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EVERTON LAZZARETTI
PICOLOTTO
Sociólogo,
Doutorando em Ciências Sociais – CPDA/UFRRJ

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Quando novos atores entram em
cena o que muda? A construção de representação política dos
agricultores de base familiar no Sul do Brasil
Everton Lazzaretti
Picolotto
Introdução
Os movimentos
sociais são considerados como agentes centrais da promoção de
transformações sociais na atualidade (Melucci, 2001). Os movimentos
sociais do campo têm tido relevante papel na promoção de
transformações na sociedade brasileira. Transformações tanto na
distribuição dos recursos materiais, principalmente através da luta
por terra, quanto nas valorações estabelecidas aos trabalhadores do
campo, gerando processos de reconhecimento social e de direitos.
No Brasil, desde o
período da redemocratização, vários movimentos têm surgido no campo.
O mais destacado deles é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra (MST), surgido a partir do final dos anos de 1970,
inicialmente, no Sul, mas que teve rápida expansão para todas as
regiões brasileiras. Sua pauta de luta de maior evidência é a busca
de acesso à terra para os trabalhadores “sem-terra”. A Federação dos
Trabalhadores da Agricultura Familiar (FETRAF) é herdeira do
sindicalismo rural da Central Única dos Trabalhadores (CUT) que se
constitui em oposição ao sindicalismo oficial da Confederação
Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), iniciado a
partir do final dos anos 70. A formação de uma federação específica
de “agricultores familiares” foi iniciada através da constituição da
FETRAF-Sul em 2001. Dentre suas principais pautas se destaca a
afirmação ou reconhecimento dos “agricultores familiares”. O
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) é fruto de uma
articulação de vários movimentos locais que se mobilizaram em várias
regiões do país contra obras de construção de barragens desde meados
dos anos 70. No Sul foi criada a Comissão Regional de Atingidos por
Barragens (CRAB). Dentre suas principais pautas estão o
reassentamento dos “atingidos” por barragens e a busca de
reconhecimento dos “atingidos”. O Movimento das Mulheres Camponesas
(MMC) foi formado por vários movimentos de mulheres agricultoras ou
trabalhadoras rurais de várias partes do país que vinham se
organizando pelo menos desde os anos 80. Dentre suas principais
pautas destaca-se a afirmação e o reconhecimento da “mulher
agricultora” ou “camponesa”. O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
se constitui a partir de metade dos anos 90 como uma dissidência do
sindicalismo da CUT rural no Sul do país. Dentre suas principais
pautas está a luta pela afirmação e o reconhecimento dos pequenos
agricultores.
O objetivo deste artigo é analisar como
foi construída a representação política dos agricultores de base
familiar
por estes movimentos e as disputas recentes entre eles, tomando por
base a região da Grande Fronteira do Mercosul, no Sul do Brasil.
Os atores e a
região da “grande fronteira”
Uma das regiões onde
estes movimentos têm expressão destacada desde sua origem é no
chamado “maciço da agricultura familiar” ou “Mesorregião da Grande
Fronteira do Mercosul” (Abramovay et al, 2005) no Sul do
Brasil; região que abrange basicamente o noroeste rio-grandense,
oeste catarinense e sudoeste paranaense. Nesta região, além de terem
ocorrido experiências históricas de organização e de lutas
camponesas desde o início do século XX (como a Guerra do Contestado)
e nos anos 50 e 60 (como a luta dos colonos e posseiros contra
empresas de colonização no PR e Movimento dos Agricultores Sem Terra
– MASTER, no RS), foi principalmente a partir do final dos anos de
70 que a região deu terreno ao surgimento dos movimentos sociais da
atualidade (Medeiros, 1989). Nessa região, ocorreram os primeiros
acampamentos de agricultores “sem-terra” que dariam origem ao MST,
ações de agricultores “atingidos por barragens”, ações das
“oposições sindicais” cutistas ao sindicalismo oficial da CONTAG,
ações de mulheres agricultoras que viriam a formar movimentos de
mulheres e, mais recentemente (a partir de 1996), a organização de
um movimento de pequenos agricultores (MPA).
Outro fator de destaque nessa região é a
sua estrutura agrária fortemente fragmentada, composta
majoritariamente de unidades familiares de produção e que pode ser
inserida em um processo histórico de expansão da “agricultura
colonial” no século XX. Historicamente o noroeste rio-grandense foi
colonizado,
principalmente a partir do início do século XX, por imigrantes
italianos e alemães provindos das colônias mais antigas da Serra
Gaúcha e do Vale dos Sinos. O oeste de Santa Catarina e o sudoeste
do Paraná também foram colonizados por imigrantes provenientes ou
destas colônias antigas (Serra Gaúcha e do Vale dos Sinos) ou da
região noroeste rio-grandense, principalmente a partir da terceira e
quarta décadas do século XX (Abramovay, 1981; Schneider, 1999). Vale
destacar que a colonização dessas regiões por descendentes de
imigrantes europeus além de ter possibilitando a constituição de uma
estrutura agrária bastante fragmentada (quando comparada com outras
regiões do país), também constitui elementos de sociabilidade
(organização comunitária, forte religiosidade, solidariedade entre
colonos) e de organização socioeconômica (unidades familiares de
produção) que produziu uma certa unidade socioeconômica e cultural
na região. Estes elementos somados propiciaram o a formação de um
maciço regional de “colonos”, que hoje se concebe como “agricultores
familiares” e, nesse maciço, os agricultores de base familiar ou
“colonos” mantêm-se entre os principais sujeitos sociais na
atualidade.
Porém, deve-se
destacar que esta dinâmica de expansão das colônias de descendentes
de imigrantes para ocupar e tornar produtivas as regiões de matas
até então consideradas “desocupadas” e “improdutivas”, além de ter
deslocado muitos caboclos e indígenas destas áreas, também passou a
enfrentar dificuldades na medida em que acabaram as áreas próximas
para estabelecer novas colônias. Estes processos geraram movimentos
tanto de resistência para permanecer na terra por parte dos caboclos
e indígenas, quanto de reivindicação de novas áreas por parte dos
colonos (como os citados acima)
A partir do final
dos anos 70, numa conjuntura de modernização acelerada da
agricultura, crise econômica internacional e baixa das
commodities (soja, milho, trigo, carne suína, etc.), este
formato de agricultura colonial passou a enfrentar uma série de
tensões e contradições, que iam desde a redução da rendas das
famílias ocasionada pela redução dos preços dos produtos agrícolas;
passavam pelo aumento da pressão dos colonos sobre as reservas
indígenas visando obter novas áreas e o conseqüente conflito entre
colonos e índios; por conflitos com as empresas construtoras de
barragens; até a falta de terra para as novas gerações de colonos.
Estas condições que colocavam fortes dificuldades à continuidade de
reprodução do modelo agrícola colonial desafiaram os “colonos
sem-terra” e outros “colonos” com dificuldades de toda espécie a se
organizarem – agarrando-se nos laços sócio-culturais comuns que
podiam os unir – e lutarem por terra e por políticas públicas de
apoio aos “colonos” marginalizados.
Nesse momento
histórico ficou evidente a presença e a legitimidade que a igreja
Católica e a Luterana tinham nessa região colonial. Como destacado
acima, um dos fatores que caracterizaram a formação dessa região
colonial foram as formas de sociabilidade assentadas em uma vida
comunitária, em formas de cooperação entre colonos e nas relações de
parentesco. Estas formas de sociabilidade na maioria das vezes se
davam através da mediação da igreja, seja pela ação direta de padres
ou de agentes religiosos leigos. Dessa forma, não é de se estranhar
que em uma conjuntura de dificuldades, como as apontada, os colonos
tenham buscado apoio na igreja. Os agentes religiosos que deram
apoio às demandas dos colonos foram, principalmente, aqueles que
estavam empenhados em construir uma “igreja dos pobres”,
influenciados pela Teologia da Libertação, notadamente a CPT (Grzybowski,
1985). Motivou-se a formação de
Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), grupos de jovens, associações
de moradores, etc. Todos estes fatores somados deram a base para o
surgimento dos movimentos sociais de luta por terra (MST, CRAB) e do
sindicalismo rural da CUT.
É significativo
notar que a formação destes movimentos, tanto de luta por terra
quanto por afirmação de sujeitos sociais desfavorecidos, promoveu
uma ruptura com a antiga dinâmica de expansão do modelo agrícola
colonial sobre as áreas consideradas “desocupadas”. Se até então os
colonos que não podiam permanecer nas colônias já consolidadas por
falta de terra mudavam para novas áreas cada vez mais distantes
(Mato Grosso e Amazônia), nesse período, estes passam a se organizar
para lutar por terra em locais mais próximos das regiões coloniais,
porém para fazer isso tiveram que passar a enfrentar os
latifundiários e o Estado (histórico fomentador de novas colônias).
Ou seja, a constituição destes movimentos pelos “colonos” pode ser
lida como uma mudança nas experiências históricas de acesso a novas
terras e, ao mesmo tempo, como uma continuidade da expansão da
agricultura colonial – ou, em termos mais usuais na atualidade, de
expansão da “agricultura familiar”. Assim, abriu-se uma nova
fronteira de expansão da agricultura colonial através da luta
política contra os latifundiários.
Com estes movimentos
formados, cada um buscou através de suas ações prioritárias
organizar um determinado segmento de “colonos”. O MST organizou os
“sem-terra”, adotou a estratégias de “ocupar” e formar acampamentos
nos latifúndios considerados improdutivos ou nas margens de
rodovias. Suas ações ganharam grande visibilidade pública e este se
constituiu no principal movimento de luta por terra do país. O CRAB
juntamente com outros movimentos regionais de “atingidos” por
barragens do nordeste e do norte do país formaram o MAB no início
dos anos 90 e este movimento tem articulado as lutas dos
agricultores atingidos por barragens em nível nacional. O setor
rural da CUT articulou as “oposições” ao sindicalismo da CONTAG,
então considerado como acomodado, legalista e que não dava os
devidos encaminhamentos para resolver os problemas enfrentados pelos
pequenos produtores ou “colonos”. Desde sua origem o setor rural da
CUT manifestou sua intenção de formar uma organização sindical
própria alternativa ao sistema CONTAG, visando dar forma a um novo
sindicalismo, mais próximos das bases, menos burocrático e mais
combativo na defesa dos interesses dos agricultores (Medeiros, 1989;
Schmitt, 1996).
Mesmo que cada
movimento tratava de temas específicos, estes cooperavam entre si
(por exemplo: o MST ajudava o sindicalismo da CUT a conquistar
sindicatos e os sindicalistas da CUT enviavam agricultores sem terra
para as fileiras do MST e ajudavam nas ocupações) e visualizavam os
outros movimentos como atores complementares de um mesmo “projeto
maior”. O que dava unidade a estes movimentos era, em primeiro
lugar, a sua vinculação com a igreja e, em função disso, por
reconhecerem-se entre si como organizadores do “povo pobre”, dos
“colonos”; em segundo lugar, o que unia esses movimentos era a
construção do Partido dos Trabalhadores (PT), como um partido da
classe trabalhadora, que congregava uma miríade de movimentos
sociais diversos.
A construção da
diferenciação política
A partir de meados
dos anos 90 começam a se perceber algumas divergências na forma de
atuação política, nas articulações com outros atores e na disputas
pela base social entre estes movimentos, principalmente entre o
setor rural da CUT e o MST. Algumas rupturas são ilustrativas desse
processo: em 1995, a CUT rural compõem a direção da CONTAG (seu
adversário dos anos 80) e esta última filia-se à CUT; divergências
em torno da forma de condução de reivindicação de auxílio estatal
aos pequenos agricultores atingidos por uma seca no Rio Grande do
Sul, no início de 1996, causaram um “racha” no sindicalismo cutista
e a formação do MPA (com atuação próxima ao MST); as mobilizações
dos “Gritos da Terra” que inicialmente (em 1994) contavam com todos
estes movimentos do campo (mais a CONTAG), no final dos anos 90
contaram apenas com pela CONTAG e a CUT; no final dos anos 90 o
setor rural da CUT no Sul abandona a CONTAG e volta a se organizar
regionalmente, procurando articular os “agricultores familiares”,
formando a Frente Sul da Agricultura Familiar (Fernandes, 2000;
Abramovay, 2005; Favareto, 2006).
Acompanhando estes processos de
diferenciação entre estas organizações, na passagem do século XX
para o XXI ocorreu, em 1999, a formação oficial da seção brasileira
da Via Campesina
(formada pelo MST, MPA, MAB, MCC, CPT) e, 2001, a constituição do
sindicalismo da FETRAF no Sul e a partir de 2005 em nível nacional.
Com a constituição
destas duas organizações nos últimos anos, passaram a ficar mais
claras as suas diferentes estratégias ação na sociedade. Enquanto os
movimentos da Via Campesina aparentam estar priorizado o
enfrentamento das instituições e da ordem estabelecida, visando
privá-las de legitimidade e construir novas formas socioeconômicas
descomprometidas com as atuais, a FETRAF aparenta estar procurando
contribuir para a alteração das instituições existentes, visando
democratizá-las e adequá-las às pretensões de sua base social. A
partir destas diferentes estratégias estas organizações têm se
afastando e entrado em disputas nos últimos anos.
Em outro trabalho (Picolotto,
2006) constatamos que as diferenças entre estes movimentos se
tornaram mais acentuadas nos últimos anos, motivadas principalmente
pelo relativo fortalecimento que as políticas públicas recentes
propiciaram à agricultura familiar e às organizações que a promovem
(como a FETRAF). Em situação diferente estão as organizações que se
propõem construtoras da agricultura camponesa (Via Campesina), pois
estas adotaram posturas mais críticas com os governos e têm
construído estratégias de enfrentamento ao agronegócio e às empresas
transnacionais que o promovem.
Estas diferentes
estratégias de atuação na sociedade podem estar relacionadas aos
projetos sociais que as organizações almejam construir e o papel que
o sujeito “agricultor familiar” ou “camponês” deve ter
no porvir. Observando-se elaborações de intelectuais orgânicos
destas organizações percebe-se algumas diferenças nos projetos e
identidades políticas.
Em um documento
publicado a FETRAF-Sul (2003: 16) afirma seu projeto contrapondo-o
com o da “pequena produção” marginal do capitalismo:
Pequena
produção
revela uma formulação que deriva da compreensão de uma pequena
produção capitalista incompleta e não desenvolvida. [...]
pequenos agricultores são produtores atrasados e marginalizados
no capitalismo, [...]. Já a expressão “agricultura
familiar” procura designar uma forma de produção moderna e mais
eficiente sob o ponto de vista econômico, social e
ambiental. (grifos nossos).
Nesta busca de
diferenciação entre “pequena produção” e “agricultura familiar”
evidencia-se que a FETRAF objetiva colocar-se como agente ativo na
sociedade atual, que almeja fortalecer o segmento social da
agricultura familiar tanto para adequar-se ao modo capitalista de
produção vigente, quanto para ser uma forma concreta de agricultura
em uma possível “sociedade socialista”. A construção da identidade
da agricultura familiar, então, busca livrar-se do caráter
“atrasado”, “imperfeito” e “incompleto” da noção de pequena produção
e elaborar uma ressignificação cultural da pequena
agricultura dando-lhes novos adjetivos, tais como: “produtora de
alimentos”, “moderna” e “eficiente”. O lema da FETRAF:
Agricultura Familiar: as mãos que alimentam a nação corrobora
com essa análise.
O projeto da Via Campesina (no Brasil) é
expresso em algumas elaborações de intelectuais orgânicos. Com um
livro organizado por Carvalho (2005)
esta organização vem buscando avançar na definição da identidade e
do projeto do campesinato. O camponês, para Carvalho (2005,
p.171), constitui-se “num sujeito social cujo movimento histórico se
caracteriza por modos de ser e de viver que lhe são próprios, não se
caracterizando como capitalista ainda que inserido na economia
capitalista”. Com esta demarcação do sujeito camponês, o autor busca
resgatar tanto a dimensão utópica do modo de vida camponês, quanto
as alternativas de resistência camponesa ao capitalismo e a
possibilidade de superação deste modelo econômico. Nesse sentido, o
autor busca mapear as várias formas camponesas na atualidade:
Essa diversidade
camponesa inclui desde os camponeses proprietários privados de
terras aos posseiros de terras públicas e privadas; desde os
camponeses que usufruem dos recursos naturais como os povos das
florestas, os agroextrativistas, a recursagem [extração
de recursos naturais pelos lavradores locais], os ribeirinhos,
os pescadores artesanais lavradores, os catadores de caranguejos
e lavradores, os castanheiros, as quebradeiras de coco babaçu,
os açaizeiros, os que usufruem dos fundos de pasto até os
arrendatários não capitalistas, os parceiros, os foreiros e os
que usufruem da terra por cessão; desde camponeses quilombolas à
parcelas dos povos indígenas já camponeizados; os serranos, os
caboclos e os colonizadores, assim como os povos das fronteiras
no sul do país (Bavaresco, 2004). E os novos camponeses
resultantes dos assentamentos de reforma agrária (Carvalho,
2005: 171).
Seguindo estas
elaborações e procurando diferenciar as estratégias dos movimentos
do campo Fernandes (2000) destaca que a postura da FETRAF de
preconizar a (re)integração aos mercados nacionais de alimentos se
dá com o rompimento (ou pelo menos não priorização) das lutas pela
reforma da estrutura agrária e pela transformação radical do Estado
(via revolucionária). Devido a esta postura de “conformidade” com a
distribuição social dos fatores de produção e a não problematização
da subordinação camponesa à lógica do capital, a proposta da
agricultura familiar é considerada, pelo autor, como “conservadora”
ou “integrada ao capital”. Assim, segundo esta perspectiva, enquanto
os movimentos identificados com o projeto da agricultura familiar
visualizam na integração com mercados nacionais de alimentos
melhoras nas possibilidades de reprodução de suas bases, os
identificados com a Via Campesina apontam os limites desta
estratégia e acreditam que os primeiros estão sendo cooptados, na
medida em que as políticas disponibilizadas para capitalização deste
setor social transforma-os em “pequenos capitalistas”.
Favareto (2001:124)
destaca outros elementos como os diferenciais. Para ele, a partir da
metade dos anos 90, a reforma agrária passa a ser vista pelo
sindicalismo cutista “como um meio, um instrumento para a expansão
da agricultura familiar”, portanto está no rol de ações do próprio
sindicalismo e, em função disso, não foi mais deixada exclusivamente
ao MST. Seguindo esta alteração no projeto do sindicalismo cutista o
autor acrescenta que “o discurso sindical passa a privilegiar a
promoção de um desenvolvimento rural em novas bases, a partir do
fortalecimento de um de seus agentes, a agricultura de base
familiar. Trata-se, então, de buscar as alternativas dentro do
quadro vigente, transformando-o” (2001:125).
Somente entendendo
essa mudança no projeto do sindicalismo cutista e o seu afastamento
do MST torna-se possível entender a adesão, nos anos mais recentes,
da FETRAF aos programas de crédito fundiário (entendidos como
políticas de reordenação fundiária), que são concebidos por esta
organização como instrumentos de expansão da agricultura familiar.
O MST, por sua vez,
em meados dos anos 90 passa a buscar maior influência sobre a base
do sindicalismo da CUT. Como destacado acima, em 1996, na construção
de algumas mobilizações de agricultores de base familiar, assentados
e sem-terras atingidos por uma estiagem no noroeste do Rio Grande do
Sul, ocorreu uma dissidência no sindicalismo da CUT que passou a
organizar o MPA, com atuação próxima do MST. Descrevemos as
motivações dessa ruptura em outro trabalho:
Nesta ocasião,
ficaram evidentes algumas diferenças quanto ao encaminhamento da
luta e principalmente quanto à forma do estabelecimento das
negociações entre as duas perspectivas organizativas
mobilizadas. Enquanto o MST e o Frei Sérgio Görgen (respeitada
liderança tanto entre “sem-terras” quanto entre os pequenos
agricultores) teriam adotado uma tática mais “agressiva” de
negociação, tendenciado para a pauta dos “sem-terra” (buscando
fortalecer a proposta de reforma agrária) e para a ruptura com o
“modelo de desenvolvimento da agricultura”, a CUT e a CONTAG/FETAG
(que também tinham entrado nas negociações) teriam buscado
conquistas imediatas (como crédito), principalmente aos
agricultores “com terra”. Dessa forma, a partir deste processo
de mobilização e negociação com os governos, teria se mostrado
que existiam diferenças quanto à proposta organizativa dos
“pequenos agricultores”, na relação com aliados e na forma de
construção de lutas (Picolotto, 2007: 22-23).
Diante destes
elementos apontados, identifica-se que está se concretizando certa
diferenciação política entre as organizações tratadas (atores da Via
Campesina e a FETRAF). Estas duas organizações passaram a traçar
diferentes estratégias de ação, identidades políticas e projetos de
porvir. Enquanto a FETRAF procura constituir e positivar um sujeito
(“agricultor familiar”) produtor de alimentos para o mercado
interno, que precisa ser apoiado com políticas públicas para
desenvolver-se; os movimentos da Via Campesina buscam criar um
sujeito (“camponês”) que resiste ao modelo de agricultura de
commodities, transgênica, para o mercado internacional e, ao
mesmo tempo, torna-se um “guardião” da biodiversidade genética, para
isso, precisa enfrentar as empresas transnacionais e as políticas
estatais que apóiam o agronegócio. Dessa forma, estas duas
organizações estão procurando “fazer” ou “produzir” dois sujeitos
políticos distintos entre si a partir de uma base de “colonos” com
muitas semelhanças. Nesse sentido, está se produzindo uma
diferenciação política.
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A Via Campesina é um movimento internacional que coordena
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comunidades indígenas em cerca de 175 países da América,
Ásia, África e Europa (FIAN; Via Campesina, 2004).
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