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ROSENVERCK ESTRELA SANTOS
Graduado em História e Mestre em
Educação pela Universidade Federal do Maranhão - UFMA, Professor
da rede pública de ensino do Estado do Maranhão.

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Educação e relações étnico-raciais no Brasil:
monoculturalismo e a construção da
identidade negra
Rosenverck Estrela Santos
1
O papel da educação num país de herança escravista
A educação brasileira não pode ser
entendida sem levar em conta as relações entre os diversos grupos
étnicos que formaram esta nação, pois os “[...] quatrocentos anos de
escravismo foram definitivos na plasmação do ethos do nosso
país” (MOURA, 1983: 124). Portanto, é preciso destacar que o caráter
da formação do Brasil, pautado na escravidão, teve como uma de suas
resultantes o surgimento de concepções e práticas racistas que
perduram até os dias atuais.
É preciso destacar que a formação do
Brasil com base no trabalho escravo teve como uma de suas
resultantes o aparecimento de práticas racistas não apenas em seu
período escravista, mas também nos séculos posteriores. Com efeito,
o Brasil pós-abolição, deveria ser repensado e reorganizado a fim de
inseri-lo no quadro do capitalismo internacional. Segundo o discurso
das elites, um país desenvolvido não poderia ser marcado por uma
população negra e mestiça, ou com conflitos raciais que o
desestabilizassem. Nessa direção, duas ideologias, inicialmente,
surgiram para “solucionar” o problema: a ideologia do
branqueamento e o mito da democracia racial, que
substituiu a ideologia do branqueamento como explicação da
identidade nacional (ORTIZ, 1994).
É na especificidade das relações
étnico-raciais no Brasil, portanto, que devemos refletir sob quais
mecanismos e bases as instituições políticas, culturais e
educacionais reproduziram e reproduzem os valores e padrões de uma
elite dominante, em detrimento de outras visões de mundo e
referências históricas.
Levando em consideração essa análise, é
fundamental compreendermos a escola pública como uma importante
instituição responsável pela sociabilidade dos seres humanos. Nela
ocorre a possibilidade de construção das identidades, da formação de
valores éticos e morais. Contudo, a escola na sociedade capitalista
assume um caráter homogeneizador, prevalecendo um padrão estético e
histórico vinculado à sociedade européia, o que estamos chamando de
monoculturalismo e excluindo, por exemplo, a referência
negro-africana da formação da sociedade brasileira. A garantia de
acesso gratuito a todos os que querem entrar na escola não esconde
contraditoriamente o seu papel de reprodução das idéias e valores da
classe dominante.
Diante do exposto, evidenciamos que para
além das aparentes oportunidades de acesso e permanência garantidos
a todos no direito à educação, o que existe realmente são
discriminações de classe e raça reproduzindo visões de mundo
dominante e instituindo o fracasso escolar para aqueles que não se
adequam numa instituição de ensino cuja organização administrativa e
curricular, a relação professor-aluno, etc. levam os discentes
negros(as) a terem um rendimento inferior ao dos(as) brancos(as).
Com efeito, a reprodução da ideologia
dominante no Brasil, que no caso da educação é respaldada por uma
visão eurocêntrica e monoculturalista, baseada numa suposta
“democracia racial” e alicerçada numa aparente “competição
democrática” tem como conseqüência o impedimento da formação da
identidade coletiva e da mobilização do segmento negro que atribui
sua condição a questões estritamente socioeconômicas ou ético-morais
(incompetência, preguiça, malandragem, etc.). Isso resultou em que
poucos negros(as) viram necessidade para se organizar e lutar contra
as condições de desigualdade racial (HENRIQUES, 2001).
Com relação à população negra, diante do
processo histórico brasileiro e das relações interétnicas no
interior das instituições oficiais de ensino, lhe foi expropriada a
identidade. Suas referências históricas, sua contribuição à
construção da sociedade brasileira foram ocultadas e/ou
descaracterizadas, gerando com isso uma auto-imagem negativa e
impondo barreiras à sua organização e mobilização.
2 Educação e constituição da identidade
étnico-racial
De acordo com Pereira (1978) o estudo de
História do Brasil possuiu uma herança derivada do colonialismo
cultural, que supervaloriza os feitos europeus e minimiza ou exclui
qualquer referência à história afro-asiática. O autor em destaque
afirma que os currículos são em sua maioria eurocêntricos e a
população brasileira sofreria de miopia e astigmatismo
cultural, no sentido de que não consegue estabelecer relações –
nem no plano imediato, nem ao longo do processo histórico – entre o
Brasil e a África. O modo como à África, os africanos e os seus
descendentes no Brasil são vistos constituem exemplos desse
colonialismo cultural.
Conseqüentemente, a visão sobre o
continente africano se desdobra aos seus habitantes e descendentes
que formam a população brasileira. No caso do Brasil, a formação da
nacionalidade é escamoteada relegando a contribuição africana apenas
a culinária, folclore, misticismo e língua. A África para a maioria
dos brasileiros é reduzida à imagem dos quatros “T”: Tribo, Tambor,
Terreiro e Tarzan. E assim, os brasileiros deixam de reconhecer uma
parte importante de suas raízes históricas.
Como vimos, porém, nada disso é
aleatório ou espontâneo. A escola e a educação têm como uma de suas
funções o fortalecimento das visões de mundo e indivíduo da elite
dominante, que considera os valores europeus “civilizados” e,
portanto, devendo ser difundido entre as classes populares.
Em razão disso, as classes dominantes
impõem uma concepção de mundo que é sua e utilizam-se para isso de
vários meios, entre eles a escola. A escola reproduzirá a ideologia
opressora, proporcionando a hegemonia desta sobre as demais classes,
por via do consentimento.
Entretanto, devemos superar a visão
mecanicista de perceber a escola e a educação como meros
reprodutores da ideologia dominante e das condições de classes que
privilegia uma em detrimento das outras. A educação e a escola podem
e devem ser utilizadas como instrumentos de luta pelos setores
oprimidos, pois na medida em que reproduzem a dominação de classe,
também, reproduzem suas contradições, permitindo dessa forma que as
classes subalternizadas vislumbrem a superação do domínio por meio
das práticas dos que trabalham na escola e da aquisição de
conhecimentos universais necessários à intervenção consciente no
mundo.
Isto posto, destacamos as idéias de
Munanga (1999) segundo o qual para se construir uma sociedade com
justiça social e equidade é necessário ter como ponto de partida uma
identidade coletiva mobilizadora que possibilite romper com a
ideologia dominante e, nesse sentido, com o olhar do outro sobre si
mesmo. No que se refere à população negra brasileira, sua identidade
foi, ao longo de nossa história, negada e/ou descaracterizada,
impondo barreiras à constituição de uma identidade auto-afirmativa
que possibilitasse a mobilização e organização desse segmento para
reivindicar por direitos relacionados à discriminação racial.
Segundo Bernd (1987: 38) a “[...] busca
pela identidade do negro é a busca de autodefinição”, pois
encontra-se em meio a valores de um mundo branco, de um padrão
eurocêntrico, que os aliena em relação às suas referências
históricas.
Por não possuírem uma identidade
coletiva mobilizadora, os oprimidos, no caso deste trabalho a
população negra, não identificam o opressor em seus pensamentos e em
suas ações e por isso possuem atitudes fatalistas. Acreditam na
realidade opressora como algo fixo e pré-determinado por forças
exteriores, percebem-se, pois, desvalorizados. É a interiorização da
visão opressora incidente sobre ela.
Diante do exposto, e levando-se em
consideração o processo histórico e os mecanismos de reprodução da
ideologia dominante, veiculada em especial pela escola, a população
negra brasileira além de ter impedimentos à formação de sua
identidade, se vê estigmatizada frente aos valores que negam sua
história, suas lutas e seus modos de viver.
Com relação à sociedade brasileira
existe todo um estereótipo de normalidade e beleza. Ser branco(a),
se possível loiro(a), de olhos azuis, ter curso superior, ser
cristão, constituem atributos vistos como bons e desejáveis. Um
negro(a) subempregado(a) ou desempregado(a), de formação escolar
incompleta, morador de periferia, pelo contrário, foge completamente
do estereótipo considerado desejável por grande parte da população
brasileira.
Daí surgem os estigmas referentes aos
negros(as) vistos como desocupados, preguiçosos ou marginais. Quanto
mais nos aproximarmos do referencial desejado, mais teremos a chance
de fugir da estigmatização e dos efeitos sociais dela decorrentes.
Nesse contexto, duas saídas
apresentam-se: ou os oprimidos fazem de tudo para se parecerem com o
opressor; ou reconquistam suas dimensões negadas.
Na primeira resposta, o oprimido se
enxerga com o olhar do opressor, com o qual quer parecer o máximo
possível. A vergonha de si mesmo torna-se a marca de sua
personalidade.
Na mesma linha de raciocínio, referente
à identidade dos grupos dominados, Bourdieu (2004) concebe duas
perspectivas. Ou aceitam a definição de sua identidade pela classe
dominante buscando, inclusive, sua assimilação por meio da recusa de
suas características identitárias (linguagem, vestuário, estilo de
vida, religião, etc.); ou por meio de uma luta coletiva, eliminam a
valoração dos seus estigmas no sentido de impor uma reviravolta nas
definições produzidas pelas classes dominantes e com isso definir,
de forma autônoma, os princípios de organização do mundo social e de
sua identidade.
A luta, nesse sentido, contra a
dominação simbólica que impõe uma visão negativa sobre a identidade
dos dominados, não intenta apenas conquista ou reconquista da
identidade, mas o poder de definir sua própria identidade do qual
havia abdicado em detrimento da visão dominante, no momento em que
se negaram para serem reconhecidos. “O estigma produz a revolta
contra o estigma, que começa pela reivindicação pública do estigma,
constituído assim em emblema, [...]” (BOURDIEU, 1989: 125).
A identidade negra surge, então, da
dinâmica conflituosa entre a visão dominante eurocêntrica, que nega
os referenciais negros, e a busca pela valorização desses
referenciais por esse segmento da população. Ou seja, de um
sentimento de perda, negação, constrói-se uma auto-imagem positiva e
altiva da pessoa negra. É uma resposta política à situação de
opressão na qual a população negra, descendente de africanos
escravizados, se encontrou ao longo da história do Brasil.
Seguindo a análise de Munanga (2000), a
identidade étnico-racial não passa necessariamente pelo aspecto
cultural, mas é um posicionamento político frente à situação comum
de opressão. A identidade não existe, pois, somente a partir de um
referencial empírico, a exemplo da cor da pele, mas define-se pela
relação estabelecida com a sociedade hierarquizada e as visões de
mundo dominantes.
A população negra, ao recuperar sua
identidade, no sentido de se perceber com sujeito transformador e
construtor da realidade, deixa de ser menos receptora das diretrizes
dominantes e se transforma em agente histórico. Percebemos, então,
que a identidade étnico-racial constituída não se configura apenas
como uma referência de afirmação, auto-estima, mas constitui-se num
instrumento de organização e mobilização.
Referências
BERND, Zilá. Negritude e literatura
na América Latina. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
BOURDIEU, Pierre. A economia das
trocas simbólicas. São Paulo, Perspectiva, 2004.
______. O poder simbólico. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil/Difel, 1989.
HENRIQUES, Ricardo. Desigualdade
racial no Brasil: evolução das condições de vida na década de
90. Rio de Janeiro, IPEA, 2001.
MOURA, Clóvis. Sociologia do negro
brasileiro. São Paulo: Ática, 1988.
______. Escravismo, colonialismo,
imperialismo e racismo. In: AFRO-ÁSIA, nº 14,
Universidade Federal da Bahia, 1983.
MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem
conceitual das noções de raça, racismo, identidade, etnia.
Niterói: EDUFF, 2000.
______. Rediscutindo a mestiçagem
no Brasil. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e
identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1994.
PEREIRA, José Maria Nunes.
Colonialismo, racismo, descolonização. In: Estudo Afro-asiáticos,
Cândido Mendes, Ano 1, nº 2, 1978.
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