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ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)
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Um olhar sobre a Literatura: reflexões acerca
da sua contribuição político-pedagógica
Antonio Ozaí da Silva
“Olhar tem a vantagem de
ser móvel, o que não é o caso, por exemplo, de ponto de vista.
O olhar é ora abrangente, ora incisivo. O olhar é ora cognitivo
e, no limite, definidor, ora é emotivo e passional. O olho que
perscruta e quer saber objetivamente das coisas pode ser também
o olho que ri ou chora, ama ou detesta, admira ou despreza. Quem
diz olhar diz, implicitamente, tanto inteligência quanto
sentimento”
Alfredo Bosi
(2000, p.10)
“Na época moderna à literatura
cabe um papel integrador. O papel de superar o abismo existente
entre a arte e a vida, arte e ciência, na medida em que ela
mesma é concebida como uma forma de conhecimento dessa
totalidade, que é o homem”
Maurício Tragtenberg
(1960, p.3)
Introdução
“Este é o mundo em que vivemos, banal e
delirante, mas onde se torna cada dia mais clara a necessidade de
despertar e cultivar o que há de humano no homem”, escreve Ferreira
Gullar (1989, p.15). Como poeta, ele acredita poder contribuir para
isso. Será que a literatura pode também pode ajudar a humanizar os
homens e mulheres? Em que medida, nos perguntávamos em outra
oportunidade,
a literatura pode contribuir para a formação humanística e
intelectual dos indivíduos? A obra literária tem significado
pedagógico e político? Na verdade, a resposta estava inscrita nos
próprios pressupostos do nosso projeto de pesquisa intitulado
“Política e Literatura: o significado político-pedagógico da
literatura e sua contribuição à formação acadêmica na perspectiva da
emancipação humana”. Esta percepção aparece no texto
“Política, Literatura e Educação”, cujo objetivo era apresentar
e publicizar, ainda que de forma sintética, este projeto. O
pressuposto encerra uma visão otimista sobre a capacidade que teria
a literatura em contribuir para a “elucidação da realidade
sociopolítica”. Para nós, o uso da literatura também se revelava “um
recurso pedagógico, sociológico e político fundamental”. E, quase
que à guisa de conclusão, escrevemos: “A literatura, enfim, pode
contribuir para a formação intelectual dos educadores e educandos,
numa perspectiva que supere o conteúdismo, o ensino decoreba
e a “educação bancária”.
Como o leitor pode observar, o nosso
‘olhar’ é o olhar predominantemente sociológico e político. Para
afirmar ou negar nossos pressupostos, porém, foi necessário fazer um
exercício de leitura, estudo e reflexão multidisciplinar. O nosso
“olhar” precisou se estender para outras ‘paisagens’ e ‘quadros”,
como a Teoria e Crítica Literária, a História, a Filosofia, a
Psicanálise, etc. Nossa inserção por estas áreas do conhecimento
humano não se deu à maneira do especialista. Trata-se, muito mais,
do olhar de quem se aventura a incursionar por terras desconhecidas;
de uma atitude típica do amadorismo, no sentido de Edward Said.
Esta é parte da tarefa que nos propomos.
Para cumpri-la de forma minimamente satisfatória, precisamos nos
colocar – ou repor – algumas questões como: que é literatura? Em que
consiste a concepção humanista sobre esta? Ler nos torna melhores?
Faz bem ou mal?
Em que medida, enfim, ela pode contribuir para a educação do nosso
intelecto e sentimentos?
O que é literatura?
Há anos que adoto literatura nos cursos
que trabalho na universidade. Em vez de aplicar a “prova
tradicional”, peço aos discentes que escolham um dos livros
indicados e façam uma reflexão sobre a obra escolhida, tomando como
referência os autores e as teorias políticas estudadas. Partia do
pressuposto de que todos sabiam exatamente o que é literatura, ou
seja, que compreendiam claramente que com este termo me referia às
obras ficcionais, isto é, romances. Percebi, porém, que não era bem
assim. Certa feita, para a minha surpresa, o trabalho do aluno era
sobre o ensaio “A desobediência civil”, de Henry D. Thoreau. “Teria
sido esperteza?”, pensei. De repente, ele já havia lido esta obra e
adotou a lei do menor esforço. Mas, não. Parece-me que foi mesmo uma
confusão sobre o que é literatura e, claro, não entendimento do que
foi solicitado. A incompreensão sobre o caráter da literatura se
repetiu em outros momentos.
As vezes as coisas nos parecem tão
simples que nem pensamos que possa ter sido diferente ou que alguém
não entenda. De certa forma, ocorre uma naturalização. A experiência
e as minhas leituras me fizeram ver que a compreensão sobre o que
seja literatura é uma construção histórica-social. Por outro lado,
há uma hierarquização, fundamentada no cânone, que define e
distingue a boa e má literaturas. Dessa forma, não adianta gostar de
ler, mas é preciso saber o que vale a pena ler.
Aliás, essa discussão é mais antiga do
que parece. Outro dia, por acaso, encontrei um livro de um autor do
século XII, época do florescimento da “cultura livresca” e da
formação das escolas ancestrais das universidades modernas. Em
Didascálicon da arte de ler, Hugo de São Vítor ensina: “São três
as regras mais necessárias para leitura: primeiro, saber o
que se deve ler; segundo, em que ordem se deve ler, ou seja,
o que ler antes, o que depois; terceiro, como se deve ler”. É
preciso, portanto, não apenas selecionar bem o que ler, mas também
ordenar e ter um método de leitura. “Parece-me que o estudante não
deve tomar menos cuidado em não gastar tempo em estudos inúteis
quanto em ficar desinteressado diante de um objetivo bom e útil. É
mal fazer o bem com negligência, mas é pior gastar muitas energias
inutilmente”, enfatiza São Vítor. Daí, ser essencial o papel do
professor enquanto orientador das leituras, pois “nem todos possuem
este discernimento para entender o que lhes é proveitoso” (DE SÃO
VÍTOR, 2001, p.45 e 139).
Para Hugo de São Vítor, a escolha do que
deve ser lido e a leitura bem feita, segundo um método adequado, tem
como objetivo a Sapiência, ou seja, o “bem perfeito”. “A
Sapiência ilumina o homem para que conheça a si mesmo, ele que,
quando não sabe que foi feito acima das outras coisas, acaba
achando-se semelhante a qualquer outra coisa”, escreve. Assim, vemos
o “quanto é inconveniente ao homem procurar coisas fora de si, uma
vez que poderia ser-lhe suficiente aquilo que ele próprio é” (id.,
p. 47).
O homem medieval almeja atingir a
“sabedoria divina” (Sapiência), pela leitura disciplinada,
metódica e orientada pela experiência do mestre. O começo é o ato de
ler, o qual leva à reflexão e contemplação. O homem moderno segue-o,
ainda que compreenda a “sabedoria” num sentido laico. Chega-se à
sabedoria pela leitura dos clássicos canônicos, incluindo o texto
sagrado. Literatura, nesta perspectiva, não é qualquer “literatura”
mas sim aquela merecedora da nossa dedicação. Não devemos, lembremos
o conselho de São Vítor, desperdiçar energias. Se é desaconselhável
e humanamente impossível ler tudo, temos que nos ater ao essencial.
Quais obras, porém, constituem “o essencial”?
Como selecioná-las? Em outras palavras, e
parafraseando o renomado crítico literário Harold Bloom, “Onde
encontrar a sabedoria?”
Este raciocínio
hierarquiza a literatura. Harold Bloom, perguntado se os livros da
série Harry Potter não seriam “uma boa porta de entrada, um
meio de despertar nas crianças o interesse pela literatura”,
responde: “Você realmente acha que as crianças vão ler coisas
melhores depois de ler Harry Potter? Eu acho que não”. O
entrevistador insiste: “Por que não ler os livros de J.K.
Rowling, a autora de Harry Potter?”. Ele afirma: “Li
apenas uma das obras dessa autora. A linguagem é um horror. (...) A
defesa de livros ruins como esses, que vem de todos os lados – dos
pais, das crianças, da mídia –, é muito inquietante e nem um pouco
saudável”.
Poderíamos insistir: por que não ler
gibis, literatura de cordel, fotonovelas, literatura
infanto-juvenil, a “literatura cor-de-rosa”, etc.? Por que não,
enfim, ler Harry Potter? Se a leitura é o início do saber, vale a
pena ler tudo. Não me parece que a leitura de textos e livros não
incluídos no índex canônico seja determinante para a não leitura dos
clássicos. E, de qualquer forma, é preciso perguntar-se: o que é um
clássico? Como de deu a sua canonização?
Harold Bloom ironiza a “Escola do
ressentimento” – neste rótulo ele inclui toda a literatura crítica
ao cânone ocidental, isto é, a literatura feminista,
pós-colonialista, multiculturalista, etc. Será que as obras com esse
viés não merecem a qualificação de literatura? Raciocínios como
estes tendem a abstrair a história e a despolitizar a literatura,
como se esta tivesse uma essência em si, independente de fatores
sociais, culturais, políticos, econômicos e históricos.
O escritor Antonio Fernando Borges
corrobora esta tese. Para ele a política influi negativamente sobre
a literatura:
“O
resultado pode ser visto nos balcões da livrarias
e nos suplementos literários: cada vez mais, as questões
metafísicas e estéticas que sempre tiveram na arte seu habitat
ideal vem cedendo terreno ao imediatismo das “questões
político-sociais”. A literatura se traveste em denuncismo
naturalista e os escritores vão se tornando presunçosos
“colecionadores de injustiças”. Cada vez se produzem mais
panfletos e menos obras literárias, sendo que no Brasil, como é
de hábito, as coisas vão ao exagero: a pretexto de se “dar voz
aos excluídos”, eleva-se à condição de literatura o discurso dos
rappers e funkeiros, malandros e contraventores da periferia das
grandes cidades. O território antes livre da criação literária
ganha assim uma geografia delimitada – quer dizer, limitada –,
enquanto a arte vai virando literalmente um caso de polícia”
(BORGES, 2008).
Essa postura reduz a literatura à
identificação com o cânone. É preciso, porém, levar em conta o
processo histórico no qual a literatura especializa-se e
consolida-se enquanto conceito e prática social. Raymond Williams,
em “Marxismo e Literatura”, analisa o processo histórico no qual a
literatura especializa-se e consolida-se enquanto conceito e prática
social:
“Em sua forma moderna, o conceito de
“literatura” não surgiu antes do século XVIII e não se
desenvolveu plenamente até o século XIX. Mas as condições para o
seu aparecimento se vinham desenvolvendo desde o Renascimento, A
própria palavra começou a ser usada em inglês no século XIV,
seguindo precedentes francês e latino: sua raiz foi littera,
do latim, uma letra do alfabeto. A literatura era então uma
situação de leitura: ser capaz de ler e de ter lido. Estava, com
freqüência, próxima do sentido moderno da palavra inglesa
literacy [alfabetização, estado de alfabetizado], que só
surgiu na linguagem do século XIX, tendo sua introdução se feito
necessária em parte por ter a palavra literature
adquirido um significado diferente. O adjetivo normalmente
associado a literature era literate [em inglês
moderno, alfabetizado]. Literary apareceu no sentido de
capacidade e experiência de leitura, no século XVII, e não
adquiriu sem significado especializado senão no século XVIII.
Literature,
como uma nova categoria, foi portanto uma especialização da área
antes categorizada como retórica e gramática: uma
especialização de leitura e, no contexto material do
desenvolvimento da imprensa, da palavra impressa e em especial
do livro” (WILLIAMS, 1979, p. 51-52).
A literatura, aqui, se identifica com o
romance. A compreensão deste gênero pressupõe a contextualização
histórica e até mesmo o resgate etimológico. Konder (2005, p. 24),
nota que:
“A palavra romance vem do advérbio
latino romanice. Na idade média, o latim era a língua da
cultura, o idioma dos intelectuais, dos clérigos, da Igreja. Os
iletrados é que não falavam latim e se expressavam nos dialetos
vulgares que viriam a ser as línguas neolatinas. Os iletrados
falavam romanice.
Os intelectuais escreviam em latim,
uns para os outros. O povo não sabia ler nem escrever. Por isso,
ninguém escrevia romanice. Compreende-se, então, que
tenha surgido para um público “popular”, marcado pela presença
de peregrinos e mulheres, uma literatura oral”.
O termo “romance”, no sentido que usamos
atualmente, só se consagrou no final do século XVIII. É interessante
observar que, em sua gênese, o romance foi marcadamente popular,
expressando a língua do povo. O romance moderno rompe com a tradição
oral e surge como uma literatura dos poucos que tinham condições
culturais e econômicas – Bourdieu diria, capital simbólico e
econômico, isto é, habilidade de ler e possibilidade de adquirir os
livros. Ian Watt (1996, p. 40), analisando o surgimento do romance e
seu público leitor, mostra que:
“o preço do romance só estava ao
alcance dos abastados: Tom Jones, por exemplo, custava mais do
que um trabalhador ganhava em média por semana. Com certeza o
público leitor de romances pertencia à camada mais
representativa da sociedade – ao contrário, por exemplo, do que
ocorreu com as platéias do teatro elisabetano. Só os indigentes
não podiam gastar um penny de vez em quando para ir ao
Globe Theather: o ingresso não custava mais do que uma cerveja.
Em contrapartida o que se pagava por um romance podia sustentar
uma família por uma ou duas semanas. Isso é importante. No
século XVIII o romance estava mais próximo da capacidade
aquisitiva dos novos leitores da classe média do que muitas
formas de literatura e erudição estabelecidas e respeitáveis,
porém estritamente falando não era um gênero popular”.
A publicação do romance em formato
folhetim, e o conseqüente barateamento do livro, possibilitou a
ampliação do número de leitores. A “popularização” do
romance-folhetim, porém, deve ser relativizada. Num país como a
Inglaterra, a sociedade mais desenvolvida da época, a leitura
permanecia proibitiva para as camadas sociais com menor poder
aquisitivo e, majoritariamente, analfabetas. “Entretanto houve
acréscimos, provenientes sobretudo dos grupos sociais cada vez mais
numerosos e prósperos, engajados no comércio e na indústria” (Id.,
p. 44).
A expansão desse tipo de literatura
ainda encontrava resistências em círculos intelectuais vinculados à
tradição literária anterior ao romance moderno. O próprio conceito
do que podia ser identificado como “literatura” estava em disputa.
Como observa Eagleton (1997, p. 23):
“Na Inglaterra do séc. XVIII, o
conceito de literatura não se limitava, como costuma ocorrer
hoje, aos escritos “criativos” ou “imaginativos”. Abrangia todo
o conjunto de obras valorizadas pela sociedade: filosofia,
história, ensaios e cartas, bem como poemas. Não era o fato de
ser “ficção” que tornava um texto literário – o séc. XVIII
duvidava seriamente se viria a ser literatura a forma recém
surgida do romance – e sim sua conformidade a certos padrões de
“belas letras”.
Nestas condições históricas, como
definir “literatura”?
“Os critérios do que se consideravam
literatura eram, em outras palavras, francamente ideológicos: os
escritos que encerravam os valores e “gostos” de uma determinada
classe social eram considerados literatura, ao passo que uma
balada cantada nas ruas, um romance popular, e talvez até mesmo
o drama, não o eram” (Id.).
Parece-nos que, ainda hoje, os critérios
sobre o que é ou não é literatura são histórica e ideologicamente
determinados. A acusação de “ideologização” da literatura, e sua
conseqüente identificação restrita ao cânone, é também uma postura
ideológica – embora tão legítima quanto a crítica ao caráter
machista, colonialista e pretensamente universal deste.
Ora,
“Em qualquer estudo acadêmico
selecionamos os objetos e métodos de procedimento que nos
parecem os mais importantes, e nossa avaliação de sua
importância é governada por interesses que têm raízes profundas
em nossas formas práticas de vida social. Os críticos radicais
não diferem quanto a isso: apenas têm uma série de prioridades
sociais da qual a maioria das pessoas atualmente tende a
discordar. É por isso que tais críticos são habitualmente
rejeitados como “ideológicos”, porque “ideologia” é sempre uma
maneira de se descreverem os interesses dos outros, e não os
nossos” (Id, p. 290).
Recepção da leitura
“O
pior leitor é o passivo, resignado, que aceita tudo e lê o livro
como uma receita ou bula para o bem viver. Este é o não-leitor”
(Milton Hatoom, 2007, p. 44).
“Nunca se obrigue a
ler um livro – é um esforço perdido” (Arthur Koestler, 1947, p.
60)
“O que está em pauta, no ato da
leitura?”, pergunta Terry Eagleton (1997, p. 103). Eis uma questão
difícil de responder. As tentativas de análise do leitor são várias
e rendem muitas palavras impressas e discussões. Os teóricos da
“estética da recepção” (JAUSS, ISER, STIERLE, GUMBRECHT, BARTHES,
entre outros) têm o mérito de enfocar o papel do leitor e nisso são
originais. Muito antes deles, porém, Sartre colocava uma pergunta
importante: “Para quem se escreve?”. Como observa Eagleton:
“Um estudo histórico mais detalhado
da recepção literária é Qu’ est-ce que la littérature?,
escrita por Jean-Paul Sartre, em 1948. Esse livro deixa claro
que a recepção de uma obra nunca é apenas um fato “exterior” a
ela, uma questão contingencial de resenhas e vendas nas
livrarias. É uma dimensão construtiva da própria obra. Todo
texto literário é construído a partir de um certo sentimento em
relação ao seu público potencial, e inclui uma imagem daqueles a
quem se destina: toda obra encerra em si mesma aquilo que Iser
chama de um “leitor implícito”; inclui em todas as suas atitudes
o tipo de público que prevê. O “consumo” tanto na produção
literária como em qualquer outra, é parte do processo de
produção” (Id, p. 115).
A recepção literária e, inclusive, a
definição do cânone literário, tem muito a ver com a universidade e
a escola em todos os níveis. No ambiente escolar, desde o ensino
fundamental ao universitário, a influência do(a) professor(a) é
considerável. Suas opiniões, indicações, comentários, etc., podem
influir positiva ou negativamente para a escolha de determinadas
obras e exclusão de outras. Esse poder de influenciar pressupõe, da
parte do docente, uma proximidade e gosto pela literatura. Se os(as)
professores(as) não lêem, como poderão comentar, opinar, sugerir
leituras aos seus alunos? Talvez isto explique a proeminência da
instituição universitária, em especial os cursos de Letras, enquanto
fator formador e legitimador de preferências literárias. A
instituição acadêmica faz uma espécie de inventário de obras a serem
lidas e, claro, isso supõe a exclusão de outras. “É indubitável a
existência de uma instituição acadêmica que determina, com rigidez,
quais as leituras geralmente possíveis; e a “instituição literária”
inclui editores, organizadores literários e comentaristas, bem como
as academias”, nota Eagleton (1997, p. 122). É preciso também
considerar o contexto histórico de cada época e o poder dos editores
e outros agentes que ganham com o comércio dos livros. Nós que
amamos os livros não sejamos ingênuos a ponto de esquecer que este é
“valor de uso”, mas principalmente “valor de troca”, isto é,
mercadoria.
A experiência da leitura é
essencialmente individual, sempre única e nova. Parafraseando
Rousseau, que afirmava ser a vontade intransferível, ninguém pode
sentir os meus sentimentos, as minhas emoções e viver da mesma forma
a minha experiência ao ler, por exemplo, A Mãe (Gorki),
Pais e Filhos (Ivan Turguéniev), Anna Karenina e A
morte de Ivan Ilitch (Tolstoi), Os Demônios
(Dostoievski), Germinal (Émile Zola), Eugenia de Grandet e
Ilusões perdidas (Balzac), A Revolução dos Bichos e 1984
(George Orwell), O zero e o infinito e Ladrões nas trevas
(Arthur Koestler), Zorba, o grego (Níkos
Kazantzákis), A leste do Éden (John Steinbeck), Pai
patrão (Gavino Ledda), História do cerco de Lisboa,
Ensaio sobre a Lucidez, Ensaio sobre a cegueira, A Caverna
(José Saramago), Incidente em Antares (Érico Veríssimo),
Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) e tantos
outros.
Como expor em palavras o que senti ao
ler cada um deles? Qual a influência que tiveram sobre a minha vida?
Transformaram o meu ‘olhar’ sobre o mundo, a forma de relacionar-me
com a realidade objetiva, comigo e com as pessoas próximas e as mais
queridas? Contribuíram para a minha formação política? Influíram em
minha práxis docente? Tornaram-me alguém melhor, mais observador e
sensível diante da miserabilidade da condição humana? Certamente,
sim. Esta, porém, é uma resposta que expressa a minha maneira de
conceber a literatura e a relação que tenho com a leitura desde a
mais tenra idade – quando lia, à luz do candeeiro, na cidade de
Poção (PE), literatura de cordel.
Um dos aspectos essenciais da literatura
é que ela nos fala diretamente, sem a necessidade de conceituação e
análise interpretativa. Deixemos à teoria e crítica literária e à
sociologia da literatura a tarefa de analisar e tirar conclusões.
Então, estamos no campo do leitor especializado, e não do leitor que
simplesmente vivencia a experiência da leitura. É uma leitura
desinteressada, mas que também produz emoções, as quais podem nos
marcar por toda a vida.
É interessante que não recordo das
leituras na escola, indicadas por meus professores – provavelmente
não indicaram livros. A lembrança que tenho não é muito alentadora.
Estava já no colegial, como dizíamos naquele tempo, e nos foi
solicitada a leitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Na
verdade, era uma tarefa, uma obrigação a cumprir. Talvez por isso,
foi uma experiência desastrosa e sofrível. Nem recordo se consegui
ler até o final. A minha impressão sobre a sua obra foi péssima e
muitos anos se passaram até que, por livre e espontânea vontade, li
Memórias póstumas de Brás Cubas. Foi impactante! Suas
palavras iniciais, por exemplo, tornaram-se parte da minha filosofia
de vida, pois elas sintetizam a condição humana mortal e o absurdo
das vaidades – tituladas ou não.
Um dos melhores livros que li em minha vida. Tornei-me um admirador
do autor e li seus contos e outras obras, como O Alienista.
Confesso, porém, que até hoje não retomei a leitura de Dom
Casmurro.
Claro, a vida nos ensina muitas coisas –
basta disposição para aprender e esforço. Aprendi, então, a escolher
melhor os livros para ler. Os melhores foram os que li pelo simples
prazer de ler. As leituras, porém, nem sempre podem ser feitas
apenas pelo prazer – muito do que li no período recente está
vinculado ao meu trabalho como docente e pesquisador; a diferença é
que consegui transformar isso num trabalho prazeroso.
Esta, porém não é a regra geral! O paradoxo é que alguns leitores
precisam ser “incentivados” e a “obrigação” acadêmica de ler, por
exemplo, pode dar resultados positivos. Penso que a indicação de
livros, em certos contextos, acompanhados de um certo “estímulo” e
“convencimento”, aumenta a probabilidade disso ocorrer. Mas será que
contribui para transformar os leitores em indivíduos melhores e
cidadãos responsáveis?
Caráter político-pedagógico da
literatura
“Romancistas
comprometidos com temas políticos não têm necessariamente que
chegar a conclusões políticas: em geral é melhor que não tentem
fazê-lo” ( Irving Howe, 1998, p. 197).
A arte é “uma das poucas atividades que
resgatam a estupidez”, afirma Alfredo Bosi (2006, p.30). Mas como
mensurar isto? Como identificar se o indivíduo humanizou-se pela
leitura de obras literárias? Como ter certeza de que isto o tornou
um ser humano melhor? E se ocorreu o contrário, a leitura
corrompeu-o moralmente, como sabê-lo? A literatura tem realmente
este poder? O que ela acrescenta em nossas vidas?
Há quem considere que a literatura faz
bem, e os que dizem que faz mal; outros imaginaram que a leitura
desvirtua os valores morais e desencaminha as pessoas; há, também,
quem pense que certos romances tem caráter político subversivo e
representam ameaça à formação mental dos jovens; os que têm receiam
os livros, por desculpas morais ou políticas, terminam por querer
queimá-los – e aos autores. Se uns receiam os livros por seu
potencial subversivo e corruptor da boa moral, outros os vêem como
sedimentadores da ordem política e social e dos bons costumes.
O tema é polêmico, mas, para o bem ou
para o mal, as distintas argumentações indicam que a literatura tem
sim um papel político pedagógico. É o que demonstra Valéria Augusti
(2000), num artigo que resgata e analisa a polêmica sobre o caráter
político e pedagógico da literatura, em suas origens européias e
também no Brasil. A discussão incide sobre os efeitos, morais e/ou
políticos, que a leitura pode provocar. Ela chama
“a atenção a atenção para o fato de
a forma narrativa do romance moderno ter permitido que os
leitores não apenas acreditassem que os personagens eram reais,
como também procurassem conduzir suas vidas em consonância com a
deles. Queremos dizer com isto que o romance parece ter servido
de guia de conduta, ou seja, ter sido investido de um caráter
pedagógico. Tal caráter, a nosso ver, sustentou-se,
fundamentalmente, sobre a possibilidade de os leitores
identificarem-se com os personagens. Essa possibilidade de
identificação, alicerçada no caráter “realista” desse tipo de
narrativa, acabou por gerar a polêmica em torno do efeito da
leitura dos romances sobre os valores e as formas de conduta do
público leitor” (AUGUSTI, 2000, p.91-92).
Outra autora, analisando o universo das
leitoras no Brasil do século XIX, mostra como os homens, guardiães
dos bons costumes, intentavam controlar o que as moças liam:
“Controlar as leituras ao alcance
das mulheres era uma extensão das prerrogativas masculinas na vã
ilusão de controlar seus sonhos e fantasias.
Esses depoimentos ressaltavam bem o papel assumido pelos pais e
maridos de protetores da inteligência e da moral das mulheres. O
acesso aos livros de literatura era limitado e não passava,
muitas vezes, do livro de orações, que servia também de
iniciador das mulheres na página impressa. Tal situação estava
bem de acordo com o provérbio português registrado por Charles
Expilly (1935): “Uma mulher já é bastante instruída, quando lê
corretamente as suas orações e sabe escrever a receita da
goiabada. Mais do que isso seria um perigo para o lar” (MORAIS,
1998).
Ainda sobre o caráter
político-pedagógico da literatura, Eagleton (1997, p.32) mostra como
a literatura na Inglaterra foi concebida como uma forma de
apaziguamento dos conflitos sociais:
“À medida que a religião deixa
paulatinamente de proporcionar o “cimento” social, os valores
afetivos e as mitologias básicas pelas quais uma turbulenta
sociedade de classes pode encontrar uma unidade, a “literatura
inglesa” passa a ser vista como o elemento capaz de carregar
essa carga ideológica a partir da era vitoriana”.
E, mais adiante (p. 33-34):
“Como atividade liberal,
humanizadora, [a literatura] podia proporcionar um antídoto
poderoso ao excesso religioso e ao extremismo ideológico. Como a
literatura, tal como a conhecemos, trata de valores universais e
não de trivialidades históricas como as guerras civis, a
opressão das mulheres ou a exploração das classes camponesas
inglesas, poderia servir para colocar numa perspectiva cósmica
as pequenas exigências dos trabalhadores por condições decentes
de vida ou por um maior controle de suas próprias vidas; com
alguma sorte, poderia até mesmo levá-los a esquecer tais
questões, numa contemplação elevada das verdades e das belezas
eternas”.
Para o bem ou para o mal, o que está
implícito nestes argumentos é o potencial transformador da
literatura, a sua capacidade de mudar os indivíduos. Na Inglaterra
do século XX, F. R. Leavis e seu grupo (Scrutiny) acreditavam
a literatura poderia melhorar as pessoas. Eles desenvolveram uma
espécie de cruzada moral e cultural para levar a literatura ao povo
e estabeleceram uma espécie de cartografia literária, um mapa da
literatura sobre o que deveria ser lido nesta perspectiva
político-pedagógica (eis um fator que mostra como é estabelecido o
cânone). Eles “esperavam desenvolver uma sensibilidade rica,
orgânica, em pessoas selecionadas aqui e ali, que poderiam então
transmitir essa sensibilidade a outros”. Os partidários de Leavis,
“iam às escolas e Universidades
travar batalhas, procurando alimentar, por meio do estudo da
literatura, as reações ricas, complexas, maduras, seletivas,
moralmente sérias (expressões muito ao gosto da Scrutiny)
que permitiram ao indivíduo sobreviver numa sociedade mecanizada
de romances ordinários, trabalho alienado, anúncios banais e
meios de comunicação de massa vulgarizadores” (Id, p. 45).
“Ler os melhores escritores – digamos
Homero, Dante, Shakespeare, Tolstoi – não vai nos tornar melhores
cidadãos”, afirma Harold Bloom. Ele diverge da fé humanista –
liberal ou radical – no poder transformador da literatura, isto é,
na sua capacidade pedagógica de transmitir, favorecer e consolidar
sensibilidades:
“Se lermos o Cânone Ocidental para
formar nossos valores morais, sociais, políticos ou pessoais,
creio firmemente que nos tornaremos monstros de egoísmo e
exploração. Ler a serviço de qualquer ideologia é, em minha
opinião, não ler de modo algum. A recepção da força da estética
nos possibilita aprender a falar de nós mesmos e a suportar a
nós mesmos. As verdadeiras utilidades de Shakespeare ou
Cervantes, de Homero ou Dante, de Chaucer ou Rabelais, é
aumentar nosso próprio eu crescente. Ler a fundo o Cânone não
nos fará melhor ou pior, um cidadão mais útil ou nocivo. O
diálogo da mente consigo não é basicamente uma realidade social.
Tudo o que o Cânone Ocidental pode nos trazer é o uso correto de
nossa solidão, essa solidão cuja forma final é o confronto com
nossa mortalidade” (BLOOM, 1995, p. 36-37).
Essa postura é tão ideológica e legítima
quanto as que o autor de “O Cânone Ocidental” batizou de “Escola do
ressentimento”. Se é verdade que a literatura comporta uma
experiência individual única e original, também é fato de que nem
ela nem o seu leitor encontram-se suspensos no ar. Livros são
criações humanas produzidos em determinadas contextos políticos,
culturais, sociais, econômicas, etc. Da mesma forma, os leitores são
determinados historicamente e, portanto, a própria leitura e,
inclusive, os processos de canonização dos textos. Sem desmerecer o
valor humano de uma obra canônica, é preciso pensá-la numa
perspectiva não apenas individualista, a-histórica e mesmo
egocêntrica.
Por outro lado, é também uma postura
elitista e conservadora, na medida em que desqualifica outras
“literaturas” não incluídas no cânone. Pelo menos, Harold Bloom não
dissemina a ilusão de que a literatura, per se, transforma o
mundo. Ora, quem transforma o mundo são indivíduos de carne e osso e
estes tanto podem ser leitores, como não leitores; e, se lêem, a
literatura tanto pode contribuir positiva quanto negativamente.
Pode, inclusive, contribuir para isolá-los do mundo real e mantê-los
em um “mundo” cuja referência são os livros.
A literatura não é, necessariamente, um
divisor de águas no que diz respeito à capacidade intelectual e
moral dos indivíduos. Ela não nos torna, necessariamente, pessoas
moralmente boas e cidadãos exemplares. E, afinal, a maioria da
população, por vários motivos, não lêem literatura. Isso os tornam
piores dos que os “devoradores dos livros”?
Ao analisar estas questões e apontar os
limites do idealismo implícito na perspectiva humanista liberal,
mais precisamente com o grupo da Scrutiny, Terry Eagleton
(1997, p. 47) escreve:
“Sem dúvida era reconfortante achar
que ler Henry James significa colocar-se na vanguarda da própria
civilização. Mas o que acontecia com todas as pessoas que não
lessem Henry James, que nunca ouvissem falar dele, e que sem
dúvida seriam enterradas na ignorância pacífica de que ele
jamais existira? Essas pessoas eram sem dúvida a esmagadora
maioria da sociedade; seriam elas moralmente indiferentes,
humanamente banais e imaginativamente falidas? Tais pessoas
poderiam ser nossos próprios pais e amigos e, portanto, era
necessário cautela. Muitas delas pareciam ser moralmente éticas
e bastante sensíveis; não revelavam nenhuma tendência para sair
matando, saqueando ou roubando; e mesmo que o fizessem, seria
pouco sensato atribuir isso ao fato delas na terem lido Henry
James. A argumentação de Scrutiny era inevitavelmente
elitista: revelava profunda ignorância e desconfiança da
capacidade dos que não tinham a sorte de ter estudado inglês no
Downing College. As pessoas “comuns” pareciam aceitáveis, se
fossem pastores do séc. XVII, ou campônios australianos “cheios
de vida”.
Por outro lado,
“nem todos os que tinham esse
conhecimento eram moralmente puros. Havia muitas pessoas que de
fato estavam mergulhadas na alta cultura, mas cerca de uma
década após o nascimento de Scrutiny evidenciou-se o fato
de que isso não as impedia de praticar atividades tais como
supervisionar o assassinato de judeus na Europa central” (Id.).
A resposta a “Por que literatura?” não
pode desconsiderar a história dos homens e mulheres reais,
concretos. E essa história não é feita apenas de altruísmo e fundada
em valores pacíficos e em prol da sociedade. Muito pelo contrário: é
o individualismo possessivo, o egoísmo desenfreado e a violência
explícita e simbólica que destrói e constrói o mundo que nossos
antepassados viveram, o que vivemos e o que as futuras gerações
viverão. Se tirarmos a literatura do chão social em que se encontra,
em cada momento histórico específico, abrimos mão da reflexão
crítica e até mesmo da possibilidade de que a literatura possa
contribuir para formarmos pessoas melhores e um mundo melhor. Como
alerta Eagleton:
“Por que literatura?” A resposta, em
suma, era a de que tal leitura tornava as pessoas melhores.
Poucas razões poderiam ter sido mais persuasivas. Quando, alguns
anos depois da criação de Scrutiny, as tropas aliadas
chegaram aos campos de concentração para prender comandantes que
haviam passado suas horas de lazer com um volume de Goethe,
tornou claro a necessidade de explicação. Se a leitura de obras
literárias realmente tornava os homens melhores, então isso não
ocorria de maneira direta imaginada pelos mais eufóricos
partidários dessa teoria” (Id., p. 47-48).
Concluindo
“Chegamos a tal
ponto que a “vida viva” autêntica é considerada por nós quase um
trabalho, um emprego, e todos concordamos no íntimo que seguir
os livros é melhor.” (DOSTOIEVSKI, 1992, p. 185).
“Os grandes textos
literários levam o leitor a interrogar a relação de uma vida com
uma obra, mas isso é esquecer que se trata também da nossa
vida” (MANNONI, 1999, p. 39-40).
A literatura fala a nós, de nós, da
humanidade. A literatura, em especial os clássicos, coloca ao
alcance do leitor a possibilidade de refletir sobre si, de ler-se e
conhecer-se, pois, na medida em que trata das inquietações humanas e
descreve o que há de mais profundo e obscuro na alma humana em sua
universalidade, é também a mim, a ti e a nós que ela nos fala. Em
outras palavras, a literatura contribui para que conheçamos melhor e
mais profundamente o gênero humano e, assim, para nos conhecermos a
nós mesmos e nos humanizarmos.
A leitura é importante, mas não mais que
a vida. O mundo dos livros, é verdade, nasce da mente imaginativa e
criadora que habita o mundo real, mas não é idêntica à realidade dos
homens de carne e osso, que sangram, sofrem, alegram-se, amam,
odeiam, etc.
Palavras não sentem, não sofrem, não sangram!
A mente prodigiosa de Dostoievski (1992, p. 185-186) percebeu
claramente os riscos acarretados pelo fetiche do livro:
“Deixa-nos sozinhos, sem um livro, e
imediatamente ficaremos confusos, vamos perder-nos; não
saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que amar e o que
odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós, é pesado,
até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios;
temos vergonha disso, consideramos tal fato um opróbrio e
procuramos ser homens gerais que nunca existiram. Somos
natimortos, já que não nascemos de pais vivos, e isto nos agrada
cada vez mais. Em breve, inventaremos algum modo de nascer de
uma idéia.”.
Com efeito, é mais fácil amar o homem e
a mulher universais, enquanto abstrações conceituais, do que o homem
e a mulher singulares e reais próximos a nós. A literatura pode
ajudar a que conheçamos melhor os seres humanos e, portanto, a nós
mesmo. É preciso, contudo, voltar-se para a vida real, suas
contradições limites. Assim, é possível superar tanto o fetiche do
livro quanto o humanismo universalizante, porém abstrato. O
importante, nesta perspectiva, é manter o olhar crítico, para além
da obra e das discussões tão ao gosto de certos intelectuais cujo
mundo restringe-se ao umbigo ou à torre de cristal. É preciso perder
as ilusões e reconhecer as limitações humanas. Então, a leitura
poderá contribuir para o nosso crescimento intelectual e, assim,
quem sabe, possamos nos tornar indivíduos mais humanos e melhores.
Então, a literatura terá cumprido, efetivamente, sua função
educativa.
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