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MÁRIO
MAESTRI
Historiador e professor do Curso de
História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS

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A Guerra
contra o Paraguai
História e
Historiografia: da instauração à restauração historiográfica
[1871-2002]
– Parte I
Mário
Maestri*
“En
La guerra del Paraguay ha triunfado no solo la República Argentina
sino también los grandes principios del libre cambio [...].Para el
comercio se han derribado las fortalezas que amenazaban las costas
[...]. Cuando nuestros guerreros vuelvan de su campaña, podrá el
comercio ver inscrito en sus banderas victoriosas los grandes
principios que los apóstoles del libre cambio han proclamado.”
Bartolomé Mitre
[Arengas, 297].
I. A
Instauração Historiográfica: Uma Historiografia de Trincheira
A guerra
contra o Paraguai foi acontecimento central da história do Brasil da
segunda metade do século 19. Em um sentido lato, as ações militares
iniciaram-se em 16 de outubro de 1864, com a intervenção armada do
Império no Uruguai, contra o autonomismo blanco, exigida
pelos criadores rio-grandenses instalados no norte daquele país, e
concluíram-se, em 1º de março de 1870, com a morte de Solano López,
em Cerro Corá, com o Paraguai já sob ocupação militar imperial.
Dos 150 mil brasileiros que teriam participado no confronto, talvez
até cinqüenta mil morreram devido aos combates ou por doenças. Uns
0,5% dos dez milhões de habitantes do Brasil em 1872. Os gastos com
o esforço militar comprometeram por mais de uma década as finanças
brasileiras
ainda que o país
tenha recebido indenização de guerra até a Segunda Guerra e
conquistado importantes territórios. Com talvez quatrocentos mil
habitantes, o Paraguai teve sua população sobretudo masculina
dizimada − os autores mais contidos falam de 15% a 20% de mortos. O
país foi ocupado militarmente, amargou perdas territoriais
significativas, arcou com indenizações de guerra, teve suas terras
públicas privatizadas, foi obrigado a endividar-se
internacionalmente, com seqüelas permanentes.
A guerra
mostrou o anacronismo geral do Brasil escravista para enfrentar
esforço militar modero, apesar da sua dimensão territorial e
econômica. Durante o confronto, a luta abolicionista, o grande
movimento nacional em gestação, foi imobilizada pela retórica
da união diante do inimigo externo, retardando possivelmente
a abolição da escravatura. Os partidos liberal e conservador
apoiaram uma luta rejeitada pelas classes populares e
subalternizadas, sem que qualquer força institucional se opusesse
explicitamente a ela.
As
forças armadas imperiais conheceram salto qualitativo e
quantitativo com a Guerra, transitório sobretudo no relativo ao
Exército, primeira confronto significativo contra forças armadas
estrangeiras que ocuparam marginalmente o território do Brasil [Mato
Grosso e Rio Grande do Sul]. Até então, o exército imperial havia
participado apenas de combates internos e de operações
intervencionistas no Plata. A guerra ensejou a gênese da idéia do
Exército-oficialidade como encarnação da honra e dos destinos
do país, proposta que se expressou fortemente nas artes plásticas e
na historiografia.
Ao
lado da Descoberta e da Independência, a Guerra do
Paraguai foi objeto de representações patrióticas excelentes da
pintura brasileiras de fins do século 19 e inícios do século 20.
Pedro Américo [1843-1905] consagrou-se com a
“Batalha
de Campo Grande” [1871] e a “Batalha do Avaí” [1872-77]. Em 1972, a
exposição do primeiro quadro na Corte recebeu sessenta mil
visitantes.
Victor Meirelles [1932-1903] consolidou-se com as encomendas pelo
Estado imperial, em 1868, de “Combate Naval do Riachuelo” [1882-3] e
“A
passagem de Humaitá” [1886].
Historiografia de Trincheira
As
primeiras obras brasileiras de cunho memorialista sobre a Grande
Guerra Sul-Americana foram realizadas durante e imediatamente após o
conflito.
Trataram-se sobretudo de narrativas sobre o heroísmo e a abnegação
das forças armadas nacionais em defesa do Brasil e da “civilização”,
agredidos por “barbárie” corporificada no ditador paraguaio,
responsabilizado exclusivamente pelo confronto. Comumente produto de
ex-combatentes, essa produção registrou uma leitura dos fatos desde
a trincheira brasileira.
Destaca-se nessas obras a célebre Retirada da Laguna:
episódio da Guerra do Paraguai, do jovem engenheiro-militar
Alfredo de Escragnolle-Taunay [1843-1899], publicada em 1871, em
francês, “por ordem do governo brasileiro”.
Seu sucesso de público transformou os fatos narrados em legenda
paradigmática do confronto. Ela narra a expedição que,
enviada do litoral, no início da guerra, para abrir segunda frente
no norte do Paraguai, invadiu em janeiro de 1867, com 1.600 homens e
quatro peças de artilharia, pouco mais de vinte quilômetros do
Paraguai, até a fazenda da Laguna, para empreender a seguir, por
pouco mais de um mês, desastrada retirada, sobretudo em território
mato-grossense, fustigada pelas frágeis tropas guaranis.
O relato
desvela cenários em contradição com a retórica
patriótico-militarista habitual nessa literatura: operação arriscada
e mal planejada, decidida por oficiais sedentos de consagração; o
medo, o suicídio, a indisciplina e a deserção; o abandono de
combatentes doentes pelos soldados e pelo comando; o hábito das
tropas imperiais do saque, que o próprio Taunay justificou em alguns
casos – “Este saque, aliás, era legítimo [...].”
Fora algumas referências depreciativas a Solano López, o livro
registra comumente a admiração com a belicosidade, disciplina,
engenhosidade e operosidade dos guaranis, vistos como excepcionais
“campeiros”; “grandes mateiros”; ativos trabalhadores; soldados
fiéis; coesos e disciplinados na luta.
A obra
registra igualmente a cultura habitual dessa produção memorialista
de defesa intransigente pela oficialidade da honra e
dos brios do país feridos pela “agressão” paraguaia.
Mesmo quando o autor critica oficiais da coluna, apresenta-os como
abnegados patriotas – uma outra característica geral dessa primeira
literatura sobre o confronto. Como habitual nessa produção, não há
quase descrições dos soldados, que jamais nominados, a não ser no
geral, como combatentes, como doentes, como desertores, etc.
Apesar
da informação paradoxal fornecida sobre os fatos, A retirada
da Laguna ensejou narrativas patrióticas
apresentando a patética operação como feito bélico e humano superior
aos mais heróicos atos militares universais. Em maio de 1952, no
“Prefácio” à 13ª edição, o historiador Afonso de E. Taunay
[1876-1958] refere-se às façanhas narradas pelo seu pai como um dos
“mais elevados feitos dos anais militares das nações do Ocidente”.
A obra prosseguiu e prossegue motivando estudos, pinturas,
esculturas, monumentos, comendas, concursos, celebrações
patrióticas, jogos educativos, etc., patrocinadas sobretudo pelo
Exército e pelo Estado.
A
narrativa memorialista sobre a guerra contra o Paraguai foi
produzida em geral por oficiais e profissionais liberais que
participaram da Guerra, sem grandes informações sobre suas razões
profundas, sobre o Paraguai e sua sociedade e, não raro, sobre o
próprio Império, uma entidade na época sobretudo política, devido à
fortíssima regionalização do Império.
Historiografia Republicana
O golpe
republicano de novembro de 1889 expressou os interesses dos grandes
proprietários provinciais, desobrigados pela superação da
escravatura, em maio de 1888, da sustentação do centralismo
monárquico.
Ele deu-se sob a égide da alta oficialidade do Exército, grande
interessada na consolidação e radicalização das propostas das forças
armadas como representantes dos interesses da nação, fortalecendo-se
a seguir a historiografia nacional-patriótica sobre o grande
confronto.
A
proposta de identidade nacional republicana, elitista e autoritária,
com as forças armadas como guardiãs dos interesses magnos da nação,
apoiou-se fortemente nas narrativas nacional-patrióticas sobre a
Guerra. A elevação dos oficiais monárquicos maiores que intervieram
naquele conflito ao status de figuras luminares da nação
republicana levou a que praticamente todos os patronos das diversas
armas e corpos do Exército e da Marinha sejam oficiais enobrecidos
pelo Império que se destacaram nos combates paraguaios.
O
marechal-de-exército Lima e Silva, duque de Caxias,
tornou-se o patrono do Exército; Manuel Luís Osório, marquês do
Erval, da Cavalaria; marechal Emílio
Mallet, barão de
Itapevi, da Artilharia; Antônio Sampaio,
comendador da
Imperial Ordem da Rosa,
da Infantaria; Joaquim Marques Lisboa,
marques
de Tamandaré,
patrono da Marinha de Guerra. Apenas a Força Aérea Brasileira não se
encontra tutelada por um alto oficial consagrado em 1864-1870,
talvez porque os balões cativos então utilizados pertencerem
ao Exército.
A
historiografia republicana consolidou a instauração da narrativa
nacional-patriótica construída através da seleção-organização das
apologias do Estado e das classes dominantes imperiais sobre o
conflito. Essa produção despreocupou-se com as razões e os cenários
sociais e nacionais da Guerra, privilegiando a apresentação
cronológico de confronto, definido, como assinalado, como choque
entre a civilização e a barbárie, promovido
pela agressão ao Brasil motivada por Solano López, que seguiu sendo
apostrofado como “tirano”, “ditador”, “megalômano”. etc., ao igual
que durante os combates.
Uma retórica retomada diretamente dos momentos do confronto. Em
abril de 1864, o jornal mitrista Nación Argentina propunha: “El
Brasil representa la civilización y Paraguay la barbarie.”
Para
corroborar a visão de embate essencialmente querido pelo ditador
paraguaio, essa historiografia consolidou como ponto zero do
confronto o aprisionamento do vapor mercante brasileiro Marquês de
Olinda, em 12 de novembro de 1864, em águas paraguaias, sem
declaração de guerra, e não a invasão pelo Império, um mês
antes, do Uruguai, apoiado pela Argentina mitrista, fato anunciado
pelo governo paraguaio anteriormente como casus belli, pois
condicionava a saída ao mar do Paraguai à vontade do Império e da
Argentina − oligarquia bonaerense −, nações com as quais possuía
problemas de fronteiras, de navegação dos grandes rios e de
autonomia nacional. Essa historiografia ignorou olimpicamente o fato
de que o Império preparava-se para guerra com o Paraguai, se
possível com o apoio e a participação do unitarismo argentino, que
sequer reconhecia a independência paraguaia.
Em
Invasão paraguaia na fronteira brasileira do Uruguai,
escrito após a retomada de Uruguaiana, o cônego João Pedro Gay
refere-se às razões da guerra: “O General Francisco Solano Lopez
[...] vendo em meados de 1864 travar-se a luta entre o Império do
Brasil e o Governo [...] do Uruguai, estremeceu [...], temendo que o
Brasil, com quem não tinha contas justas, lha espedaçasse,
derrubando seu governo despótico [...] logo que houvesse derrotado
os blancos de Montevidéu, e em seu furor, resolveu ele
declarar a guerra o Brasil.” Um reconhecimento mesmo condicional das
razões gerais do confronto. Em 1944, comentando o livro, o
historiador rio-grandense major Sousa Doca agregava candidamente que
com “a intervenção do Brasil no Estado Oriental [...] nenhuma ameaça
sofria o equilíbrio do Rio da Prata [...].”
Historiografia Paraguaia
A
historiografia republicana brasileira propôs que a guerra fosse
apenas contra Solano López, retomando a retórica justificativa do
Tratado da Tríplice Aliança, que pactuou, no início do conflito, o
fim da autonomia real paraguaia através da apropriação de parcelas
dos seus territórios; de reparações de guerra; do desarmamento do
país; da sua ocupação por cinco anos; da formação [contra o direito
internacional] de Legião Paraguai; da internacionalização de sua
navegação interna; da constituição de governo colaboracionista; de
rendição incondicional, etc. Lançou a responsabilidade pela
dizimação da população sobre o ditador e sobre o próprio
povo, por segui-lo na aventura. Essa literatura encerra-se com a
morte do ditador, em Cerro Corá, olvidando a aplicação
impiedosa das condições do Tratado, que apontavam para as razões
estruturais do conflito.
Comumente em forma obliqua, essa narrativa registrou quase perplexa
a singular resistência paraguaia, paradoxo que jamais superou,
devido à impossibilidade de explicar o imenso esforço bélico e as
enormes baixas do Império para vergar uma nação de menor
importância, em aliança com a Argentina mitrista e com o apoio
simbólico dos colorados uruguaios de Venancio Flores
[1808-1868]. Realidade em geral apresentada como produto da
preparação militar paraguaia prévia e do fanatismo e desprezo pela
vida, se não da selvageria, de população de origem guarani vista,
até hoje, com menosprezo pelas classes médias e dominantes
brasileiras.
A
marcialidade paraguaia seguiu como enigma sem resolução. Ela
dificultou que a guerra galvanizasse o imaginário popular
brasileiro, que se manteve em geral infenso à retórica
nacional-patriótica, alimentado por lembranças tênues das tristezas
conhecidas pelos combatentes naquele conflito e pela população,
devido a ele. Jamais foi escrita história da participação popular
brasileira na Guerra, que continua sendo cultuada sobretudo pelo
Estado e pelas forças armadas. Ultimamente, ensaia-se com
dificuldade a construção de legenda da história regional do
confronto e da participação popular no mesmo.
As
interpretações nacional-patrióticas brasileiras sobre a Grande
Guerra Sul-Americana de inspiração estatal prosseguiram plenamente
hegemônicas até a década de 1970, sem questionamentos por parte da
historiografia acadêmica ou extra-acadêmica nacional, desde 1964 sob
o peso de ditadura militar. A própria literatura histórica inspirada
pelo Partido Comunista Brasileiro, forte após a II Guerra Mundial,
condicionada pelas suas visões nacional-populistas, pouca
importância deu à Guerra, reforçando comumente a proposta da
transformação do exército imperial em força nacional de tendência
democrática durante aqueles sucessos, devido à captação de segmentos
médios em seu oficialato.
Em
História militar do Brasil, de 1965, o historiador
e general Nélson Werneck Sodré [1911-1999], militante do PCB,
propunha, referindo-se à uma inverossímil democratização racial das
forças armadas imperiais durante o confronto no Paraguai: “Fora
sempre frouxo, na tropa regular [o rótulo da pele], e a guerra [do
Paraguai o liquidou quase totalmente.” Porém, o autor ressalta a não
alteração da “composição” da “oficialidade” e lembra que após o
conflito os efetivos do Exército foram reduzidos drasticamente,
chegando, quando da República, a um máximo de treze mil homens, sua
dimensão antes daqueles combates.
II. O
Revisionismo Historiográfico: Por uma História dos Povos
Em um
sentido lato, o revisionismo historiográfico, como interpretação
contraditória às explicações justificadoras do Império e da
Argentina mitrista, é contemporâneo à própria guerra, expressando-se
poderosamente sobretudo através de intelectuais argentinos
federalistas, como Juan Bautista Alberdi [1810-1884] e José
Hernández [1834-1886], que denunciaram o confronto como uma agressão
do Império do Brasil e do Unitarismo portenho contra os direitos
provinciais argentinos e contra a autonomia uruguaia e paraguaia. Em
pleno confronto, Aberdi propunha:
“Paraguay representa la civilización,
pues pelea por la libertad de los ríos contra las tradiciones del
monopolio colonial; por la emancipación de los países mediterráneos;
por el noble principio de las nacionalidades; por el equilibrio, no
sólo del Plata, sino de toda la América del Sur.”
Essa narrativa revisionista
sobre a Guerra muito pouca repercussão teve no Brasil.
Apoiado também nessa leitura do conflito, o revisionismo sobre a
Grande Guerra Sul-Americana tomou igualmente pé no Paraguai. A
reorganização liberal do país sob ocupação militar do Brasil
promoveu a extensão-adaptação das interpretações imperiais pelas
primeiras narrativas paraguaias, com enorme ênfase na
responsabilidade pelo conflito de Solano López, decretado
“traidor a la patria”
pelo
governo colaboracionista, em
agosto de
1869, antes mesmo de sua morte.
Desde
início do século passado, revisionismo histórico, impulsionado
inicialmente sobretudo por Juan E. O´ Leary [1879-1969], sob a
oposição governamental, empreendeu resgate do conflito desde ótica
nacional paraguaia, que destacou o heroísmo do soldado guarani e de
Solano López, elevado à posição de herói nacional.
Condicionado pela época e realidade do país, o lopismo
alcançou enorme repercussão, ao interpretar contradições profundas
sobretudo dos sentimentos dos segmentos populares paraguaios com as
narrativas oficiais dos vencedores e das classes liberais do país
sobre a Guerra Grande. É violência analítica apresentar esse
movimento, de complexidade e dimensão social, como mero produto de
mega-operação imobiliária empreendida pelos herdeiros de Solano
López. Ou deslegitimá-lo devido a sua utilização política pelo
Partido Colorado e à elevação à ideologia oficial, sobretudo por
Alfredo Stroessner [1954-98], falecido no exílio, no Brasil, em
2006.
O
revisionismo paraguaio, de fortes vertentes patrióticas, propôs que
a guerra, desejada pela Inglaterra, destruíra um país, antes da
guerra, forte e feliz.
Nesse sentido, em 20 de novembro de
1932, no artigo “El Paraguay, lo que fue, lo que es y lo que será”,
Manuel Domínguez (1868-1935), propunha que, quando dos López, “no
había una sola familia sin hogar [...]. En instrucción [...] se
adelantó a Europa y a América [...]. Era el único país sudamericano
que no estaba en bancarrota, el único de moneda sana [...] ninguna
nación americana le igualó en producción”.
Destaque-se que após a guerra, sob
governos paraguaios liberais e ditatoriais, as terras públicas foram
privatizadas e transformadas em geral em latifúndios, comumente de
propriedade de estrangeiros, em boa parte argentinos, desorganizando
profundamente um campesinato já dizimado pelos combates. Essa
produção revisionista foi praticamente desconhecida pela
historiografia brasileira.
Desde os
anos 1950, no contexto de fenômenos mundiais essenciais como o
fortalecimento do movimento de libertação nacional na Ásia e na
África; as revoluções argelina, vietnamita e cubana; o fim da
hegemonia stalinistas nas ciências sociais marxistas; as jornadas
mundiais de 1968, etc., novas leituras revisionistas procuraram
superar as narrativas patrióticas das classes dominantes nacionais
sobre a Grande Guerra Sul-Americana, desvelando suas causas
essenciais partir de ótica das classes subalternizadas, na
construção de uma história unitária dos povos americanos.
Nesses
anos, destaca-se sobretudo o revisionismo historiográfico argentino
sobre a Grande Guerra Sul-Americana, como os ensaios de Enrique
Rivera, José Hernández y la Guerra del Paraguay,
de 1954, e de Milciades Peña, La era de Mitre: de
Caseros a la Guerra de la Triple Infamia, de 1955-7, de corte
marxista, e os artigos de inspiração revisionista, americanistas e
antiimperialistas de José Maria Rosa [1906-1991], de 1958-1959,
reunidos no livro La guerra del Paraguay y las Montoneras
Argentina, de 1964.
Em geral, esses autores aprofundaram e radicalizaram as
interpretações federalistas, em estudos de grande
complexidade. Milciades Peña, por exemplo, refutou totalmente a
explicação da guerra como iniciativa inglesa, responsabilizando por
ela plenamente o Império e a oligarquia porteña. “Ni la monarquia
coronada brasileña ni la oligarquia mitrista hicieron la guerra del
Paraguay por encoargo de Inglaterra, aunque al terminar la guerra el
principal beneficiario de la destrucción del Paraguay y la miseria
de sus vencedores fue el capital londinense.”
Essa produção, que se apoiou no revisionismo paraguaio e teve forte
repercussão naquele país, passou igualmente quase totalmente
despercebida no Brasil, devido aos frágeis laços culturais entre as
duas nações e ao Golpe Militar de 1964, que desorganizou a
intelectualidade progressista brasileira e tornou aquele confronto
tema tabu, devido à sua importância para a ideologia oficial e para
as Forças Armadas. Em verdade, até mesmo os escritos clássicos
de Juan Bautista Alberdi [1810-1884], da época do
confronto, eram de difícil acesso ao grande público e são ainda
pouco conhecidos no Brasil.
O livro
Il Napoleone del Plata, do jornalista Manlio Cancogni
e do historiador Ivan Boris, publicado, em 1970, na Itália, e
traduzido, em 1975, pela Civilização Brasileira, tradicional casa
editorial de esquerda, primeiro estudo revisionista de larga
divulgação no Brasil, integrou à explicação do confronto o estudo da
história do Paraguai, destacando a orientação autárquica e
anti-oligárquica de José Gaspar Rodriguez de Francia y Velasco
[1766-1840] para assegurar a independência paraguaia questionada
pela oligarquia comercial de Buenos Aires, política que teria
favorecido o campesinato de origem guarani.
Sobre o sentido dessa autonomia, Alberdi propusera:
“El aislamiento del Paraguay [...] es
simple resistencia a la política de aislamiento y colonial de Buenos
Aires [...].”
Uma
orientação autonomista inicial em processo de superação tendencial
no longo governo de Carlos Antonio López [1970-1962], que abriu
relativamente o país ao exterior e ao capital mercantil, sem romper
os laços sociais com o campesinato, política seguida no geral por
seu primogênito, Francisco Solano López [1827-1870]. Apoiados em uma
escassa informação sobre as raízes guaranis do Paraguai, os autores
destacam a importância das missões jesuíticas e, a seguir, das
“fazendas estatais” na formação daquela nação.
O estudo
maximiza o desenvolvimento conhecido pelo Paraguai, a partir da
propriedade pública de grande parte das terras do país, arrendadas
aos camponeses, e do monopólio do comercio exterior, que ensejou a
indiscutível modernização relativa da nação, apesar da sua relativa
pobreza – fundição, ferrovia, telégrafo, ensino público, etc.
Apresenta leitura inovadora ao público brasileiro: narrativa
cronológica dos combates desde ótica simpática aos paraguaios;
sugestão do país como Estado-nação em consolidação, de sólidas
raízes guarani-camponesas; esboço de análise desde as estruturas
sociais paraguaias; uma mais equilibrada apresentação de Francisco
Solano López, mesmo sendo o livro claramente antipático a ele, etc.
Apesar
do seu caráter inovador e qualidade literária, a publicação italiana
teve limitada repercussão no Brasil, conhecendo apenas uma edição,
segundo parece devido à proibição de reedição pela ditadura. Na
orelha do livro, o editor Enio Silveira [1925-1986]
apresentou em forma apologética Solano López como “verdadeiro
condutor de povos, chefe militar de grande brilho e coragem
incomum”, “patriota paraguaio”, “político em busca de efetiva
independência nacional e contrário às oligarquias postas a serviço
do imperialismo britânico então dominante”. Realizava radicalização
e modernização da ação do presidente como liderança nacionalista e
americanista estranha ao proposto na obra que lançava.
Revisionismo no Brasil
Em 1968,
León Pomer lançara na Argentina La guerra del Paraguay:
gran negócio!, publicado no Brasil sob o título A Guerra
do Paraguai: a grande tragédia rioplatense, anos depois, em
1979. O livro se despreocupava dos confrontos bélicos, empreendendo
ampla análise das razões políticas, diplomáticas e econômicas da
Guerra, destacando as contradições entre o caráter autárquico e
autônomo do Paraguai e as necessidades de penetração do imperialismo
no Plata, através das ações dos governos da Argentina e do Império
do Brasil. Para o historiador, a Inglaterra seria a “grande
beneficiária da guerra”.
O livro conheceria uma segunda edição em 1980 e o autor publicaria,
a seguir, um outro breve ensaio sobre o tema, Paraguai:
nossa guerra contra esse soldado.
Esse seria praticamente o único livro conhecido no Brasil da
significativa publicística argentina sobre a guerra.
Em março
de 1979, com Genocídio americano: a Guerra do Paraguai,
o jornalista Júlio José Chiavenatto, retomando algumas das teses
revisionistas, superava as apresentações factuais
nacional-patrióticas dos combates com ampla discussão das razões do
confronto, apresentado como agressão do governo brasileiro e
argentino contra a nação e o povo paraguaio, em vez de produto da
vontade de líder desvairado.
Lançado
dias após a posse do último general-ditador, o estudo conheceu
enorme consagração, esgotando-se a primeira edição em uma semana e
quatro outras em três meses, sem qualquer referência na imprensa. O
livro teve 32 edições na prestigiosa editora Brasiliense, fundada
por Caio Prado Júnior [1907-1990], e sete, na Editora Moderna,
conhecendo tradução ao espanhol e edições piratas no México e no
Paraguai [em guarani].
Com
talvez mais de cento e cinqüenta mil exemplares vendidos, o livro
tornou-se referência da historiografia brasileira, pautando os
futuros estudos sobre a Grande Guerra Sul-Americana. A redação para
o grande público, sem notas de roda-pé, em linguagem jornalística
erudita, facilitou o enorme acolhimento, determinado sobretudo pelo
momento da publicação, que condicionou a própria feitura do
trabalho, quanto à forma, linguagem e conteúdo.
As
seqüelas da crise mundial de meados de 1970 embalavam a retomada das
mobilizações sindicais e democráticas, trincando a hegemonia
construída pela ditadura apoiada no “Milagre Econômico” e na
repressão. Sob os golpes da depressão salarial e dos investimentos,
a população enfarava-se da retórica da ordem militar da qual
entrevia os interesses que representava.
Chiavenatto desconstruía a grande narrativa militar-patriótica da
história do Brasil, em 1979, ano em que a retomada das lutas
sindicais alcançou o apogeu, colocando o mundo do trabalho como
referência por mais de uma década no Brasil. A volta das lutas
sociais brasileiras levaria a seguir à fundação do PT e da CUT,
então anticapitalistas e classistas.
Produção e Recepção
A nova
realidade político-social exigia representações do passado
interpretando as necessidades dos trabalhadores e criava condições
para a sua recepção. Em 1978, Jacob Gorender, ex-preso político e
ex-militante do PCB e do PCBR, publicara O escravismo colonial,
estudo erudito sobre a escravidão, que galvanizou o mundo
acadêmico ao superar o impasse em terno das origens capitalistas ou
semi-feudais do Brasil. O livro conheceu uma segunda edição em 1978.
Não
dispomos de análises das fontes, produção, recepção, epistemologia,
etc. de Genocídio americano, que o autor apresenta nas
páginas iniciais do trabalho como “reportagem, escrita com paixão” e
não como obra historiográfica, produto do esforço de historiador de
profissão.
Teceremos algumas considerações sobre a obra apenas para enquadrá-la
na presente apresentação.
Quase
constrange assinalar a deslegitimação e liquidação a que o estudo
foi objeto, a partir de crítica sumária das suas insuficiências, no
contexto da ignorância do sentido de obra quase parida por
necessidade histórica que transformou o jornalista em historiador
autodidata, a partir do nível de conhecimento sobre a guerra no
Brasil. Os críticos extremados jamais se perguntaram por que a
historiografia acadêmica não pariu leitura semelhante ou superior.
Ou sobre as razões da necessidade de quase 25 anos para a produção
de questionamento essencial daquele ensaio, através de apresentação
geral do confronto.
Ter
nascido fora de Academia então emasculada pelas derrotas
sociais de 1964 e 1969-1970 e por quinze anos de ditadura ajuda a
compreender as grandes qualidades e as enormes limitações dessa
obra, nascidas as últimas sobretudo da absolutização-simplificação
de tendências que se materializam através de complexas mediações e
da ênfase desmedida de fenômenos e processos históricos.
A mais
célebre expressão da primeira tendência é a defesa da guerra como
resultado direto das necessidades do imperialismo, em oposição à
interpretação marxista argentina, dos anos 1950, como assinalado.
Essa tese transformava os governos do Império do Brasil e da
Argentina mitrista em meras marionetes inglesas. Aqueles governos
teriam feito a guerra “por um só motivo: defender os interesses
econômicos da metrópole-mãe [...].”
Super-determinação imperialista que resta qualquer importância aos
processos endógenos das nações periféricas.
Inocência Imperialista
A
vontade das classes hegemônicas do Império e do mitrismo,
representante da oligarquia portenha, essencial no conflito, foi
potenciada, ao confluir com o interesse inglês de imposição do
liberalismo na região. Em Cartas dos campos de batalha do
Paraguai, o diplomata britânico sir Richard F. Burton
[1821-1890] registrou a visão da grande potência da guerra: “Minhas
simpatias vão para o Brasil, pelo menos enquanto sua ‘missão’ for
desaferrolhar [...] o grande Mississipi do Sul.”
A
crítica da radicalização de Chiavenatto da guerra como exigência dos
interesses ingleses serviu para que o imperialismo britânico e os
interesses livre-cambistas fossem em forma ainda mais arbitrária
absolvidos de toda responsabilidade no confronto, em movimento de
conteúdo político-ideológico que chegou a propor a impugnação da
própria categoria “imperialismo”.
No
livro, são recorrentes as radicalizações-absolutizações enfáticas,
de fenômenos em geral objetivos e com referências documentais:
autarquia inicial absoluta do Paraguai; país moderno, de população
totalmente alfabetizada e avançada siderurgia, ferrovias,
telégrafos, etc.
São comuns extrapolações de fenômenos: “arianização” do Brasil com o
arrolamento de afro-descendentes; um branco para cada 45 soldados
negros, o que levaria a que só uns três mil brasileiros europeus
tivessem lutado no Paraguai; soldados paraguaios sobretudo
euro-descendentes [“cinco brancos para um mestiço ou negro”], apesar
da base guarani daquelas tropas.
É também
comum a utilização de categorias contemporâneas na descrição de
fenômenos do passado, tais como “nacionalismo”, “consciência
nacional”, “indústria de base”, “parque industrial”, etc., para
facilitar a compreensão e promover reflexão sobre a realidade da
época da publicação do trabalho. Esses anacronismos reforçaram a
tendência à extrapolação das realidades analisadas.
Tais
pecadilhos não anulam as importantes superações sugeridas: razões
materiais da guerra; importância da intervenção no Uruguai, também
como agressão à autonomia paraguaia; discussão da formação social
paraguaia; dificuldades estruturais do Império escravista de livrar
guerra nacional; derrota objetiva dos povos envolvidos no conflito;
privatização das terras públicas paraguaias; satelitização do
Paraguai; crítica à diabolização de López; avaliação histórica dos
atos de guerra, etc.
Um
Balanço Necessário
Genocídio americano
foi o primeiro trabalho historiográfico brasileiro a realizar
crítica geral desde a ótica das populações envolvidas no confronto,
desorganizando as representações hegemônicas. Por além das questões
assinaladas, conformou o imaginário histórico brasileiro porque
galvanizou a difusa memória popular do rosário de horrores que fora
aquela guerra, semi-soterrada pelo discurso nacional-patriótico.
A obra
exigia superação [hegeliana], através de sua crítica
sistemática, a ser realizada em grande parte através da simples
recuperação de produção já pré-existentes, com destaque para a
historiografia argentina, processo que jamais ocorreu, devido à
dissolução das condições históricas que geraram o movimento
revisionista. O autor seria objeto de enorme campanha de
deslegitimação, por parte de intelectuais orgânicos do Estado, da
grande mídia, da Acadêmica, etc. hoje concluída, realizada sobretudo
através de negação de suas negações que ensejou verdadeiro restauro
das narrativas nacional-patrióticas.
Praticamente trinta anos após sua edição, nos encontramos
terçando armas em torno de Genocídio americano, o que
já registra sua importância histórica. Mesmo assim, gostaria de
aproveitar a oportunidade para registrar a homenagem a esse
intelectual que enfrentou, como os combatentes paraguaios, com as
armas e condições que dispunha, em forma destemerosa, combate
historiográfico e ideológico crescentemente desigual e difícil com
as bem apetrechadas forças auxiliares do Estado brasileiro.
III.
A Restauração Historiográfica: Retorno às Trincheiras
O
impulso do mundo do trabalho dos anos 1960 refluiu nos anos 1970 e
foi batido em fins de 1980 pela maré contra-revolucionária mundial
que consagrou a hegemonia mundial da produção capitalista, hoje em
franca crise econômica. Esse movimento promoveu fortíssimo recuo das
representações ideológico-culturais que procuravam interpretar o
passado desde a ótica do mundo social.
No campo
historiográfico, decretou-se a impossibilidade de interpretação do
passado, e portanto, o fim da história como ciência, substituída
pelo relato da "vida privada", do "imaginário", do "singular", do
"exótico", etc. Os defensores de esforços analítico-interpretativos
do passado para a transformação do presente tiveram suas trincheiras
plenamente assaltadas.
A
rejeição das "narrativas totalizantes" valorizou as novas
histórias política e cultural, em restauração das velhas
interpretações idealistas do passado, com destaque para a narrativa
política factual. A história voltou a ser lida como produto da ação
errática de protagonistas excelentes e os fenômenos sociais, como
produto de determinações ideológico-culturais.
Esse
processo de restauro foi geral à historiografia, destacando-se no
Brasil no que se refere à escravidão colonial, onde se impôs
impugnação e deslegitimação geral dos avanços obtidos com a
definição da estrutura escravista colonial brasileira e a
compreensão da oposição entre escravizadores e escravizados como
luta de classes.
Quanto à
guerra contra o Paraguai, movimento historiográfico
restauracionista apoiado pelas forças sociais triunfantes e
impulsionado pela mídia, desqualificou igualmente o revisionismo
anterior como mero produto de ideologia “autoritária”, “populista”,
“socialista”, etc., centrando as impugnações nos lapsos factuais e
interpretativos, potenciados ao absurdo, sobretudo da obra de
Chiavenatto, e ignorando os avanços obtidos, como assinalado.
Definimos esse processo de restauracionista pois, mesmo quando
apoiado em recursos metodológicos refinados e ampla informação,
posta à sua disposição em forma abundante, não conseguiu superar
essencialmente a modernização, atualização e refinamento das
narrativas inspiradas nas visões de mondo das classes dominantes das
épocas dos sucessos, ancestrais sociológicas dos segmentos hoje
dominantes, devido à dependência ideológica e epistemológica a esses
últimos.
Historiografia de Transição
Dois
anos após a “Queda do Muro de Berlim”, Ricardo Salles publicou
A Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do
Exército, refinado trabalho de inspiração marxista, de
sentido transicional, que, apoiado em avanços e temas revisionistas,
desembocou na recuperação da tese do caráter progressista do
Exército surgido no confronto.
Esse estudo, que apenas avançou sugestões sobre a sociedade
paraguaia, empreendeu refinada definição do caráter escravista do
Brasil, apoiado nos avanços assinalados das ciências sociais
marxistas.
Salles
critica a ignorância dos interesses singulares do “Estado imperial
brasileiro”, representante de classes escravistas que confrontaram o
ataque britânico ao tráfico internacional, e assinala a vontade
inglesa de obstaculizar “potência regional hegemônica” no Plata,
fosse o Brasil ou a Argentina.
Visão que não lhe impede de retomar no geral a tese de León
Pomer da determinação do confronto pela “expansão do capitalismo da
época, especialmente do capitalismo britânico na região platina”.
Impugna
a definição do Paraguai como “nação independente do imperialismo” e
igualitária, ressaltando sua diversidade em relação aos “vizinhos,
em especial do Brasil escravista”. Assinala a incapacidade da elite
crioula paraguaia de se impor quando da Independência e o dinamismo
da “comunidade guarani”, que propõe em dissolução tendencial durante
os governos dos presidentes perpétuos. No geral, aponta – no mesmo
momento que elide – o necessário estudo da sociedade paraguaia para
a compreensão dos sucessos.
Sua
grande contribuição é a ênfase do caráter escravista do Estado
brasileiro que, em momento de grande estabilidade, na luta pela
hegemonia no Prata, necessária para a sua afirmação no Brasil e na
América do Sul, não deixou espaço ao Paraguai que a solução militar,
empreendida por Solano López, em grande parte devido à
superestimação relativa das contradições internas da Confederação
Argentina, do apoio do governo uruguaio blanco e da
fragilidade interna do Estado escravista brasileiro.
Destaque-se que os blancos uruguaios e o governo paraguaio
esperavam a sublevação dos cativos do Brasil. Expectativa talvez
superestimada, mas não fantasiosa, como comprovam a movimentação das
escravarias do meridião rio-grandense, quando da invasão de Jaguarão
pelos blancos, em janeiro de 1865, e o movimento
insurrecional servil de Porto Alegre, em junho de 1968, com
envolvimento de prisioneiros paraguaios.
Não era também descabelada a esperança no apoio dos federalistas
argentinos, como comprovam a deserção maciça da cavalaria
entrerriana, as sublevações provinciais antimitristas e as
violentas montoneras que convulsionaram o interior argentino
durante a Guerra.
Ricardo
Salles ressalta a fragilidade estrutural do Exército e da Guarda
Nacional, milícia dos escravistas, capazes de enfrentar ameaças
internas e confrontos do Plata com países sem “estrutura bélica
centralizada”. A indefinição da sociedade paraguaia leva o autor a
explicar a marcialidade guarani como devida a uma precoce e ampla
militarização e à “centralização do poder”, em reflexão
profundamente insuficiente e claramente circular.
Missão Civilizadora
Retomando propostas da historiografia nacional-populista, Salles
defende que a necessidade de construir “exército profissional”,
apoiado na “Guarda Nacional”, nos “corpos de polícia das
provinciais” e na convocação dos “Voluntários da Pátria” levaria o
governo imperial a empreender “esforço de recrutamento de dimensões
nacionais”, fortalecendo oficialidade imbuída de missão moralizadora
e civilizadora nacional, então expressão dos “anseios e aspirações
de grupos sociais emergentes”.
Retomando as visões da conquista-cooptação dos dominados pelo
consenso, propõe que o arrolamento popular-patriótico não foi
“simples mentira para escamotear a coerção do recrutamento”, obtendo
“sucesso e um grau satisfatório de aceitação”.
Na defesa da tese da formação de exército nacional semi-consensual,
em um sociedade escravista pré-nacional, minimiza o arrolamento dos
libertos, sugerindo não ultrapassarem “10% do conjunto das
tropas”, contra os 20% proposto por Robert Conrad. Uma questão que
permanece ainda em aberto.
Com
frágeis dados empíricos, escora sua proposta em reflexões lógicas e
circulares, propondo que “mobilização” geral para criar a “nova
instituição nacional” não poderia se apoiar no “uso maciço da
população escrava”, pois isso “abalaria a própria essência do poder
escravista”, motivando revolta servil ou inviabilizando a “ideologia
do Voluntário da Pátria”.
A coesão da ideologia do Voluntariado é tese a ser
comprovada, e a guerra farroupilha registrou a capacidade dos
escravistas em servir-se de cativos, talvez em maior número, na
defesa de seus interesses.
Apesar
da fragilidade das fontes, as múltiplas formas de arrolamento e de
origens dos soldados [“recruta, voluntário, substituto ou
liberto”; homens livres; africanos livres; cativos crioulos e
africanos; libertos; aborígines; caboclos; estrangeiros, etc.]
registram o caráter não-cidadão e não-nacional das tropas. Nos
fatos, o Império recorreu aos cativos por não poder mobilizar homens
livres suficientes, apoiado na retórica patriótica, na
convocação coercitiva, na emulação material [soldo,
gratificação, terra]. Salles reconhece que o eventual “ardor
patriótico” inicial decresceu logo, levando a que “o grosso da
tropa” fosse “organizado coercitivamente”.
Mesmo
assinalando o estranhamento entre os oficiais combatentes e a tropa,
termina concluindo: “A guerra mostrou a esses oficiais o lado podre
da laranja; colocou-os em contato e proximidade com o soldado
enquanto expressão do povo [sic].”
Como dito, defende a constituição de “exército nacional
profissional”, reformista, descontente com a “classe dominante” e
“elites dirigentes do Império”, de oficialidade portadora de
“sementes de inquietação e questionamento social”.
Exército Cidadão
Um
novo exército que – formadocom “conceito mais
amplo de cidadania”, identificado com os “interesses gerais da
nação”, devido à “ligação constitutiva com os setores médios” –
desempenharia “papel de peso no início do processo de transição para
uma economia capitalista”, como porta-voz das “camadas médias” “de
populares e escravos e mesmo fazendeiros não escravistas”, de
“setores dissidentes das oligarquias.”
Proposta em oposição à idéia de inexistência de povo na
escravidão, na acepção sociológica do termo, e com uma oficialidade
escolhida e educada nos princípios e nas práticas da desigualdade
civil e racial, normas comportamentais e funcionais das forças
armadas imperiais, que contribuiriam para o caráter elitista e
autoritário da república brasileira. Fenômeno que ensejou, como
assinalado, a referida quase absoluta ausência de descrições sobre
as tropas das narrativas memorialistas.
Em
rápida abordagem do desempenho real das forças armadas imperiais,
desconstrói a sua própria proposta de exército como expressão de
vontade nacional, devido à forte concorrência da classe média ao
oficialato, ao descrever tropas mal transportadas, mal alojadas, mal
vestidas, habituadas ao roubo de oficiais e ao saque de militares e
civis inimigos, não raro para poderem se alimentar.
Tropas apáticas e em permanente processo de defecção, mantidas na
disciplina por constantes e cruéis castigos físicos, tratados
duramente pela oficialidade, à qual respondiam não raro com atos de
sangue.
Um
caráter não-nacional e não-cidadão dos exércitos imperiais que se
expressou na recomendação de Caxias de manter os soldos dos oficiais
em dia, para que fizessem frente às necessidades, e os dos soldados,
atrasados três meses, para que não desertassem, já que com as
algibeiras cheias, e para economizar os salários dos mortos por
doença e combate!
André Rebouças, arrolado de maio de 1865 a junho de 1866 como
engenheiro-militar, registra oficiais comandantes com três meses,
oficias de tropa com até seis meses e soldados com um ano de soldos
atrasados!
Assinalando a profunda distinção de classe nas forças armadas
imperiais, o jovem Alfredo Taunay lembrava que, já no final da
campanha, para alimentar-se bem, associara-se a um pequeno grupo de
oficiais, formado sobretudo por rio-grandenses, contribuindo para o
rancho, preparado por subalterno, “excelente cozinheiro”, com “cota
mensal” de 7 a 12 livras esterlinas!
Tropas
imperiais que, segundo o próprio Caxias, não sofrendo a “influência
moral” dos oficiais, deviam ser tratadas duramente, sobretudo
durante os combates, quando sua “indisciplina” e “tibieza” causavam
perdas de “oficiais prestimosos, cheios de inteligência e de
coragem”.
Caráter não-nacional que se materializava igualmente na oposição
social, mesmo violenta, entre inferiores a
superiores, como os três atentados à oficiais, em apenas oito
dias, no acampamento de Tuiuti, registrados por Caxias.
Trabalho apresentado no V Encuentro Anual del CEL. “La
Guerra del Paraguay: historiografías, representaciones,
contextos”. Buenos Aires – 3 de novembro de 2008Mesa
Historiografia: Francisco Doratioto (Instituto Río Branco);
Mario Maestri (PPGH - UPF);
Laura Reali
(U. Paris VII)
Cf. TAUNAY, Alfredo d’ Escragnolle.
[1843-1899]
A retirada da Laguna: episodio da Guerra do Paraguay.
Traduzida da 3 ed. francesa por B.T. Ramiz Galvão. Rio de
Janeiro: Garnier, s.d. [La Retraite de Laguna:
Épisode de la Guerre du Paraguay. Rio de Janeiro 1871].
P.XV.
POMER, León. Paraguai: nossa guerra contra esse
soldado. 2 ed. São Paulo: Global, 1982.
Cf. entre outros: LEITMAN, Spencer Lewis. Raízes
socioeconômicas da Guerra dos farrapos: um capítulo da
história do Brasil no século XIX. Rio de Janeiro:
Graal, 1979; FLORES, Moacyr. Negros na Revolução
Farroupilha: traição em Porongos e farsa em Ponche
Verde. Porto Alegre: EST, 2005.
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