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JOSÉ DE SOUZA MARTINS
Professor de Sociologia da Faculdade
de Filosofia da USP, é autor de A Sociabilidade do Homem
Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008) e
A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008).

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Que raça de povo é
esta?
José de Souza
Martins
Muitos
de nós aprendemos na escola a inverdade de que somos um povo que
reúne três raças: a branca, a negra e a indígena. Os antropólogos já
se cansaram de nos dizer que cor não é raça. E a "raça" da maioria
nem é mencionada nessa classificação cromática: a dos mestiços. Além
do que, antes de tudo, brancos, aqui, são mestiços de branco e
branco, se levarmos em conta as enormes diferenças de brancura que
há entre imigrantes que vieram do norte da Europa, como suíços,
alemães e escandinavos, e os imigrantes que vieram da Itália, de
Portugal e da Espanha. Negros, aqui, são mestiços de negro e negro,
das várias etnias e diferentes culturas da África, que aqui chegaram
como escravos. Índios são, no mais das vezes, mestiços de índios e
índios, de diferentes tribos e nações, não raro filhos de mulheres
de tribos inimigas, capturadas para compensar a falta de mulheres
para procriação e trabalho, com a peculiaridade de que os nascidos
na mestiçagem ficavam em categorias sociais separadas, de "impuros"
e não autênticos. Sem contar a captura de mulheres e crianças
brancas com o mesmo propósito.
Reuni e
analisei, em meu livro
Fronteira, algumas dolorosas histórias dessas crianças,
reencontradas depois de adultas e entregues a suas famílias de
origem: não se reconheciam, já não falavam a mesma língua nem podiam
se comunicar. Os valores eram outros. Estavam sociologicamente
mortas umas para as outras. Um dos mais dolorosos casos foi o de
Helena Valero, adolescente que estudara em missão católica, que
falava português, espanhol e nheengatu, filha de mãe brasileira e
pai espanhol. Flechada e raptada em 1937 pelos índios ianomâmi,
quando estava com sua família na roça, só conseguiu escapar em 1957,
já adulta, com marido e filhos ianomâmi. Ao reencontrar a família
branca foi repudiada porque tivera relação carnal com o gentio e com
ele procriara. Seria encontrada por dois repórteres de
O Estado de S. Paulo, em 1997,
às margens do rio Orinoco, vivendo com nora indígena. Cega e
já no fim da vida, tornara-se um ser humano sem sociedade, sem raça
e sem identidade.
A mestiçagem
oscilou e vacilou ao longo da história brasileira. No século 18, os
livros brasileiros de genealogia, mostram que o Brasil era um país
de mamelucos empenhados na busca das raízes de sua brancura. Coisa
curiosa aconteceu em São Paulo nessa mesma época. Até então, no
geral, escravos eram os indígenas capturados no sertão. Em meados
daquele século foi abolida a escravidão indígena e aumentou o fluxo
de escravos africanos, em decorrência da difusão da economia do
açúcar na região de Campinas. Deu-se, então, um deliberado
enegrecimento da população. O cruzamento racial entre antigos
escravos indígenas e as novas escravas africanas foi meio para nas
crias fazer o índio retornar ao cativeiro, já que a escravidão se
dava pela linha materna. E o mais espantoso foi o enegrecimento do
Saci-pererê. Ente mítico indígena e tupi, durante o século 18
torna-se negro, com traços africanos, nas feições em que chegou aos
causos caipiras e às histórias infantis e aí permanece. No entanto,
comunidades negras tornaram-se culturalmente caipiras, isto é,
assimilaram a cultura dos mestiços de branco e índia, provavelmente
como forma de encontrar uma referência cultural de comunicação em
face da sua própria diversidade étnica e lingüística. Diversamente
do que ocorreu nas regiões canavieiras do Nordeste, de densa
concentração de africanos, em que línguas e culturas originárias
foram preservadas como componentes culturais de uma religiosidade
ancestral protegida na dissimulação e na duplicidade do sincretismo
religioso.
Negra não era
a cor de uma raça, mas a cor do cativeiro: índios e africanos eram
definidos como negros. A negritude, até forçada, tornou-se expressão
cultural e política de uma violência. Quando em meados do século 19,
com a cessação do tráfico negreiro ficou evidente que o fim da
escravidão negra era questão de tempo, o Brasil optou por uma
política de imigração seletiva da Europa que foi interpretada, nem
sempre de maneira correta, como política de branqueamento da
população brasileira. Branca não era a cor de uma raça, mas a cor da
liberdade, sobretudo a cor do trabalho livre. Na época da
implantação da República, a elite curiosamente partiu em busca de
uma identidade mestiça e indígena, na pintura, na música. Em São
Paulo, um Almeida Prado tornou-se Jorge Tibiriçá Piratininga e foi
governador do Estado. Mas também um escravo negro, Nicolau,
descendente de uma escrava africana chegada a São Paulo em 1700,
nascido na Fazenda de São Caetano, amigo de Luís Gama, ao ser
libertado, em 1871, adotou o nome de Nicolau Tolentino Piratininga,
bem branco e bem indígena. As décadas finais do século 19 foram
claramente décadas de construção de uma nacionalidade e de uma
identidade nacional e não de busca de identidades raciais, a raça
diluída numa ideologia política da mestiçagem, a consciência de que
a raça dividia e a mestiçagem, sobretudo simbólica, unia e criava as
bases da nacionalidade.
A chamada
grande imigração inundou o Brasil, sobretudo o sul e o sudeste, com
estrangeiros. Eles encontraram aqui uma cultura de assimilação que
teve no mestiço o sujeito de sua ideologia racial. A valorização que
ricos e pobres já faziam de uma supostamente heróica ancestralidade
indígena, fez da cultura caipira a referência comum de uma
identidade na terra de adoção. A chamada música sertaneja, que se
difundiu a partir dos anos trinta, tornou-se a memória sonora de
descendentes de espanhóis, de árabes, de alemães, de italianos. A
dupla sertaneja de mais duradouro sucesso, a dos irmãos Tonico e
Tinoco, é de filhos de espanhóis, colonos de café numa fazenda de
São Manoel.
Só os anos recentes nos puseram em face
de uma nova era na questão das diferenças de cor, a era da invenção
de identidades raciais, garimpadas nos resíduos muito antigos do que
um dia foram as etnias de origem de imensos contingentes do povo
brasileiro.
Publicado originalmente em O Estado de S. Paulo
[Caderno
Aliás, A Semana Revista], domingo, 22
de novembro de 2008, p. J.7.
Sociólogo, Professor
Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
da Universidade de São Paulo,
é autor de Retratos do Silêncio, Coleção
"Artistas da USP", Editora da Universidade de São Paulo, São
Paulo, 2008;
Sociologia da Fotografia e da Imagem
(Editora Contexto, 2008);
A Sociabilidade do Homem Simples (2ª edição revista e
ampliada, Contexto, 2008); A Aparição do Demônio na
Fábrica
(Editora 34, 2008).
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