MÁRIO MAESTRI

Historiador e professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS

 

 

 

A Guerra contra o Paraguai

História e Historiografia: da instauração à restauração historiográfica [1871-2002]

– Parte I*

Mário Maestri***

 

“En La guerra del Paraguay ha triunfado no solo la República Argentina sino también los grandes principios del libre cambio [...].Para el comercio se han derribado las fortalezas que amenazaban las costas [...]. Cuando nuestros guerreros vuelvan de su campaña, podrá el comercio ver inscrito en sus banderas victoriosas los grandes principios que los apóstoles del libre cambio han proclamado.”

Bartolomé Mitre [Arengas, 297].

 

I. A Instauração Historiográfica: Uma Historiografia de Trincheira

A guerra contra o Paraguai foi acontecimento central da história do Brasil da segunda metade do século 19. Em um sentido lato, as ações militares iniciaram-se em 16 de outubro de 1864, com a intervenção armada do Império no Uruguai, contra o autonomismo blanco, exigida pelos criadores rio-grandenses instalados no norte daquele país, e concluíram-se, em 1º de março de 1870, com a morte de Solano López, em Cerro Corá, com o Paraguai já sob ocupação militar imperial.

Dos 150 mil brasileiros que teriam participado no confronto, talvez até cinqüenta mil morreram devido aos combates ou por doenças. Uns 0,5% dos dez milhões de habitantes do Brasil em 1872. Os gastos com o esforço militar comprometeram por mais de uma década as finanças brasileiras ainda que o país tenha recebido indenização de guerra até a Segunda Guerra e conquistado importantes territórios. Com talvez quatrocentos mil habitantes, o Paraguai teve sua população sobretudo masculina dizimada − os autores mais contidos falam de 15% a 20% de mortos. O país foi ocupado militarmente, amargou perdas territoriais significativas, arcou com indenizações de guerra, teve suas terras públicas privatizadas, foi obrigado a endividar-se internacionalmente, com seqüelas permanentes.

A guerra mostrou o anacronismo geral do Brasil escravista para enfrentar esforço militar modero, apesar da sua dimensão territorial e econômica. Durante o confronto, a luta abolicionista, o grande movimento nacional em gestação, foi imobilizada pela retórica da união diante do inimigo externo, retardando possivelmente a abolição da escravatura. Os partidos liberal e conservador apoiaram uma luta rejeitada pelas classes populares e subalternizadas, sem que qualquer força institucional se opusesse explicitamente a ela. [1]

As forças armadas imperiais conheceram salto qualitativo e quantitativo  com a Guerra, transitório sobretudo no relativo ao Exército, primeira confronto significativo contra forças armadas estrangeiras que ocuparam marginalmente o território do Brasil [Mato Grosso e Rio Grande do Sul]. Até então, o exército imperial havia participado apenas de combates internos e de operações intervencionistas no Plata. A guerra ensejou a gênese da idéia do Exército-oficialidade como encarnação da honra e dos destinos do país, proposta que se expressou fortemente nas artes plásticas e na historiografia.

Ao lado da Descoberta e da Independência, a Guerra do Paraguai foi objeto de representações patrióticas excelentes da pintura brasileiras de fins do século 19 e inícios do século 20. Pedro Américo [1843-1905] consagrou-se com a “Batalha de Campo Grande” [1871] e a “Batalha do Avaí” [1872-77]. Em 1972, a exposição do primeiro quadro na Corte recebeu sessenta mil visitantes.[2] Victor Meirelles [1932-1903] consolidou-se com as encomendas pelo Estado imperial, em 1868, de “Combate Naval do Riachuelo” [1882-3] e “A passagem de Humaitá” [1886].

Historiografia de Trincheira

As primeiras obras brasileiras de cunho memorialista sobre a Grande Guerra Sul-Americana foram realizadas durante e imediatamente após o conflito.[3] Trataram-se sobretudo de narrativas sobre o heroísmo e a abnegação das forças armadas nacionais em defesa do Brasil e da “civilização”, agredidos por “barbárie” corporificada no ditador paraguaio, responsabilizado exclusivamente pelo confronto. Comumente produto de ex-combatentes, essa produção registrou uma leitura dos fatos desde a trincheira brasileira. [4]

Destaca-se nessas obras a célebre Retirada da Laguna: episódio da Guerra do Paraguai, do jovem engenheiro-militar Alfredo de Escragnolle-Taunay [1843-1899], publicada em 1871, em francês, “por ordem do governo brasileiro”.[5] Seu sucesso de público transformou os fatos narrados em legenda paradigmática do confronto. Ela narra a expedição que, enviada do litoral, no início da guerra, para abrir segunda frente no norte do Paraguai, invadiu em janeiro de 1867, com 1.600 homens e quatro peças de artilharia, pouco mais de vinte quilômetros do Paraguai, até a fazenda da Laguna, para empreender a seguir, por pouco mais de um mês, desastrada retirada, sobretudo em território mato-grossense, fustigada pelas frágeis tropas guaranis. [6]

O relato desvela cenários em contradição com a retórica patriótico-militarista habitual nessa literatura: operação arriscada e mal planejada, decidida por oficiais sedentos de consagração; o medo, o suicídio, a indisciplina e a deserção; o abandono de combatentes doentes pelos soldados e pelo comando; o hábito das tropas imperiais do saque, que o próprio Taunay justificou em alguns casos – “Este saque, aliás, era legítimo [...].” [7] Fora algumas referências depreciativas a Solano López, o livro registra comumente a admiração com a belicosidade, disciplina, engenhosidade e operosidade dos guaranis, vistos como excepcionais “campeiros”; “grandes mateiros”; ativos trabalhadores; soldados fiéis; coesos e disciplinados na luta. [8]

A obra registra igualmente a cultura habitual dessa produção memorialista de defesa intransigente pela oficialidade da honra e dos brios do país feridos pela “agressão” paraguaia. Mesmo quando o autor critica oficiais da coluna, apresenta-os como abnegados patriotas – uma outra característica geral dessa primeira literatura sobre o confronto. Como habitual nessa produção, não há quase descrições dos soldados, que jamais nominados, a não ser no geral, como combatentes, como doentes, como desertores, etc.

Apesar da informação paradoxal fornecida sobre os fatos, A retirada da Laguna ensejou narrativas patrióticas apresentando a patética operação como feito bélico e humano superior aos mais heróicos atos militares universais. Em maio de 1952, no “Prefácio” à 13ª edição, o historiador Afonso de E. Taunay [1876-1958] refere-se às façanhas narradas pelo seu pai como um dos “mais elevados feitos dos anais militares das nações do Ocidente”. [9] A obra prosseguiu e prossegue motivando estudos, pinturas, esculturas, monumentos, comendas, concursos, celebrações patrióticas, jogos educativos, etc., patrocinadas sobretudo pelo Exército e pelo Estado.

A narrativa memorialista sobre a guerra contra o Paraguai foi produzida em geral por oficiais e profissionais liberais que participaram da Guerra, sem grandes informações sobre suas razões profundas, sobre o Paraguai e sua sociedade e, não raro, sobre o próprio Império, uma entidade na época sobretudo política, devido à fortíssima regionalização do Império.

Historiografia Republicana

O golpe republicano de novembro de 1889 expressou os interesses dos grandes proprietários provinciais, desobrigados pela superação da escravatura, em maio de 1888, da sustentação do centralismo monárquico.[10] Ele deu-se sob a égide da alta oficialidade do Exército, grande interessada na consolidação e radicalização das propostas das forças armadas como representantes dos interesses da nação, fortalecendo-se a seguir a historiografia nacional-patriótica sobre o grande confronto.[11]

A proposta de identidade nacional republicana, elitista e autoritária, com as forças armadas como guardiãs dos interesses magnos da nação, apoiou-se fortemente nas narrativas nacional-patrióticas sobre a Guerra. A elevação dos oficiais monárquicos maiores que intervieram naquele conflito ao status de figuras luminares da nação republicana levou a que praticamente todos os patronos das diversas armas e corpos do Exército e da Marinha sejam oficiais enobrecidos pelo Império que se destacaram nos combates paraguaios.

O marechal-de-exército Lima e Silva, duque de Caxias, tornou-se o patrono do Exército; Manuel Luís Osório, marquês do Erval, da Cavalaria; marechal Emílio Mallet, barão de Itapevi, da Artilharia; Antônio Sampaio, comendador da Imperial Ordem da Rosa, da Infantaria; Joaquim Marques Lisboa, marques de Tamandaré, patrono da Marinha de Guerra. Apenas a Força Aérea Brasileira não se encontra tutelada por um alto oficial consagrado em 1864-1870, talvez porque os balões cativos então utilizados pertencerem ao Exército.

A historiografia republicana consolidou a instauração da narrativa nacional-patriótica construída através da seleção-organização das apologias do Estado e das classes dominantes imperiais sobre o conflito. Essa produção despreocupou-se com as razões e os cenários sociais e nacionais da Guerra, privilegiando a apresentação cronológico de confronto, definido, como assinalado, como choque entre a civilização e a barbárie, promovido pela agressão ao Brasil motivada por Solano López, que seguiu sendo apostrofado como “tirano”, “ditador”, “megalômano”. etc., ao igual que durante os combates. [12] Uma retórica retomada diretamente dos momentos do confronto. Em abril de 1864, o jornal mitrista Nación Argentina propunha: “El Brasil representa la civilización y Paraguay la barbarie.” [13] 

Para corroborar a visão de embate essencialmente querido pelo ditador paraguaio, essa historiografia consolidou como ponto zero do confronto o aprisionamento do vapor mercante brasileiro Marquês de Olinda, em 12 de novembro de 1864, em águas paraguaias, sem declaração de guerra, e não a invasão pelo Império, um mês antes, do Uruguai, apoiado pela Argentina mitrista, fato anunciado pelo governo paraguaio anteriormente como casus belli, pois condicionava a saída ao mar do Paraguai à vontade do Império e da Argentina − oligarquia bonaerense −, nações com as quais possuía problemas de fronteiras, de navegação dos grandes rios e de autonomia nacional. Essa historiografia ignorou olimpicamente o fato de que o Império preparava-se para guerra com o Paraguai, se possível com o apoio e a participação do unitarismo argentino, que sequer reconhecia a independência paraguaia. [14]

Em Invasão paraguaia na fronteira brasileira do Uruguai, escrito após a retomada de Uruguaiana, o cônego João Pedro Gay refere-se às razões da guerra: “O General Francisco Solano Lopez [...] vendo em meados de 1864 travar-se a luta entre o Império do Brasil e o Governo [...] do Uruguai, estremeceu [...], temendo que o Brasil, com quem não tinha contas justas, lha espedaçasse, derrubando seu governo despótico [...] logo que houvesse derrotado os blancos de Montevidéu, e em seu furor, resolveu ele declarar a guerra o Brasil.” Um reconhecimento mesmo condicional das razões gerais do confronto. Em 1944, comentando o livro, o historiador rio-grandense major Sousa Doca agregava candidamente que com “a intervenção do Brasil no Estado Oriental [...] nenhuma ameaça sofria o equilíbrio do Rio da Prata [...].” [15]

Historiografia Paraguaia

A historiografia republicana brasileira propôs que a guerra fosse apenas contra Solano López, retomando a retórica justificativa do Tratado da Tríplice Aliança, que pactuou, no início do conflito, o fim da autonomia real paraguaia através da apropriação de parcelas dos seus territórios; de reparações de guerra; do desarmamento do país; da sua ocupação por cinco anos; da formação [contra o direito internacional] de Legião Paraguai; da internacionalização de sua navegação interna; da constituição de governo colaboracionista; de rendição incondicional, etc. Lançou a responsabilidade pela dizimação da população sobre o ditador e sobre o próprio povo, por segui-lo na aventura. Essa literatura encerra-se com a morte do ditador, em Cerro Corá, olvidando a aplicação impiedosa das condições do Tratado, que apontavam para as razões estruturais do conflito.

Comumente em forma obliqua, essa narrativa registrou quase perplexa a singular resistência paraguaia, paradoxo que jamais superou, devido à impossibilidade de explicar o imenso esforço bélico e as enormes baixas do Império para vergar uma nação de menor importância, em aliança com a Argentina mitrista e com o apoio simbólico dos colorados uruguaios de Venancio Flores [1808-1868]. Realidade em geral apresentada como produto da preparação militar paraguaia prévia e do fanatismo e desprezo pela vida, se não da selvageria, de população de origem guarani vista, até hoje, com menosprezo pelas classes médias e dominantes brasileiras.

A marcialidade paraguaia seguiu como enigma sem resolução. Ela dificultou que a guerra galvanizasse o imaginário popular brasileiro, que se manteve em geral infenso à retórica nacional-patriótica, alimentado por lembranças tênues das tristezas conhecidas pelos combatentes naquele conflito e pela população, devido a ele. Jamais foi escrita história da participação popular brasileira na Guerra, que continua sendo cultuada sobretudo pelo Estado e pelas forças armadas. Ultimamente, ensaia-se com dificuldade a construção de legenda da história regional do confronto e da participação popular no mesmo.

As interpretações nacional-patrióticas brasileiras sobre a Grande Guerra Sul-Americana de inspiração estatal prosseguiram plenamente hegemônicas até a década de 1970, sem questionamentos por parte da historiografia acadêmica ou extra-acadêmica nacional, desde 1964 sob o peso de ditadura militar. A própria literatura histórica inspirada pelo Partido Comunista Brasileiro, forte após a II Guerra Mundial, condicionada pelas suas visões nacional-populistas, pouca importância deu à Guerra, reforçando comumente a proposta da transformação do exército imperial em força nacional de tendência democrática durante aqueles sucessos, devido à captação de segmentos médios em seu oficialato. 

Em História militar do Brasil, de 1965, o historiador e general Nélson Werneck Sodré [1911-1999], militante do PCB, propunha, referindo-se à uma inverossímil democratização racial das forças armadas imperiais durante o confronto no Paraguai: “Fora sempre frouxo, na tropa regular [o rótulo da pele], e a guerra [do Paraguai o liquidou quase totalmente.” Porém, o autor ressalta a não alteração da “composição” da “oficialidade” e lembra que após o conflito os efetivos do Exército foram reduzidos drasticamente, chegando, quando da República, a um máximo de treze mil homens, sua dimensão antes daqueles combates. [16]

II. O Revisionismo Historiográfico: Por uma História dos Povos

Em um sentido lato, o revisionismo historiográfico, como interpretação contraditória às explicações justificadoras do Império e da Argentina mitrista, é contemporâneo à própria guerra, expressando-se poderosamente sobretudo através de intelectuais argentinos federalistas, como Juan Bautista Alberdi [1810-1884] e José Hernández [1834-1886], que denunciaram o confronto como uma agressão do Império do Brasil e do Unitarismo portenho contra os direitos provinciais argentinos e contra a autonomia uruguaia e paraguaia. Em pleno confronto, Aberdi propunha: “Paraguay representa la civilización, pues pelea por la libertad de los ríos contra las tradiciones del monopolio colonial; por la emancipación de los países mediterráneos; por el noble principio de las nacionalidades; por el equilibrio, no sólo del Plata, sino de toda la América del Sur.” [17] Essa narrativa revisionista sobre a Guerra muito pouca repercussão teve no Brasil.

Apoiado também nessa leitura do conflito, o revisionismo sobre a Grande Guerra Sul-Americana tomou igualmente pé no Paraguai. A reorganização liberal do país sob ocupação militar do Brasil promoveu a extensão-adaptação das interpretações imperiais pelas primeiras narrativas paraguaias, com enorme ênfase na responsabilidade pelo conflito de Solano López, decretado “traidor a la patria” pelo governo colaboracionista, em agosto de 1869, antes mesmo de sua morte. Desde início do século passado, revisionismo histórico, impulsionado inicialmente sobretudo por Juan E. O´ Leary [1879-1969], sob a oposição governamental, empreendeu resgate do conflito desde ótica nacional paraguaia, que destacou o heroísmo do soldado guarani e de Solano López, elevado à posição de herói nacional. [18] 

Condicionado pela época e realidade do país, o lopismo alcançou enorme repercussão, ao interpretar contradições profundas sobretudo dos sentimentos dos segmentos populares paraguaios com as narrativas oficiais dos vencedores e das classes liberais do país sobre a Guerra Grande. É violência analítica apresentar esse movimento, de complexidade e dimensão social, como mero produto de mega-operação imobiliária empreendida pelos herdeiros de Solano López. Ou deslegitimá-lo devido a sua utilização política pelo Partido Colorado e à elevação à ideologia oficial, sobretudo por Alfredo Stroessner [1954-98], falecido no exílio, no Brasil, em 2006. [19]

O revisionismo paraguaio, de fortes vertentes patrióticas, propôs que a guerra, desejada pela Inglaterra, destruíra um país, antes da guerra, forte e feliz. Nesse sentido, em 20 de novembro de 1932, no artigo “El Paraguay, lo que fue, lo que es y lo que será”, Manuel Domínguez (1868-1935), propunha que, quando dos López, “no había una sola familia sin hogar [...]. En instrucción [...] se adelantó a Europa y a América [...]. Era el único país sudamericano que no estaba en bancarrota, el único de moneda sana [...] ninguna nación americana le igualó en producción”. [20] Destaque-se que após a guerra, sob governos paraguaios liberais e ditatoriais, as terras públicas foram privatizadas e transformadas em geral em latifúndios, comumente de propriedade de estrangeiros, em boa parte argentinos, desorganizando profundamente um campesinato já dizimado pelos combates. Essa produção revisionista foi praticamente desconhecida pela historiografia brasileira.[21]

Desde os anos 1950, no contexto de fenômenos mundiais essenciais como o fortalecimento do movimento de libertação nacional na Ásia e na África; as revoluções argelina, vietnamita e cubana; o fim da hegemonia stalinistas nas ciências sociais marxistas; as jornadas mundiais de 1968, etc., novas leituras revisionistas procuraram superar as narrativas patrióticas das classes dominantes nacionais sobre a Grande Guerra Sul-Americana, desvelando suas causas essenciais partir de ótica das classes subalternizadas, na construção de uma história unitária dos povos americanos.

Nesses anos, destaca-se sobretudo o revisionismo historiográfico argentino sobre a Grande Guerra Sul-Americana, como os ensaios de Enrique Rivera, José Hernández y la Guerra del Paraguay, de 1954, e de Milciades Peña, La era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia, de 1955-7, de corte marxista, e os artigos de inspiração revisionista, americanistas e antiimperialistas de José Maria Rosa [1906-1991], de 1958-1959, reunidos no livro  La guerra del Paraguay y las Montoneras Argentina, de 1964. [22] Em geral, esses autores aprofundaram e radicalizaram as interpretações federalistas, em estudos de grande complexidade. Milciades Peña, por exemplo, refutou totalmente a explicação da guerra como iniciativa inglesa, responsabilizando por ela plenamente o Império e a oligarquia porteña. “Ni la monarquia coronada brasileña ni la oligarquia mitrista hicieron la guerra del Paraguay por encoargo de Inglaterra, aunque al terminar la guerra el principal beneficiario de la destrucción del Paraguay y la miseria de sus vencedores fue el capital londinense.”[23]

Essa produção, que se apoiou no revisionismo paraguaio e teve forte repercussão naquele país, passou igualmente quase totalmente despercebida no Brasil, devido aos frágeis laços culturais entre as duas nações e ao Golpe Militar de 1964, que desorganizou a intelectualidade progressista brasileira e tornou aquele confronto tema tabu, devido à sua importância para a ideologia oficial e para as Forças Armadas. Em verdade, até mesmo os escritos clássicos de Juan Bautista Alberdi [1810-1884], da época do confronto, eram de difícil acesso ao grande público e são ainda pouco conhecidos no Brasil.

O livro Il Napoleone del Plata, do jornalista Manlio Cancogni e do historiador Ivan Boris, publicado, em 1970, na Itália, e traduzido, em 1975, pela Civilização Brasileira, tradicional casa editorial de esquerda, primeiro estudo revisionista de larga divulgação no Brasil, integrou à explicação do confronto o estudo da história do Paraguai, destacando a orientação autárquica e anti-oligárquica de José Gaspar Rodriguez de Francia y Velasco [1766-1840] para assegurar a independência paraguaia questionada pela oligarquia comercial de Buenos Aires, política que teria favorecido o campesinato de origem guarani. [24] Sobre o sentido dessa autonomia, Alberdi propusera: “El aislamiento del Paraguay [...] es simple resistencia a la política de aislamiento y colonial de Buenos Aires [...].”[25]

Uma orientação autonomista inicial em processo de superação tendencial no longo governo de Carlos Antonio López [1970-1962], que abriu relativamente o país ao exterior e ao capital mercantil, sem romper os laços sociais com o campesinato, política seguida no geral por seu primogênito, Francisco Solano López [1827-1870]. Apoiados em uma escassa informação sobre as raízes guaranis do Paraguai, os autores destacam a importância das missões jesuíticas e, a seguir, das “fazendas estatais” na formação daquela nação.

O estudo maximiza o desenvolvimento conhecido pelo Paraguai, a partir da propriedade pública de grande parte das terras do país, arrendadas aos camponeses, e do monopólio do comercio exterior, que ensejou a indiscutível modernização relativa da nação, apesar da sua relativa pobreza – fundição, ferrovia, telégrafo, ensino público, etc. Apresenta leitura inovadora ao público brasileiro: narrativa cronológica dos combates desde ótica simpática aos paraguaios; sugestão do país como Estado-nação em consolidação, de sólidas raízes guarani-camponesas; esboço de análise desde as estruturas sociais paraguaias; uma mais equilibrada apresentação de Francisco Solano López, mesmo sendo o livro claramente antipático a ele, etc.

Apesar do seu caráter inovador e qualidade literária, a publicação italiana teve limitada repercussão no Brasil, conhecendo apenas uma edição, segundo parece devido à proibição de reedição pela ditadura. Na orelha do livro, o editor Enio Silveira [1925-1986] apresentou em forma apologética Solano López como “verdadeiro condutor de povos, chefe militar de grande brilho e coragem incomum”, “patriota paraguaio”, “político em busca de efetiva independência nacional e contrário às oligarquias postas a serviço do imperialismo britânico então dominante”. Realizava radicalização e modernização da ação do presidente como liderança nacionalista e americanista estranha ao proposto na obra que lançava.

Revisionismo no Brasil

Em 1968, León Pomer lançara na Argentina La guerra del Paraguay: gran negócio!, publicado no Brasil sob o título A Guerra do Paraguai: a grande tragédia rioplatense, anos depois, em 1979. O livro se despreocupava dos confrontos bélicos, empreendendo ampla análise das razões políticas, diplomáticas e econômicas da Guerra, destacando as contradições entre o caráter autárquico e autônomo do Paraguai e as necessidades de penetração do imperialismo no Plata, através das ações dos governos da Argentina e do Império do Brasil. Para o historiador, a Inglaterra seria a “grande beneficiária da guerra”.[26] O livro conheceria uma segunda edição em 1980 e o autor publicaria, a seguir, um outro breve ensaio sobre o tema, Paraguai: nossa guerra contra esse soldado. [27] Esse seria praticamente o único livro conhecido no Brasil da significativa publicística argentina sobre a guerra.

Em março de 1979, com Genocídio americano: a Guerra do Paraguai, o jornalista Júlio José Chiavenatto, retomando algumas das teses revisionistas, superava as apresentações factuais nacional-patrióticas dos combates com ampla discussão das razões do confronto, apresentado como agressão do governo brasileiro e argentino contra a nação e o povo paraguaio, em vez de produto da vontade de líder desvairado. 

Lançado dias após a posse do último general-ditador, o estudo conheceu enorme consagração, esgotando-se a primeira edição em uma semana e quatro outras em três meses, sem qualquer referência na imprensa. O livro teve 32 edições na prestigiosa editora Brasiliense, fundada por Caio Prado Júnior [1907-1990], e sete, na Editora Moderna, conhecendo tradução ao espanhol e edições piratas no México e no Paraguai [em guarani]. [28]

Com talvez mais de cento e cinqüenta mil exemplares vendidos, o livro tornou-se referência da historiografia brasileira, pautando os futuros estudos sobre a Grande Guerra Sul-Americana. A redação para o grande público, sem notas de roda-pé, em linguagem jornalística erudita, facilitou o enorme acolhimento, determinado sobretudo pelo momento da publicação, que condicionou a própria feitura do trabalho, quanto à forma, linguagem e conteúdo.

As seqüelas da crise mundial de meados de 1970 embalavam a retomada das mobilizações sindicais e democráticas, trincando a hegemonia construída pela ditadura apoiada no “Milagre Econômico” e na repressão. Sob os golpes da depressão salarial e dos investimentos, a população enfarava-se da retórica da ordem militar da qual entrevia os interesses que representava.

Chiavenatto desconstruía a grande narrativa militar-patriótica da história do Brasil, em 1979, ano em que a retomada das lutas sindicais alcançou o apogeu, colocando o mundo do trabalho como referência por mais de uma década no Brasil. A volta das lutas sociais brasileiras levaria a seguir à fundação do PT e da CUT, então anticapitalistas e classistas.

Produção e Recepção

A nova realidade político-social exigia representações do passado interpretando as necessidades dos trabalhadores e criava condições para a sua recepção. Em 1978, Jacob Gorender, ex-preso político e ex-militante do PCB e do PCBR, publicara O escravismo colonial, estudo erudito sobre a escravidão, que galvanizou o mundo acadêmico ao superar o impasse em terno das origens capitalistas ou semi-feudais do Brasil. O livro conheceu uma segunda edição em 1978. [29]

Não dispomos de análises das fontes, produção, recepção, epistemologia, etc. de Genocídio americano, que o autor apresenta nas páginas iniciais do trabalho como “reportagem, escrita com paixão” e não como obra historiográfica, produto do esforço de historiador de profissão. [30] Teceremos algumas considerações sobre a obra apenas para enquadrá-la na presente apresentação.

 Quase constrange assinalar a deslegitimação e liquidação a que o estudo foi objeto, a partir de crítica sumária das suas insuficiências, no contexto da ignorância do sentido de obra quase parida por necessidade histórica que transformou o jornalista em historiador autodidata, a partir do nível de conhecimento sobre a guerra no Brasil. Os críticos extremados jamais se perguntaram por que a historiografia acadêmica não pariu leitura semelhante ou superior. Ou sobre as razões da necessidade de quase 25 anos para a produção de questionamento essencial daquele ensaio, através de apresentação geral do confronto.

Ter nascido fora de Academia então emasculada pelas derrotas sociais de 1964 e 1969-1970 e por quinze anos de ditadura ajuda a compreender as grandes qualidades e as enormes limitações dessa obra, nascidas as últimas sobretudo da absolutização-simplificação de tendências que se materializam através de complexas mediações e da ênfase desmedida de fenômenos e processos históricos.

A mais célebre expressão da primeira tendência é a defesa da guerra como resultado direto das necessidades do imperialismo, em oposição à interpretação marxista argentina, dos anos 1950, como assinalado. Essa tese transformava os governos do Império do Brasil e da Argentina mitrista em meras marionetes inglesas. Aqueles governos teriam feito a guerra “por um só motivo: defender os interesses econômicos da metrópole-mãe [...].” [31] Super-determinação imperialista que resta qualquer importância aos processos endógenos das nações periféricas.[32]

Inocência Imperialista

A vontade das classes hegemônicas do Império e do mitrismo, representante da oligarquia portenha, essencial no conflito, foi potenciada, ao confluir com o interesse inglês de imposição do liberalismo na região. Em Cartas dos campos de batalha do Paraguai, o diplomata britânico sir Richard F. Burton [1821-1890] registrou a visão da grande potência da guerra: “Minhas simpatias vão para o Brasil, pelo menos enquanto sua ‘missão’ for desaferrolhar [...] o grande Mississipi do Sul.”[33]

A crítica da radicalização de Chiavenatto da guerra como exigência dos interesses ingleses serviu para que o imperialismo britânico e os interesses livre-cambistas fossem em forma ainda mais arbitrária absolvidos de toda responsabilidade no confronto, em movimento de conteúdo político-ideológico que chegou a propor a impugnação da própria categoria “imperialismo”.[34]

No livro, são recorrentes as radicalizações-absolutizações enfáticas, de fenômenos em geral objetivos e com referências documentais: autarquia inicial absoluta do Paraguai; país moderno, de população totalmente alfabetizada e avançada siderurgia, ferrovias, telégrafos, etc. [35] São comuns extrapolações de fenômenos: “arianização” do Brasil com o arrolamento de afro-descendentes; um branco para cada 45 soldados negros, o que levaria a que só uns três mil brasileiros europeus tivessem lutado no Paraguai; soldados paraguaios sobretudo euro-descendentes [“cinco brancos para um mestiço ou negro”], apesar da base guarani daquelas tropas.[36]

É também comum a utilização de categorias contemporâneas na descrição de fenômenos do passado, tais como “nacionalismo”, “consciência nacional”, “indústria de base”, “parque industrial”, etc., para facilitar a compreensão e promover reflexão sobre a realidade da época da publicação do trabalho. Esses anacronismos reforçaram a tendência à extrapolação das realidades analisadas. [37]

Tais pecadilhos não anulam as importantes superações sugeridas: razões materiais da guerra; importância da intervenção no Uruguai, também como agressão à autonomia paraguaia; discussão da formação social paraguaia; dificuldades estruturais do Império escravista de livrar guerra nacional; derrota objetiva dos povos envolvidos no conflito; privatização das terras públicas paraguaias; satelitização do Paraguai; crítica à diabolização de López; avaliação histórica dos atos de guerra, etc.

Um Balanço Necessário

Genocídio americano foi o primeiro trabalho historiográfico brasileiro a realizar crítica geral desde a ótica das populações envolvidas no confronto, desorganizando as representações hegemônicas. Por além das questões assinaladas, conformou o imaginário histórico brasileiro porque galvanizou a difusa memória popular do rosário de horrores que fora aquela guerra, semi-soterrada pelo discurso nacional-patriótico.

A obra exigia superação [hegeliana], através de sua crítica sistemática, a ser realizada em grande parte através da simples recuperação de produção já pré-existentes, com destaque para a historiografia argentina, processo que jamais ocorreu, devido à dissolução das condições históricas que geraram o movimento revisionista. O autor seria objeto de enorme campanha de deslegitimação, por parte de intelectuais orgânicos do Estado, da grande mídia, da Acadêmica, etc. hoje concluída, realizada sobretudo através de negação de suas negações que ensejou verdadeiro restauro das narrativas nacional-patrióticas.

Praticamente trinta anos após sua edição, nos encontramos terçando armas em torno de Genocídio americano, o que já registra sua importância histórica. Mesmo assim, gostaria de aproveitar a oportunidade para registrar a homenagem a esse intelectual que enfrentou, como os combatentes paraguaios, com as armas e condições que dispunha, em forma destemerosa, combate historiográfico e ideológico crescentemente desigual e difícil com as bem apetrechadas forças auxiliares do Estado brasileiro.

III. A Restauração Historiográfica: Retorno às Trincheiras

O impulso do mundo do trabalho dos anos 1960 refluiu nos anos 1970 e foi batido em fins de 1980 pela maré contra-revolucionária mundial que consagrou a hegemonia mundial da produção capitalista, hoje em franca crise econômica. Esse movimento promoveu fortíssimo recuo das representações ideológico-culturais que procuravam interpretar o passado desde a ótica do mundo social.

No campo historiográfico, decretou-se a impossibilidade de interpretação do passado, e portanto, o fim da história como ciência, substituída pelo relato da "vida privada", do "imaginário", do "singular", do "exótico", etc. Os defensores de esforços analítico-interpretativos do passado para a transformação do presente tiveram suas trincheiras plenamente assaltadas.

A rejeição das "narrativas totalizantes" valorizou as novas histórias política e cultural, em restauração das velhas interpretações idealistas do passado, com destaque para a narrativa política factual. A história voltou a ser lida como produto da ação errática de protagonistas excelentes e os fenômenos sociais, como produto de determinações ideológico-culturais.

Esse processo de restauro foi geral à historiografia, destacando-se no Brasil no que se refere à escravidão colonial, onde se impôs impugnação e deslegitimação geral dos avanços obtidos com a definição da estrutura  escravista colonial brasileira e a compreensão da oposição entre escravizadores e escravizados como luta de classes. [38]

Quanto à guerra contra o Paraguai, movimento historiográfico restauracionista apoiado pelas forças sociais triunfantes e impulsionado pela mídia, desqualificou igualmente o revisionismo anterior como mero produto de ideologia “autoritária”, “populista”, “socialista”, etc., centrando as impugnações nos lapsos factuais e interpretativos, potenciados ao absurdo, sobretudo da obra de Chiavenatto, e ignorando os avanços obtidos, como assinalado.

Definimos esse processo de restauracionista pois, mesmo quando apoiado em recursos metodológicos refinados e ampla informação, posta à sua disposição em forma abundante, não conseguiu superar essencialmente a modernização, atualização e refinamento das narrativas inspiradas nas visões de mondo das classes dominantes das épocas dos sucessos, ancestrais sociológicas dos segmentos hoje dominantes, devido à dependência ideológica e epistemológica a esses últimos.

Historiografia de Transição

Dois anos após a “Queda do Muro de Berlim”, Ricardo Salles publicou A Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do Exército, refinado trabalho de inspiração marxista, de sentido transicional, que, apoiado em avanços e temas revisionistas, desembocou na recuperação da tese do caráter progressista do Exército surgido no confronto. [39] Esse estudo, que apenas avançou sugestões sobre a sociedade paraguaia, empreendeu refinada definição do caráter escravista do Brasil, apoiado nos avanços assinalados das ciências sociais marxistas.

Salles critica a ignorância dos interesses singulares do “Estado imperial brasileiro”, representante de classes escravistas que confrontaram o ataque britânico ao tráfico internacional, e assinala a vontade inglesa de obstaculizar “potência regional hegemônica” no Plata, fosse o Brasil ou a Argentina. [40] Visão que não lhe impede de retomar no geral a tese de León Pomer da determinação do confronto pela “expansão do capitalismo da época, especialmente do capitalismo britânico na região platina”.

Impugna a definição do Paraguai como “nação independente do imperialismo” e igualitária, ressaltando sua diversidade em relação aos “vizinhos, em especial do Brasil escravista”. Assinala a incapacidade da elite crioula paraguaia de se impor quando da Independência e o dinamismo da “comunidade guarani”, que propõe em dissolução tendencial durante os governos dos presidentes perpétuos. No geral, aponta – no mesmo momento que elide – o necessário estudo da sociedade paraguaia para a compreensão dos sucessos.

Sua grande contribuição é a ênfase do caráter escravista do Estado brasileiro que, em momento de grande estabilidade, na luta pela hegemonia no Prata, necessária para a sua afirmação no Brasil e na América do Sul, não deixou espaço ao Paraguai que a solução militar, empreendida por Solano López, em grande parte devido à superestimação relativa das contradições internas da Confederação Argentina, do apoio do governo uruguaio blanco e da fragilidade interna do Estado escravista brasileiro.[41]

Destaque-se que os blancos uruguaios e o governo paraguaio esperavam a sublevação dos cativos do Brasil. Expectativa talvez superestimada, mas não fantasiosa, como comprovam a movimentação das escravarias do meridião rio-grandense, quando da invasão de Jaguarão pelos blancos, em janeiro de 1865, e o movimento insurrecional servil de Porto Alegre, em junho de 1968, com envolvimento de prisioneiros paraguaios. [42] Não era também descabelada a esperança no apoio dos federalistas argentinos, como comprovam a deserção maciça da cavalaria entrerriana, as sublevações provinciais antimitristas e as violentas montoneras que convulsionaram o interior argentino durante a Guerra.

Ricardo Salles ressalta a fragilidade estrutural do Exército e da Guarda Nacional, milícia dos escravistas, capazes de enfrentar ameaças internas e confrontos do Plata com países sem “estrutura bélica centralizada”. A indefinição da sociedade paraguaia leva o autor a explicar a marcialidade guarani como devida a uma precoce e ampla militarização e à “centralização do poder”, em reflexão profundamente insuficiente e claramente circular.  [43]

Missão Civilizadora

Retomando propostas da historiografia nacional-populista, Salles defende que a necessidade de construir “exército profissional”, apoiado na “Guarda Nacional”, nos “corpos de polícia das provinciais” e na convocação dos “Voluntários da Pátria” levaria o governo imperial a empreender “esforço de recrutamento de dimensões nacionais”, fortalecendo oficialidade imbuída de missão moralizadora e civilizadora nacional, então expressão dos “anseios e aspirações de grupos sociais emergentes”. [44]

Retomando as visões da conquista-cooptação dos dominados pelo consenso, propõe que o arrolamento popular-patriótico não foi “simples mentira para escamotear a coerção do recrutamento”, obtendo “sucesso e um grau satisfatório de aceitação”.[45] Na defesa da tese da formação de exército nacional semi-consensual, em um sociedade escravista pré-nacional, minimiza o arrolamento dos libertos, sugerindo não ultrapassarem “10% do conjunto das tropas”, contra os 20% proposto por Robert Conrad. Uma questão que permanece ainda em aberto. [46]

Com frágeis dados empíricos, escora sua proposta em reflexões lógicas e circulares, propondo que “mobilização” geral para criar a “nova instituição nacional” não poderia se apoiar no “uso maciço da população escrava”, pois isso “abalaria a própria essência do poder escravista”, motivando revolta servil ou inviabilizando a “ideologia do Voluntário da Pátria”. [47] A coesão da ideologia do Voluntariado é tese a ser comprovada, e a guerra farroupilha registrou a capacidade dos escravistas em servir-se de cativos, talvez em maior número, na defesa de seus interesses. [48]

Apesar da fragilidade das fontes, as múltiplas formas de arrolamento e de origens dos soldados [“recruta, voluntário, substituto ou liberto”; homens livres; africanos livres; cativos crioulos e africanos; libertos; aborígines; caboclos; estrangeiros, etc.]  registram o caráter não-cidadão e não-nacional das tropas. Nos fatos, o Império recorreu aos cativos por não poder mobilizar homens livres suficientes, apoiado na retórica patriótica, na convocação coercitiva, na emulação material [soldo, gratificação, terra]. Salles reconhece que o eventual “ardor patriótico” inicial decresceu logo, levando a que “o grosso da tropa” fosse “organizado coercitivamente”. [49]

Mesmo assinalando o estranhamento entre os oficiais combatentes e a tropa, termina concluindo: “A guerra mostrou a esses oficiais o lado podre da laranja; colocou-os em contato e proximidade com o soldado enquanto expressão do povo [sic].” [50] Como dito, defende a constituição de “exército nacional profissional”, reformista, descontente com a “classe dominante” e “elites dirigentes do Império”, de oficialidade portadora de “sementes de inquietação e questionamento social”. [51]

Exército Cidadão

Um novo exército que – formado com “conceito mais amplo de cidadania”, identificado com os “interesses gerais da nação”, devido à “ligação constitutiva com os setores médios” – desempenharia “papel de peso no início do processo de transição para uma economia capitalista”, como porta-voz das “camadas médias” “de populares e escravos e mesmo fazendeiros não escravistas”, de “setores dissidentes das oligarquias.” [52] Proposta em oposição à idéia de inexistência de povo na escravidão, na acepção sociológica do termo, e com uma oficialidade escolhida e educada nos princípios e nas práticas da desigualdade civil e racial, normas comportamentais e funcionais das forças armadas imperiais, que contribuiriam para o caráter elitista e autoritário da república brasileira. Fenômeno que ensejou, como assinalado, a referida quase absoluta ausência de descrições sobre as tropas das narrativas memorialistas.

Em rápida abordagem do desempenho real das forças armadas imperiais, desconstrói a sua própria proposta de exército como expressão de vontade nacional, devido à forte concorrência da classe média ao oficialato, ao descrever tropas mal transportadas, mal alojadas, mal vestidas, habituadas ao roubo de oficiais e ao saque de militares e civis inimigos, não raro para poderem se alimentar.[53] Tropas apáticas e em permanente processo de defecção, mantidas na disciplina por constantes e cruéis castigos físicos, tratados duramente pela oficialidade, à qual respondiam não raro com atos de sangue.

Um caráter não-nacional e não-cidadão dos exércitos imperiais que se expressou na recomendação de Caxias de manter os soldos dos oficiais em dia, para que fizessem frente às necessidades, e os dos soldados, atrasados três meses, para que não desertassem, já que com as algibeiras cheias, e para economizar os salários dos mortos por doença e combate! [54] André Rebouças, arrolado de maio de 1865 a junho de 1866 como engenheiro-militar, registra oficiais comandantes com três meses, oficias de tropa com até seis meses e soldados com um ano de soldos atrasados! [55]

Assinalando a profunda distinção de classe nas forças armadas imperiais, o jovem Alfredo Taunay lembrava que, já no final da campanha, para alimentar-se bem, associara-se a um pequeno grupo de oficiais, formado sobretudo por rio-grandenses, contribuindo para o rancho, preparado por subalterno, “excelente cozinheiro”, com “cota mensal” de 7 a 12 livras esterlinas! [56]

Tropas imperiais que, segundo o próprio Caxias, não sofrendo a “influência moral” dos oficiais, deviam ser tratadas duramente, sobretudo durante os combates, quando sua “indisciplina” e “tibieza” causavam perdas de “oficiais prestimosos, cheios de inteligência e de coragem”.[57] Caráter não-nacional que se materializava igualmente na oposição social, mesmo violenta, entre inferiores a superiores, como os três atentados à oficiais, em apenas oito dias, no acampamento de Tuiuti, registrados por Caxias. [58]

 


* Trabalho apresentado no V Encuentro Anual del CEL. “La Guerra del Paraguay: historiografías, representaciones, contextos”. Buenos Aires – 3 de novembro de 2008Mesa Historiografia: Francisco Doratioto (Instituto Río Branco); Mario Maestri (PPGH - UPF); Laura Reali (U. Paris VII)

** Mário Maestri, 60, é professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS. E-mail: maestri@via-rs.net

[1] Cf. CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília, INL, 1975.

[2] Cf. ZACCARA, Madalena de F.P. A Temática, na pintura do século XIX no Brasil, como veículo de afirmação e sobrevivência: Pedro Américo de Figueiredo e Mello: In: Revista eletrônica de Dezenove & Vinte. Volume III, nº. 3, julho de 2008. www.dezenovevinte.net

[3] Cf. entre outros: DIAS, Satyro de Oliveira. Duque de Caxias  e a Guerra do Paraguai. Salvador: Diários, 1870; MADUREIRA, Cel. Antônio de Sena [1841-1889] Guerra do Paraguai: resposta ao sr. Jorge Thompson, autor da “Guerra del Paraguay” e aos anotadores argentinos D. Lewis e A. Estrada. Brasília: EdUNB, 1982; GAY, João Pedro. A invasão paraguaia na fronteira brasileira do Uruguai, pelo cônego [...]. Comentada e editada pelo major Sousa Docca. Porto Alegre: IEL/EST/UCS, 1980; REBOUÇAS, André Pinto. Diário da guerra do Paraguai (1866). São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiro, 1973; SILVA, Teotônio Meirelles. O exército brasileiro na Campanha do Paraguai: resumo histórico. Rio de Janeiro: O Globo, 1877; SILVA, José Luís Rodrigues da. Recordações da campanha do Paraguai. Brasília: Senado Federal, 2007

[4] Cf. SOUSA, Jorge Prata de. Escravidão ou morte: os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Mauad/ADESA, 1996. p. 19-23.

[5] Cf. TAUNAY, Alfredo d’ Escragnolle. [1843-1899] A retirada da Laguna: episodio da Guerra do Paraguay. Traduzida da 3 ed. francesa por B.T. Ramiz Galvão. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. [La Retraite de Laguna: Épisode de la Guerre du Paraguay. Rio de Janeiro 1871]. P.XV.

[6] Cf. Id.ib. p. XXV.

[7] Cf. Id.ib. p.  56, 73, 77, 105, 156-59, 165-69; 177, 182, 212.

[8] Cf. Id.ib. pp. 54, 64, 65, 75, 104, 106, 113, 126, 131, 141.

[9] TAUNAY, Visconde. A retirada da Laguna: episódio da Guerra do Paraguai. 13 ed. brasileira. Traduzida da 5 edição francesa por Affonso de E. Taunay. São Paulo: Melhoramento, S.d. p. 7.

[10] Cf. MAESTRI. A Escravidão e a gênese do Estado Nacional Brasileiro. In: Seminário Internacional Além do apenas moderno, 2001, Recife. Além do apenas moderno. Brasil séculos XIX e XX. Recife : Massangana, 2001. v. 1. p. 49-77.

[11] .Cf. SOUSA, Jorge Luiz Prata de. Escravidão ou morte: os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Mauad: ADESA, 1996. pp. 19-33.

[12] Cf. entre outros: CERQUEIRA, Gal. Dionísio [Evangelista de Castro]. [1847-1910] Reminiscência da Campanha do Paraguai. [1865-1870]. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1980. [1ª ed. 1910.]; DUARTE, Paulo de Queiroz. Os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1981. v.; FRAGOSO, Augusto Tasso. História da guerra entre a Tríplice Aliança e o Paraguai [...]. Rio de Janeiro: Imprensa do Estado-Maior do Exército, 1934. 5 vol.; SOARES, Álvaro Teixeira. O drama da Tríplice Aliança: 1865-1876. Rio de Janeiro: Brand, 1956; SPALDING, Walter. A invasão paraguaia no Brasil. São Paulo: CEN, 1940.

[13] Cf. PEÑA, Milciades. La era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia. 3 ed. Buenos Aires: Fichas, 1975. p. 53.

[14] Cf. SOUSA, Jorge Prata de. Escravidão ou morte: os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: ADESA, 1996. p. 69-73.

[15] GAY, João Pedro. A invasão paraguaia na fronteira brasileira do Uruguai, pelo cônego [...]. Comentada e editada pelo major Sousa Docca. Porto Alegre: IEL/EST/UCS, 1980. p.19

[16] Cf. SODRÉ, Werneck. História militar do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965. pp. 141 et seq.

[17] Apud PEÑA, Milciades. La era de Mitre: de Caseros a la Guerra de la Triple Infamia. 3 ed. Buenos Aires: Fichas, 1975. p. 55.

[18] Cf. entre outros: Historia de la guerra de la Triple Alianza (1912); Páginas de historia (1916); Nuestra epopeya (1919); El Mariscal Solano López (1920); El Paraguay en la unificación argentina (1924); El héroe del Paraguay (1930); Los legionarios (1930); Apostolado patriótico (1933).

[19] DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. pp. 79-86.

[20] Cf. PIZARRO, Mar Langa. La guerra de la Triple Alianza en la literatura paraguaya.  Le Paraguay à l'ombre de ses guerres. Paris MAL-EHESS-IEP 17-19 novembre 2005. Nuevo Mundo/ Mundos Novo. http://nuevomundo.revues.org/index1623.html#ftn9

[21] Cf. sobre a vertente lopista, hoje, ver: VIDAL, Mário.  Alianza para la muerte. Argentina: Córdoba: Resistencia: Libreria de la Paz, 2005.

[22] Cf. RIVERA, Enrique. José Hernández y la Guerra del Paraguay. Buenos Aires: Colihue, 2007. 96 pp.; ROSA, José Maria. La guerra del Paraguay y las montoneras argentinas. Buenos Ayres: Hyspamérica, 1986.

[23] PEÑA. La era de Mitre. Ob.cit. p.61.

[24] CANCOGNI, Manlio e BORIS, Ivan. Solano López. O Napoleão do Prata. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. 260 pp.

[25] Cf. Apud  RIVERA, Enrique. José Hernández y la Guerra del Paraguay. Buenos Aires: Colihue, 2007. p. 28.

[26] Cf. POMER, León. A Guerra do Paraguai: a grande tragédia rioplatense. 2 ed. São Paulo: Global, 1980. p. 75.

[27] POMER, León. Paraguai: nossa guerra contra esse soldado. 2 ed. São Paulo: Global, 1982.

[28] Cf. informação por e-mail de J.J. Chiavenatto, em 7 de outubro de 2008.

[29] GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. São Paulo: Ática, 1978.

[30] CHIAVENATTO, Júlio José. Genocídio americano: a guerra do Paraguai. 21 ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. P. 13-14.

[31] Id.ib. p. 67

[32] Id.ib. p. 23

[33] BURTON, Richard F. Cartas dos campos de Batalha do Paraguai. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1997. p. 21

[34] Cf. BERTONHA, João Fábio & MOSCATELI, Renato. “Imperialismo ou realpolitik? Uma análise da produção histórica recente sobre a Guerra do Paraguai”.

[35] Cf. CHIAVENATTO. Genocídio americano. Ob.cit. pp. 17, 21,

[36] Cf. Id.ib. pp. 118, 111.

[37] Cf. Id.ib. pp. 33, 48, 81

[38] Cf. MAESTRI, Mário. O escravismo colonial: A revolução copernicana de Jacob Gorender: a gênese, deslegitimação http://www.unisinos.br/ihu/uploads/publicacoes/edicoes/1158327159.48pdf.pdf

[39] SALLES, Ricardo. A Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do Exército. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

[40] Id.ib. pp. 3, 32 -36

[41] Id.ib. pp. 39-54

[42] Cf. MAESTRI, Mário. O escravo no Rio Grande do Sul: a charqueada escravista e a gênese do escravismo gaúcho. Porto Alegre: EST-UCS, 1984. pp. 144-154; MAESTRI, Mário. O escravo no Rio Grande do Sul: Trabalho, resistência e sociedade. 3 ed. rev. e ampliada. Porto Alegre: UFRGS, 2006.

[43] SALLES. A Guerra do Paraguai. Ob.cit. p. 58.

[44] Id.ib. p.56-9; 61-62.

[45] Id.ib. p. 61.

[46] Id.ib. p. 66; CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil: 1850-1888. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília, INL, 1975.

[47] SALLES. A Guerra do Paraguai. Ob.cit. p. 67

[48] Cf. entre outros: LEITMAN, Spencer Lewis. Raízes socioeconômicas da Guerra dos farrapos: um capítulo da história do Brasil no século XIX. Rio de Janeiro: Graal, 1979; FLORES, Moacyr. Negros na Revolução Farroupilha: traição em Porongos e farsa em Ponche Verde. Porto Alegre: EST, 2005.

[49] SALLES. A Guerra do Paraguai. Ob.cit. p. 102.

[50] Id.ib. p. 110.

[51] Id.ib. p. 15,108

[52] Id.ib. p. 110

[53] Cf. TAUNAY, Alfredo Recordações de Guerra e de Viagem. Brasília: Senado Federal/Conselho Editorial, 2008. p. 83-84.

[54] SALLES. A Guerra do Paraguai. Ob.cit. p. 142

[55] Cf. REBOUÇAS, André. Diário da guerra do Paraguai (1866). São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiro, 1973. p. 154

[56] Cf. TAUNAY, Alfredo Recordações de Guerra e de Viagem. Brasília: Senado Federal/Conselho Editorial, 2008. p. 81.

[57] SALLES. A Guerra do Paraguai. Ob.cit. p. 136

[58] Id. ib. p. 147.

 

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