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FILIPE GIUSEPPE DAL BO
RIBEIRO
Mestrando em Geografia Humana pela
Universidade de São Paulo. Bacharel em Geografia pela
Universidade de São Paulo.

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O “longo” século XIX: Clausewitz, Lavallée e a
Ordem da Santa Aliança em perspectiva
Filipe Giuseppe Dal Bo Ribeiro
1-Introdução
O tema do presente artigo é a formação
dos estudos de Geografia Militar
no longo século XIX. Uma questão é central em nossa pesquisa:
qual foi a influência das obras “Da Guerra” de Carl Von
Clausewitz e “Géographie physique, historique et militaire”
de Théophile Lavallée? Sendo que ambas foram publicadas em 1832.
Este tema é relevante para entender qual a influência dos fatores
geográficos na estratégia de uma defesa nacional.
Para tanto, é preciso contextualizar as
obras dos autores acima citados, sobre a ótica da Ordem da Santa
Aliança, uma constelação geopolítica muito importante na história,
em que cinco potências dividiam o poder mundial- Prússia, França,
Áustria e Rússia. Considera-se um consenso nas análises das Relações
Internacionais que o equilíbrio resultante desta ordem
impossibilitou uma guerra, envolvendo todos esses impérios. O
interesse no tema consiste em sua atualidade ainda hoje, pois são
observáveis, no mundo contemporâneo, mecanismos semelhantes de
pactos militares como a OTAN (Organização e Tratado do Atlântico
Norte)
que limitam o confronto entre potências.
Discutiremos um tema ainda
insuficientemente abordado pela Geografia: a anterioridade da
Geografia Militar frente à Geopolítica, e como estes dois
conhecimentos estão associados um ao outro. Vamos, entre outras
coisas, analisar os fatores geográficos abordados por Clausewitz,
autor que foi estudado pela Ciência Política e pelos estrategistas
militares – mas, curiosamente, pouco pesquisado pelos geógrafos.
O conhecimento histórico-geográfico das
guerras serve em primeiro lugar para evitá-las. Conhecendo os pontos
estratégicos do território, podemos entender manobras militares de
países estrangeiros em territórios alheios, por exemplo: qual é o
interesse dos Estados Unidos de reabilitar a IV Frota do Atlântico
Sul (o que ocorreu em junho de 2008)? Embora nossa intenção não seja
responder a derradeira questão neste artigo, a disciplina
Geografia Militar poderia contribuir em muito acerca desta
questão, e também sobre a defesa nacional.
Hoje, observamos no campo científico
americano um resgate da antiga Geografia Militar e uma corrida
armamentista desencadeada pelos Estados Unidos
que no campo militar é a única potência hegemônica. Segundo John M.
Collins, a Geografia Militar nos Estados Unidos da América somente
começou a ser discutida no 92º encontro anual da Associação de
Geógrafos Americanos em 1996, após grande discussão, dando origem à
criação de um grupo de estudo para tratar, exclusivamente, do
assunto. Antes disto, esta ramificação da Geografia era quase
desconhecida até mesmo pelas organizações de logística militar
estadunidenses.
2- A Geografia da Santa Aliança
A Ordem da Santa Aliança,
abordada nos estudos de Relações Internacionais, foi um
sistema internacional
demarcado historicamente por compreender o período entre duas
guerras de dimensões catastróficas na Europa. Trata-se das guerras
napoleônicas que perduraram do final do século XVIII até o
Congresso de Viena de 1815, e da Primeira Grande
Guerra Mundial, de 1914-1919, que, por sua vez, foram
responsáveis por importantes transformações da configuração e das
relações geográficas do nosso globo, segundo Kissinger (1994).
A fórmula da Santa Aliança traduz de
forma extrema e solene o reconhecimento de uma homogeneidade: os
governantes dos Estados soberanos se prometem assistência mútua
contra os revolucionários. Os liberais denunciaram a Santa
Aliança como uma conspiração dos reis contra os povos. (ARON,
1962:160)
Dois princípios foram usados para
reconstruir a Europa depois das guerras napoleônicas: a preservação
do equilíbrio político das potências e a restauração das antigas
dinastias derrubadas por Napoleão Bonaparte. Os princípios do
Congresso de Viena iriam redesenhar o mapa político europeu.
3- A Geografia Moderna e sua Gênese
O desenvolvimento do conhecimento
geográfico torna-se muito importante no longo século XIX. A
Geografia de fato se tornou fundamental no contexto da reação das
antigas casas dinásticas que, no Congresso de Viena, buscaram
retornar às bases da personificação do poder, juntamente com um novo
fator inserido: o sentimento nacional – resultado de suma relevância
das guerras napoleônicas. O espaço, então, aparece como a forma
física da identidade nacional. Este acontecimento não foi um período
de paz como poderíamos pensar, já que os levantes nacionais
aconteceram em todo continente. Tivemos alguns conflitos entre os
Estados europeus: as “Guerras de Unificação da Alemanha” (1860), a
“Guerra da Criméia” (1852) e a “Guerra Franco-Prussiana” (1871) a
partir de meados do século XIX.
A partir do século XIX, sobretudo,
podemos perceber o quão importante se tornou o conhecimento
geográfico e o quanto ele, de fato, se desenvolveu. Há uma vasta
bibliografia que trata sobre o assunto da gênese da Geografia
Moderna, e “não é nenhum despropósito apontar o século XIX, o
momento da sistematização deste conhecimento estratégico” (ROBERT
MORAES, 1989:25). Pois é neste momento que os “Impérios”, cientes do
espaço mundial, buscavam criar estratégias vencedoras com o intuito
de atrair para si o poder mundial, segundo MARTIN (2007). É o caso
justamente da Alemanha formada tardiamente em torno da Prússia, onde
surgiriam os pioneiros da Geografia Moderna como Karl Ritter,
Alexander Von Humboldt – no início do século XIX – e Friedrich
Ratzel, no fim do século XIX.
Os pressupostos da sistematização da
Geografia Moderna se encontram na passagem do Feudalismo para o
Capitalismo a partir das grandes navegações, da sistematização da
Filosofia e das Ciências Naturais no século XVIII e do debate
fundamental das teorias evolucionistas; mas, este “processo foi obra
do pensamento alemão de Humboldt e Ritter, prussianos, assim como
quase todos os principais geógrafos do século XIX” (ROBERT MORAES,
1989:25).
4- Theophile Lavallée: A
anterioridade da Geografia Militar frente à Geopolítica
Vale sublinhar o fato de que a ciência
geográfica começa a ser estudada pelas escolas de oficiais do
exército francês no início do século XIX, sendo os conhecimentos
recém-adquiridos utilizados na aplicação de técnicas e estratégias
militares.
Segundo Philippe Boulanger (2005)
,
na primeira metade do século XIX a disciplina Geografia Militar
começa a ser ensinada na formação da elite militar francesa na
Escola Especial de Saint-Cyr pelo professor Théophile Lavallée, que
organiza os primeiros fundamentos desta disciplina em seu livro
“Géographie physique, historique et militaire”, publicado em
1832, reeditado em 1865 e em 1880. Depois da humilhante derrota
francesa na guerra Franco-Alemã (1870-71) a Geografia passou a fazer
parte definitiva da cultura militar. Portanto, podemos afirmar que
Lavallée e sua Geografia Militar foram antecessores
legítimos da Geografia Política e da Antropogeografia,
ambas desenvolvidas por Ratzel na segunda metade do Século XIX, e da
posterior Geopolítica de Kjellen.
Lavallée foi bastante influenciado pelo
que havia ocorrido décadas antes da publicação da primeira edição de
sua obra (op. cit., 1832): as guerras napoleônicas. Na 7ª edição em
1865, ele revisa sua obra diante das guerras internas na França,
Itália, Argélia e a Guerra da Criméia (1852), que possibilitaram
novas análises no âmbito da Geografia Militar do continente
Europeu. Também nesta edição, Lavallée reivindica sua autoria
teórica na disciplina Geografia Militar chamando-a de “minha
Geografia Militar”.
Eu o tenho modificado e corrigido
inteiramente nesta 7ª edição; eu acrescentei à obra detalhes,
que eu considero interessante, sobre as fronteiras da França, a
Argélia, a Itália, a Criméia e etc. Finalmente, como minha
geografia militar foi traduzida ou plagiada em várias línguas,
eu consegui enriquecê-lo de informações que me foram trazidos de
sábios oficiais estrangeiros: eu devo principalmente agradecer,
a esse respeito, ao senhor Jackson, coronel da artilharia na
armada britânica, quem publicou em Londres, em 1850, uma
tradução inestimável de uma parte da minha obra sob o título de
“A topografia militar do continente europeu do francês Sr. Th.
Lavallée”
.
(LAVALLE, 1865: prefácio)
5- A Geografia Militar e o conceito
de Estado em “Da Guerra”
A grande obra que surge como primeira
referência deste período, uma espécie de manual dos imperadores
modernos, é a obra de Carl Von Clausewitz, Da Guerra (Vom Krieg)
publicada após sua morte em 1832. Ele viveu entre o século XVIII e
XIX, um período de transição histórica, contudo podemos observar em
seu trabalho um caráter dual em que a ordem internacional de
Vestfália (1648-1815) chegava ao fim e da Santa Aliança (1815-1914)
começava a se estruturar, portanto sendo uma época de transição
histórica onde as suposições ideológicas eram tão importantes quanto
os fatos consumados.
De um lado encontrava-se o sistema
internacional europeu de 1648-1789, que Clausewitz olhou sob uma
elucidativa perspectiva histórica. Do outro, o sistema
internacional europeu de 1815-1914, do qual Clausewitz se tornou
profeta (RAPOPORT, 1996: XVII)
Rapoport mostrou como as idéias poderiam
ser demasiadamente influentes em nosso mundo, podendo inclusive
alterá-lo. Já que a Europa no início do século XIX vivenciava uma
política de desarmamento e no fim desse mesmo século, os países se
atiravam numa corrida armamentista levando a Europa ao maior
massacre humano da história da humanidade, sendo Clausewitz
considerado “O pai ideológico da Primeira Grande Guerra Mundial”
(KEEGAN, 1995:39). O continente europeu – na época em que Clausewitz
escreveu os manuscritos “Da Guerra” – em 1818 encontrava-se
completamente exaurido pelas guerras napoleônicas – conhecidas pelos
europeus como a “Grande Guerra”. O teorema de Clausewitz, segundo o
qual a guerra deveria servir apenas a si mesma, fez com que durante
o século XIX – sobretudo a partir da primeira metade – as potências
européias voltassem a se armar, sendo a Alemanha a principal
artífice deste processo. “No século XIX, a Prússia foi efetivamente
tomada por regimentos; em 1831, havia apenas quarenta deles, mas em
1871 havia mais de cem” (Ibidem, 1995:37). Portanto, Clausewitz pode
ser considerado de duas formas: ou o “profeta” da Primeira Guerra
Mundial, segundo Rapoport (1996); ou em outra visão, como
“idealizador”, segundo Keegan (1995), do “Teatro de Guerra” na
Europa.
Grande parte dos estudos feitos sobre
Da Guerra foram desenvolvidos sob a ótica das Ciências Políticas
ou dos estrategistas militares que não destacaram a geograficidade
da obra de Clausewitz. Precisamos contemplar os fatores geográficos
em sua obra, para que possamos fazer uma relação entre o
desenvolvimento de suas estratégias que, de certa forma, estão
subordinadas aos fatores geográficos (relevo, vegetação,
hidrografia, clima), na qual ele dedica grande parte de seu esforço
intelectual (Livro V – “As forças militares”, Livro VI – “A defesa”,
Livro VII – “O ataque” e Livro VIII – “O plano de guerra”).
A segunda parte de sua obra é justamente
um aporte teórico para a Geografia Militar, bem
característico de um estudo oriundo dos regimentos de infantaria.
Pois para infantaria o conhecimento do campo de batalha e como
melhor tirar proveito, é a diferença entre a vida e a morte. Além de
ser contemporâneo da formação do regimento na Prússia, Clausewitz
também, como muitos prussianos, integrou um regimento tradicional:
Clausewitz era um oficial de
regimento. Isso exige alguma explicação. Um regimento é uma
unidade de força militar, tipicamente um corpo de duzentos
soldados. O regimento era uma característica estabelecida da
paisagem militar na Europa do século XVIII que sobrevive intacta
em nossa época. (KEEGAN, 1995:29)
O conceito de Estado foi bastante
teorizado neste longo século XIX; para Clausewitz o Estado
era como uma pessoa personificada na figura do rei. “Os agentes, no
paradigma clausewitziano, das relações internacionais são,
como já disse, Estados soberanos que, para todos os efeitos
práticos, podem ser considerados como pessoas”. (RAPOPORT, 1996:
XVII). O Estado personificado foi uma visão que durante o século XIX
se transformou em Estado-Territorial; de fato, os estados
territoriais começaram a fazer mais sentido a partir deste momento,
pois o Congresso de Viena teve um embasamento de um conhecimento
geográfico muito mais preciso do que fora antes e, os Estados
começavam a ser definidos pelos seus territórios, tanto na Europa
como no resto do mundo.
A visão geopolítica de Kjellen em as
Grandes Potências e de O Estado como forma de vida,
publicados, respectivamente, em 1905 e 1916, prenunciavam a guerra
de 1914: “a geopolítica de Kjellen se desenvolveu contra o pano de
fundo da corrida armamentista, da política de paz armada, do
ultranacionalismo, dos sistemas de alianças e das crises
interimperialistas” (MELLO, 1997:32).
Momentos antes do início da Primeira
Grande Guerra Mundial, o pai da geopolítica, o sueco Rudolf Kjellen,
analisa o mundo no auge da corrida armamentista iniciada no fim do
século XIX. Ele extrapolou o conceito ratzeliano de espaço
vital e, em sua teoria, o espaço se transformava num organismo
vivo que como tal possuía um corpo que era seu território: “A
comparação entre os Estados e os seres vivos, que em Ratzel era
visto com uma grande semelhança, assumiu em Kjellen a dimensão de
identidade absoluta” (MELLO, 1997:33).
6- Conclusão
Concluímos que o início do século XIX,
assim como o momento em que vivemos, fora uma época de transição
geopolítica e análise científica da guerra – observados na obra
Da Guerra de Clausewitz– e seus fatores geográficos, sociais e
políticos aconteceram em um momento que os impérios europeus estavam
horrorizados com uma guerra tão sangrenta como a Europa jamais
vivenciara até então.
Entretanto, o fim do longo século
XIX termina com a corrida armamentista do Império Alemão defendida
pela ideologia geopolítica de Kjellen. A sistematização da Geografia
Moderna acompanhou o desenvolvimento do Estado-Nação que aconteceu
ao longo do século XIX. A Geografia foi um conhecimento, a
princípio, a serviço dos Impérios, mas que, no primeiro momento,
estava voltada mais a prática militar, aos campos de batalha.
A Geografia Militar foi um
conhecimento importante não só para os regimentos de infantarias.
Mais tarde, a Geografia se transformara no arcabouço teórico para
justificar as ações expansionistas baseadas na teoria do espaço
vital de Ratzel, em que o poder do Estado era pautado pela
dimensão de seu domínio territorial ou sua influência nas relações
sociais, políticas, econômicas e militares.
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