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ELOÉSIO PAULO
Doutor em Letras pela Unicamp,
professor da Universidade Federal de Alfenas (MG)
e
autor do livro Os dez pecados de Paulo Coelho (Ed.
Horizonte).

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Se discute, sim!
Eloésio Paulo*
Em Roma se dizia: De gustibus non
est disputandum. Todos conhecem o ditado, sempre usado para
justificar todo tipo de ignorância e burrice. É uma evidente
manifestação de obscurantismo considerar que algo possa estar acima
de discussões, num mundo em que mesmo morais e religiões se tornam
cada dia mais relativas e num país onde qualquer um pode xingar a
mãe do presidente no meio da rua. Não adianta, mas pode.
Defender a soberania do gosto individual
é postular a renúncia de todos a compartilhar suas experiências.
Teoricamente é possível haver tantos gostos como indivíduos. Apesar
de muitos acharem isso politicamente incorreto, ainda existem
pessoas que ensinam e pessoas que aprendem. E, assim como há alguns
mais inteligentes ou mais honestos que outros, há também os que têm
a sorte de ter nascido com maior sensibilidade e/ou de ter obtido,
por meio da educação ou do convívio social, um gosto musical, por
exemplo, mais apurado.
Pelo que se pode ouvir no rádio, na TV e
em tudo que os ecoa, as pessoas capazes de ouvir música são uma
espécie em extinção.
Mas o que vem a ser um gosto
apurado? A palavra tem dois significados principais: purificado
e aprimorado. O problema seguinte é estabelecer os critérios que
balizam a diferença entre bom e mau gosto. Isso para quem não quer
gastar seu preciosíssimo tempo lendo Kant e outros desocupados que
se ocuparam da questão.
Como muitas coisas que parecem
complicadas, no fundo a questão é muito simples: reduz-se ao binômio
informação/desinformação. A capacidade de julgamento de alguém, em
qualquer assunto, torna-se respeitável a partir do conhecimento que
essa pessoa detém sobre aquele assunto. Não necessariamente um
conhecimento formal, mas um repertório (atenção à palavra:
repertório!) suficiente para permitir comparações. Em literatura,
fica mais fácil perceber a grandeza de Machado de Assis comparando-o
com Dostoiévski. Antes, é claro, precisa-se ler ambos.
Qualquer indivíduo cujo aparelho
auditivo funcione bem pode compreender inteiramente o caráter
escatológico, digamos, de Bruno e Marrone (o exemplo rapidamente se
deteriora, uma vez que os boqueteiros culturais lançam
sucessivamente suas pragas com a velocidade das mamães camundongo).
Basta poder compará-los a Plácido Domingo, João Gilberto ou Billie
Holliday – aqui tomados como índices quase aleatórios de qualidade
vocal, não ícones de valor absoluto. Quais podem ser os termos da
comparação? Ora, são os elementos que compõem uma estrutura musical
e sua manifestação propriamente acústica: melodia, harmonia, ritmo,
estilo interpretativo. Exclua-se a beleza física e a roupa que a
cantora use, ou não use, já que isso o ouvido não capta e, portanto,
não pode ser considerado música.
Como escreveu J. Moraes num livrinho
muito simples intitulado O que é música, o problema é que
muita gente não ouve com os ouvidos e sim com outras partes do
corpo. Se o som não passa de um pretexto para atividades correlatas
ao impulso inconsciente de transmitir o próprio patrimônio genético,
não se trata exatamente de música.
Assim como não se pode esperar espírito
aberto da parte de um torcedor ou religioso fanático, também não se
pode imaginar que um devoto de tal ou qual cantor se disporá a
discutir as bases de sua devoção, a qual, aliás, costuma mudar assim
que determine a agenda do Faustão ou o calendário de festas juvenis.
Sim, algumas dessas devoções persistem por muitos anos, mas só
quando o devoto apresenta qualquer paralisia no desenvolvimento da
personalidade, por algum motivo estacionado afetiva e
intelectualmente nas alturas da puberdade.
Mas por que as escolas e a imprensa, que
discutem a qualidade do ar que respiramos e a do leite que bebemos,
dão como certa a normalidade do gosto musical vigente? A função
dessas instâncias legitimadoras é mostrar às pessoas todos os
ângulos da realidade. Por isso tal discussão deveria ser constante
nestes tempos em que a industrialização desenfreada de estruturas
musicais bisonhas é o instrumento privilegiado de nivelamento
intelectual da juventude. Nivelamento por baixo, e, o que é pior,
acompanhando pela imensa maioria dos adultos. Nada é mais eficiente
que esses produtos primários, associados ao brilho enganoso das
imagens televisivas, para formar e manter indivíduos acomodados ao
papel de consumidores dóceis e previsíveis. É preciso lembrar que
isso se estende à qualidade mental do exercício da cidadania, uma
vez que os políticos já há muito se apresentam descaradamente como
produtos sem qualquer lastro que não a exposição midiática, a
manipulação de sua imagem de maneira a satisfazer a expectativa
simbólica da maioria esteticamente desinformada e existencialmente
desesperada. O tripé rádios/gravadoras/redes de TV é a fábrica de
mitos de uma cultura que se desintegrou por privilegiar os objetivos
lucrativos em detrimento de outros, possíveis porém mais difíceis de
processar.
Para compreender o quanto pode a música
é preciso ter alguma disposição para informar-se ao menos um pouco
acerca da natureza da arte, e mesmo das circunstâncias históricas de
sua industrialização. E quantas escolas se encarregam de mostrar a
seus alunos que a história da arte não começou com Chitãozinho e
Xororó? Quantos professores estão aparelhados para discutir noções
básicas de estrutura musical ou, mais simples ainda, a originalidade
das letras de canções?
A inteligência ainda é o melhor guia.
Qualquer pessoa armada de disposição, gastando algumas horas do seu
tempo livre para conhecer diversos estilos de música, perceberá
facilmente: o que toca no rádio, na TV e nas instâncias que os ecoam
é puro lixo e seus produtores não ganham fortunas por acaso, pois
executam muito bem o serviço de enquadrar o produto musical em
fórmulas compreensíveis por qualquer ameba; além disso, desempenham
em tempo integral o papel de animadores de si mesmos, não raro com o
auxílio de um certo pó branco. Já para ouvir Mozart, jazz ou canções
populares produzidas fora do círculo do boquete cultural, é
necessário ter um mínimo de informação e sensibilidade. Quem não
conhece amplamente uma gama de fenômenos é bem capaz de pensar que
só existem aqueles poucos que cabem no próprio entendimento. Ou: se
a burrice é o oxigênio que se respira, logo deve ser a normalidade.
Deve ser por isso que o estudo da
história tem tão pouco prestígio nas escolas. Conhecer o passado é a
maneira mais segura de testar a pretensa normalidade do presente.
A propósito de Mozart, já foi
demonstrado em pesquisas confiáveis que ouvir suas composições ajuda
a desenvolver a inteligência lógica. O cérebro, por assim dizer,
absorve por osmose as estruturas lógicas de pensamento que subjazem
à música mozartiana. Imagine-se o efeito contrário para os ouvintes
de tatibitates com grau protozoário de elaboração. Há quem nem
desconfie disso, mas a música, além de expressão da sensibilidade, é
matemática. Muito coerente um garoto detestar tabuada e adorar
hip-hop.
Existe uma velha piada sobre a maneira
certa de diferenciar um gato de um tijolo: jogue os dois na parede,
o que miar é gato. O mesmo raciocínio vale para a música: ouça
Jesus, alegria dos homens, de Bach, ou uma daquelas
interpretações que justificam comparar Elis Regina a Ella
Fitzgerald; depois, contraponha a qualquer desses clones
anticulturais que se sucedem de dois em dois meses no pódio da
evidência boqueteira. Finalmente, responda em segredo, só para si
mesmo: não existe algo de muito errado com quem diz que essas
porcarias são música?
A mesma razão pela qual devemos, se
possível, avisar a um amigo que ele está prestes a ser atropelado
manda quem ainda tem ouvidos tentar mostrar, à maioria ensurdecida,
de onde vem a música. A realidade é um duro encargo para quem dela
toma conhecimento; acarreta a responsabilidade de lutar contra a
incapacidade alheia de percebê-la. Dá muita vontade de ficar
quietinho ouvindo o que gosto de ouvir. Mas o ruído é demasiado.
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