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TERRY
CAESAR
Professor
de literatura norte americana na Mukogawa Women’s University em
Nishinomiya, Japão, e autor de vários livros, incluindo estudos
críticos do sistema universitário nos Estados Unidos. |
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Harold Pinter, Edward Dorn, a celebridade e eu
Terry Caesar
[Tradução: Eva Paulino
Bueno]
“Por não me conheceres, tú te fazes
desconhecido.”
Satã, em Paraíso perdido
Um
dia, no saguão do Teatro Nacional de Londres eu vi Harold Pinter.
Ele não era o tipo de pessoa que alguém identifica logo de saída. Eu
parei de andar por um momento, observei o homem sentado em uma
cadeira perto de uma coluna, e de repente percebi, “Oh, meu Deus, é
o Harold Pinter!” Ele parecia ao mesmo tempo solene e ameaçador por
detrás dos óculos grades de moldura negra. Eu desviei a vista quando
ele viu que eu estava olhando fixamente para ele.
Idealmente, nós vemos as celebridades,
mas eles nunca nos vêem. Por isto é que é tão importante não passar
tempo demais na sua presença, quer eles queiram ou não. Uma vez, eu
estava com uma mulher em Hollywood. Era o começo da noite. Nós
tínhamos acabado de estacionar e estávamos caminhando em direção a
Sunset Boulevard. Um homem passou por nós. Um momento depois minha
amiga exclamou, “Você viu quem era aquele homem? Era Jack Palance!”
Eu encolhi os ombros. Para mim, ele tinha passado perto demais.
Eu
talvez tivesse me sentido tentado a perguntar a Jack se ele se
lembrava do cenário de um filme nos Estúdios da RKO, uns vinte anos
antes. Eu o vi no set, brigando com o ator principal, Robert Mitchum,
em um trenzinho atado a cabos, e que tinha sido construído acima de
um imenso colchão de ar. Jack Palance parecia como um vilão deveria
parecer. Eu tinha treze anos de idade. Naquele momento nunca me
ocorreu que Jack Palance era simplesmente um homem fazendo um papel
ou que este homem poderia na verdade ser visto passeando pelas ruas.
Hoje tal ignorância é mais difícil de
manter. Há mais revistas, mais estações de televisão, e mesmo mais
filmes para expandir a noção de celebridade e trazê-la mais próxima
das nossas próprias vidas. De fato, as nossas vidas podem ser
transformadas em celebridade através da instantânea atenção da
media. (O que é YouTube senão uma templo para tornar possível tal
milagre?) A celebridade não é mais Nós versus Eles, que é uma razão
porque é importante a gente guardar os momentos da vida em que
genuínas Celebridades ainda aparecem — de repente, irrefutáveis,
radiantes.
Quando Elas aparecem, você não tem que
discutir sobre a diferença entre, digamos, Harold Pinter e Jack
Palance. Nem mesmo a diferença entre Barbara Rush e Glenn Ford. Uma
vez eu beijei a filha de Barbara Rush no banco traseiro de um carro,
e uma outra vez eu tomei um par de cervejas em uma praia com o filho
de Glenn Ford. Como eu cresci em Hollywood, eu até mesmo fui à
escola por diferentes períodos de tempo com os filhos de Bob Hope e
os de Loretta Young. Mas os filhos nunca pareciam celebridades. Eles
eram muito familiares, apenas jovens como eu.
A
familiaridade destrói a celebridade mais do que a define. A minha
mãe era manicure em Beverly Hills. Uma vez, quando eu vim apanhá-la
depois do trabalho, ela estava terminando de fazer as unhas de Ann
Margaret. Ann Margaret! Eu queria — o quê? Cair de joelhos na frente
dela? Ao invés de fazer isto, eu caminhei com ela até o seu carro,
como minha mãe pediu. Ann Margaret foi muito gentil. Talvez, porque
estava escuro, ela não pôde ver como eu estava ruborizado cada
segundo até que ela entrou no carro.
Eu não queria falar com Ann Margaret. Eu
queria falar aos outros sobre ela, esperando que alguma coisa da
celebridade da estrela de cinema de alguma forma passasse para mim.
Mas naturalmente isto não faz sentido. Ter estado na presença dela
não constituiu nenhum grande feito da minha parte. Mas, da mesma
forma, por que é que simplesmente por ter atuado em alguns filmes
constitui um grande feito da parte de Ann Margaret? Finalmente, que
sentido há na celebridade?
A celebridade não se alimenta de
familiaridade. Ela é absolutamente dependente de reconhecimento. Uma
vez eu estava em uma pizzaria apinhada de gente no Rio de Janeiro
quando uma onda de surpresa e excitação estremeceu os fregueses. Um
artista famoso de televisão tinha aparecido. Eu olhei. O jovem
parecia não ser diferente de qualquer outro no restaurante. Você não
podia ver a sua atração sem reconhecê-lo primeiro, e você não
podia reconhecê-lo sem antes ter sido um espectador da televisão
brasileira. E ainda assim, simplesmente porque esta atração é
completamente dependente da visibilidade não quer dizer que uma é
reduzível à outra.
O que é celebridade? Algo que nós
construímos, tal como uma função dela já tinha sido construída para
nós? Uma vez eu vi Warren Christopher esperando um avião, como eu,
no aeroporto Charles de Gaulle. Não foi tão emocionante como teria
sido se eu tivesse visto o seu Presidente. Eu não fiquei tão
deslumbrado como ficaria se eu tivesse visto, oh, Britney Spears —
não a Britney Spears “de verdade”, que ainda não tinha nascido uns
vinte anos atrás. Quem quer que ela fosse, ela já estava localizada
para que eu a visse com uma mistura de surpresa, prazer, admiração,
e talvez as três coisas ao mesmo tempo, antes que elas se
dissolvessem durante os próximos instantes.
Um dos clichês mais veneráveis sobre a
celebridade é que ela é temperamental e efêmera. Assim, quase todos
os exemplos que eu mencionei podem ser desconhecidos para os jovens
leitores, para os quais, por sua vez, uma completa geração de
celebridades pode ter aparecido, e cada uma delas é desconhecida
para mim. Algumas talvez sejam artistas de cinema. No entanto, as
áreas de música, esportes, e televisão hoje em dia comandam as
noções de celebridade. E todos nós agora vivemos um uma “cultura de
celebridade”, onde virtualmente todas as categorias da vida cultural
— os shows de cachorros, os shows de cozinha — celebram suas
próprias estrelas, e esta é a razão pela qual a celebridade nunca
pareceu ao mesmo tempo mais arbitrária e mais disseminada.
Eu iniciei com Pinter porque nos últimos
trinta anos a literatura tem se constituído a marca da categoria de
celebridade para mim. Seria, digamos, interessante, ver Brad Pitt.
Mas uma tarde foi muito mais satisfatório ver John Updike. Admito, a
presença de Updike estava marcada e foi arranjada. Então ela não
teve o sentido de uma erupção violenta que certamente estaria
presente se ele fosse Pitt, já que eu não espero jamais vê-lo e, de
fato, a sua celebridade é construída não só na base de sua beleza e
riqueza, mas na sua distância de qualquer lugar onde eu possa estar.
Por outro lado, uma aparição de Updike — como a de Pinter — não
seria tão remota.
De fato, como a maioria dos escritores,
Updike poderia até passar incógnito entre nós. Eu escutei uma
história sobre um outro escritor, Stanley Elkin. Ele entrou num
avião, sentou-se, e foi cuidadosamente examinado por uma mulher
sentada ao seu lado. “Eu acho que eu conheço você,” ela finalmente
exclamou. “Quem é você?” Eu não me lembro o que Elkin respondeu.
“Não, você não deve me conhecer?” Brad Bitt gostaria de ver a vida
assim tão fácil! Talvez uma das razões porque Pinter começou a me
encarar — ou pelo menos isto foi o que ele parecia estar fazendo —
era porque, para ele mesmo, ele achava que não deveria ser
reconhecido.
Entre
os escritores vivos, talvez Thomas Pynchon seja o que simplesmente
não pode ser reconhecido, já que nenhuma foto dele foi publicada
desde a sua formatura da faculdade. (Eu nem menciono aqui J. D.
Salinger, o qual, embora continue vivo, parece ter morrido há várias
décadas.) Nem mesmo o pop star mais reservado pode ganhar de Pynchon
no quesito falta de visibilidade! Mas não, de uma maneira ou de
outra, de celebridade. Pynchon continua a rechaçar a cultura da
celebridade, o que somente atiça aquela cultura a tentar atingir
seus intentos com força renovada. Uma foto de Thomas Pynchon como
ele é hoje pode talvez valer mais — mesmo na revista People —
que uma foto de Britney Spears beijando Brad Pitt.
Que Paris Hilton seja aqui o melhor
exemplo daquela reducio ad absurdum que se obtém na sociedade
contemporânea. (Pelo menos Spears e Pitt fizeram alguma coisa.)
E que Pynchon represente o pólo oposto igualmente absurdo: uma
celebridade que é uma celebridade porque ele não é uma celebridade.
(A maioria dos escritores em pessoa são meramente irreconhecíveis,
desconhecidos.) O resto de nós vive mais ou menos no meio, nossas
cabeças virando pra lá e pra cá, movidas pelo escândalo do mês
passado ou o espetáculo público do mês que vem, indiferentes ao
aparato da mídia que, ou produz celebridades como se fosse uma
substância material, ou que vive deslumbrada com este material,
comandando absolutamente nenhuma visibilidade de nós mesmos, e
vivendo contentes com isto ou secretamente insatisfeitos com a nossa
própria obscuridade. Uma coisa é certa sobre a celebridade: seja lá
o que for, todos nós estamos envolvidos por ela de várias
maneiras.
Ênfase na palavra “várias”. Ela nos
permite ver tantas diferenças e distinções (entre pessoas,
categorias, nações) que parece que a celebridade é finalmente tão
interessante porque ela resiste à definição, muito tempo depois que
nós a distinguimos de “atenção”, que não dura, e “fama,” que dura
muito mais. Mas por que a celebridade é tão interessante? Um outro
exemplo: entre acadêmicos no mundo inteiro, Jacques Derrida não era
a maior celebridade na ocasião da sua morte? Uma vez, antes de uma
apresentação, eu ouvi uma mulher dizer, “Eu não sei quem é Derrida,
mas eu gostaria de poder dizer que eu o vi.”
Isto é, a mulher reconhecia Derrida como
uma medida da sua própria identidade. Realmente não importava quem
este “Derrida” era. O que importava era a autoridade que ele
representava. Naturalmente, a autoridade dele tinha conteúdo.
(Diferente de uma canção pop.) Mas, em relação ao assunto da
celebridade, este conteúdo era, e é, irrelevante. O que é
relevante é simplesmente o poder do seu agente. Nós mesmos não temos
tal poder em nós. Nós o possuímos somente como uma função de
celebrar os outros que tem as requeridas qualidades — de mente ou de
corpo, de riqueza ou de status — que nós não temos.
Um
último exemplo. Anos atrás eu fiquei apaixonado pela poesia de
Edward Dorn. Ele era um autor relativamente obscuro naquele tempo.
(Ele está morto agora, e é provavelmente mais obscuro.) Então, numa
ocasião eu fiquei surpreso ao ver seu nome no programa de uma
conferência literária. Eu decidi assistir a conferência em grande
parte para ver Dorn. Mas havia um problema: minha própria
apresentação de um trabalho de pesquisa foi marcada exatamente para
a mesma hora que Dorn ia ler sua poesia. O que fazer? Eu teria que
não ir à leitura de poemas. E foi isto que eu fiz.
No outro dia, a uma certa altura eu vi
Dorn sentado sozinho numa mesinha fora de um dos edifícios da
conferência. Ela era a mesma figura magra, de roupas amassadas, que
eu tinha visto em algumas fotos, e só aparecia agora ainda mais
magro, mais amassado, e mais velho. Foi quase irresistível ir até lá
e falar com o homem. Para mim, Dorn não representava uma impossível
combinação de Updike e Pynchon. E, ao mesmo tempo, talvez ele tenha
sido exatamente isto, porque eu mantive minha distância por um
minuto ou dois, e depois me afastei. O homem nunca me viu.
Naquela ocasião, eu refleti que
simplesmente não saberia o que dizer a Dorn. Eu conhecia realmente
bem a sua poesia? Quanto eu queria conhecer esta poesia, e seu
autor? No fim das contas, nós adotamos todos os tipos de atitude em
relação a pessoas que nós admiramos, e algumas destas atitudes são
baseadas em ignorância e fantasia. Agora eu sinto, porém, que há
alguma coisa mais. Para poder construir estes admiráveis outros como
celebridades, nós não só temos que conservar nossa distância deles,
mas também reconhecer o que eles têm como algo que nós não temos.
Eu não escrevo poesia. Mas eu sempre
desejei fazê-lo. Eu não tive o tipo de vida profissional “criativa”
— vários contatos, circunstâncias de ensino diferentes — que Dorn
teve. (Anos mais tarde eu li uma biografia dele e entendi algo da
dor e da alegria de sua vida.) Mas eu sempre desejei que eu pudesse.
Antes do instante quando eu poderia ter falado com o homem real, eu
estava vagamente consciente de como Edward Dorn contrastava comigo.
Mas não foi antes daquele momento que eu percebi quanto poder eu
tinha dado a ele, e não é até o momento em que escrevo esta sentença
final que reconheço o quanto eu tinha conseguido construí-lo como
uma celebridade. |
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