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WALTER
PRAXEDES
Docente na
Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Ciências Sociais; Doutor em Educação
pela USP e co-autor de O Mercosul e a sociedade global (São
Paulo, Ática, 1998) e Dom Hélder Câmara: Entre o poder e a
profecia, publicada no Brasil pela Editora Ática (1997) e Editora
Contexto (2008); e, na Itália,
pela Editrice Queriniana (1999)

ROSÂNGELA ROSA PRAXEDES
Mestre em
Ciências Sociais (PUC/SP) e doutoranda em Ciências Sociais
(PUC/SP)
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Barack Obama, racismo e meritocracia
Walter Praxedes
& Rosângela Rosa Praxedes
O resultado das eleições presidenciais
nos Estados Unidos merece uma análise que não embarque no otimismo
ingênuo. Para início de conversa, cabe pedirmos licença para
lembrarmos o óbvio: dois dos problemas mais graves da sociedade
norte-americana foram a escravidão e a imposição de estereótipos
negativos sobre os seres humanos classificados como negros naquele
país.
Nos Estados Unidos, uma pessoa que seja
imaginada como descendente de negro é considerada negra e inferior
pela sociedade branca racista e isso teve conseqüências devastadoras
para toda a sociedade, como também ocorreu no Brasil, apesar das
diferenças entre as formas de preconceito e discriminação existentes
nos dois países.
Para levarmos em consideração tais
diferenças, podemos recordar a forma como o saudoso professor Oracy
Nogueira diferencia em duas modalidades os pressupostos valorativos
que orientam as atitudes discriminatórias, tanto nos Estados Unidos
como no Brasil, como podemos observar a seguir:
“Considera-se como preconceito
racial uma disposição (ou atitude) desfavorável, culturalmente
condicionada, em relação aos membros de uma população, aos quais
se têm como estigmatizados, seja devido à aparência, seja devido
a toda ou parte da ascendência étnica que se lhes atribui ou
reconhece. Quando o preconceito de raça se exerce em relação à
aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas
manifestações, os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os
gestos, os sotaques, diz-se que é de marca; quando basta a
suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico,
para que sofra as conseqüências do preconceito, diz-se que é de
origem” (NOGUEIRA, 1979, p. 79).
No uso desta caracterização, Oracy
Nogueira (1979, p.78) chega à conclusão que o preconceito e as
atitudes discriminatórias, nas formas em que se apresentam no
Brasil, podem ser tipificados como sendo um “preconceito de marca”,
em contraposição às situações correlatas que ocorrem nos Estados
Unidos às quais ele reserva a designação de “preconceito de origem”.
Pois bem, a vitória de Obama pode
contribuir para manter o preconceito racial nos Estados Unidos, mas,
agora, camuflado como uma forma de discriminação contra os mais
vulneráveis: mulheres e homens negros marginalizados, desempregados
pela crise econômica, que perderam suas casas e raízes comunitárias
e junto toda a esperança. Milhões de negros estão nas prisões ou
cumprindo algum tipo de pena naquele país. A partir da última
eleição, os racistas brancos podem dizer com todas as letras que os
negros que aceitarem as regras do jogo merecem ocupar posições
importantes. Quem não tiver competência vai ser responsável pelo
próprio destino porque a sociedade dá oportunidades iguais para
todos. Bem, é óbvio que essa não é mais do que uma versão da velha e
sempre sedutora ideologia do culto ao mérito individual.
O discurso da vitória que foi
pronunciado por Obama, e que está sendo amplamente utilizado pelas
elites conservadoras, reafirmou esta ideologia meritocrática de
valorização do esforço e da competência. Isso quer dizer que se
alguém for considerado negro nos Estados Unidos (e também no Brasil,
é claro), é melhor que seja um Barack Obama ou um Pelé. O problema é
que ninguém vive com dignidade sob tamanha pressão. Uma sociedade
justa e decente para se viver respeita as pessoas como elas são,
independentemente da cor da sua pele ou do formato do seu nariz, mas
em virtude de sua dignidade inerente à condição humana. Hoje, quem
não é racista concorda com tal raciocínio, mas ainda precisamos
reafirmar que temos o direito de viver com dignidade mesmo que não
sejamos julgados como os mais inteligentes, os mais capacitados ou
mais bonitos dos seres humanos ou que sabem fazer gol de bicicleta.
O ideal é vivermos bem e sermos respeitados pelos outros, mesmo não
tendo nenhuma capacidade considerada extraordinária.
Uma hipótese que deriva deste raciocínio
é que a vitória de Obama, que contou com o apoio do eleitorado e dos
movimentos sociais negros dos Estados Unidos, pode passar a ilusão
de que o sistema é justo e de que basta você trabalhar com
competência que você chega “lá”. Então, podemos avaliar que do ponto
de vista das pessoas que não participam da vida política em
organizações, movimentos sociais e partidos políticos, que é a
maioria tanto nos Estados Unidos como no Brasil, a vitória de Obama
pode fortalecer a ideologia individualista de culto ao mérito de que
dá para superar todos os obstáculos através do esforço individual e
não é necessário uma organização anti-racista.
Por outro lado, não desconsideramos que
a presença de um agente político que é considerado como “negro” na
presidência da maior potência militar e econômica do planeta ajuda a
quebrar os preconceitos mais simplistas e ignorantes daqueles que
avaliam as capacidades dos seres humanos pela cor da sua pele.
Evidentemente, Barack Obama não ganhou a eleição porque é negro, da
mesma forma que ninguém ganha uma maratona ou a corrida de São
Silvestre porque é negro. Ganhou porque teve a capacidade política
extraordinária de juntar todos os apoios necessários para a sua
vitória, do mais anônimo eleitor aos donos de jornais de maior
prestígio nos Estados Unidos, assessores estrategistas e
patrocinadores. Infelizmente ele tem o apoio de organizações
militares e empresariais imperialistas e não foi colocado lá para
questionar o imperialismo norte-americano, e sim para torná-lo mais
eficiente e aceitável perante o mundo.
Muitos ainda associam a esperança de
mudança depositada no novo presidente norte-americano ao que ocorreu
no Brasil com a vitória de Lula. Mas esta é uma correlação baseada
apenas na aparência e na simbologia que envolve os dois dirigentes,
em virtude de suas origens populares e também pelo fato de que ambos
são lideres políticos que passam confiança para os seus apoiadores
que surgem de todos os segmentos sociais. A eleição do nosso
presidente foi o ponto culminante dos movimentos sociais organizados
na luta contra a ditadura militar que vigorou no Brasil de 1964 a
1985. Lula é respeitado pelo eleitorado pelas suas características
pessoais, mas ele representa também a força da sociedade civil
organizada em instituições como associações, movimentos sociais,
sindicatos, partidos políticos, igrejas. Barack Obama se viabilizou
inicialmente a partir de sua atuação comunitária, mas nos últimos
anos ele se credenciou como o representante das elites econômicas e
políticas prejudicadas pelo governo Bush e que precisavam de uma
liderança que representasse novidade e angariasse o apoio da maioria
do eleitorado para o Partido Democrata.
Conclusão
Como dizia o poeta Bertolt Brecht,
triste de um povo que necessite de heróis. Em nossa opinião, não
precisamos de lideranças carismáticas ultra-competentes dotadas de
méritos extraordinários. Precisamos é que todas as pessoas
participem em condições de igualdade da vida social, econômica,
cultural e política. Se estivermos sentindo a necessidade de heróis
míticos como Dom Sebastião, Homem Aranha ou Barack Obama, isso quer
dizer que cada um de nós, na verdade, se sente incapaz, sem poder e
sem a esperança de que pode individualmente contribuir para que a
vida humana de todos seja digna de se viver. Enfim, contra as nossas
ilusões messiânicas, o ideal é que todas as formas de poder sejam
descentralizadas e todos participem direta ou indiretamente de sua
gestão.
Referências
NOGUEIRA, Oracy. Tanto preto quanto
branco: estudos de relações raciais. São Paulo, T. A. Queiroz,
1979.
WEST, Cornel.
Questão de raça. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
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