particularidade
do diabo ser
loiro de olhos azuis, contrariando a
imagem
popular do Coisa
Ruim:
um
negro chifrudo,
de nariz
adunco, expelindo fogo
e fumaça,
pé de pato,
cauda terminada com
uma seta,
aparência
de morcego,
espeto
na mão e cheirando a
enxofre.
Além da aparência
nórdica, esse
ser sobrenatural
toca um instrumento musical bem ao gosto do povo –
um violão
com apenas
quatro cordas.
E, assim, o
tal
capeta encanta
a todos
em
vez de assombrar.
A literatura oral do Brasil tem como
fontes
fundamentais
a cultura portuguesa, as culturas indígenas,
principalmente as da família lingüística tupi-guarani, e as culturas
africanas – os povos
sudaneses e os bantos. Essas fontes
primárias, embora possam
ser
observadas por
todo
o território
brasileiro, permaneceram mais
puras nas regiões Norte e Nordeste, sendo que
em outras regiões,
como o Sul e o
Sudeste, houve contribuições
suplementares provenientes das culturas alemã, italiana, sírio-libanesa, japonesa, entre outras. Dessa forma, para melhor compreensão do legado
dessas culturas, Pimentel
apresenta, em seu livro O diabo e outras entidades
míticas do conto
popular, a abrangência das
manifestações da literatura oral brasileira, por
meio de uma divisão
realizada por Edison Carneiro e outra
por Renato Almeida.
A de CARNEIRO
compreende a seguinte
divisão: a)
gesta
- composição
poética, em
forma de canção,
que narra os
feitos,
reais ou
lendários; b)
missiva
- cartas,
bilhetes; c) paremiologia –
provérbios; e d) pasquins – (textos
satíricos colados
em
público) e literatura
de cordel.
Enquanto
que a divisão
de ALMEIDA compreende: a) Contos;
b) paremiologia - c) poesias;
d) romances; e) desafios;
f) cantigas infantis; g) mitos e lendas;
h) réplicas,
eufemismos, ápodos (ditos
irônicos) e xingamentos;
i) mímica; e j)
teatro de fantoches.
Pimentel faz questão de citar essas divisões não porque conflitam entre
si, mas
por serem
complementares, oferecendo um
panorama
da literatura oral mais próximo da realidade. Como se
pode observar, o
conto
é um dos
elementos
que compõem a
literatura
oral brasileira,
que tem como
características a
antiguidade, o anonimato, a
oralidade e a persistência. Segundo
Salvatore, o conto reflete as inclinações do ser humano para o maravilhoso: o sonho
com a bondade,
a justiça, a
verdade, a beleza
física
e espiritual, o
amor
romanticamente vivido. É a expressão da psicologia
coletiva, a prática
da ideologia conformista - o triunfo do bem sobre o mal,
rompendo as barreiras do real. Não se
conhecem o narrador, o autor,
e as personagens são
designadas pelas
funções
que exercem. As
categorias
de tempo e
espaço
são indeterminadas. O
processo
de enunciação se dá in
praesentia: o contador revela o enredo da
história
diretamente
para o ouvinte,
usando não
só
o código
lingüístico,
mas também
o cinético, o dramático e o fonético. E o receptor
participa ativamente fazendo perguntas e comentários.
O
conto
popular revela
informações
histórica, etnográfica,
sociológica,
jurídica,
social. É
um
documento
vivo, denunciando
costumes,
idéias,
mentalidades,
decisões e
julgamentos (CASCUDO,
1986, p.15).
Para
todos
nós, é o
primeiro
leite
intelectual. Os
primeiros
heróis, as primeiras
cismas, os
primeiros
sonhos, os
movimentos de
solidariedade,
amor,
ódio,
compaixão, vêm
com as
histórias fabulosas,
ouvidas na
infância. A mãe-preta foi
a Sheherazada
humilde das
dez
mil
noites,
sem
prêmios e
sem
consagrações (CASCUDO, 1986,
p.16).
São a mãe-preta, o matuto,
o habitante dos
antigos
engenhos, o homem
do sertão,
indivíduos
pertencentes às camadas sociais mais baixas da sociedade, que persistem na oralidade,
fazendo com
que
o conto fique
velho
na memória do
povo, a ponto de
não
se saber quem
o contou primeiro.
Assim,
atendendo ao caráter
brasileiro do conto,
aos requisitos
técnicos
modernos, Câmara
Cascudo classificou o conto
popular, seguindo os critérios da “simplicidade
e da lógica”,
como: a) contos
de encantamento
– são
contos
de fada; b)
contos
de exemplo – os
contos
de fins moralizantes; c) contos de animais
– as fábulas; d) facécias –
as anedotas; e) contos
religiosos – os
contos
de interferência
divina; f)
contos
etiológicos –
aqueles
que explicam a
origem
de animais,
hábitos; g) contos
do demônio
logrado; h) contos de adivinhação; i) contos
de natureza denunciante – aqueles nos quais o crime é
revelado pela
denúncia
de ramos,
animais
etc; j) contos acumulativos –
os de episódios sucessivos;
e l) contos do
ciclo
da morte – nos
quais a morte
é sempre vencedora.
Nos “contos
do Demônio logrado”,
firma-se
um contrato
com o diabo, e
ele é sempre
vencido. Foi nessa
classe de contos que Câmara Cascudo enquadrou o “Toca por pauta”. Nesse conto,
o capeta é vencido pelo poder da palavra Credo e pela evocação
de Nossa
Senhora, explicitando a influência
da cultura
portuguesa e seu
cunho
colonizador pautado na catequese. Além disso, vale ressaltar que toda a crença em fantasmas, toda a fauna noturna, almas penadas são configurações do anjo-mau português,
deturpadas pela
impressão
popular e potencializadas
pelo
medo do negro.
Dessa forma, compõem
esse
mosaico demoníaco o
Jurupari
(de origem
indígena, transformado no diabo
pelo
português), o Anhangá
(veado
branco
com
olhos de fogo),
o Curupira (menino
muito peludo,
cabelos vermelhos,
com pés
virados para trás), o Saci-pererê, entre
outros. Retornando ao
diabo
propriamente dito,
ele
se apresenta no Brasil na configuração humana e animal
(gato,
cachorro
etc). Sob a
forma
humana, sua
aparência se diversifica. Vai desde um
negrinho
anão de barba
pixaim e cauda
para cima ao moço loiro de olhos
azuis do “Toca
por
pauta”.
O conto “Toca por pauta” tem início com a apresentação do mestre
Narciso, com
seus oitenta e
tantos
anos, quase
todos dedicados à
pescaria, à luta
com
o rio e o oceano.
Ele é senhor
dos segredos existentes nas rotas de sua preferência e, hoje, acha melhor trabalhar de dia e deixar a noite para o descanso. Mas houve época em que preferia
trabalhar à noite.
A escuridão da
noite
não só
propicia colher
bons
frutos, como
também o trânsito
livre dos
fantasmas
que povoam o mar,
sendo, neste caso,
necessário
ter muito cuidado e atenção
para não provocar incidentes
desagradáveis.
Durante o período em que sua atividade pesqueira era noturna, o mestre
Narciso acostumou-se a
dar
passagem, em
seu pequeno
barco, a um “personagem estranho”:
um moço
loiro de olhos azuis, que tocava um violão com apenas quatro cordas – faltavam as notas
ré e dó.
Embora a
esquisitice
de tal
instrumento
o intrigasse, não negava a condução, pois apreciava a conduta do moço,
de apenas
tomar
passagem na
embarcação
e solar seu instrumento dolentemente.
Seus dedos
mágicos tiravam uma sonoridade suave, dulcíssima, com
harmonia tocante,
que abrandava e enlevava todos os que
estivessem perto e
ainda
despertava prazer
quando
tocava trechos
conhecidos.
Narciso não só admirava sua
performance violonística fora do comum, como também sua paciência.
Estava sempre à
espreita, sabia a hora
e o lugar
de passagem e, se houvesse atraso, lá
estava ele,
cansado,
mas paciente,
com a cara
boa e alegre. O
mestre
gostava mesmo daquela companhia. Sua música “até o
distraia”, tornando o trabalho
leve
e mais
atrativo. Considerava o diabo
seu
camarada, mesmo
que nunca
tivesse lhe dirigido a palavra. Durante
a viagem,
cada
um ficava sempre
no seu
canto.
Mas essa
separação
não duraria muito.
Depois de matutar muito,
mestre
Narciso resolveu
perguntar
a razão da
falta
das cordas
ré
e dó
em
seu violão.
Assustou-se, pois o
passageiro
ficou colérico. Saíram lâminas de fogo
de seus
olhos
azuis. E o moço deu
um
basta naquela conversa,
dizendo que se quisesse
ser
amigo dele, não
falasse naquilo.
Depois do acontecido, mestre
Narciso arrependeu-se de
ter
se metido
em
negócio com
fantasma. Por
que não
prolongou a distância que sempre
manteve daquele ser misterioso?
Por
que tinha
que conversar
com aquela
visagem
simpática, que,
até então,
não lhe
fizera nada de
mal?
Mas agora
a situação havia mudado.
Deveria haver uma explicação plausível para a existência daquele instrumento
enigmático. Revolveu procurar
um
amigo professor
e ex-pescador, que ficou muito espantado por
ele ainda
não ter ouvido histórias
sobre aquele
rapaz. Era
um assunto
muito divulgado.
Então, o ex-pescador o orientou a
fazer
àquele indivíduo
estranho a
proposta
de colocar uma
letra
antes dos nomes
das cordas
que
faltavam em
seu
violão. E terminou exigindo que voltasse à casa
dele para lhe
contar o resultado
de sua
empreitada.
Mestre Narciso
aceitou. Queria desvendar o
mistério,
mas estava com
medo do fantasma reagir com violência, usando seus
poderes
sobrenaturais. Hesitou, mas
não
tinha saída.
Era um
homem de palavra.
Anoiteceu, e mal entrou em seu barco, o rapaz loiro de olhos
azuis estava lá. Tomou seu lugar na embarcação, satisfeito
e alegre.
Conforme
havia combinado com
seu
amigo, mestre
Narciso disse ao
moço
que ficaria bem
colocar a letra
C antes
do ré e
dó.
Em seguida,
o rapaz perguntou
quem
havia dito
aquilo. O pescador
disse que
tinha sido
Nossa Senhora.
Neste momento, o
rapaz
caiu na água e ferveu. Era como se
fosse aço avermelhado e esverdeado pelo fogo entrando em
águas profundas. O
mestre
ficou amedrontado com o temporal que se
formou. Quando
tudo
voltou à serenidade, sentiu muito ódio por ter perdido a amável companhia.
E finalmente foi
ter
com seu
amigo.
O ex-pescador ficou
surpreso com
a confissão do
mestre.
Ele confessou que
estava indignado com a perda de seu camarada músico.
A alegria daquele
rapaz, nas horas
mansas, e sua
confiança ante
o perigo
só
lhe faziam bem
ao coração.
Segundo
ele, o moço
certamente não
gostava de ouvir a
palavra
Credo
e nem amava
Nossa Senhora, mas “tocava por
pauta - tocava esplendidamente”.
O mito do diabo tem origem na Antigüidade e sua
relação
antagônica
com o bem sempre esteve presente tanto nos temas orientais
quanto nos
cristãos. De
acordo
com Pimentel, o diabo,
antítese de Deus,
popularizou-se na Idade
Média
por meio
dos Ministérios,
nos
quais a sua
presença era tão importante quanto a dos membros
celestiais.
Graças
a essa popularização do Diabo, a sua figura foi
disseminada pelo Brasil, constituindo-se
uma das mais interessantes
contribuições
portuguesas para o
folclore
nacional. O diabo
e o Deus do
branco, a cruz
e a espada
chegaram juntos ao
nordeste
do Brasil, na caravela de
Pedro Álvares Cabral. E, logo
na primeira
missa, o Diabo
já se manifestara, desviando a atenção dos portugueses para
a nudez das
mulheres
nativas.
Os sacerdotes que
vieram na expedição de Cabral
usaram amplamente os recursos
do teatro
para
encenar as lutas
de Deus
contra
o diabo, adaptando os
seus
autos à
mentalidade
do índio e,
depois, à do crioulo,
com
o objetivo de catequizá-los.
Pimentel ressalta que, nessa
época, o prestígio
do Diabo
era enorme,
“estava no apogeu de sua fama, respeitado e
temido no mundo
inteiro,
personagem
central
de tudo
quanto
era lenda,
estórias e
crendices
armazenadas desde o
começo
do mundo” (SOUTO MAIOR apud
PIMENTEL, 1995, p.17). Essa universalidade
que
recai sobre a
figura
do “dito
cujo”, as suas
diferentes
configurações e
manifestações
propiciaram o caráter múltiplo de comportamento
(desde o de
valor
punitivo ao do
bom
samaritano) e de aparência
do diabo brasileiro,
sendo esta, às vezes, mais próxima do
humano.
O fato de o diabo do “Toca por pauta” vestir-se de moço
branco e de olhos
azuis – sinônimo de
bondade
– e de sua
música
encantar e proteger
trata-se
apenas de uma
artimanha
diabólica? A
falta
das cordas
ré
e dó
em
seu violão
é porque é
simplesmente
um instrumento
do diabo? O aspecto fantástico está no personagem
ou em
seu instrumento
musical?
Partindo do pressuposto
de que
a mitologia
greco-romana
é o acervo da
civilização
ocidental, considerada clássica no sentido
universal, modelar, e porque sem ela seria impossível
imaginar a origem
da tragédia, da
música
e das artes
plásticas, é possível
relacioná-la ao tal moço loiro.
Assim, observa-se
que o rapaz
do conto
popular
e o Orfeu guardam semelhanças evidentes, a saber: a) o moço e Orfeu são
músicos, tocam um
instrumento de
cordas
(o diabo brasileiro toca violão e Orfeu a
lira); b) encantam e protegem todos que ouvem
sua música;
e c) vão ao
inferno.
Além disso, os
seus
nomes têm
significados, de certa
forma,
próximos: o diabo
é o rei das
trevas
e Orfeu é o obscuro, o
tenebroso. E ambos
têm relação
com água
e barca:
água
significa, ao mesmo
tempo,
fonte de vida
e de morte, e a
barca
é o símbolo de
travessia
dos vivos
ou
dos mortos.
Orfeu, poeta e músico, nasceu
da relação de Apolo (Deus da luz do sol e da inteligência, da música e da poesia)
com a musa
Calíope, numa montanha da
Trácia. Cantando ou tocando
sua
lira, acalma os
ímpetos
da natureza e
encanta
os animais,
plantas
e pedras,
enfim,
todos que
o ouvem. No primeiro mitema, Orfeu
participa da expedição à Cóquida (região
da Ásia Menor)
com
os Argonautas,
em
busca do Velocino de
Ouro, consagrado por
Júpiter,
cuja posse
garante poder e prosperidade.
Com
sua magnífica
música, Orfeu
tira
o navio Argo de
um
atoleiro, serena
o vento e impede
que
os marinheiros sejam
enfeitiçados pelo canto das sereias.
Na segunda parte
do mito, a
mais
conhecida, Orfeu é
casado
com Eurídice. Em
uma ocasião, Eurídice,
fugindo do assédio de Aristeu, é picada
por uma serpente.
Orfeu, desesperado pela
morte
da amada,
com
uma melodia
pungente, convence o barqueiro
a levá-lo ao rio Estige, a porta
do inferno.
Então, desce ao inferno
em
busca de Eurídice. Chegando lá, a sua voz melancólica comove Hades e,
principalmente,
sua esposa,
Persófone, que permitem a volta de Eurídice ao mundo
dos vivos,
mas
com a condição
de que Eurídice caminhe atrás de Orfeu e que
ele não
olhe para trás.
Orfeu, em
um dado momento, não
resiste, olha
para
trás e Eurídice é engolida pelas trevas.
Como
se pode observar, o enredo do mito
confirma as suas
semelhanças
com o conto
“Toca por pauta”. O diabo, a visagem simpática do conto,
que encanta
em vez
de aterrorizar, aproxima-se do
mito
grego. As duas
histórias
têm como
cerne
a música,
cuja
função simbólica é a de
alargar
as comunicações
com
o divino. O diabo usa esse instrumento de comunicação
com o celestial
para encantar o terreno, e o herói
(o semideus), para encantar o infernal. O discurso
musical é explorado em todo o seu potencial. Encanta,
acalma e provoca identificação.
No conto, a música
instrumental, possivelmente erudita, encanta e acalma a todos
e provoca identificação quando o diabo apresenta uma
música conhecida.
Em Orfeu, o seu
canto e sua
lira acalmam, encantam enquanto a melancolia de sua voz leva à identificação.
O conto popular, como um documento vivo, transita do oral para o escrito,
cumprindo o seu
papel
de revelar e perpetuar costumes, crenças
de um
povo.
Isso acontece
também
com a mitologia.
A primeira
notícia
que se tem do
nome
de Orfeu é a que consta em um fragmento do poeta Íbico nos finais do século VI a.C. Os poetas
trágicos também
o evocam. Em Agamenon,
Ésquilo, pela boca de
Egisto, dirige-se a Corifeu:
“Mais lágrimas
farão brotar tuas
palavras! A voz
de Orfeu não
era em
nada igual
à tua: enquanto
ele
subjugava os seres
todos
com o encanto
de uma fala
irresistível, a tua
vociferação te
perderá. Logo hás de ver-te
dominado pela força!
(ÉSQUILO, 1964, p. 68). Pode-se comprovar
a perenidade do mito de Orfeu pela sua constante presença na literatura contemporânea, em José Gomes Ferreira,
Sophia de Mello Breyner e Miguel Torga, na
pintura
(Picasso, Rubens, Delacroix, Bellini, Carrachi, Bruegel de Velours,
J. Moreau, Zadkine) e na música
(Monteverdi, Gluck, Malipiero, Offenbach e Milhaud).
Além
da similaridade
entre o conto
popular e a
mitologia, no que
se refere ao trânsito
do oral para o escrito, vale ressaltar também que o mito
grego-romano é uma história
fantástico-religiosa de criação coletiva
e anônima,
história
sobre entes
sobrenaturais que
povoam a imaginação dos povos, coincidindo com
as características do conto popular.
Assim, baseado em o tudo o que já foi exposto,
pode-se dizer que
o diabo, travestido de
bom
camarada, não
se trata
apenas
de artimanhas demoníacas, mas de um Orfeu
à brasileira, às
avessas. Enquanto
o tinhoso
é do reino dos mortos
e se relaciona com os vivos (povo da terra), o Tenebroso é vivo e se relaciona com
o mundo dos
mortos
(o inferno).
O
instrumento
que esse
Orfeu às avessas
toca
é realmente
um
violão? O moço
é o diabo
ou não?
São perguntas
que podem surgir
durante a leitura
do conto.
Segundo
Todorov, a dúvida do leitor é o principal elemento que
define um
conto
como fantástico.
Não
basta ter no
conto um
ser sobrenatural.
Deve haver também
a hesitação, a
dúvida. A hesitação pode
estar presente apenas no leitor, o que não é o caso, pois Narciso,
mesmo sabendo
quem
é aquele misterioso
ser,
nega o fato devido à admiração
que nutre pelo
rapaz e busca
uma explicação
para
o inexplicável. E, no final, potencializa o
inexplicável
pela sua
atitude de explicitar o pacto de forma dúbia e obscura:
tocar por pauta significa, ao mesmo
tempo, tocar por música (tocar música erudita) e tocar por pacto. No nordeste, a palavra
“pauta” significa
pata.
Pegar na pata
do diabo é fazer pacto com o “dito cujo”. Narciso pegou na pata
do diabo?
A
hesitação
é essencial
para
que haja o
fantástico, o estranho,
o misterioso. Se se considerar que a “estranheza” do conto
“Toca por pauta” se encontra
apenas no violão
nada convencional
e que
ele
é o único provocador do conflito, estar-se-á cometendo
um
grande erro. O
violão só
é musical nas mãos de quem o toca. Depende do modo como o instrumento musical é tocado para
garantir a comoção,
o encantamento. Dessa
forma, o moço e
seu
violão formam um
conjunto enigmático, cujos elementos
são inseparáveis.
De
acordo
com o conto,
uma das duas cordas
que
faltam no instrumento do moço é a nota dó. Não existe violão com esta
corda. As cordas
soltas do violão
são seis
e se chamam mi,
si,
sol, ré,
lá e mi.
Mas não
se pode contrariar a
crença
popular, pois
“a voz do
povo
é a voz de
Deus”. É por
meio
do tal
instrumento
fantástico que
o diabo dialoga
com
o mundo
terreno, e a existência
das notas
ré
e dó dá
margem
para se formar a palavra Credo, evocar Nossa Senhora e possibilitar o logro. O poder do Credo (símbolo
do Cristianismo)
ou
do credo-em-cruz! ou
cruz-credo! ou creio-em-deus-pai! confirma
que
esse violão
é do capeta.
A
catequese
cristã penetrou na mentalidade
do povo brasileiro no século XVI e continua a sua
caminhada por
meio da cultura
popular, oral
e anônima. O
Diabo
brasileiro, no conto
“Toca por pauta”, retrata
o poder de sedução
da arte e celebra as crenças,
a identidade de
um
povo. O Orfeu às
avessas
com seu
violão,
instrumento
musical mais
popular
no Brasil, exalta a influência da cultura portuguesa e da
mitologia
greco-romana, legitimando a sua brasilidade.
Referências
BARTHES, Roland; MARTY, Eric.
Oral/escrito. In:
ENCICLOPÉDIA Einaudi. Porto: Imprensa nacional – casa
da moeda, 1987. v. 11, p. 32-
57.
BRUNIEL, Pierre (Org.).
Dicionário de mitos
literários. 2. ed. Brasília: UNB,
2000. 939p.
CASCUDO, Luis da
Câmara. Contos
tradicionais do Brasil. Belo Horizonte:
Itatiaia; São Paulo: Edusp,
1986. p.15 – 24; 273 – 276.
__________.
Literatura oral
no Brasil. 2. ed. Rio de
Janeiro: José Olímpio, 1978. p. 185 – 329.
__________.
Superstição no Brasil.
Belo
Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p. 305 – 367.
CHEVALIER, Jean.
Dicionário de símbolos.
19. ed. Rio de
Janeiro: José Olympio, 2005 p. 996p.
COSTA,
José Felix. Descida
aos Infernos: Orfeu na literatura
em Vergílio e Ovídio e na
literatura
portuguesa, em Camões. 2005. Disponível: <http://fgc.math.ist.utl.pt/jfc.htm>.
Acesso em
01 jul. 2008.
D’ONOFRIO, Salvatore.
Pequena
Enciclopédia
da cultura
ocidental: o saber
indispensável, os mitos
eternos.
Rio de janeiro:
Elsevier, 2005. p.78 – 81; p. 376 – 383; 416 – 418.
ÉSQUILO. Agamênnon.
Tradução
Mario da Gama Cury.
Rio
de Janeiro:
Civilização
brasileira, 1964. 75p.
FOULLOUX, Danielle.
Dicionário cultural da
bíblia. Tradução
de Marco
Bagno. São Paulo: Loyola,
1998. 287p.
GANDON, Odile.
Deuses e heróis
da mitologia
grega
e latina.
Tradução
de Mônica Stahel. São Paulo:
Martins Fontes, 2000. 285p.
MELO, Veríssimo de. O
conto
folclórico no Brasil.
Rio
de Janeiro: Funarte, 1976.
16p.
PIMENTEL, Altimar de Alencar.
Estórias do diabo. Brasília: Thesaurus, 1995. 160p.
__________. O
diabo e outras entidades
míticas do conto popular.
Brasília: editora
de Brasília, 1969. 101p.
TODOROV, Tzvetan.
Introdução à literatura fantástica. Tradução
de Maria Clara Correa
Casttelo. São Paulo: Perspectiva,
1992. 188p.
|
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)
|