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ELIANE ALVES LEAL
Mestranda
em História Social, Universidade Federal de Uberlândia, bolsista
Capes e integrante do Núcleo de Estudos Sociais da Arte e da
Cultura.

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Leandro Gomes de Barros e o Demônio logrado na Literatura de Cordel
Eliane Alves Leal
As
múltiplas possibilidades inerentes ao Cordel incitam pesquisas que
buscam ali vestígios do passado, com vistas a compreender como o
olhar criativo do autor lê sua realidade e a devolve em forma de
versos. Leandro Gomes de Barros é um cordelista que permite
vislumbrar posturas diante do mundo. Dentre seus inúmeros textos a
escolha recaiu sobre A Peleja de Manoel Riachão com o Diabo
(1899). A temática central gira em torno de um duelo repentista
entre o violeiro Manoel e um estranho, que mais tarde descobrimos
ser o Diabo, seduzindo Riachão a compactuar consigo. Assim, o Cordel
funciona como elo de inteligibilidade entre Arte e Sociedade.
A Literatura de Cordel pode ser
definida assim: “Poesia narrativa, popular, impressa”. Definição
singela e reduzida é claro, mas congrega infinitos caminhos
percorridos pela criatividade de cada autor. É, pois essa
multiplicidade de escolhas que garante a variedade de temas e
estilos. Há, porém, algo em comum nos folhetos: eles não são
escritos para a leitura silenciosa ou em voz baixa. O Cordel é o que
Márcia Abreu (1999) chama de mistura entre teatro e literatura. A
oralidade ali presente exige sua dramatização. Por isso, Joseph M.
Luyten diz “a possibilidade musical tem de estar presente mesmo que
o poema seja somente declamado”. (2007: 54).
Apesar de
tamanha importância lançada
à voz, Cantador de Repente e
Cordelista não são sinônimos. Leandro Gomes de
Barros não é um repentista, mas na Peleja
utiliza esse recurso. Compõe a narrativa
de Riachão sob o prisma do
duelo de repentes, onde o protagonista é atraído pelo
Diabo por
meio
da disputa
em
versos acompanhados de uma viola, uma vez que tanto Manoel
quanto seu
adversário são exímios tocadores.
Leandro é um dos pioneiros da poesia
de cordel no Brasil. Nascido em Pombal, na Paraíba, em 1865, foi
autor, editor e proprietário de uma gráfica. Enveredou-se por
diferentes estilos e temas, mesclando as “histórias
dos grandes
livros”
com sua
capacidade
criativa
e intelectual. Na
Peleja o poeta
combina sua
imaginação
ao “tecido fáustico” (FERREIRA, 1995).
Ou seja, ele faz uso do tema do demônio
logrado pelo ser humano e cria
uma versão
peculiar
a partir de sua
leitura de mundo.
Luyten (2007) ao buscar as
origens
dessa literatura
até
a contemporaneidade incorre na questão de
percebê-la descolada de uma cultura erudita, ou seja, ele a
idealiza. Não é
possível
enveredar por
este caminho, pois
apesar
de alguns
autores
terem pouca ou nenhuma escolaridade, eles
têm contato
com
esse tipo
de cultura e literatura. É o
que Mikhail Bakhtin (1999) chama de circularidade cultural. Essas
influências diretas e/ou indiretas aparecem nas produções de
Leandro, pois a obra
literária apresenta as contradições sobre as quais
o social é construído. (CHARTIER,
2003) Abreu, perspicazmente, diz que “distinções clássicas entre
campo e cidade, cultura popular e cultura de elite parecem diluir-se
perante os folhetos”. (1999: 95)
A produção literária de Leandro
“mesmo quando utiliza temas da tradição, é extremamente criadora,
levando em conta a realidade, a visão de mundo, o sistema de
valores, a moral e as crenças da gente a quem é destinada essa
poesia – gente que pertence ao mesmo mundo de seus criadores”.
(MEYER, 1980: 9) Todavia, mesmo que sua poesia
seja dirigida e “pertença a um mundo”, vale sempre lembrar que a
escrita literária é polissêmica e, portanto, a sua recepção é
bastante ampla e variada.
Estruturalmente, o conto se apresenta
em forma de “repente pé-de-parede”, o que de maneira alguma a
classifica como tal. Uma vez que o cordel não tem sua base no
improviso, tal como o repente, mas é escrito em folhetos e
declamados. A palavra “peleja” aquirefere-se diretamente à disputa entre Manoel Riachão e o
Diabo. Márcia Abreu diz que os desafios ou pelejas “são debates
poéticos em que dois cantadores enfrentam-se, devendo dar
prosseguimento aos versos apresentados pelo oponente, sem se
retardar na composição de sua fala”. (1999: 73) Em seguida Abreu
refere-se ao fim da disputa: “encerra-se quando um dos antagonistas
declara-se incapaz de prosseguir ou, simplesmente, pára de cantar
por não encontrar uma resposta adequada”. (Idem, p.74).
Dito isso, embrenhemo-nos por um dos
muitos temas deste cordel: o demônio logrado por um tocador de viola
fiel aos princípios católicos. Manoel Riachão, cantor de repentes,
estava em Açu quando lhe apareceu um negro de aspecto suspeito
convidando-o para um duelo de repentes. Se, a princípio, ele resiste
o que se vê no decorrer do conto é a peleja acontecer.
A figura do demônio, nesse sentido,
como destaca Luciana G. de Carvalho, é “um personagem temido e
querido ao mesmo tempo, e que não vive nas profundezas dos infernos,
mas suficientemente próximo dos humanos até para se deixar enganar
por eles”. (2003: 4) Nesse sentido, é possível observar que o
demônio, em geral, nas poesias e no imaginário popular, é passível
de ser ludibriado pelo ser humano. Em A Peleja o “dito cujo”
surge para Riachão como um “criado”, pronto a servi-lo nos mínimos
desejos. Assim, o diabo não é “exclusivamente a personificação do
mal, mas um elemento que convive com as pessoas do povo”.(LUYTEN, 2007: 54)
O Diabo propõe as “delícias terrenas”
e a felicidade material: “Faço tudo que quiser/minha força é sem
limite/os feitos por mim obrados/não vejo homem que os cite/eu
determino uma cousa/não há força que evite (BARROS, 2001: 3) Diante
da indiferença, o demônio apresenta as falhas divinas, com o intuito
de convencê-lo de que ao seu lado, todas essas carências serão
sanadas: “Riachão, amas a Deus/sendo mal recompensado/Deus fez de
Paulo I monarca/de Pedro um simples soldado/fez um com tanta
saúde/outro cego e aleijado! (idem, p. 14) Outra vez há uma negativa
de Manoel. Desse modo, duas especificidades aparecem: a confiança
que Riachão deposita em Deus; 2) a aceitação da condição humilde
como vontade divina. Essa postura adotada por Leandro é comum, pois
de modo geral os poetas têm filiação católica.
É interessante nessa peleja o fato de
que o sertanejo, com astúcia e fé, não se deixa intimidar ou ser
enganado pelo “Cão Danado”. Como era de se esperar, ao ver todas as
suas falas replicadas o demônio se enfurece. Usando sua argúcia,
Riachão recorre àquilo que assusta realmente o diabo, ou seja, apela
para os princípios cristãos, em especial, para a figura de Maria, e
grita: “Jesus!/homem Deus sacramentado/valha-me a Virgem Maria/a mãe
do Verbo Encarnado!
(idem., p. 15)
Nesse instante o
diabo desaparece, deixando um cheiro de enxofre no ar e Manoel
reforça sua
“cisma”
diante
de cantores
estranhos. Neste caso,
o Demônio
é logrado antes de selarem o pacto. Em verdade, ele não chega a ser proposto de maneira explícita, diferentemente do que ocorre em
outras versões cujo
pano
de fundo é o “tecido fáustico”.
O logro não
acontece no pós-pacto e arrependimento, ou na pós-perda da alma. Riachão se mostra inflexível
diante das
tentações
do demônio e
fiel
aos princípios
cristãos.
Mas será que
Manoel tem uma postura tão rente assim?
A essa pergunta é
preciso responder
com uma dose
de cautela e outra de malícia. É curioso
que, mesmo
se recusando, num primeiro
momento, a duelar
com um “negro estranho”, o protagonista
desse conto se
deixa
enredar pelo Repente.
Nesse
sentido, o que
é caro a Riachão
não
são bens
materiais ou
ascensão social,
mas o que
lhe dá prazer é cantar
e tocar, afinal, está na
profissão há vinte anos e se afirma como
exímio repentista.
Assim, Manoel consegue um parceiro para duelar, cuja astúcia
e talento
lhes
colocam em
patamares
iguais, o que,
de uma maneira
peculiar
acirra a peleja. Isso significa que o logro
acontece durante essas réplicas, pois Riachão satisfaz
seus
desejos de
Repentista
ao angariar um
parceiro que
duela de “igual
para igual” e
lhe oferece um
desafio que é
vencido. Aliás, além de não perder a alma e se render aos caprichos do demônio,
Riachão tem uma história
interessante a ser contada: sua peleja com o diabo.
Referências
ABREU, Márcia. História de Cordéis
e Folhetos. Campinas/SP: Mercado de Letras: Associação de
Leitura do Brasil, 1999. (Coleção Histórias de Leitura)
BAKHTIN, Mikhail. A Cultura Popular
na Idade Média e no Renascimento: O Contexto de François
Rabelais. 2ª ed.. São Paulo/Brasília: HUCITEC/Ed. da UNB,
1993.
CHARTIER, Roger. Formas e Sentido.
Cultura Escrita: entre a distinção e a apropriação. Campinas,
SP: Mercado de Letras; Associação de Leitura do Brasil (ALB), 2003.
– (Coleção Histórias da Leitura).
FERREIRA, Jerusa
Pires. Fausto
no Horizonte (Razões
míticas, texto
oral, edições
populares). São
Paulo: Educ/Hucitec, 1995.
LUYTEN, Joseph M. O Que é
Literatura de Cordel. São Paulo: Brasiliense, 2007.
MEYER, Marlyse. Autores de Cordel.
São Paulo: Abril Educação, 1980.
Mestranda
em História Social, Universidade Federal de Uberlândia,
bolsista Capes e integrante do Núcleo de Estudos Sociais da
Arte e da Cultura.
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