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LIZ
DE OLIVEIRA MOTTA FERRAZ
Historiadora
(Faculdades Jorge Amado – Salvador, BA), Especialista em Gênero
e Desenvolvimento Regional com Concentração em Políticas
Públicas (NEIM – Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre a
Mulher / UFBA – Universidade Federal da Bahia).

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Na contramão do conhecimento científico
sexista:
direções alternativas na perspectiva de
gênero
Liz de Oliveira Motta Ferraz
O exílio feminino sentenciado pelos
produtores da História positivista, linear e factual persistiu por
todo século XIX – ou mesmo antes, quando a História nada mais era do
que narrativa dos fatos pelas mãos do grego Heródoto. Inicialmente,
os Annalistés foram apontados como libertadores dos sujeitos
antes esquecidos pelos anais históricos: homossexuais, índios,
negros, ciganos, crianças e as mulheres. Bloch e Febvre já em 1929
conclamavam que tudo era História e todos eram participantes ativos
da sua construção.
Mas foi na década de 60 do século XX
que a mulher finalmente se liberta do ostracismo infecundo do
esquecimento através dos movimentos feministas e das profundas
mudanças que ocorreram na Europa e EUA a partir daquele decênio.
Trago esta síntese sobre o lugar da
mulher na ciência histórica como a chave de entrada para um
labirinto de discussões que permeiam a epistemologia da Ciência
Moderna e as teorias feministas que tentam compreender porque os
aspectos biológicos não explicam a condição de superioridade
masculina na sociedade.
Uma longa
tradição européia que perdurou até finais do século XVIII,
considerava as mulheres seres inferiores em relação aos homens.
Emotivas, pouco racionais e organizadas, a sua função básica
circunscrevia-se à procriação e ao lar, os gregos remeteram-nas para
o Gineceu. Platão considerou as mulheres e os escravos como seres
destituídos de razão. Aristóteles considerava-as inferiores aos
homens e por esta razão, deviam apenas procriar e serem educadas
pelos maridos. Jean-Jacques Rousseau, símbolo por excelência do
Iluminismo, mais de 2 mil anos depois continuou a repetir o mesmo
tipo de discurso sobre a inferioridade das mulheres. Este era o
conceito dominante e quase nada mudou ao longo de séculos.
O
Iluminismo sexista
A partir do século XVII surge a
preocupação com o estado de bem-estar social. O Iluminismo,
movimento que prima pela razão e tem como princípios básicos a
igualdade e a liberdade do homem, é a bússola norteadora para os
filósofos que pensam em como construir uma sociedade moderna e
capitalista. A gênese desta sociedade moderna comete sua primeira
grande injustiça: a exclusão das mulheres. Explica-se: a sociedade
moderna é fomentada pelos princípios da cidadania que
expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade
de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem
não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social
e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade
dentro do grupo social. (DALLARI, 1998: 14)
O conceito
de Dallari sobre cidadania expressa com perfeição a consciência
iluminista, o direito a cidadania era concedido ao homem, enquanto
que as mulheres estavam excluídas desta sociedade já que não tinham
direitos políticos e nem desfrutavam de uma vida pública. Destarte,
a sociedade moderna já começa sectária e a cidadania tem um sexo
definido – masculino.
Rachel
Soihet (1997) analisa ser esta sociedade moderna, contraditória e
dicotômica já que
A
razão, emblema do acesso dos homens à maioridade e à liberdade,
qualidade que distingue o homem do animal, já que o animal não
faz senão obedecer enquanto o homem pode voluntariamente
consentir ou resistir, não são extensivos paradoxalmente à
‘metade do gênero humano’. Rousseau, considerado o mais
democrático destes intelectuais, propõe uma educação que conduza
à autonomia. Com relação às mulheres, porém, (...) a educação
deveria ser diversa. Nelas não se deveriam cultivar as
qualidades masculinas, pois a mulher é feita especialmente ‘para
agradar ao homem’ e ‘para obedecer também’. (p. 8)
A suposta
inferioridade feminina encontra suas raízes na diferença sexual e
está naturalizada e atestada por dogmas divinos e pela natureza. A
dicotomia se estende aos espaços, na sociedade capitalista o público
é destinado aos homens, já que estes são racionais e mais
inteligentes e sendo assim, são os únicos capazes der exercer a
política com responsabilidade e destreza. Quanto às mulheres, o
espaço privado lhes compete, é neste espaço que elas irão criar seus
filhos para a nova sociedade que se apresenta; sua autonomia ou
pseudo-autonomia se limita ao batente da porta, a partir dali elas
se tornam invisíveis e imobilizadas, pois suas ‘fraquezas
emocionais’ atrapalhariam um vida social e política ativa. Para os
iluministas a mulher era incapaz de ser racional, sua imaginação
exacerbada não se limitava ao plano do concreto, transcendia o
fantasioso, o ilusório num mundo constituído de emoções, sensações e
desejos onde não cabia a razão, “(...) portanto, a inferioridade
da razão era um fato incontestável, bastando-lhes cultivá-la na
medida necessária ao cumprimento de seus deveres naturais: obedecer
ao marido, (...) cuidar dos filhos”. (p. 9)
Apesar de
terem participado das revoluções (Francesa, Gloriosa) que culminaram
na nova ordem social, as mulheres foram colocadas à margem,
escondidas, seus direitos foram sonegados; ou melhor, não foram
sequer discutidos.
Locke,
outro filósofo das Luzes, apesar de combater com veemência o Antigo
Regime e defender o direito de liberdade e igualdade não incluía as
mulheres como participantes da sociedade civil, baseando-se que as
“deficiências femininas” eram resultados da natureza e do Poder
Divino expresso nas Escrituras, onde a mulher deve ser submissa ao
homem e este a governará. (NYE, 1988: 19). Outros pensadores
iluministas como Diderot, Descartes e Bentham corroboravam a
exclusão feminina e a partir deste consenso dicotômico mulher
versus homem, público versus privado, a ciência moderna
foi ganhando contornos sólidos e se legitimando ao longo da história
da ciência moderna.
A
Ciência moderna: embates e debates na perspectiva de gênero
Podemos
afirmar que o Iluminismo foi a base do pensamento moderno e que
neste está, naturalmente enraizado, a exclusão das mulheres na
sociedade. Daí começa a surgir os problemas para as teóricas do
feminismo. As teorias feministas tentam compreender porque os
aspectos biológicos não explicam a superioridade masculina e a
submissão feminina, o que define o lugar da mulher na sociedade e
que lugar é este.
Os embates
que se apresentam são de ordem epistemológica, ou seja, como
produzir o conhecimento que responda as demandas feministas se todo
o lexus é construído por e para um enfoque masculino. A chave
analítica que constitui este debate está expressa por Elisabetta
Donini (s/d) ao dimensionar a construção do conhecimento científico
(...)
as dimensões do problema são ao mesmo tempo empíricas (devem ser
tomados em consideração os ‘fatos’ que demonstram se, e como,
‘funcionam’ as ciências) e epistemológicos (esses estão
embebidos de componentes humanas, que englobam diversas
perspectivas sobre o mundo e diversos critérios de relevância e
de eficácia), mas também éticas e políticas: se ‘a prática
social’ das ciências se demonstra relacionada com ‘certas
linhas-mestras do poder’, então, quem quer que trabalhe nesse
campo é investida/o da responsabilidade subjetiva de dever
contribuir para o reforço – ou para a erosão – de tais
desequilíbrios. (p. 2)
Analisando
a assertiva de Donini, o conhecimento científico é construído em
cima de valores e interesses específicos, demonstrando que apesar de
ser considerado “neutro”, sua essência é inconfundivelmente
tendenciosa. Destarte, a maioria das teorias existentes para
encontrar as respostas para as questões feministas foi concebida a
partir de um contexto histórico, social e cultural sexista e
eurocêntrico, privilegiando os homens para legitimar o seu bem-estar
e sua condição de dominante na família e na sociedade.
O marxismo,
por exemplo, contribuiu com o feminismo trazendo o enfoque
histórico e material, que permitiu a desnaturalização da
subordinação da mulher, situando sua gênese num processo gerado nas
e pelas relações sociais, em contextos socioeconômicos determinados;
a interpretação da economia política em relação ao processo de
trabalho capitalista e ao lugar do trabalho doméstico; e a análise
sobre a ideologia, que oferece elementos para pensar outras
dimensões das relações e dos conflitos sociais, para além dos
vinculados à base material, mesmo quando mediados por esta.
Todavia, Marx e Engels
analisaram a mulher sendo mais um sujeito no processo de produção e
reprodução material, sendo este processo o único que deveria ser
questionado. O reducionismo sobre a condição da mulher na sociedade
de consumo através da divisão sexual do trabalho não atendeu aos
questionamentos das feministas. Mesmo porque, a crítica feita ao
marxismo pelas teóricas do feminismo atenta para a desvalorização do
trabalho doméstico no processo de produção capitalista. O trabalho
doméstico por ser de âmbito privado não se legitima como fator de
acumulação do capital, nem as mulheres ao exercê-lo são consideradas
empregadas, nem subordinadas a patrões.
Ao exemplo do marxismo segue outras
teorias que posicionam a mulher sempre vinculada à história e a
condição masculina, como um apêndice atrofiado do corpo de Adão, que
se não atrapalha o desenvolvimento da humanidade (lê-se homens),
também não o ajuda. As teorias baseadas em princípios de
objetividade - biologismos e naturalismos, condições sine qua non
que norteiam a ciência e modelam o corpo analítico do cidadão
moderno - incapacitam as mulheres de ascenderem a uma situação
paritária ao homem.
Considerações finais: uma nova
matriz, uma nova epistemologia
A crítica feminista tem desempenhado
um papel importante na construção de aportes teóricos para responder
as questões levantadas ao longo deste ensaio. O movimento feminista
questiona o paradigma positivista, filho dileto do Iluminismo e
direciona seu olhar para um novo paradigma ou como também é
conhecido Emergente ou Construtivista.
A matriz deste paradigma propõe uma
análise subjetiva dos fatos, levando em consideração a diversidade
cultural, étnica, religiosa, de classe, de identidade e de gênero. O
modelo Emergente questiona a mentalidade dominante e, para além,
preocupa-se com questões como políticas públicas e educação sempre
com um enfoque crítico e plural. O debate
em torno das desigualdades entre homens e mulheres continua atual,
hoje muito apoiado por estudos nas áreas da biologia e da psicologia
evolutiva que procuram explicar diferenças cognitivas em diferenças
biológicas. Uma das abordagens à questão de gênero e ciência que me
parece mais frutífera tem precisamente em consideração os modos de
tratamento da categoria sexo/gênero, que aparece quer como um
pressuposto quer como objeto de estudo das ciências naturais e nas
que se naturalizaram.
Servindo-se
de todo vários trabalhos já feitos sobre gênero, procura articulá-lo
com uma análise crítica da ciência. Pretende ir não só para além do
simples enunciado da igualdade de direitos e oportunidades, mas
também suplantar a visão positivista da ciência muito adotada por
cientistas, filósofos, educadores, historiadores e demais
acadêmicos. Este duplo objetivo veio abrir um campo de investigação
hoje designado por epistemologia feminista ou por estudos feministas
da ciência.
Mesmo não sendo ainda a resposta para
as teóricas do feminismo, através destas novas abordagens abre-se um
leque de oportunidades, uma pluralidade de caminhos, conceitos e
metodologias que contribuirão para repensar a Ciência Moderna, a
condição feminina e a epistemologia feminista.
Referências
DALLARI,
Dalmo de Abreu. Direitos Humanos e Cidadania. São
Paulo: Moderna, 1998.
DONINI,
Elisabetta. A Construção Cultural das Ciências da natureza:
gêneros, personagens e factos históricos. Disponível em:
www.aie.it/polite/PORDonini1.pdf. Acesso em 20 de janeiro de
2008.
NYE,
Andréa. Teoria Feminista e as Filosofias do Homem. Rio de
Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1995.
SOIHET,
Rachel. Violência Simbólica: saberes masculinos e representações
femininas. In: Revista Estudos Feministas, volume 5, n. 1, Rio
de janeiro: IFCS/UFRJ, 1997.
Para conhecer melhor a condição feminina e o marxismo ver:
Marx, K. e Engels, F. A Ideologia Alemã. Porto: Presença,
1975.
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