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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil



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Falácias acadêmicas, 4:
o mito do Estado corretor dos desequilíbrios
de Mercado
Paulo Roberto de Almeida
Dando continuidade ao exame crítico dos
equívocos conceituais e empíricos mais facilmente encontráveis na
academia – cuja série já contemplou questões como
os mitos do neoliberalismo, o do
Consenso de Washington e o do
marco teórico –, vamos tratar agora de uma das falácias mais
disseminadas e recorrentes na imprensa e nos artigos de
universitários que circulam pela internet atualmente: o mito do
Estado como “salvador” de economias supostamente contaminadas pelos
“desequilíbrios” de mercado e como “garantidor” de sistemas
financeiros estáveis e mais previsíveis.
O argumento levantado segue uma linha
conhecida: já que a crise financeira se aprofunda e cria o espectro
de uma nova depressão ao estilo daquela dos anos 1930, os
“analistas” da crise do capitalismo liberal proclamam
recorrentemente a notória incapacidade dos mercados se
auto-regularem, o que cria, portanto, a necessidade de o Estado
corrigir os desvios nocivos do “laissez-faire” mediante medidas
apropriadas de controle. Não apenas isso: criticam-se os excessos da
fase anterior, supostamente “desregulamentada”, e se pede uma
estrita regulamentação dos mercados, para – ao que se proclama –
impedir que as bolsas e os mercados financeiros se transformem no
que foi chamado de “cassinos abertos à jogatina dos especuladores”.
A rigor, a questão aqui selecionada para
análise tem a ver com existência de várias outras falácias que
continuam a freqüentar o discurso acadêmico, como: o mito da
especulação; o da mão invisível do mercado (e sua contraparte
funcional: o mito da mão visível do Estado); o mito da volatilidade
financeira e o próprio mito mais “mitômano” – se me permitem a
redundância – que possa existir: o mito das crises terminais do
capitalismo. Trataremos de todos eles oportunamente, mas, tendo em
vista, justamente, as demandas reiteradas por maior regulação
estatal dos mercados financeiros, examinaremos agora a falácia em
questão com maior grau de detalhe.
Vou proceder, como de hábito, por meio
de afirmações ou de questionamentos que repetem os argumentos mais
usados no período recente, submetendo-os, de minha parte, a outros
questionamentos com base em dados empíricos aferíveis e levando em
conta a experiência histórica do capitalismo no último século,
deixando de lado as explicações “doutas” que não fazem senão repetir
opiniões consolidadas no imaginário coletivo de economistas de
academia (nem por isso menos equivocadas).
De fato, o que mais se ouviu ou se leu,
nos últimos tempos, foram invectivas contra os mercados e demandas
por intervenção estatal. Como se as crises financeiras deslanchadas
nos EUA em 2007, agravadas em 2008, e que acabaram atingindo um
pouco todo mundo nos meses de setembro-outubro desse ano, tivessem
sido causadas exclusivamente pelos mercados “desregulados”, bastando
agora submeter todo o setor a normas estritas de vigilância
governamental – ou internacional – para que o sistema passasse a
funcionar de forma perfeitamente equilibrada e tranqüila. Acredito
que seja importante abalar essas convicções equivocadas,
introduzindo algumas pitadas de contestação intelectual a esse tipo
de déjà-vu falacioso.
1. Os mercados sempre provocam
desequilíbrios e crises?
Provavelmente, mas nem sempre...
Instabilidade e desequilíbrios são inerentes a toda e qualquer
economia dinâmica (como costumam ser as economias de mercado). Estas
inversões de ciclos ascendentes e descendentes constituem,
justamente, algumas de suas características mais interessantes e, ao
mesmo tempo,... mais desejáveis. O que caracteriza uma economia de
mercado é a tensão constante entre: de um lado, desejos infinitos –
como podem ser as “necessidades” humanas em bens “supérfluos”; de
outro, as possibilidades limitadas – dadas as restrições físicas e
as limitações tecnológicas (temporárias) – de aumento imediato da
oferta.
Normalmente, o detentor de um bem
valioso – provavelmente escasso, ou resultante de alguma inovação
tecnológica que torna esse bem atraente – estará em condições de
“extrair” renda do conjunto dos compradores e, com isso, maximizar a
sua renda e bem-estar. Como outros produtores e inovadores desejarão
igualmente aumentar a sua renda, logo haverá uma corrida para aquele
setor com taxa de retorno mais elevada, equalizando, portanto, o
nível de lucros e aumentando a satisfação de todos. Os mercados
financeiros costumam atuar da mesma maneira, com algumas variantes:
poupadores preferirão investir seus recursos em ativos de maior
rendimento relativo – ouro, terras, imóveis, moedas ou, mais
freqüentemente, em economias dinâmicas, ações de companhias de bom
desempenho – ao passo que os investidores, ou seja, os tomadores
desses recursos querem ativos ao menor custo possível. Dessa
interação resulta a taxa de juros de mercado, que tende a ser aquela
de equilíbrio entre a quantidade de ativos oferecida e a demanda por
crédito de alguns agentes.
Em economias de mercado aberto – isto é,
sem barreiras políticas ao ingresso de novos competidores – essas
taxas se formam pelo livre jogo da competição, entre a “ganância”
dos poupadores por um rendimento máximo pelos seus ativos e o
cálculo racional dos tomadores quanto ao retorno dos seus
investimentos. Um sistema desse tipo poderia funcionar numa
perspectiva ascensional sem maiores turbulências, se não fosse: por
um lado, a “cupidez” de alguns por uma taxa de retorno mais elevada
– daí a colocação de sua poupança em ativos de maior possibilidade
de lucro e, portanto, com maiores riscos, igualmente, como podem ser
certas ações; e, por outro lado, a interferência dos governos nos
mercados de capitais. Governos atuam de maneira desastrada, seja ao
manter taxas de juros artificialmente reduzidas, seja ao produzir
déficits orçamentários, que depois precisam ser financiados com a
tomada de recursos na economia a taxas de juros mais elevadas do que
o mercado normalmente pagaria.
Déficits fiscais e juros irrealistas
estão entre as causas mais freqüentes dos desequilíbrios de mercado,
como os recentemente observados em economias de países ricos. O
próprio sistema econômico de mercado vive em instabilidade
estrutural, posto que convivendo sempre com assimetrias de
informação entre os detentores de ativos, de um lado, e os tomadores
de crédito, de outro. O capitalismo – nada mais do que uma economia
de mercado – apresenta, portanto, a característica de instabilidade
constante. Mas é isso que o torna particularmente interessante. Como
as perspectivas de crescimento são sempre mais freqüentes do que
aquelas de descenso ou de estagnação, todos os agentes são levados a
acreditar que, sim, poderão obter lucros excepcionais de algum
investimento arriscado, que, sim, poderão adquirir aquele bem mais
desejado – casa, carro, objetos de luxo –, antecipando gastos que só
serão pagos com a renda futura, o que é permitido justamente pelo
mercado de créditos.
Resumindo: economias dinâmicas produzem
tensões entre os detentores de diferentes tipos de ativos – alguns
mais líquidos, outros existindo em estado “virtual”, ou seja, sob a
forma de riqueza futura – , tensões que podem ser acomodadas em
fases de crescimento, isto é, quando todos acreditam que ganharão.
Quando alguém duvida de que o retorno não será aquele esperado e
opera uma saída repentina do mercado em questão, o pânico pode se
instalar e todos acabam perdendo, pois a crise de confiança se
instala no coração do sistema. Esta é a origem mais freqüente desses
surtos de queda brusca dos mercados, que são sempre precedidos por
uma abundância inusitada de capitais – privados, ou produzidos
inflacionariamente pelos governos. O resultado é o enxugamento
temporário de parte da liquidez – certamente aquela parte valorizada
artificialmente, mas algum patrimônio real, também – até que o ciclo
seja retomado mais adiante, com nova euforia de crédito e possível
crise mais adiante.
Este é o destino de (quase) todas as
economias de mercado, pelo menos as mais dinâmicas. Um sistema
blindado contra crises e turbulências certamente não será um sistema
de mercado aberto, mas um fortemente regulado pelo Estado. Se a
regulação estatal fosse garantia de crescimento infinito, sem
crises, então os sistemas socialistas – que foram os mais
pesadamente regulados pelo Estado que se conhecem na história
econômica mundial do século XX – teriam sido as economias mais ricas
e poderosas do planeta, e não o desastre econômico e tecnológico –
sem mencionar os custos humanos e políticos da falta de liberdade e
da opressão – que foram, de fato. O socialismo, pela “estabilidade”
que pretendia criar, foi direto da história das utopias políticas do
século XX para a paz dos cemitérios dos modos de produção...
2. Os mercados são incapazes de se
auto-corrigirem?
Absolutamente errado: os mercados
sempre corrigem a si mesmos, em toda e qualquer circunstância.
Esse tipo de frase, não sob a forma de pergunta, mas de afirmação
presunçosa, não poderia estar mais errada, conceitual ou
empiricamente. São os governos ativistas que, atendendo aos apelos
de cidadãos, empresas e bancos, eventualmente desesperados pela
corrida para o “abismo”, impedem os mercados de se auto-corrigirem.
Se os mercados produzem desequilíbrios,
como explicado acima, e até crises – algumas devastadoras –, é óbvio
e ululante que esses mesmos mercados corrigirão os excessos, podando
o retorno de alguns, cortando o lucro esperado de outros, ou seja,
destruindo e redistribuindo ativos líquidos e até bens físicos.
Sempre é assim e sempre será assim, não fosse a interferência dos
governos. Estes impedem os mercados de se auto-corrigirem pela
eliminação “natural” dos desequilíbrios, mas num outro patamar, não
previamente determinado, de criação e de destruição de riquezas. A
realização dos lucros de mercado será integral para os que
conseguiram antecipar o movimento inverso, e fatalmente punirá os
incautos ou simplesmente lentos e mal informados.
Os mercados não são entidades morais e,
por isso, não são automaticamente inclinados a premiar alguns e a
destruir ativos da maioria. Eles atuam de forma cega, como sempre,
mas alguns “sábios” pretendem corrigir isso. Justamente, economistas
“morais” – e alguns tecnocratas de governo, que são convencidos
pelos primeiros – pretendem corrigir essas “imperfeições” de
mercado, sugerindo ações governamentais que aumentem retornos e
minimizem perdas de mercados (que são inerentemente instáveis). O
que eles conseguem fazer é retirar do mercado aqueles fatores
dinâmicos que, justamente, permitiram a criação de riquezas, mesmo
que de forma arriscada.
Governos sensatos – mas nem todos o são
– normalmente não interferem nos movimentos dos mercados de valores
mobiliários, como as bolsas de ações. Ascensos e descensos nos
valores mobiliários são constantes e inevitáveis, indo desde o
anúncio de balanços de empresas, até movimentos mais importantes nos
valores de um setor da economia, como um todo. Nem por isso os
agentes econômicos acreditam estar sendo manipulados por um bando de
capitalistas inescrupulosos (embora possa haver, também).
Independentemente dessa volatilidade natural dos mercados de ações,
as pessoas continuam a depositar confiança nesse tipo de
investimento, entregando suas poupanças aos emissores de títulos
(uma ação sem retorno, isto é, unilateral, baseada unicamente na
confiança de um retorno futuro). De fato, países que possuem esse
tipo de mercado em larga escala, são os que criam mais riqueza e
empregos, posto que as ações sempre se valorizam mais do que
quaisquer outros ativos, no longo prazo.
Diferente, obviamente, é a situação dos
mercados financeiros, em especial do setor bancário, pois aqui
estamos falando de “bens públicos”, como podem ser as moedas
nacionais e os sistemas de poupança e de crédito, que atuam de forma
muito interligada, tanto no plano nacional, como em escala mundial.
Ou seja, perturbações nesses mercados são suscetíveis de enviar
ondas de choque muito além do próprio setor bancário e por cima das
fronteiras nacionais, com efeitos potencialmente graves para
tomadores e provedores de crédito. Não que os mercados sejam
incapazes de se auto-corrigirem neste caso também, pois eles podem
fazê-lo, eventualmente com a quebra de alguns bancos e o
desaparecimento das poupanças de milhares de pessoas. A
auto-correção, neste caso, pode ser devastadora para muitas famílias
e as próprias contas públicas, que normalmente se abastecem nos
mercados privados (emitindo títulos para o financiamento de
investimentos de mais longo prazo, embora alguns governos o façam
também para gastos correntes, numa típica irresponsabilidade que
mereceria, sim, ser sancionada pelos mercados).
Essa característica específica dos
mercados de créditos – economistas dizem que o crédito é o sangue
que circula nas veias de qualquer sistema econômico – é que explica
a ação dos governos no sentido de “injetar liquidez” quando ocorre
uma crise desse tipo, embora a causa dos desequilíbrios tenha sido
exatamente um excesso de liquidez, na fase anterior, e,
conseqüentemente, com investimentos arriscados feitos por
particulares, banqueiros e os próprios governos. Registre-se que os
mercados não foram deixados ao seu “bel prazer”, como acreditam
alguns, posto que regulamentos nacionais e alguma regulação
internacional (normas prudenciais ditas de “Basiléia 2”) existem
para serem cumpridas. Pode ocorrer que elas não sejam observadas por
alguns atores do jogo, mas muitos governos não exercem o seu papel
fiscalizador.
Ao contrário, governos podem criar ou
agravar o problema, ao manter juros artificialmente baixos durante
muito tempo – aumentando, portanto, a liquidez do sistema – e,
depois, injetando mais recursos quando crises de solvência de bancos
mais frágeis se colocam concretamente. São os governos que criam o
chamado moral hazard, ou seja, a incitação à
irresponsabilidade. O Federal Reserve, por exemplo, manteve o juro
em 2% durante praticamente três anos (de 2002 a 2005), incitando ao
crescimento desmesurado do mercado imobiliário, além da capacidade
dos tomadores de honrar seus compromissos em caso da subida de juros
(o que ocorreu em 2005).
Se os mercados fossem verdadeiramente
livres, os juros JAMAIS teriam sido mantidos a um nível inferior a
um piso real – que historicamente, no capitalismo, se situa em torno
de 3,5% reais, ou seja, 5 a 6% nominais – e empresas garantidoras de
crédito – obviamente não apoiadas pelo governo, como era o caso da
Fannie Mae e do Freddie Mac – JAMAIS teriam alavancado hipotecas em
um nível desproporcional às suas garantias em capital próprio. Ou
seja, na ausência de sinalizações inadequadas dos governos, os
mercados SEMPRE se corrigem naturalmente, embora possam fazê-lo em
bases realistas, isto é, penosas para os incautos e os espíritos
especuladores...
3. São os Estados os “corretores”
ideais dos desequilíbrios de Mercado?
Talvez, mas não necessariamente da
forma mais eficiente possível. A rigor, não se pode falar aqui
do Estado, entidade inerentemente abstrata e impessoal, mas do governo,
que é o Estado posto em movimento por um grupo de pessoas,
comandadas por algum líder vitorioso nas eleições ou por um partido
político que conseguiu reunir a maioria no parlamento. Esses
detentores ocasionais do “poder de Estado” adotam medidas com base
em sua percepção do que sejam “desequilíbrios de Mercado” e de quais
ações seriam as mais apropriadas para remediá-las. Eles o fazem
misturando uma parte de ideologia político-econômica e outra de
pragmatismo circunstancial.
Keynes já havia afirmado que os
decisores políticos são sempre prisioneiros de algum economista
defunto. Aparentemente, todos agora são prisioneiros do próprio
Keynes e de suas receitas “anti-cíclicas”, mesmo quando foram elas,
justamente, que provocaram os problemas enfrentados atualmente. A
força dos mitos é tão poderosa que não se quer reconhecer que as
medidas keynesianas adotadas por quase todos os governos – estímulo
à construção civil, teoricamente para estimular um importante setor
da economia; manutenção de juros baixos para induzir investimentos
(mesmo sob risco de desestimular a poupança); gastos governamentais
além e acima das receitas correntes (gerando, portanto, déficit e
dívida pública); políticas de salário real protegido da inflação,
para estimular o consumo; enfim, um manancial completo de
ferramentas anti-cíclicas – estiveram em vigor durante muito tempo
em todas essas economias, que de resto convivem há muito tempo com o
peso avantajado do Estado – em média 38% do PIB – para serem
tachadas, a qualquer título, de “liberais”.
Aliás, essa noção de “Estado liberal” é
uma contradição nos termos: nenhum Estado é liberal, por mais
liberais, ideologicamente falando, que sejam os ocupantes ocasionais
de funções estatais. A lógica estatal é a da concentração de
poderes, tanto no plano político como no econômico, o que significa
ausência de competição, práticas conservadoras de gestão, imposição
de barreiras ao ingresso de novos competidores e uma série de outras
medidas que estão no exato oposto de uma economia de mercado animada
por princípios liberais. Ideólogos ingênuos acreditam que
capitalistas sejam “naturalmente” liberais, quando na verdade todo
capitalista concreto aspira ao monopólio em seu setor de atividade,
de preferência com a ajuda da mão visível do Estado. De fato, o
capitalista só se sente realizado quando ocupa o Estado, quando
consegue “ser” o Estado.
A outra ilusão de alguns acadêmicos
ingênuos é a de acreditar que os Estados, por meio dos seus
tecnocratas e outros responsáveis setoriais, consigam fazer com que
os mercados funcionem “melhor”, ou em todo caso sem os sobressaltos
trazidos pelas crises financeiras recorrentes. (Parênteses: se
medidas de regulação estatal, que vêm sendo aperfeiçoadas desde o
New Deal, servissem de obstáculo a crises financeiras, o mundo não
teria conhecido as crises que conheceu em 1971-73, em 1987, nos anos
1994 a 2001 e novamente a partir de 2007-2008; mas, claro, alguns
sempre poderão argumentar que essa regulação não foi ainda
“suficiente”.) De fato, com a exceção da liberalização relativa dos
fluxos de capitais – que também corresponde a uma política por parte
dos Estados, tendente simplesmente a reconhecer que nenhum Estado
comprometido com a economia de mercado consegue, na verdade,
controlar esses fluxos, pois teria de manter juros permanentemente
altos e taxas de câmbio sempre baixas –, a maior parte das
atividades do setor financeiro já se encontra regulada, tanto por
normas nacionais como por regras multilaterais (como as já referidas
“medidas prudenciais” de Basiléia, aliás, aplicadas pelo Brasil
acima dos requisitos).
Trata-se, efetivamente, de uma ilusão
acreditar que normas traçadas no plano legal por burocratas
nacionais – ou mesmo internacionais – consigam controlar toda uma
indústria financeira extremamente flexível, inovadora e, por
definição, volátil. Na verdade, não é o setor financeiro que se
torna volátil por deformação congênita, posto que capitais líquidos
estão sempre circulando de um canto a outro do planeta, em busca da
melhor remuneração possível, já que isto corresponde à sua natureza
intrínseca. São os legisladores e burocratas nacionais que criam a
volatilidade, quase que por acaso, ao pretenderem, justamente,
controlar as regras do jogo econômico e impor condições restritivas
aos detentores do capital, que decidem, assim, “evadir-se” de tais
controles. Não é segredo para ninguém que os países dotados de
maiores índices de volatilidade são, justamente, aqueles mais
restritivos no plano financeiro, como uma consulta ao Economic
Freedom of the World: 2008 Annual Report pode facilmente
comprovar (www.fraserinstitute.org
e
www.freetheworld.com).
Deveria, por outro lado, ser matéria de
simples bom senso uma constatação facilmente verificável quanto à
capacidade de os mercados se auto-corrigirem muito mais facilmente e
mais rapidamente do que pela via dos Estados: enquanto aqueles
distribuem rapidamente ganhos e perdas, realizando num curto espaço
de tempo os lucros (ou prejuízos) associados aos investimentos (bons
ou maus) efetuados, estes precisam enfrentar a via crucis do
debate legislativo (em regimes democráticos, entenda-se). É evidente
que existem países onde o processo é efetuado por simples decreto
executivo, muito mais autoritário, pouco transparente (e, portanto,
sujeito ao jogo da corrupção) e mais arbitrário do que no primeiro
caso. As normas reguladoras da atividade financeira então
implementadas dificilmente conseguem ser mudadas rapidamente, caso a
dinâmica econômica assim o aconselhe. Os mercados o fazem de forma
muito mais rápida – ainda que não sem dor – daí sua vantagem
relativa: enquanto a retomada pode ser delongada durante anos a fio,
no caso de sistemas muito regulados, os mercados operam uma reversão
mais imediata ao crescimento.
É evidente, aos olhos de qualquer pessoa
medianamente bem informada, que as condições econômicas estão
permanentemente mudando em qualquer país – pelo menos naqueles de
economia não estagnada ou totalmente fechada –, em função do ritmo
de crescimento econômico, dos ganhos de produtividade e de
competitividade e de rendas extraídas do sistema internacional,
todos esses fatores podendo ser medidos facilmente através dos
principais indicadores das contas nacionais, dos movimentos cambiais
e do balanço de pagamentos. Parece, também, evidente que nenhum
governo moderno, por mais eficiente que seja, consegue acompanhar
essa dinâmica, se tiver de regular toda e qualquer atividade por via
legislativa, para levar em conta inumeráveis fatores e variáveis que
intervêm no jogo econômico real. É igualmente evidente que os países
mais “livres” – como registrados no relatório anteriormente citado –
são os que ostentam os mais altos níveis de renda per capita e de
bem-estar, na medida em que eles conseguem, justamente, “capturar”
parte da riqueza circulando no mundo através de sistemas financeiros
modernos, flexíveis e, sobretudo, livres.
Acreditar, nessas condições, que Estados
“bem intencionados” conseguirão, por meio de medidas legais de
disciplinamento do sistema financeiro, criar riqueza e prosperidade
e, ao mesmo tempo, garantir a estabilidade operacional do sistema
como um todo parece uma manifestação de suprema ingenuidade. O que
esses Estados conseguem fazer, na verdade, é encerrar seus
banqueiros e financistas numa camisa de força legal, atar seus pés
com bolas de ferro regulatórias, tornando, assim, todo o sistema bem
mais pesado, mais lento e menos eficiente, pouco apto, portanto, a
cumprir sua função de prover liquidez rapidamente a todos os agentes
econômicos desejosos de ter acesso a um mercado de capitais
dinâmico, flexível e irrigado com um fluxo regular e permanente de
novos recursos. Não se trata aqui de uma opinião pessoal, mas de uma
simples constatação empírica…
4. O sistema financeiro só funciona
bem com muita regulação dos Estados?
Duvidoso que assim seja, e mesmo que
assim fosse, deve-se pensar, também, no custo-oportunidade...
Talvez sistemas financeiros regulados possam desempenhar seu papel
com menos exposição a riscos e turbulências, mas será certamente um
sistema muito lento para disseminar recursos e para oferecer
oportunidades de novos negócios a empreendedores especialmente
ativos em aproveitar as chances de ganhos que são criadas –
geralmente por falhas de governo, embora possa haver, também, as
falhas de mercado – intempestivamente, numa rápida mudança dos
equilíbrios de mercado (por fatores naturais, como colheitas ou
descobertas de novos recursos, ou sociais, como anúncios de balanços
de empresas, de taxas de inflação ou resultados de contas
correntes). O custo-oportunidade pode ser definido, precisamente,
como o valor associado a uma renúncia deliberada ou involuntária –
como no caso de uma regulação muito estrita nos mercados financeiros
– a uma determinada aplicação ou investimento, ou, então, a perda
acarretada pela não possibilidade de se empreender uma determinada
atividade alternativa, em face, justamente, de barreiras levantadas
por um ambiente regulatório extremamente intrusivo e restritivo.
Esse tipo de situação parece tão óbvio
no caso do Brasil que nem seria preciso mencionar os mais gritantes:
produtores e comerciantes perdem dinheiro pela carência da
infra-estrutura nacional, não apenas pelos custos incorridos da não
existência de boas estradas e bons portos, como também pela
impossibilidade de investir nesse tipo de atividade, que continua
sob estrito controle estatal. As telecomunicações, também, no regime
anterior, eram um exemplo notório de custo-oportunidade, assim como
são, ainda hoje, as mesmas telecomunicações, que foram liberalizadas
parcialmente, mas que continuam sendo exemplos de cartéis
ultra-regulados pelo Estado, ao lado do transporte aéreo comercial,
que se especializam, na verdade, na extorsão do cidadão, antes que
no provimento de serviços abundantes e baratos. É claro e notório
que a abertura desses setores a maior número de empresas redundaria
em maior benefício ao consumidor, algo que não parece estar previsto
nos planos do Estado regulador.
Pode-se alegar que o sistema financeiro
constitui um “serviço especial”, que não pode se submeter às mesmas
regras da plantação de trigo ou da fabricação de pão, mas é duvidoso
que seja assim. O Brasil ostenta um dos sistemas financeiros mais
regulados do mundo, com alto nível de depósito compulsório sobre os
valores à vista deixados pelos clientes dos bancos, o que redunda,
obviamente em taxas de juros mais elevadas. Ele também tem notórias
barreiras à entrada de novos ofertantes de serviços financeiros em
geral, o que resulta nas mais altas tarifas bancárias que se
conhecem: estes são dois exemplos de custo-oportunidade em
detrimento dos consumidores. Não podemos escapar dos juros altos –
em grande medida determinados pelo governo e sua enorme dívida
pública – como tampouco conseguimos escapar das tarifas bancárias,
posto que não existem alternativas fáceis, dada a cartelização do
setor.
No plano internacional a situação pode
não ser exatamente a mesma, mas não faltam aqueles que também pedem
mais regulação e maior controle de capitais. Leio, por exemplo, numa
matéria-síntese sobre um encontro de economistas regulacionistas a
seguinte recomendação: “A atual crise financeira global demonstra
que a cultura da especulação chegou ao seu limite e aponta para a
urgente necessidade de se criar um novo mecanismo internacional de
controle das finanças e fluxos de capital”. Essa foi a mensagem
transmitida por “renomados economistas” que participaram do simpósio
internacional “Perspectivas para o Desenvolvimento no Século XXI”,
organizado pelo Centro Internacional Celso Furtado e realizado nos
dias 6 e 7 de novembro no Rio de Janeiro. (ver
“Simpósio Celso Furtado: Economistas sugerem controle internacional
das finanças”, Maurício Thuswohl, Carta Maior, 8.11.2008).
Dispenso-me de citar o nome desses
economistas, pois eles podem achar que o repórter não transmitiu
exatamente o pensamento de cada um, mas se trata, é claro, da mais
coerente manifestação de pensamento incoerente, tal como costuma
figurar nessas falácias acadêmicas de que estamos tratando nesta
série. Em todo caso, um desses economistas fez uma dura crítica ao
pensamento econômico neoliberal: “A macroeconomia neoclássica é
inútil e perigosa, ela é ideológica. A Teoria Econômica Neoclássica
é uma meta-ideologia que, em sua forma moderna, legitimou a
apropriação do excedente econômico por uma classe de tecnocratas,
associados aos capitalistas, que ganham bônus e comissões e mais
bônus e comissões em cima desse processo especulativo”. O mesmo
economista acrescentou que, nos últimos anos, a especulação “foi
criando uma montanha de créditos e inventando riquezas fictícias”.
O único comentário suscetível de ser
feito em face de tão clara manifestação de saber econômico é que se
trata da mais pura manifestação do espírito acadêmico reinante em
nossas universidades, onde conceitos e impressões subjetivas
substituem uma análise fundamentada da realidade. Nem sequer se
poderia chamar esse tipo de argumento de manifestação de pensamento,
posto que se trata apenas de uma opinião impressionista de alguém
que tem dificuldades notórias em aceitar o livre jogo do capital
financeiro, considerando, então, que se trata de maquinações
perversas de capitalistas gananciosos, de especuladores
despudorados, exatamente como afirmam, aliás, alguns políticos
demagogos.
Em conclusão, é triste constatar que a
academia brasileira, ao cabo de tantos anos de formação
pós-graduada, não tenha conseguido produzir elaborações mais
sofisticadas sobre o funcionamento dos mercados financeiros, do que
essas repetidas invectivas contra especuladores e banqueiros, e que
tantos acadêmicos ingênuos não consigam reconhecer que muitos dos
problemas constatados foram mais causados pelo ativismo de certos
Estados do que pela disfuncionalidade dos mercados. Incrível ainda
que tais acadêmicos parecem acreditar que a “sapiência” de
burocratas estatais seja superior à flexibilidade e adaptabilidade
dos mercados, mesmo se os agentes que atuam nos mercados não se
distingam por uma inteligência superior à média. O mais patético,
ainda, é constatar que as “soluções” propostas por tais acadêmicos
vão na direção contrária à de sistemas financeiros modernos,
flexíveis e abertos à competição e à inovação, se contentando em
preconizar uma versão repassada, atrasada e caricata de um
keynesianismo de fachada, que estacionou nos controles de capitais,
no câmbio manipulável e na determinação política da taxa de juros.
Acadêmicos assim não prestam apenas um
desserviço à própria academia – dado o primitivismo de suas
“recomendações”. Eles também são um ameaça a uma gestão responsável
da política econômica, pois parecem querer fazer rodar para trás a
roda da história. Nesse sentido, eles são reacionários econômicos,
ou simples caricaturas de economistas. Pena, pois que o Brasil
mereceria melhores economistas... |
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