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ÚRSULA PINTO LOPES DE
FARIAS
Professora de História, com
especialização em História da África e do Negro no Brasil pela
Universidade Candido Mendes (UCAM).

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Saldo de uma guerra: os refugiados hutu de
Ruanda
Úrsula Pinto Lopes de Farias
Entre
os meses de abril e junho de 1994 ocorria em Ruanda
uma guerra civil, das mais sangrentas, que levou à morte
aproximadamente um milhão de pessoas. O grupo étnico que compunha a
maioria da população, os hutus, promoveu uma matança sistemática da
minoria étnica, os tutsis. Este episódio genocida da história do
país não pode ser entendido como uma “guerra tribal entre duas”
etnias, porque suas causas são políticas e sociais com origens no
período colonial. Este artigo não pretende, contudo, analisar as
causas do conflito ou tampouco seu desenrolar. O objetivo é
apresentar um panorama da questão dos refugiados hutu e o impacto
que tiveram na região.
Em junho de 1994 a FPR
toma Gitarama e obriga o governo do Poder Hutu a fugir para Gisenyi.
Dois dias depois esta região também é tomada. A França apresenta ao
Conselho de Segurança da ONU uma proposta de intervenção
humanitária, enviando tropas. Esta intervenção da França, a Operação
Turquesa, prolongou por mais um mês o conflito, pois acabou criando
uma zona de proteção para as milícias hutu. No mês seguinte Paul
Kagame (atual presidente de Ruanda), no comando da FPR, e o
comandante das forças francesas chegam a um acorde de não-agressão.
Kagame declara cessar-fogo e anuncia o novo “Governo de Unidade
Nacional” (Silva, 2003, p.155; Gourevitch, 2006, p. 157).
Quando a FPR começou a avançar pelo país
um grande número de hutus começou a se deslocar, primeiro para a
área de proteção francesa e depois para os países vizinhos. Temiam
que, com os tutsis no governo, a lógica dos últimos acontecimentos
se invertesse e eles fossem dizimados. Este movimento de saída dos
hutus agravou a crise regional.
Com um governo formado por tutsis e por
membros dos partidos anti-Poder Hutu o medo se instaurou entre os
hutus. Mesmo os que não haviam se envolvido nos assassinatos fugiram
convencidos pelas autoridades locais, a milícia e propagandas de
rádio, que não era bom permanecer no país.
“Em muitos casos, comunidades
inteiras eram arrebanhadas na estrada e postas em marcha pela
força das armas, com seus prefeitos e vereadores à frente da
multidão, e soldados e milicianos da interahamwe atrás,
incitando-a adiante. (…) No caminho, apoderavam-se de cada coisa
transportável que pudessem e de cada veículo sobre rodas que
ainda funcionasse, para seu próprio transporte ou de sua carga.
O que não podiam levar consigo, as hordas do Poder Hutu
saqueavam sistematicamente e depredavam: repartições públicas,
fábricas, escolas, torres de energia, casas, lojas, plantações
de café e chá. Destruíam telhados, quebravam janelas, rachavam
encanamentos e comiam ou carregavam tudo que pudesse ser
comido.(…) Milhares de crianças eram abandonadas ao longo da
rota de fuga, perdidas no meio do tropel, freqüentemente
deixadas para trás de propósito.(…) Sacerdotes conduziam
paróquias inteiras rumo ao desconhecido. Batalhões de soldados
caminhavam em meio à multidão, homens de negócios e burocratas
conduziam seus carros lotados com louças e bens domésticos (…).
Quando a tensão tomava conta da multidão , havia correrias
desordenadas, e as pessoas morriam pisoteadas (Gourevitch,
2006:158-159).
No final de agosto de 1994 estimava-se
que cerca de dois milhões de pessoas refugiaram-se nos países
vizinhos. Tanzânia, Burundi, Uganda e Zaire (atual República
Democrática do Congo, com capital Kinshasa - RDC) receberam
novamente ruandeses refugiados.
De acordo com a Convenção da Organização
da Unidade Africana (OUA) de 1969 sobre Refugiados, ficou
estabelecido no Artigo II. 6 que “Por razões de segurança, os
Estados de Asilo deverão, na medida do possível, instalar os
refugiados a uma distância razoável da fronteira de seu país de
origem.” Uma “distância razoável” é algo relativo, contudo o
direito humanitário internacional prevê que os campos fiquem a mais
de oitenta quilômetros do país de origem de seus habitantes. Os
campos de ruandeses encontravam-se a poucos quilômetros da fronteira
com Ruanda, tornando tensa a região (ACNUR, 2000:57, Gourevitch,
2006:163).
Foi no Zaire que ocorreram os maiores
problemas com os refugiados. Em Goma, nas províncias do Kivu, na
parte oriental do país, organizaram-se campos perto da fronteira de
Ruanda. As Forças Armadas Ruandesas que foram derrotadas (ex-FAR) e
as milícias interahamwe
fizeram destes campos suas bases. Controlavam os refugiados e os
tinham como reféns políticos (ACNUR, 2000:256). “Os que falavam
em voltar eram freqüentemente denunciados como cúmplices da FPR, e
alguns acabaram mortos pelas milícias dos acampamentos” (Gourevitch,
2006:163).
Os campos de Goma eram microcosmos de
Ruanda antes do genocídio, os líderes hutus formavam um governo no
exílio. As tendas eram organizadas por secteur, commune
e sous-préfecture, a mesma divisão administrativa ruandesa.
Esta liderança tinha controle total dos campos e as agências
humanitárias não tinham como se opor. As autoridades do Zaire não
tinham muito poder nesta região, além disto, os genocidaíres
(como passaram a ser chamados os membros da ex-FAR e das milícias)
tinham aliados na administração local. Os oficiais de alta patente
foram transferidos e os soldados aconselhados a não usarem os
uniformes, contudo mantinham o controle da população dos campos. Os
dirigentes do antigo governo levaram para os campos reservas do
Banco de Ruanda e parte da frota dos transportes públicos. A
proximidade dos campos e a maneira como eram geridos constituíam uma
ameaça militar para o novo governo ruandês. Na Tanzânia as
autoridades conseguiram desarmar os genocidaíres a manter
algum controle dos campos (ACNUR, 2000:256-257, 260).
Goma tornou-se alvo de ação de cerca de
100 agências humanitárias. A todo o momento chegavam suprimentos
médicos e alimentos. Contudo a distribuição destes recursos dentro
do campo era organizada pelo regime do Poder Hutu.
“Nesse regime, os humanitários eram
tratados em grande parte como os empregados de um hotel
decadente ocupado pela máfia: estavam ali para providenciar
comida, remédios, utilidades domésticas, uma aura de
respeitabilidade; se às vezes recebiam agrados, era só porque
estavam sendo preparados para servir; se precisavam se
espancados, um bando logo os cercava; e se eram, basicamente, os
lacaios de seus hóspedes criminosos, isso não era de todo
involuntário” (Gourevitch, 2006:162).
Algumas agências humanitárias não
suportaram esta situação e se retiraram dos campos de Goma, mas logo
em seguida outras assumiram seus lugares.
No final de agosto de 1994 a Alta
Comissária Sadako Ogata escreveu ao Secretário- Geral da ONU,
Boutros-Ghali, solicitando medidas de emergência nos campos, uma vez
que as autoridades do Zaire não conseguiam agir. Estas medidas
deveriam agir em quatro questões essenciais:
“Primeiro, o desarmamento total das
tropas das ex-FAR, a recolha de todo o armamento e equipamento
militar, concentrando-os num local seguro, longe da fronteira;
segundo, o isolamento e neutralização dos líderes civis;
terceiro, a instauração de um mecanismo para se ocupar dos
autores dos crimes; e, quarto, a manutenção da lei e da ordem
nos campos com a ajuda de uma força policial” (ACNUR, 2000:261).
Apesar do pedido da Alta Comissária e
das fortes evidências, o Conselho de Segurança e outros Estados não
sustentaram estas medidas. O Secretário-Geral da ONU pediu
voluntários para a criação de uma força internacional que atuasse
diretamente nos campos, pois além dos crimes que eram cometidos
internamente, o Poder Hutu planejava invadir Ruanda. Embora
estivesse gastando grande número de recursos para manter o
funcionamento dos acampamentos, nenhum país ofereceu tropas (ACNUR,
2000:261; Gourevitch, 2006:164).
Os refugiados armados dos campos de Goma
acabaram envolvendo-se nos conflitos locais. No início de 1995 as
tensões que havia na região dos Kivus, onde localiza-se Goma, e era
o berço da oposição ao regime do presidente Mobutu Sese Seko,
eclodiram em ondas de violência. Esta região era palco de tensões
étnicas, pois tinha um grande grupo de banyarwanda (formado por
tutsi e hutu). Este grupo havia sido usado contra um outro nativo
desta região, mas em 1981 o parlamento Zairense os considerou
estrangeiros e eles perderam a cidadania. Com a chegada de
refugiados hutus ruandeses, carregados de preconceitos étnicos, o
frágil equilíbrio dos Kivus foi abalado. O general Bizimungu, chefe
do estado-maior da ex-FAR, demarcou um território nos Kivus a parti
do qual pudesse atacar Ruanda e as comunidades tutsis zairenses.
Recrutou soldados das Forças Armadas Zairenses (FAZ), que sem
remuneração e com um comando fraco, acabaram se tornando
mercenários. De um lado do conflito estavam os membros da ex-FAR,
seus aliados da FAZ e milícias anti-governo e do outro, mais fraca
militarmente, a população tutsi do Zaire. Estes foram mortos ou
obrigados a fugir para Ruanda, onde foram abertos dois campos de
refugiados (ACNUR, 2000:268, 269).
Os campos de Goma começaram a ser
atacados pela Aliança da Forças Democráticas para a Libertação do
Zaire (AFDL), organização dirigida por Laurent-Desiré Kabila que era
contra o governo de Mobutu. Os constantes ataques da AFDL aos campos
de refugiados ruandeses iam empurrando as populações para os campos
de Goma. Quando estes foram atacados dispersaram-se desordenadamente
pela região do Kivu.
“Os refugiados, quisessem ou não,
estavam totalmente a mercê dos elementos armados. As
dificuldades e contradições surgidas nos últimos anos tinham
atingido o cume. Mais uma vez, nas capitais ocidentais decorriam
morosas discussões sobre a necessidade de enviar uma força
multinacional e sobre o seu mandato, mas no terreno nada se faz”
(ACNUR, 2000:273).
Alguns ruandeses conseguiram contactar o
ACNUR e eram repatriados para Ruanda, onde a situação deles seria
incerta, contudo continuar no Zaire significava morte quase certa. O
ACNUR atuou até 1997 no resgate de ruandeses dispersos no Zaire. Os
que não foram repatriados e que sobreviveram na movimentação que seu
deu para o ocidente, por causa dos ataques aos campos, chegaram a
Angola e ao Congo-Brazaville. Muitos deles eram membros da ex-FAR e
da interahamwe, possuíam armas e tinham melhor condição
física, sabiam caminhar melhor e no percurso conseguiam veículos e
alimentos (ACNUR, 2000:281). Alguns destes refugiados, membros das
forças armadas e das milícias ainda se encontram na região do Kivu,
armados e dispostos a continuar lutando.
Os refugiados na Tanzânia estavam em
situação melhor, pois a atuação do Poder Hutu era fraca e as
autoridades tanzanianas agiam com resolução e transparência no
tratamento dos campos e nas relações com o governo de Ruanda. Um
acordo foi assinado em abril de 1995 sobre o repatriamento
voluntário, embora o número fosse limitado. Contudo, muitos dos que
estavam dispostos a voltar eram impedidos pelos génocidaires
dirigentes dos grupos, que praticamente os mantinham como reféns. Em
Dezembro de 1996, em uma ação conjunta, o ACNUR e o governo da
Tanzânia anunciaram que não haveria mais limites para o
repatriamento e todos que quisessem poderiam retornar a Ruanda. Ao
invés de acatarem estas ordens, os dirigentes resolveram levar os
refugiados para o interior da Tanzânia. O governo tanzaniano agiu
imediatamente para impedir este movimento e destacou tropas que
reencaminharam os refugiados e os fizeram a atravessar a fronteira
para Ruanda (ACNUR, 2000: 275).
Pensar um conflito de um país como
Ruanda, isolado do seu contexto regional é incorrer em erro. As
fronteiras fluidas destes países permitem uma grande mobilização de
pessoas de diversas etnias, separadas de maneira arbitrária durante
a colonização. Estas pessoas levam idéias de paz e guerra. O
conflito de um país invariavelmente afetará um outro devido ao
grande número de refugiados. Refugiados ruandeses participaram de
conflitos em Uganda, Burundi e República Democrática do Congo. Foi a
partir do grupo de tutsis refugiados em Uganda, que receberam
treinamento militar lá, que se organizou a FPR.
A história de conflitos entre tutsis e
hutus em Ruanda e na Região dos Grandes Lagos pode estar apenas
adormecida. Membros da ex-FAR e da interahamwe ainda
encontram-se na República Democrática do Congo, na região do Kivu,
armados e dispostos a retornarem. À comunidade internacional cabe
zelar pela segurança e intervir, de maneira eficaz, quando se fizer
necessário.
Referências
Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Refugiados (ACNUR). A situação dos refugiados no
mundo: cinqüenta anos de acção humanitária, 2000. Disponível
em
http://www.cidadevirtual.pt/acnur/sowr2000/index.html (acessado
entre dezembro de 2007 e fevereiro de 2008.
GOUREVITCH, Philip (2006).
Gostaríamos de Informá-lo que Amanhã Seremos Mortos com nossas
Famílias. São Paulo, Companhia de Bolso.
SILVA, Alexandre dos Santos Silva
(2003). A intervenção humanitária em três quase-Estados
africanos: Somália, Ruanda e Libéria, (Dissertação de
Mestrado), Rio de Janeiro, Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro.
Ruanda é um país situado na África Oriental, na Região dos
Grandes Lagos. Limita-se a oeste com a República Democrática
do Congo, a leste com a Tanzânia, ao norte com Uganda e ao
sul com Burundi. Sua população, de aproximadamente 8, 2
milhões de habitantes, é composta pelas etnias hutu (80 %),
tutsi (18%) e twa (2%).
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