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JOHN
KENNEDY FERREIRA
Professor das Faculdades de
Guarulhos e da PM São Paulo e Mestre em Ciências Políticas-
PUC/SP - Pesquisador do Neils

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A I Conferência
dos Partidos Comunistas
da América Latina:
a questão indígena
formulada por José Carlos
Mariátegui
John
Kennedy Ferreira
Durante
a realização do VI Congresso da Internacional Comunista (IC), em
1928, foi aprovada a convocação da I Conferência dos Partidos
Comunistas da América Latina. O objetivo desta reunião era dar
impulso à criação de Partidos Comunistas no continente e fortalecer
o relacionamento entre o Comintern e seus afiliados, considerando a
grave crise que vesperava o capitalismo. O encontro contou com a
presença de 35 delegados e dirigentes da Internacional Comunista, e
os trabalhos foram coordenados pelo destacado dirigente
ítalo-argentino, Victório Codovilla. (Löwy, 1999. p21)
A pauta das
discussões foi organizada em oito pontos. José Carlos Mariátegui foi
encarregado de apresentar três: Antecedentes e desenvolvimento da
ação Classista; O problema das raças na América Latina e
Ponto de vista antiimperialista.
Mas, por conta de sua enfermidade, José Carlos Mariátegui não pôde
estar presente. Estes pontos foram apresentados pela delegação
peruana, composta pelo líder sindical Júlio Portocarrero e pelo
médico Hugo Pesce. Como observa Leila Escorsim, tratava-se de uma
primeira reunião convocada para debater a situação política e
a organização partidária. Durante este debate, foram feitos acordos
e ocorreram desacordos entre os participantes. (PCEr, 2007)
O encontro
envolvendo o ponto de vista do Secretariado e da delegação peruana é
motivo de ampla polêmica e tem gerado um volume imenso de opiniões,
especulações e discussões. Muitas delas apontam para uma possível
ruptura entre Mariátegui e a III Internacional (Bellotto & Correa,
1982; Alimonda, 1983; Quijano, 1981; Kohan, 1998; Löwy, 1999).
Pode-se
notar que houve diferenças sobre a participação ou não dos
comunistas peruanos no plebiscito envolvendo os territórios de Tacna
e Arica, perdidos na Guerra do Pacífico,
uma vez que o tratado de paz colocava a possibilidade de uma
consulta junto à população local, para pronunciar-se sobre qual país
detinha a soberania sobre estes territórios. Os comunistas peruanos
não viam o plebiscito como importante para o proletariado (Quijano,
1991: p.198).
Igualmente,
Escorsim chama atenção para o fato de que o centro do debate
programático teve como pauta a separação feita pelo Partido
Socialista do Peru (PSP) entre programa “mínimo e máximo”, e
que foi proposta pela Internacional a mudança de tal item. Houve
ainda a proposta de mudança do nome de PSP para Partido Comunista do
Peru, sendo que estes debates transcorreram sem qualquer sanção aos
peruanos e foi acatada um pouco depois do encontro de Buenos Aires,
com a participação de Mariátegui em 4 de março de 1930, não
legitimando as versões (Löwy, 1999) segundo as quais a mudança de
nome do partido tinha se dado em um ambiente tenso e carregado. (Escorsim,
2006: p.276).
Na
convocação para a Conferência de Buenos Aires, feita pela La
Correspondencia Sudamericana, aparecia como tema a questão
camponesa, mas não era mencionado o problema das populações
indígenas. Victório Codovilla pediu a Mariátegui que preparasse um
documento sobre a luta dos indígenas pela sua emancipação. Esta
solicitação foi feita por se saber que Mariátegui tinha um estudo
sério, respeitável e um conhecimento profundo sobre o tema
indígena. Mariátegui era, naquele momento, o único militante
comunista capaz de apresentar um ponto de vista à Internacional
Comunista, no tocante à questão indígena, que pudesse auxiliar na
construção de sua estratégia (PCEr, 2007)
No VI
Congresso, a IC tinha chamado atenção para o contingente expressivo
de negros que havia em países da América Latina, como Brasil, Cuba e
outros, inclusive em maior porcentagem que nos Estados Unidos. A
discussão se centrou inicialmente no trabalho do negro e dos
chineses nas plantações e nos problemas da imigração, concluindo que
os PCs deveriam organizar programas para os trabalhadores emigrados.
Em Buenos Aires, o debate foi mais amplo e profundo do que o
realizado no congresso em Moscou. Hugo Pesce declarou a necessidade
de um estudo objetivo do problema das etnias baseado no marxismo,
com uma compreensão clara da luta de classes, uma linha
revolucionária em consonância com a
Internacional Comunista. No
debate se apresentaram duas linhas divergentes: a abordagem que
colocava a questão indígena como questão nacional e de
autodeterminação dos povos e o documento de José Carlos Mariátegui
que apresentava a questão indígena-camponesa como questão de classe.
(Quijano, idem: p.199)
Foi a
Internacional Comunista que,
pouco depois de sua fundação, lançou o debate aos partidos
comunistas sobre a necessidade de implementar uma política
diferenciada para as etnias marginalizadas. No momento da realização
da conferência de Buenos Aires, a posição da
Internacional Comunista
compreendia que as questões étnicas constituíam nacionalidades. Até
então, a fórmula de autodeterminação dos povos era vista como válida
para solucionar o problema étnico. Essa formulação tinha ajudado a
IC a compreender como a particularidade étnica influenciava a
experiência e a consciência de classe. Só a partir do debate em
Buenos Aires os comunistas puderam compreender de maneira mais ampla
a situação social e política das grandes massas étnicas
diferenciadas e incorporá-las ao debate sobre a revolução
socialista. José Carlos Mariátegui mostrou que havia um mal
entendido, que a questão indígena não conformava necessariamente
problema de ordem nacional, podendo, no caso latino-americano, ser
de ordem social.
O debate
envolvendo a questão étnica na IC tinha como origem a referência aos
negros da África do Sul e do sul dos Estados Unidos, porque os
comunistas locais - brancos - resistiam em organizar a população
negra. Os comunistas destes países adotavam atitudes racistas
semelhantes às das classes dominantes. No V Congresso da
Internacional Comunista,
realizado em 1924, as discussões sobre a questão negra começaram a
distanciar-se da análise de classe para se centrar na questão
nacional. A
Internacional Comunista propôs
que suas agremiações defendessem a igualdade social para as minorias
étnicas, as quais formavam nações e, portanto, também tinham direito
à sua autodeterminação. Esta linha política possibilitou um amplo
crescimento do PC nos Estados Unidos e, especialmente, na África do
Sul. O PCA se colocou na direção política do Congresso Nacional
Africano e seu êxito se converteu em um modelo de aplicação geral
para o trabalho, nos países coloniais e semicoloniais.
Já no VI Congresso, no debate sobre o papel das etnias na luta revolucionária, ficou resolvido
que
um dos trabalhos
mais importantes
dos PCs era a
completa
igualdade para
os negros,
pelo
fim de qualquer
desigualdade social, econômica e política.
O programa,
que
foi aprovado, reconheceu o direito de todas as nações
e raças à
autodeterminação. Ficou decidido que os
negros da África do Sul e
dos Estados
Unidos constituíam nacionalidades
submetidas e foi proposto que
os comunistas locais
organizassem os movimentos de libertação nacional
pelo seu Estado autônomo.
O VI Congresso concluiu que havia semelhanças
entre a questão
negra na África do Sul, nos Estados
Unidos e a questão
negra
e indígena na América Latina. Portanto,
houve transposição do modelo de
autodeterminação
dos povos
para
a questão
indígena, propondo assim
a criação
de uma república das nações quéchua e aymara na
região
andina. (PCEr, 2007).
No encontro
de Buenos Aires, os comunistas latino-americanos voltaram a discutir
se a opressão étnica era um assunto de classe, de etnia ou de
nacionalidade. Mariátegui contribuiu ao reabrir o debate com amplo
estudo em seu texto O problema das raças na América Latina.
Neste opúsculo sustentou que a questão indígena era um assunto
centrado na luta de classe, e só poderia ser solucionado com amplas
modificações no regime de propriedade agrária, que poria fim à
distribuição desigual e superaria o feudalismo no campo peruano. O
estudo de Mariátegui registrava que a pobreza e a marginalização
indígena deviam-se, fundamentalmente, à ocupação de suas terras pela
ação feudal.
Para o
escritor peruano, a questão étnica obnubilava o problema central, a
exploração de classe, que originava (originária, não ficaria
melhor?) da distribuição desigual da terra. Mariátegui concluía que
o problema dos índios só seria solucionado com a destruição do
feudalismo. Para ele, a interpretação da questão étnica, em termos
de classe, atribuiria aos indígenas e negros um papel fundamental na
emancipação do proletariado local e mundial.
Em seu
texto O problema das raças, Mariátegui manifesta uma
confiança no potencial revolucionário do campesinato indígena: “Uma
consciência revolucionária indígena tardará a se formar mas, quando
o índio tiver feito sua a idéia socialista, ele a servirá com
disciplina, tenacidade e força que poucos proletários de outros
meios poderão superá-lo”. (Mariátegui, 1982: p. 74)
Como bem
percebeu Escorsim, esta idéia também é um reflexo e avanço de sua
obra Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, na
qual argumentou que “a esperança indígena es absolutamente
revolucionaria. El fator indígena se convertiría em um fator
revolucionário y por eso enfatizó que la lucha indígena tenía que
poseer um caráter neto de lucha de classes” (Escorsim, idem: p.276).
O documento de Mariátegui sustentava que, sem os índios, o Peru não
existiria, e que eles eram figuras fundamentais para a construção da
identidade nacional, uma sociedade socialista só podia lograr com a
incorporação do povo indígena. Igualmente: “Quando se fala da
peruanidade, deveria ser investigado se essa peruanidade compreende
os índios. Sem o índio não existe peruanidade possível”. Mariátegui
partia da premissa que as repúblicas andinas estavam baseadas nos
princípios plantados pelos colonizadores e nos seus descendentes; os
colonizadores eram o cimento do Peru atual, e os índios seriam o
cimento da nacionalidade socialista em formação.
O texto
observa que só a luta dos índios, proletários e camponeses, em
estreita aliança com o proletariado mestiço e branco contra o regime
feudal e capitalista, pode permitir o livre desenvolvimento das
características raciais indígenas. A agudização da luta de classes,
baseada no espírito coletivo dos indígenas e no seu desenvolvimento
nacional, dissolveria as fronteiras nacionais e levaria à autonomia
política de toda sua raça. (Mariátegui, idem: p. 72)
Portanto os
comunistas têm que convencer os indígenas e os negros de que só um
governo “encabeçado pelos proletários e camponeses representativos
de todas as etnias, poderia emancipá-los de sua opressão”. (Mariátegui,
idem: p.74). O que assegura sua emancipação é o dinamismo de uma
economia e de uma cultura, que apontam em sua origem para a
construção do socialismo. (Mariátegui, idem: p.55)
O estudo de
Mariátegui partia do Peru, com especial atenção aos indígenas, e
desenvolvia abordagem sobre o papel dos negros, mestiços e mulatos.
Mariátegui julgava que os negros na América Latina não se
encontravam no mesmo nível de discriminação racial dos negros dos
Estados Unidos. A situação dos negros, na América Latina, era algo
mais complicado, isto porque sua interação com a cultura dominante
estava mediatizada pela presença mulata em todas as classes sociais,
particularmente em países como Haiti e República Dominicana. De
igual forma, o estudo de Mariátegui negou que a luta dos negros
fosse uma questão de autonomia nacional, como havia determinado o PC
dos Estados Unidos e depois o PC do Brasil em 1931, mas sim que
respondia a questões sociais locais, vinculadas à luta de classes.
Igualmente, julgava que esta problemática, de maneira menos
explícita que a indígena, constituía identidade além das fronteiras
nacionais. (Mariátegui, idem: p.65)
Por tudo
isso, Mariátegui se opunha à construção de repúblicas nativas e
negras no continente. A seu ver, a construção de um estado autônomo
não significaria um estado indígena proletário ou um estado indígena
sem classe, mas resultaria num Estado indígena burguês, com todas as
contradições internas e externas dos estados burgueses (Quijano,
idem: p.199). Mariátegui continuava: “Só o movimento revolucionário
classista das massas indígenas exploradas poderia dar um sentido
real à libertação de sua exploração, favorecendo as possibilidades
da autodeterminação política” (Mariátegui, idem: p.71). Apesar do
amplo debate, não houve votação nem desautorização da opinião dos
peruanos (Escorsim, idem: p.278).
Ampla
polêmica nasceu sobre a I Conferência e a possível submissão e
marginalização da delegação peruana, por conta da autonomia de suas
idéias, levaria Mariátegui a refletir sobre a iminente derrota e
planejar se retirar de Lima para viver em Buenos Aires (Alimonda,
1983: p.72). O que se pode concluir é que havia polêmicas sobre os
pontos de vista, especialmente no que tange à tática de revolução
desenhada por Mariátegui e ao papel dos camponeses indígenas. Estas
questões estiveram em pauta, mas não houve nenhuma moção de censura
ou sanção à delegação peruana ou às suas idéias. (Escorsim, idem:
p.281) Em carta de Hugo Pesce à Mariátegui, datada de 25 de junho de
1929, este narra sua opinião:
La discusión
durante el Congreso así como en sesiones de Comité, se ha
desarrollado, inútil es decirlo, dentro de un ambiente de la más
franca camaradería, no sólo, sino que, contrariamente a
suposiciones hechas por compañeros peruanos desterrados, ha
habido la mayor comprensión de nuestros problemas, y un
verdadero espíritu de cooperación por parte de los dirigentes” (PCEr,
2007).
Com certeza, o
caminho desenhado pela IC se distanciou das análises feitas até
aquele momento por Mariátegui, mas nada pode ser dito ou extraído
além dos dados narrados.
Conclusão
José Carlos
Mariátegui, um dos
fundadores
do marxismo latino-americano,
tomou a questão indígena como centro
de sua atenção. Ora, qual deveria ser
a preocupação de
um
marxista peruano?
Contextualizando a luta de classe dentro do universo que
compunha o seu
mundo
peruano e andino,
sem dúvida,
sua preocupação era a questão
indígena. Mariátegui não
poderia
se referir ao
proletariado, levando em
consideração
os mesmos
componentes
sociais que a industrialização
possibilitou à análise de
Marx. Com efeito, o marxista
peruano sustentava
que
“nuestro socialismo no sería
pues, peruano – ni siquiera socialismo –, si no se solidarizase
primeiramente
com las reinvindicaciones indígenas” (Mariátegui apud
González, 1994: p.34).
De igual
maneira, o pensador peruano teve claro que o socialismo não podia
ser reprodução mecânica, “não queremos, certamente que o socialismo
seja na América plágio e cópia. Deve ser criação heróica. Temos que
dar vida com nossa própria realidade, em nossa própria linguagem, ao
socialismo indu-americano. Eis aqui uma missão digna de uma geração”
(Mariátegui, 1982: p.93)
Mariátegui
estava consciente de que o socialismo
era uma doutrina
de origem européia,
mas
que sintetizava as
aspirações
humanitárias de imensas culturas
contemporâneas e ancestrais; por isso a
comunidade
incaica era depositaria de elementos favoráveis para
desenvolvimento do projeto
socialista. Desta forma, o
socialismo
na América Latina teria que levar em consideração as especificidades étnicas deste universo cultural. Se, até
então, o marxismo
não
havia dedicado grande atenção e estudos
a questão sul americana, coube à geração marxista e a José Carlos
Mariátegui a imprescindível clareza
da importância de
enfrentar
este complexo
cultural e multi-étnico latino-americano.
O
socialismo
não é
certamente uma
doutrina indu-americana.
Mas nenhuma
doutrina,
nenhum
sistema
contemporâneo o é
nem o pode
ser. O
socialismo,
ainda
que tenha nascido na
Europa, como o
capitalismo,
não é,
tampouco, específico
nem
particularmente
europeu. É
um
movimento mundial, ao
qual
não se subtrai
nenhum dos
países
que se movem
dentro da
órbita da
civilização
ocidental” (Mariátegui,
idem: p.93)
Mariátegui
observou que a
evolução
social não
era linear e o
desenvolvimento das forças produtivas não
era fator
imanente
às raças, podendo
ser
construída, e desconstruída, pela relação
de intercâmbio
ou
de conflito entre os povos.
Igualmente, chamava atenção
de que em países como Peru,
Bolívia e Equador, a grande parte da
população estava
duplamente
excluída pelo fator de raça e de classe:
“Nestes países o fator raça complica-se com
o fator classe, de forma
que
uma política
revolucionária
não pode deixar
de tê-los em
conta” (Mariátegui apud
Bellotto & Correia: p.56)
O processo
de reconstrução nacional pensado por Mariátegui era profundamente
imbricado com o ambiente cultural peruano e latino-americano, dando
atenção estratégica a uma recomposição das forças políticas e
espirituais, capazes de transformar a realidade. Para Mariátegui, a
sociedade é decomposta para ser reconstruída, o agente histórico
dessa recomposição é o proletariado junto a seu aliado, o camponês,
que, no caso andino, é o índio. Isso é traduzido num projeto
político de longo alcance no qual a revolução e o socialismo são
mitos naturais de um retorno coletivo ao futuro.
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Professor das Faculdades de Guarulhos e da PM São Paulo e
Mestre em Ciências Políticas- PUC/SP - Pesquisador do Neils
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