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RUDÁ RICCI
Sociólogo,
Mestre em Ciência Política e Doutor em Ciências Sociais.
Coordenador do

Instituto
Cultiva e membro da Executiva Nacional do Fórum Brasil
do Orçamento. Membro do Observatório Internacional da Democracia
Participativa

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A América de Obama
Rudá Ricci
“Em 1959, uma jovem americana de
dezesseis anos, branca, chamada Stanley Ann Dunham, nascida no
Kansas, resolveu assistir em Chicago ao seu primeiro filme
estrangeiro de sua existência. Foi ver o Orfeu Negro, só com
atores negros, paisagens brasileiras, música brasileira,
história brasileira. Ela saiu do cinema em estado de êxtase,
maravilhada. Adorou aqueles negros encantadores de um país
tropical e logo admitiu: "Nunca vi coisa mais linda, em toda a
minha vida." Logo depois, embarcou para o Havaí. Aos dezoito
anos se tornou colega, numa aula de russo, de um jovem negro de
vinte e três anos, Barack Hussein Obama, nascido no Quênia. A
moça branca do Kansas teve, em 4 de agosto de 1961, um filho, a
quem ela deu o mesmo nome do pai.”
Recebi esta mensagem, escrita pelo
jornalista Fernando Jorge, que termina assim:
"Eis um detalhe perturbador:
comparando duas fotografias, descobri enorme semelhança física
entre o brasileiro Breno Mello, o Orfeu do filme Orfeu Negro, e
o queniano Barack Hussein Obama, pai do filho da americana
Stanley Ann Dunham. No começo da década de 1980, ao visitar o
seu filho em Nova York, a senhora Stanley o convidou para ver o
filme Orfeu Negro. Segundo o depoimento do próprio Barack, no
meio do filme ele se sentiu entediado, quis ir embora. Disposto
a fazer isto, desistiu do seu propósito, no momento em que olhou
o rosto da mãe, iluminado pela tela. A fisionomia da senhora
Stanley mostrava deslumbramento. Então o filho pôde entender,
como se deduz da sua autobiografia, porque ela, tão branca, tão
anglo-saxônica, uniu-se ao seu pai, tão negro, tão africano..."
Histórias
(e mensagens) como esta pipocaram a internet e foram passadas de
boca-em-boca nos últimos dias. A aproximação com os mais jovens
acontece dentro e fora da Internet. No site de relacionamentos
Facebook, Obama mantém 2 milhões de "amigos". Os jovens também
aumentaram as platéias de seus comícios, que chegaram a reunir 100
mil pessoas.
Obama ficou mais próximo do homem
simples (e jovem). Como analisou Richard Sennett em “O Declínio do
Homem Público”, quando percebeu que o ressentimento se espraiava
pelo mundo, fertilizando a “ideologia da intimidade”, ou seja, onde
só vale o que é íntimo, pessoal, comunitário. Qualquer líder popular
neste século precisa criar esta empatia, algo que pareça que é de
casa.
Obama não tem este olhar de vizinho. Ao
contrário, seu olhar é estudado. Não esconde que é um intelectual.
Não ri, mas sorri. Não tem um humor popular ou expansivo. Mas é
negro (aliás, ele disse que não é branco, nem negro, é Brown).
E é anti-Bush. Portanto, sua própria existência já aparece como
anti-arrogância, o que o aproxima do homem comum, o fez um
catalisador do ressentimento.
O Obama que venceu as eleições é
exatamente Barack Obama? Teria sido composto no imaginário que criou
a “Obamamania”? Seria alguém além do candidato ou mesmo da imagem
que o marketing de campanha criou?
Quem é (e quem será) Obama presidente
dos EUA
Barack Obama foi eleito o 44º presidente
dos Estados Unidos. Aos 47 anos, ele torna-se o primeiro negro a
governar o país. É de minha geração e eu confesso que me identifico
mais com ele (não apenas por ser negro, o que o aproxima da
identidade brasileira) que com Clinton. Não por ser "minoria". Há
algo no olhar dele que parece dizer que sabe o que representa. Uma
plácida e tranqüila consciência do que se espera dele. Não é de
esquerda, nem será um revolucionário em relação à cultura democrata
(é mais conservador que Kennedy, por exemplo, até nos costumes e
hábitos), mas terá toda uma expectativa e uma crise que empurrarão
seu governo para uma boa dose de ousadia. Mesmo que não seja ousado
de fato, sempre será tentado a criar um discurso que aceite esta
possibilidade. Terá muitas obrigações porque conquistou maioria na
Câmara e no Senado: Obama bateu McCain em Estados-chave, como Ohio,
Pennsylvania, New Hampshire, Iowa e Novo México.
Sua lista de 10 promessas de campanha
indica temas globais e que marcam diferenças nítidas com a gestão
Bush:
-
Reduzir as emissões de carbono dos
EUA em até 80% até 2050 e ter um papel mais forte e positivo na
negociação do tratado global que irá dar continuidade ao
Protocolo de Quioto
-
Retirar todas as tropas do Iraque
dentro de 16 meses e não manter nenhuma base permanente no país
-
Estabelecer uma meta clara para
eliminar todo o armamento nuclear do planeta
-
Fechar o presídio de Guantánamo
-
Dobrar o apoio financeiro para
reduzir pela metade a extrema pobreza até 2050 e contribuir para
a luta contra o HIV/AIDS, a tuberculose e a malária
-
Abrir um diálogo diplomático com
países como o Irã e a Síria para buscar uma solução pacífica
para tensões políticas
-
Desmilitarizar o serviço
norte-americano de inteligência para evitar o tipo de
manipulação que gerou a guerra no Iraque
-
Lançar um grande esforço diplomático
para cessar a matança em Darfur
-
Somente negociar novos tratados
comerciais que contenham proteções trabalhistas e ambientais
para os países envolvidos
-
Investir USD $ 150 bilhões nos
próximos 10 anos em energias renováveis e colocar 1 milhão de
carros elétricos nas ruas até 2015
Destacaria algumas de suas promessas,
para podermos ter uma dimensão das tensões que deverão ocorrer em
2009:
a) Debelar
(imediatamente diminuir o impacto) da crise econômica dos EUA. Os
especialistas afirmam que a normalidade retornará entre 5 e 10 anos.
Os EUA têm um déficit orçamentário de 455 bilhões de dólares. Sua
dívida bate a marca do um trilhão de dólares. Obama promete cortar
os impostos para a classe média, que atingirá, segundo seus
discursos de campanha, 95% dos americanos. Pretende reformar o
sistema de seguro de saúde (algo que os Clinton já prometiam);
b) Estabelecer
novos padrões na política internacional. O primeiro passo é a
promessa de terminar com a guerra do Iraque é uma das principais
metas, além de ações diplomáticas no Oriente Médio, que incluem o
diálogo com Irã e Síria. O Iraque deve entrar em guerra civil (se é
que já não está mergulhado nesta tragédia). Os especialistas duvidam
que Obama consiga retirar tropas em 2 anos. O Iraque se fragmentou
em vários grupos. Os curdos, ao norte; os sunitas (aproximadamente
40% da população, divididos entre apoiadores do antigo regime,
fundamentalistas da região de Fallujah, nacionalistas) e jovens
vindos pela fronteira síria para lutar na jihad, a Guerra Santa. O
problema de todo conflito e resistência armada dos muçulmanos
fundamentalistas está na Arábia Saudita, fonte de todo
financiamento;
c) A
própria promessa de superação da desigualdade social. O "farol" será
a condição de vida dos negros e pobres de New Orleans.
Se o desgaste do governo Bush se agravou
com a crise da Guerra do Iraque e a Crise Econômica (a bolha de
consumo imobiliário, que afeta duramente a classe média de seu
país), evidentemente estes serão os temas que serão observados
atentamente pelos republicanos. Obama terá que provar que não vendeu
ilusões.
Lembremos que Bush se tornou, em 2001, o
presidente mais popular da história dos EUA, com 90% de aprovação
(Gallup). O nacionalismo bélico estava em alta. Este não é o
combustível de Obama. Sua popularidade não está num resultado que
massacre um inimigo externo. Mas é aí, justamente, que mora o
perigo: sua popularidade não estaria alicerçada numa teia difusa de
expectativas? Não seria um líder do século XXI, marcado pela
proximidade difusa e virtual do mundo da internet? Não
necessariamente uma imagem construída externamente (como na
construção do fetiche, a contraface da alienação), mas internamente,
individualmente, por cada eleitor esperançoso de ter o “seu” Obama.
Lembremos que Bush tinha um superávit de
US$ 651 bilhões (R$ 1,3 trilhão) em 2001. Deixa um déficit recorde
de US$ 438 bilhões, sem levar em consideração o pacote de estímulo
econômico superior a US$ 800 bilhões.
Obviamente que a divulgação de fotos de
iraquianos torturados por soldados norte-americanos, o desastre
provocado pelo furacão Katrina (Obama não lembraria diariamente esta
tragédia, pela sua própria existência, mesmo que não trabalhasse por
isto, ao menos em grande parte da população?), e a maior crise
econômica que os Estados Unidos tiveram desde os anos 30 não
perseguirão Obama como sua culpa, mas perseguirão como uma lembrança
nacional que terá que sepultar. Esta é a promessa perseguida pela
multidão de eleitores que saíram de suas casas, ultrapassando a
marca histórica de menos de 50% de eleitores efetivos (foi superada,
nesta eleição, a marca dos 60%).
A ousadia na campanha
Se nos apoiarmos na ousadia e
profissionalismo da campanha, podemos esperar uma forte reação logo
no início do novo governo. Muitos analistas afirmam, nos últimos
dias, que ele teria sido o primeiro candidato que fez da Internet um
grande instrumento. No Brasil, vários viram na campanha de Gabeira
um paralelo (com as devidas proporções, diga-se de passagem). As
doações e contribuições de US$ 20 ou US$ 50 geraram a maior
arrecadação nesta campanha. Em agosto de 2008, Obama conseguiu US$
66 milhões em doações, um recorde em arrecadação mensal. No mês
seguinte, mais que dobrou esse número: foram US$ 150 milhões
recebidos para a campanha, um novo recorde. Algo parecido com a
venda de “bottons e camisetas” do início do PT, no Brasil,
atualizado para o século XXI.
Rubens Ricupero destaca um fator pouco
comentado até agora: "nos Estados Unidos, há muito tempo que os
candidatos só disputam aqueles Estados que têm muitos votos e que
podem passar de um partido para o outro. Ele, não: resolveu entrar
em muitos Estados ao mesmo tempo e virou o jogo em Estados que eram
considerados republicanos."
Termino este artigo com o texto de outro
email que recebi. Ele diz, por si, a ousadia e a apropriação popular
que a campanha de Obama gerou. Não sinto sua eleição como um
fenômeno por si só. Não consigo perceber que ele carrega uma mudança
real, uma participação efetiva de uma sociedade paralisada. Mas sua
imagem, mais que a real, apropriada por gente como a que escreveu a
mensagem que reproduzo abaixo, pode ser fator de mudança, ou ainda
uma grande expectativa de mudança. Vejamos como esta energia será
canalizada nos próximos meses.
Vamos à mensagem:
“Nós construímos um enorme mural
perto da Casa Branca em Washington DC onde vamos postar o número
de assinaturas da nossa mensagem e colar mensagens pessoais
recebidas do mundo todo. Quanto mais mensagens forem
enviadas, mais o mural vai crescer dentro das próximas horas.
Nós pedimos para o Obama receber pessoalmente nossas mensagens,
por isso vamos tentar conseguir 1 milhão de assinaturas!
Clique no link para ver a mensagem que escrevemos ou escrever a
sua própria:
http://www.avaaz.org/po/million_messages_to_obama
Este é um momento de celebração mas
as mudanças não serão fáceis: a indústria do petróleo, da
guerra e o lobby conservador são bem fortes nos EUA. O mesmo
grupo poderoso que planejou a guerra no Iraque está se
preparando para deter as mudanças propostas pelo novo governo. O
Obama prometeu trabalhar pela integração nacional, mas não
podemos permitir que ele ceda aos conservadores em troca de
conchavos políticos. Vamos enviar uma mensagem de incentivo
ao Obama, lembrando-o de se manter firme nos assuntos globais
mais urgentes. Contamos com o cumprimento das promessas de
campanha, que defenderam um tratado forte contra as mudanças
climáticas, o fim da tortura e o fechamento do presídio de
Guantánamo, o estabelecimento de um plano cuidadoso para a
retirada das tropas do Iraque e a duplicação dos recursos
destinados ao combate à pobreza global. Nunca antes na
história um presidente norte-americano esteve tão aberto para
nos escutar.
Com esperança,
Ricken, Brett,
Alice, Iain, Paula, Paul, Graziela, Pascal, Milena e toda a
equipe Avaaz”.
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