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HENRIQUE RATTNER
Professor na Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa
LEAD Brasil e da
ABDL - Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

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Juros e
Inflação – chega de mistificação!
Henrique Rattner
Em
decisão unânime, o COPOM – Conselho de Política Monetária do Banco
Central resolveu manter a taxa básica de juros – a SELIC – em 13,75%
ao ano, na última quarta feira, 29 de outubro de 2008. No mesmo dia,
o Federal Reserve Bank dos Estados Unidos baixou a taxa básica de
juros para 1% ao ano e dois dias depois, o do Japão baixou sua taxa
de 0,5% para 0,3% ao ano. Da mesma forma, a maioria dos países
desenvolvidos, e emergentes, baixaram suas taxas para enfrentar a
crise de uma recessão econômica.
O
Brasil ocupa a duvidosa posição de primeiro no ranking mundial de
juros reais e nominais, entre todos os países do mundo.
Como explicar essa contradição, após as declarações pomposas e
eufóricas das autoridades brasileiras – o presidente, o ministro da
Fazenda e outros –de que o Brasil estaria “descolado” da crise que
seria um problema dos Estados Unidos e que a nossa economia estaria
sólida e blindada contra qualquer abalo das turbulências que assolam
o sistema financeiro e as economias, em escala global.
As
explicações oferecidas pelo Banco Central são esdrúxulas e
controvertidas, embora silenciosamente aceitas e, às vezes elogiadas
pela maioria dos economistas, executivos de grandes empresas e,
sobretudo, os donos dos bancos. A decisão do Banco Central é
recebida como se fosse uma verdade revelada no Monte Sinai,
incontestável e perfeitamente adequada aos problemas e desafios da
crise de dimensões globais. A manutenção da alta taxa da SELIC
asseguraria o controle da inflação, embora a mesma já tenha
ultrapassado em 50% a meta fixada pelos magos da economia, de 4,5%
ao ano. Ao mesmo tempo, são divulgados os aumentos do IGP-M – índice
geral de preços do mercado, de mais de 10%, o que repercutirá nos
reajustes dos aluguéis, da eletricidade e de outras tarifas, além do
aumento dos serviços, todos concorrendo para um aumento do custo de
vida, não computado no índice oficial da inflação.
Falta explicar, contudo, por que os outros países reduzem suas
taxas, sem temor da inflação. A alta taxa de juros, em termos reais
e nominais reduzirá o crédito e, assim, a demanda e o consumo da
população, sobretudo daqueles que costumam comprar à crédito por
meio de cartão e de cheque especial. Os 13,75% da SELIC valem apenas
para as transferências interbancárias. Para os consumidores são
cobrados juros de 120% com cartão de crédito e chegam até 180% para
as compras com cheque especial. Mesmo para as empresas, os
empréstimos dos bancos cobram entre 35% a 40% ao ano, o que
inviabiliza qualquer projeto de investimento industrial ou
comercial.
Obviamente, alguém lucra com essa política absurda. São os bancos e
os especuladores que operam com os próprios papéis do governo,
auferindo ganhos fabulosos, sobre os quais, pasmem, incide uma
alíquota de impostos de apenas 20%! Assim, não é de admirar se que,
embora haja um aperto da economia popular, ocorra um aumento da
demanda por bens de luxo – veja o salão de automóveis de São Paulo,
a compra de yachtes milionárias e a construção ininterrupta de
imensas mansões dotadas de piscinas e de mobiliário com as últimas
requintes da moda e tecnologia. Por outro lado, a alta taxa de juros
afeta negativamente a economia popular, reduzindo a demanda por
habitação, saneamento, transporte público, infra estrutura e
serviços de educação e saúde, devido ao corte nos gastos do governo.
O alto custo de crédito diminui a demanda por roupas, móveis, mesmo
de alimentos, sem arranhar o consumo de luxo e, muitas vezes, de
desperdício.
Em
vez de financiar a expansão da produção, a alta taxa de juros
estimula a especulação e aumenta os lucros dos bancos e de uma
minoria milionária e poderosa no cenário político e econômico do
país.
O
governo, em vez de reprimir a demanda, deveria estimular e
incentivar a oferta de bens duráveis de consumo popular, ainda tão
carente no Brasil. Mas, como aumentar a oferta em tempos de crise
financeira? Eis o busílis da questão: o que as elites fazem com seus
lucros, correspondentes a 1/3 do PIB – produto interno bruto, de
aproximadamente 1,4 bilhão de US$? A dura realidade é que não os
investem nos setores produtivos do país. Além do consumo de luxo,
boa parte é desviada para paraísos fiscais, de onde voltam
anonimamente para investimentos especulativos, na bolsa, em
derivativos e outros papéis, para serem retirados a qualquer sinal
de crise das aplicações financeiras.
É
óbvio que o consumo não dá conta das centenas de bilhões nas mãos
das elites. Empresários e banqueiros alegam , como desculpa, a alta
taxa tributária, alegação que constitui outra mistificação. Nos
países europeus, a título de exemplo, as taxas se situam entre 45% e
50% (o caso da Dinamarca) do PIB, sem que suas economias sejam
abaladas. Ao contrário, ostentam os mais altos índices de IDH –
índice de desenvolvimento humano aferido pelas Nações Unidas. Outro
exemplo de inspiração deve ser a China cujo PIB cresceu nos últimos
vinte anos a uma taxa média de 11% ao ano, investindo quase 50% do
total gerido pelas atividades econômicas, o que lhe permitiu a
incorporação de mais de trezentos milhões da população rural que
vegetava em nível de subsistência, à economia de mercado.
Em conclusão, para
combater a inflação, num cenário de pobreza que afeta pelo menos
cinqüenta milhões de brasileiros, é indispensável aumentar a oferta
de bens e serviços e não manipular a taxa de juros.
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