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AMADO LUIZ CERVO
Professor titular de Relações
Internacionais da UnB e autor de Relações Internacionais da
América Latina (São Paulo: Saraiva, 2007)

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Fórmula para o caos: o golpe contra Allende
Amado Luiz Cervo
Recém
chegado às livrarias, o novo livro de Moniz Bandeira (Fórmula
para o caos: a derrubada de Salvador Allende, 1970-1973. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2008) é sucesso de venda, tanto em
sua versão portuguesa quanto espanhola. Conhecido por seus livros
acerca da história das relações internacionais hemisféricas, o
historiador angariou fama e respeito no mundo acadêmico,
jornalístico e político, como profundo conhecedor dos Estados
Unidos, do Brasil, da Argentina e de outros países da América do
Sul.
A narrativa original sobre os três anos
de governo de Salvador Allende, bem como sobre a trama interna e
internacional que resultou no bombardeio do palácio La Moneda e na
assunção de Augusto Pinochet, foi elaborada à base de documentação
primária fornecida por arquivos chilenos, brasileiros e
norte-americanos, especialmente os arquivos da CIA.
O leitor descobre no livro de Moniz
Bandeira duas contribuições essenciais à compreensão de um evento
que marcou profundamente a história do Chile e a vida de tantos
exilados latino-americanos que se refugiaram naquele país, fugindo
de outras ditaduras militares. Em primeiro lugar, a história interna
do país e a articulação de forças econômicas, militares e políticas
que contribuiu para desestabilizar o governo de Allende. Em segundo
lugar, a ingerência de forças externas, tanto aquelas do sistema
econômico, que René Armand Dreifuss chamou de internacional
capitalista, como a decisiva ingerência da CIA por meio de suas
operações encobertas, e a ajuda da diplomacia militar
paralela dos regimes da América do Sul. Fórmula para o caos,
o título do livro, foi tomado da denominação dada pela própria CIA
para o conjunto de atividades com que ela mesma tramava o golpe
militar.
Inspirado pela idéia de Antonio Gramsci,
Bandeira escreve com o objetivo de tornar conscientes essas forças
que explicam o passado e podem influir sobre o presente. Um livro de
história para ler por quem pretende dela ser parte ativa em seu
próprio tempo.
Com efeito, espalhavam-se nos anos 1960
e 1970 os regimes militares pela América do Sul. O aprofundamento de
estudos sobre casos como o chileno conduz o leitor ao conhecimento
das forças que subjaziam em sua origem e evolução por toda a região.
Por isso tais estudos, como este sobre o Chile, feito com tanta
fidelidade às fontes, objetividade descritiva e linguagem
escorreita, tornam-se indispensáveis ao conhecimento da América do
Sul, da margem de autonomia dos Estados nacionais e de sua
vulnerabilidade.
Temas delicados e relevantes que
envolvem o governo Allende são expostos pelo autor com coragem: o
papel da diplomacia brasileira e do governo dos Estados Unidos; a
importância da instabilidade financeira e econômica; o envolvimento
de empresas multinacionais com elites políticas e militares; a ação
de organizações revolucionárias; o processo eleitoral. Sobretudo, a
ação de poderosa força desestabilizadora norte-americana, a CIA,
sobre governos democráticos, como foram os governos de João Goulart
no Brasil e de Salvador Allende no Chile, ambos derrubados com ajuda
externa decisiva. E os planos: planos de reforma política, de
reformas sociais, planos de conspiração, de apoio, planos de
insurgência e de contra-insurgência, planos de salvação da pátria.
A CIA foi, segundo a conclusão do autor,
o grande vencedor do 11 de setembro de 1973, dia do golpe. Allende e
seu projeto de implantação do socialismo pela via pacífica, o grande
perdedor. Mesmo porque contrariou, talvez sem saber, a teoria
marxista, no ponto em que esta concebe a transição para o socialismo
como via natural da organização capitalista, ponto de chegada,
maturação. Como a própria União Soviética não havia reunido tais
condições, o socialismo de Estado lá teve de ser implantado pelo
terror. Ademais, Moniz Bandeira chega a uma terceira conclusão: os
militares chilenos, entre os quais o próprio general Carlos Prats,
comandante do Exército, entenderam o projeto socialista como uma
utopia e os regimes militares de Brasil e Argentina não tolerariam
outra Cuba socialista, desta feita na América do Sul.
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