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FÁTIMA LUVIELMO
ENCARNAÇÃO
Professora aposentada pela FURG, Rio
Grande. Mestre em Educação Ambiental – PPGEA – FURG, 2008.

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Complexidade e educação ambiental
Fátima Luvielmo Encarnação
Resumo:
O texto procura apontar relações provenientes e estabelecidas
entre conceitos bastante próximos e imbricados como
complexidade, interdisciplinaridade e educação ambiental.
Tomando como base fundamentos desta, tenta mostrar os principais
desvios provenientes de princípios tão bem fundados que, por sua
recorrência e até por sua garantia legal, às vezes se esvaziam
em sentido, tendo que ser analisados sob óticas diferenciadas
para retomarem sua densidade.
Palavras-chave:
complexidade, interdisciplinaridade, educação ambiental
Abstract:
The text intend
to mention relation proceeding and established from concepts
very deeply and close as complexity, interdisciplinary and
education of environment. Taking as base as from that , attempt
to present the most deviation proceeding from principles such
well-founded that, considering its retracing and its legal
guarantee, sometimes it devoid of any sense, having to be
analyzed under special view to recover its density.
Key-words:
complexity, interdisciplinary, education of environment
1. Considerações Iniciais
A partir de Tbilisi (1977) – e, porque
não dizer de Belgrado? – inicia-se um processo, em nível planetário,
com vistas a redimensionar e reorientar as valorações humanas na
formação de uma nova postura e consciência em relação à natureza.
Começa-se, então, a produzir conhecimentos, conceitos e a
estabelecer novas relações, a partir de uma visão inovadora e
abrangente de educação ambiental, que já não pode ser mais genérica
ou singular, mas visualizada e abordada a partir de uma
multiplicidade de enfoques que, por abranger conceitos, preceitos e
premissas de diversas áreas do conhecimento, envolve-se diretamente
com o paradigma da complexidade; com a visão interdisciplinar e até
mesmo transdisciplinar de educação, que se abre para uma pedagogia
ambiental libertadora.
No Brasil a legislação ambiental é vasta
e consistente, visualizando esta legislação de modo amplo, é
possível verificar que temos uma Constituição Federal (1988) que
dedica um capítulo em especial ao meio ambiente – o Capítulo VI -,
representado pelo Artigo 225, seus parágrafos e incisos. Por sua
vez, o Artigo 205 trata em especial da educação reconhecendo-a como
um direito de todos, mas sendo também um dever do Estado e da
família, devendo ser promovida e incentivada pela sociedade; neste
Artigo, também estão explícitos os objetivos de preparação para o
exercício da cidadania, o pleno desenvolvimento da pessoa, bem como
sua qualificação para o trabalho. Tal garantia constitucional
referente à educação, que é mantida como um direito público
subjetivo; combinada com o Inciso VI do Artigo 225 que reza ser
incumbência do poder público assegurar e “[...] promover a educação
ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública
para a preservação do meio ambiente...” traçam os
rumos primeiros, ou seja a principiologia legal sob a qual se
assentam as leis educacionais do país. A partir deste Inciso nasce a
Lei nº 9795/99 que institui a Política Nacional de Educação
Ambiental. Por outro lado, em se tratando de legislação sobre meio
ambiente, não se pode deixar de citar a Lei nº 6938/81 que traça a
Política Nacional do Meio Ambiente. Como se pode ver, além dos
fundamentos próprios da Educação Ambiental, temos também os
fundamentos e princípios legais que amparam tanto a questão
ambiental, como a educação específica para este fim.
No entanto, um paradoxo se estabelece a
partir de todas estas normas, conceitos e preceitos emitidos em
documentos oficiais (seja em termos nacionais ou internacionais),
uma vez que o consenso existente nos princípios apregoados e
emitidos em tais documentos parece levar à certeza que todos os que
se envolvem com as questões ambientais e, principalmente, aqueles
que se envolvem diretamente com a educação ambiental têm uma visão
bastante focada e direcionada que levaria a tal consenso; e,
portanto, a falar uma mesma linguagem e a posicionar-se de modo
único a partir de uma única visão de mundo. Porém, a realidade é que
tal fato gerou um “pseudoconsenso”, um falso posicionamento único, e
tal paradoxo está a requerer uma análise crítica e criteriosa a
partir de conceitos-chave, como os de transformação,
conscientização, emancipação e exercício de cidadania
em educação para o ambientalismo e, a uma conseqüente tomada de
posição em relação a conceitos teóricos que embasam o movimento
histórico de ruptura com a modernidade capitalista, tais como a
corrente da complexidade, bem como os das diversas tendências da
própria educação ambiental. Tal constatação nos permite, então,
adentrar em posicionamentos e definições de complexidade e
interdisciplinaridade, para que estes perpassem o próprio
conceito de educação ambiental, num movimento dialógico que envolva
ordem, desordem, interação e organização, tão próprios ao anel
sistêmico que sedimenta o pensamento de Morin.
2. Complexidade e Educação Ambiental
Segundo a dialógica (Freire) da
complexidade é necessário conviver com tensões, é preciso que haja
ordem e desordem para haver renovação, logo é preciso que se revisem
e, até mesmo se refaçam os conceitos-chave da educação ambiental
para que ela se renove a partir de um “tecer juntos” (Morin,1985);
ou seja a partir do pensamento complexo que é uma forma de perceber
que não reduz, nem simplifica, mas une, fazendo uma nova tecitura
entre o conhecido e o desconhecido, entre o convencional e o
inovador, entre a ordem e a desordem... Portanto, a partir do
pensamento complexo, segundo Leff (2003), será possível vislumbrar
uma dimensão transformadora e emancipatória de ambientalismo e de
educação ambiental. Logo, tomando como base este novo paradigma, não
é mais possível admitir reducionismos em termos de educação
ambiental, é mister admitir que os problemas ambientais se originam
de práticas sociais equivocadas que estão a exigir posturas que
visem , além da mudança cultural e comportamental necessárias, uma
transformação social com vistas a atingir a tão sonhada mudança
ambiental a partir de um comprometimento com a sustentabilidade. A
este respeito Layrargues mostra que:
Pensar de forma complexa implica
fazer com que o agir seja consciente, no sentido de se saber
qual o terreno em que nos movemos, o alcance de determinada
ação, apresentando coerência entre o que se quer, a base teórica
da qual se parte, onde se quer chegar e quem se beneficia com o
processo. Qual enquadramento, pano de fundo ou leitura da
realidade há. (2004, p.12)
Percebe-se, portanto a complexidade como
uma nova forma racional do modo de conceber e pensar o mundo, onde
se articulam natureza (inclusive a natureza-homem), técnica e
cultura. Desta nova concepção deverão surgir estratégias de
sustentabilidade para a produção e, portanto uma nova modalidade de
apropriação da natureza, bem como deverá surgir o horizonte da
verdadeira democracia, aquela em que há participação, solidariedade
e justiça social. É preciso construir, através deste enfoque
paradigmático, um novo tipo de conhecimento capaz de articular as
variadas dimensões de luta de movimentos sociais populares da
atualidade em escala local, nacional e global. Vasconcelos (2002,
p.12) assevera:
[...] a atual luta por novas formas
de integração internacional mais solidárias se constituem em um
processo multidimensional e complexo, não redutível apenas ao
seu núcleo econômico e político, incluindo também questões
geográficas, tecnológicas, ambientais, jurídicas, culturais,
étnicas, religiosas, lingüísticas, etc.
Portanto, este pensar e agir globalmente
implica, também, no pensar e agir localmente levando-nos, como
educadores e pessoas implicadas com as questões ambientais; a
pensar, discutir e levantar alternativas de ação para a construção
de um conhecimento crítico capaz de respeitar as diferenças e
perspectivas particulares dos diversos movimentos sociais da
comunidade próxima, uma vez que a pedagogia ambiental não poderá
eximir-se em apoiar este tipo de militância. A escola, como unidade
de ensino, não pode furtar-se à integração com estes movimentos, que
poderão ser ações de bairro, de cooperativas da cidade, projetos que
se integrem com a academia, etc. O ato de apoiar tais movimentos
implica em um conceito bem amplo para a pedagogia ambiental: - o de
apoiar a tarefa de construir uma política cultural, da qual a
educação ambiental sob o prisma da complexidade não se poderá
furtar.
Assmann (1998, p.22) afirma que
privar-se da educação na sociedade de hoje é sinônimo de privar-se
de vida, usando inclusive um termo bastante forte, quando diz que
privar-se de educação é “causa mortis inegável”, pois segundo ele
nenhum ser humano encontrará o seu lugar na sociedade do
conhecimento sem uma certa flexibilidade adaptativa, porque “O mundo
se está transformando numa trama complexa de sistemas aprendentes
O autor continua sua reflexão falando de “nichos vitais” ,
afirmando que não há vida sem nichos vitais e que estes nada
mais são do que ecologias cognitivas, ou ambientes que propiciam
experiências de conhecimento. A vida, portanto se baseia em uma
persistente e intrincada rede de processos de aprendizagem, logo a
educação ambiental através da dinâmica de continuar valorizando a
vida e a aprendizagem sobre a vida de todas as formas de vida, deve
nos levar a um “reencantamento da educação” através do pensamento
complexo, que abarca hoje todos os processos naturais e sociais onde
se geram formas de aprendizagem.
O paradigma da complexidade,em termos de
educação ambiental, traz em seu âmago a noção de
interdisciplinaridade apontando, não para uma radicalização
unilateral em defesa de seus princípios, mas apontando para um
“caminho do meio”, para “uma espécie de terceira via” (Giddens apud
Vasconcelos, 2002) que certamente valorizará a multidimensionalidade
e a própria complexidade dos fenômenos que envolvem o campo do
ambientalismo, bem como o campo sócio-cultural e econômico, para
atingir a emancipação do cidadão e, conseqüentemente, da sociedade
como um todo, chegando aos princípios de uma democracia
participativa. Ipso facto nos levará a um relativismo
moderado com base em um pluralismo crítico, sem ecletismo, na busca
de uma integração com os mais variados espaços e atores sociais, sem
temer particularismos ou particularidades, mas também sem negar as
diferenças, é por este motivo que o pensamento complexo se firma sem
violentar as regras epistemológicas de cada campo com os quais tenta
interagir.
Posto, embora de forma um tanto
superficial, e em linhas gerais o pensamento complexo, resta
apresentar, ainda que tangenciando, o conceito de
interdisciplinaridade. Tal palavra, quando pronunciada nos conduz
sempre à idéia de currículo escolar, forma conjunta de trabalho de
professores a partir de suas matérias e conteúdos, enfim não se foge
muito da definição de Lück (1994, p.19) que assim se apresenta :
Interdisciplinaridade é o processo
que envolve a integração e engajamento de educadores, num
trabalho conjunto, de interação das disciplinas do currículo
escolar entre si e com a realidade, de modo a superar a
fragmentação do ensino, objetivando a formação integral dos
alunos, a fim de que possam exercer criticamente a cidadania,
mediante uma visão global de mundo e serem capazes de enfrentar
os problemas complexos, amplos e globais da realidade atual.
Mas, para além da visão estreita de
grade curricular, ou de mero trabalho conjunto de professores de
algumas poucas escolas; para que nos situemos no amplo e vasto campo
da educação ambiental é preciso vislumbrar que a
interdisciplinaridade, neste espaço, está posta pela necessidade de
superar a visão fragmentadora de produção do conhecimento, e também
para a capacidade de articular e produzir coerência entre os
múltiplos fragmentos que estão presentes no acervo de conhecimentos
da humanidade; daí a sua extrema proximidade com o paradigma da
complexidade e, logicamente com a educação ambiental, uma vez que
trabalhar de forma interdisciplinar trata-se de um esforço no
sentido de promover uma elaboração de síntese onde se desenvolva a
contínua recomposição da unidade entre as múltiplas representações
da realidade. É, em outras palavras, um contínuo buscar a unidade na
própria diversidade; buscar a identidade do saber na multiplicidade
de conhecimentos. Isto só será possível se, de informações e
conhecimentos dissociados e até mesmo antagônicos se possa extrair e
reencontrar a identidade do saber; logo o objetivo da
interdisciplinaridade é o de promover a superação da visão restrita
de mundo e a compreensão da complexidade da realidade, sem esquecer
o elemento central de toda esta dinâmica: o ser humano. Tal visão
permite uma melhor compreensão do homem como ser determinante e
determinado.
Analisando-se a interdisciplinaridade
como um processo dinâmico e considerando-se as forças interativas
que caracterizam os fenômenos (neste caso naturais,
sócio-ambientais, culturais...) é possível afirmar que ela não pode
ser obtida ou alcançada considerando-se conhecimentos desvinculados
da realidade, pois embora complexa a realidade é una; todos os seus
aspectos são interdependentes, só ganham real significado no
contexto do qual fazem parte; o que realmente vale aqui são as
características unificadoras da realidade para que se possa enlaçar
os diversos ramos do conhecimento, que é unitário, mas que pode
vincular-se à realidade através da profunda afinidade existente
entre cada uma das ciências. A respeito deste entrelaçamento entre
realidade e conhecimento é importante trazer mais uma vez à baila as
palavras esclarecedoras de Lück (1994, p.65) quando afirma :
A construção do conhecimento
interdisciplinar se processa por estágios ou etapas de maturação
de consciência. Em vista disso, o esforço de construção do
conhecimento interdisciplinar constitui um trabalho de
construção da consciência pessoal globalizadora, capaz de
compreender complexidades cada vez mais amplas.
O conceito de interdisciplinaridade no
âmbito da Educação Ambiental é deveras complexo e aparece sob as
mais diversas formas de seu próprio significado; entretanto jamais
substituirá o trabalho das disciplinas, porque antes de tudo o
abrange e o supõe dentro da amplitude de seus conceitos, temas e
sub-temas (Encarnação e Novo, 1997) Logo, o conhecimento produzido
pelas disciplinas não é desvalorizado e, como nos diz Morin:
[...] o problema não está em que
cada uma perca sua competência. Está em que a desenvolva o
suficiente para articular com as outras competências
(disciplinas e conhecimentos) que, ligadas em cadeia, formariam
o anel completo e dinâmico, o anel do conhecimento do
conhecimento (1985, p.33.
Tal posicionamento conduz à antiga, mas
jamais superada reflexão sobre a incompletude do conhecimento, sobre
a sua multidimensionalidade e abrangência, pois a cada etapa da
visão globalizadora, novas questões, novos desdobramentos vão
surgindo. Assim, tal reconhecimento nos coloca a
interdisciplinaridade também como um processo contínuo e
interminável de elaboração do conhecimento, que estando sob a
orientação de uma atitude crítica e aberta à realidade terá não
apenas o objetivo de apreendê-la, mas de se deixar apreender nela e
por ela; visando não apenas o ato de descrever esta realidade, mas a
necessidade de vivê-la... E, mais uma vez o pensamento de Morin
(1987, p.30) está presente auxiliando o posicionamento ao afirmar
“[...] o operador do conhecimento deve tornar-se, ao mesmo tempo, o
objeto e o agente do conhecimento.” Este movimento circular
abrangente na elaboração do conhecimento globalizador além de
proporcionar a modificação gradativa destes saberes/ conhecimento,
faz com que o indivíduo cognoscente entre neste circuito e pense
também no seu modo de pensar o conhecimento, integrando-se consigo
mesmo e com a realidade e, assim, constituindo-se como ser humano
consciente do saber e para o saber; consciente de sua natureza
humana e de sua natureza-natureza... Somente assim o caráter social
e cidadão do homem poderá ser considerado como obra de uma real
conscientização, resgatando-se o entendimento de que “[...] o
conhecimento não pode ser dissociado da vida humana e da relação
social” (Morin,1987,p.21). Portanto, esta circularidade estabelecida
entre homem, sociedade, vida e conhecimento, nada mais é do que o
estabelecimento de um diálogo com vistas a superar concepções
redutoras e destrutivas, isolacionismos, atitudes que impedem o
humano de crescer como humano e como parte da natureza.
Face a
situação caótica a que chegou a sociedade atual, no seio da
qual, ao que tudo indica não o humano não encontrará saídas para sua
própria sobrevivência e, – o pior desta constatação – é que ela é
uma espécie ameaçada por si mesma. Por mais antiga que pareça esta
pregação; serão necessárias profundas conversões no modo de ver a
natureza; no modo de ver e sentir a solidariedade entre humanos e
espaços naturais. É preciso retomar a idéia de compartir,
compartilhar e conviver através de consensos políticos
democraticamente construídos em todos os âmbitos, para que se
reaprenda a conviver inclusive com as diferenças e, sobretudo é
preciso reaprender a respeitá-las, para que não falte nem a riqueza
dos bens disponíveis, nem a fruição do saber transformado em
conhecimento. À educação ambiental caberá a árdua e apaixonante
tarefa de fazer com que os seres humanos entendam a criatividade, a
ternura e a ética como necessidades vivenciais e elementos que
poderão definir os sonhos de felicidade individual e social num
mundo que deverá ser por ela redimensionado.
3. Retomando o posicionamento inicial
O cenário mundial que se estabeleceu a
partir da década de 70 passou a vislumbrar novas posturas e a
indicar possibilidades de mudanças nas práticas sociais em relação à
educação e ao ambientalismo, apontando para uma nova tecitura social
que envolve na própria questão ambiental: política, democracia,
participação, autonomia, emancipação, cidadania, transformação
social. Tais conceitos, sem sombra de dúvidas, são princípios que
fundamentam a Educação Ambiental, mas paradoxalmente se encontravam
vazios de sentido, segundo a opinião de Loureiro (2004, p.11 –19).
Por outro lado, examinando a realidade
brasileira, citamos o outro pilar de sustentação para questão
ambiental: a legislação específica que, em termos da letra da lei
pouco deixa a desejar, pois é vasta, completa e minuciosa.
Entretanto temos que afirmar que certas leis não saem do papel e
ficam no rol das chamadas “leis que não pegam”. Alguns problemas,
portanto, persistem e carecem de posicionamentos e ações que os
demovam do status atual e os façam entrar em ação.
Analisando-se, mais detidamente a
questão educacional, é preciso almejar, teorizar e pôr em prática
uma matriz que compreenda a educação como elemento de transformação
social a partir do diálogo, visando a padrões civilizatórios
baseados na sustentabilidade da vida, ancorada em políticas
coerentes baseadas em posturas éticas que alcancem a emancipação com
a precípua finalidade de romper com o padrão vigente de sociedade e
civilização que nos está condenando a um desastre ecológico sem
precedentes.
Como professores almejamos uma grande
transformação de cunho teórico-pedagógico para a área da educação
ambiental, e concorda-se com o posicionamento de Leff (2003,p.9),
quando diz que: “A pedagogia ambiental se fundamenta na fusão entre
a pedagogia crítica e o pensamento da complexidade”; logo é
de vital importância a socialização do saber ambiental , tendo
sempre em mente o velho “chavão” de que esta aprendizagem não ocorre
somente na escola e que nem sempre a escola é o melhor lugar para o
desenvolvimento e compreensão destes saberes. Parafraseando Demo
afirma-se que é preciso “aprender a aprender” através de um
processo dialógico, auto-reflexivo e emancipatório que nos
proporcionará um saber ambiental construído com o outro, no contexto
da interculturalidade, ou mais precisamente no dizer de Leff: “[...]
um saber ambiental construído social e culturalmente [...]”.
Portanto é preciso pensar a complexidade ambiental como a expressão
que indica uma crise da civilização pontualmente centrada na questão
da sustentabilidade, que perpassa a questão da outricidade, do poder
e da esfera política... Face ao exposto reforça este posicionamento
a citação de Leff (2003, p.19,20) que afirma:
A crise ecológica atual pela
primeira vez não é uma mudança natural; é uma transformação da
natureza induzida pelas concepções metafísica, filosófica,
ética, científica e tecnológica do mundo. Nesse sentido, a
solução da crise ambiental [...] não poderá dar-se somente pela
via de uma gestão racional da natureza e do risco da mudança
global. A crise ambiental nos leva a interrogar o conhecimento
do mundo, a questionar esse projeto epistemológico que buscou a
unidade, a uniformidade e a homogeneidade; esse projeto que
anuncia um futuro comum, negando o limite, o tempo, a história;
a diferença , a diversidade, a outridade [...]
Encerrando esta reflexão sobre Educação
Ambiental e complexidade sente-se a necessidade de repisar a
definição de complexidade que, de certa maneira nos remete ao
conceito de caos estruturado. O pensamento complexo é caótico, pois
é dotado de propriedades e estruturas não lineares, reforçado por
dinâmicas ambíguas e ambivalentes, mas ao mesmo tempo é estruturado,
pois na maior desordem é possível divisar alguma ordem através de
processos dinâmicos e de forma idêntica abertos à mudança permanente
(Morin, 1987).
Por sua vez, Demo (2002, p.13-31)
apresenta como características da complexidade: a dinâmica
apontando que não pode ser complexo o que não estiver em campo de
forças contrárias, apresentando as coisas em contínuo processo, em
um constante vir a ser, o que nos conduz à característica da não
linearidade como uma rota criativa que avança no imprevisível,
que ultrapassa o horizonte do conhecido. A terceira característica
da complexidade é a de ser reconstrutiva, uma vez que ao
existir vai se reconfigurando como algo irreversível, que não pode
voltar ao antes, mas que toma as formas e as características
encontradas conforme o fluxo de tempo. Este contexto reconstrutivo
leva a uma quarta característica; a de firmar-se como um processo
dialético evolutivo que diz respeito diretamente à aprendizagem
como fenômeno crítico consciente, o que nos leva à quinta
característica a irreversibilidade que, referindo-se à
inserção temporal, mostra que com o passar do tempo nada se repete,
qualquer depois é diferente do antes, pois assim como é impossível
retornar ao passado é da mesma forma impossível ir para o futuro
permanecendo o mesmo. Isto reafirma a dinâmica não linear do
conhecimento e o processo dialético evolutivo. A sexta
característica é a intensidade dos fenômenos complexos que
não é contrária ou dicotômica à extensão; só poderia ser encarada
como contrária em sentido dialético, ou seja, como a outra face do
mesmo fenômeno. A sétima característica aponta para a
ambigüidade/ambivalência dos fenômenos complexos. A ambigüidade
é típica da unidade de contrários que firma-se para salvaguardar a
dialética de algo que ao mesmo tempo forma um todo aberto e
relativamente unitário, mas que ultrapassa seus próprios limites
(prende-se à estrutura caótica dos fenômenos complexos). Já a
ambivalência liga-se mais à processualidade dos fenômenos
complexos, é mais facilmente visível, pois está vinculada a seus
modos de vir a ser. Percebe-se a ambivalência em fenômenos de cunho
qualitativo como participação, envolvimento, conhecimento,
aprendizagem... Tais fenômenos podem desgastar-se no tempo com certa
facilidade, motivo pelo qual devem afastar-se da reprodução medíocre
e conservadora do sistema social vigente e passar a buscar sua
imortalidade na força do conhecimento que, segundo Demo, “[...] só
conhece se for questionador e inovador. Por isso, vale dizer que
argumentar é questionar Conhecimento que apenas afirma só
confirma. Nada agrega de novo [...]” (2002, p.31-grifos do autor).
Postas as características do pensamento
complexo e, apontadas as possíveis relações entre este paradigma, a
educação ambiental e a interdisciplinaridade resta-nos enfeixar’ o
texto a partir do pensamento de Leff (2003,p.16) que nos levará a
novos questionamentos e reflexões sobre tão ampla e intrincada
temática,pois ele afirma, “[...] Aprender a complexidade
ambiental implica um processo de desconstrução e reconstrução do
pensamento [...]” Este desconstruir-reconstruir implica em uma
reforma em todo o modo de ver, pensar e compreender o mundo e, muito
mais do que isto, implica em uma reorganização do saber até aqui
estruturado, através de uma contínua busca de articulação e
interdependência entre estes saberes. O paradigma da complexidade,
sem sombra de dúvidas, nos brinda com uma nova forma de enfrentar e
tratar os problemas socioambientais que são ambíguos, paradoxais,
mutantes, incertos, híbridos; enfim, complexos. Portanto
desta visão não pode prescindir a educação ambiental, que está
sempre aberta à integração com a multiplicidade de perspectivas que
advêm das diversas e variadas áreas do conhecimento, porque em
definitivo delas faz parte e ao mesmo tempo as abrange. O enfoque da
complexidade se abre ao intercâmbio, ao cruzamento de conceitos,
pressupostos, verdades; a realidades e problemas que são cada vez
mais abrangentes, globais, planetários... e, por isto, estão a
requerer uma visão multidisciplinar para encará-los sob uma ótica
redimensionada pela ética da solidariedade e por uma “ciência com
consciência”.
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VASCONCELOS, Eduardo Mourão.
Complexidade e pesquisa interdisciplinar: epistemologia e
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versão para imprimir (arquivo em pdf)
leia +
Educação ambiental: implicações epistemológicas de suas origens,
fundamentos, características e seus rumos na atualidade
sócio-educacional
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