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DIRCEU BENINCÁ
Doutorando
em Ciências Sociais (PUC/SP)

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Capra ressuscita Leonardo da Vinci
Dirceu
Benincá
“As mais lindas
palavras de amor
são ditas no
silencio de um olhar.”
(Leonardo da
Vinci)
“Descobri que muitos dos desenhos
de Leonardo da Vinci não são só obras de arte, mas também
diagramas científicos. Para pintar a natureza, ele tinha que
estudá-la e para estudá-la ele precisava desenhá-la.
Estabelecia, assim, uma conexão muito íntima entre arte e
ciência.”
A
afirmação acima foi feita pelo físico, escritor e ecologista Fritjof
Capra – autor dos livros O Tao da Física, O Ponto de Mutação, A
Teia da Vida, entre outros – dia 12 de novembro passado, na
Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo. Na ocasião,
Capra lançou seu novo livro intitulado: “A Ciência de Leonardo da
Vinci – Um mergulho profundo na mente do grande gênio”, pela
Editora Pensamento-Cultrix.
Leonardo (1452–1519), nascido em Vinci,
próximo de Florença (Itália), é considerado um dos maiores gênios da
humanidade. Destacou-se como pintor, matemático, escultor,
arquiteto, físico, escritor, engenheiro, poeta, cientista, botânico
e músico do Renascimento Italiano. Da Vinci viveu em plena
Renascença, que vai do início do século
XV até o final do século XVI e marca um período de transição entre
a Idade Média e a era Moderna. No conjunto de suas famosas
pinturas, estão: “Mona Lisa” (La Gioconda), “A Última Ceia”, “A
Anunciação”, “A Sagrada Família e o Cordeirinho”, “A Virgem dos
Rochedos”. Entre suas grandes invenções, está “Parafuso Aéreo” – uma
primitiva versão do helicóptero.
A seguir, apresento as idéias explanadas
por Capra no Conjunto Nacional. O físico do Tao da Física
ressuscitou o eclético Da Vinci em grande estilo, dizendo que o
gênio da Renascença abordou o conhecimento científico com olhos de
artista. Através de seus estudos das formas vivas e inanimadas – que
abrangem desde a arquitetura e a anatomia humana até a turbulência
da água e o padrão de crescimento da grama – ele desenvolveu uma
nova abordagem empírica da ciência. Abordagem que compreendia
a observação sistemática da natureza, o que é hoje conhecido como
método científico.
A maioria das
pessoas que discutiu o trabalho científico de Leonardo o fez através
de lentes newtonianas. Isso sempre as impediu de entender a natureza
essencial que é a ciência de formas orgânicas, a ciência da
qualidade, o que é radicalmente diferente da ciência mecânica de
Galileu, de Descartes e Newton. No meu livro – afirmou Capra –
apresento uma linha coerente de métodos e conquistas de Leonardo da
Vinci e as avalio sob as perspectivas da ciência do século XXI.
Estudar Leonardo sob este enfoque não apenas nos permite reconhecer
a sua ciência como um corpo sólido de conhecimento, mas também
mostra porque não podemos entendê-la sem a sua arte e nem a arte sem
a sua ciência.
Quando o
jovem Leonardo recebeu o seu treinamento como um pintor, escultor e
engenheiro em Florença, por volta de 1470, o pensamento de seus
contemporâneos ainda estava envolto no emaranhado da Idade Média. O
conhecimento sobre o fenômeno natural passou de Aristóteles e outros
filósofos gregos, mas foi impedido pela doutrina cristã que
criticava Aristóteles.
Qualquer
tentativa de fazer experimentos era considerada subversiva, herege.
As experimentações eram fortemente desencorajadas. Essa tradição foi
quebrada por Da Vinci. Assim, ele escreveu: “Devo primeiramente
fazer alguns experimentos antes de prosseguir, pois a minha intenção
é mencionar a experiência primeiro e depois, com o raciocínio,
demonstrar porque tal experiência é obrigada a operar de tal forma.
Essa é a regra verdadeira que aqueles que especulam sobre os efeitos
da natureza devem seguir”.
Cem anos
antes de Galileu Galilei e Francis Bacon, Leonardo da Vinci
desenvolveu uma nova abordagem empírica, envolvendo as observações
sistemáticas da natureza, o raciocínio e a matemática. Ele percebeu
que estava abrindo novos caminhos. A sua criatividade científica,
combinada com uma curiosidade apaixonada, grande paciência e
engenhosidade, foi a sua principal força propulsora durante toda a
vida.
Em cada
página do caderno de anotações de Leonardo existem textos e desenhos
magníficos. Ao morrer, sua coletânea somava 13 mil páginas,
manuscritos esses que estão dispersos em várias bibliotecas e
museus. Leonardo tinha uma grande memória visual. Era capaz de
desenhar o movimento das águas turbulentas ou dos pássaros em vôo.
Considerava o seu olho como principal instrumento. Assim escreveu:
“O olho, do qual se diz ser a janela da alma, é o principal meio
pelo qual o senso pode ver abundantemente as obras da natureza”.
A abordagem
de Leonardo para o conhecimento científico era visual. Ele tinha
olhar de um pintor. Afirmou: “A pintura contem em si mesma todas as
formas da natureza”. Essa frase é a chave para entendermos a ciência
de Leonardo, que enfatiza a conexão íntima entre representação
artística das formas naturais e conhecimento intelectual da sua
natureza e dos seus princípios.
Para os
contemporâneos de Leonardo, arte era vista como uma habilidade da
forma, do mesmo modo que usamos hoje quando falamos da arte da
administração ou da medicina, por exemplo. Ciência significava
conhecimento e também teoria. Leonardo sempre insistia que a arte
deve ser apoiada pela ciência, o conhecimento sólido das formas
vivas. Para ele, a pintura era tanto arte como ciência.
Da Vinci via
vida em toda a natureza. Ele percebia a relação profunda entre os
processos dos microcosmos e do macrocosmo. Fazia analogias entre a
anatomia humana e a estrutura da terra. Afirmava: “Poderíamos dizer
que a terra possui uma força vital de crescimento; que sua carne é o
solo; seus ossos são os músculos; sua cartilagem são as rochas
porosas; seu sangue são os cursos de água. O lago de sangue que se
estende em volta do coração é o oceano e sua respiração é o aumento
e diminuição do sangue na pulsação, assim como na terra há o fluxo e
refluxo dos mares”. Essa analogia entre microcosmo e macrocosmo não
é original do Leonardo. Remonta a Platão e foi ocultada pela Idade
Média. Depois voltou na Renascença.
Leonardo
transformou-se no primeiro botânico teórico. No microcosmo, ele
estudou a beleza e a proporção do corpo humano. No final da Idade
Média não era fácil para um cientista dizer que os seres humanos
tinham corpos de animais. Talvez seja por isso que ele tenha mantido
suas anotações em segredo por tanto tempo. Hoje podemos reconhecer
Leonardo como precursor de uma linhagem de cientistas cujo enfoque
central é a natureza da forma orgânica.
Vale destacar
que Leonardo não perseguiu a ciência e a engenharia para dominar a
natureza, tal como defendia Francis Bacon um século depois. A sua
ciência era tranqüila. Ele tinha uma compaixão especial pelos
animais. Desaprovava a violência e era vegetariano, o único
vegetariano na Renascença italiana. Comprava pássaros engaiolados no
mercado de Florença e os soltava. A respeito da natureza, escreveu:
“Apesar da engenhosidade humana em várias dimensões, usando
diferentes instrumentos para um mesmo fim, ela nunca encontrará uma
invenção mais bonita, mais fácil ou mais econômica do que a da
natureza, pois em sua constituição nada falta, nada é supérfluo”.
Essa atitude
de grande valorização da natureza é retomada hoje pela escola de
pensamento chamada Ecologia Profunda. Existe diferença entre uma
ecologia rasa e uma ecologia profunda. A ecologia rasa fala da
árvore no sentido de que ela pode fornecer a tábua. A ecologia
profunda não separa o ser humano do ambiente natural e o entende
profundamente conectado com a natureza... Precisamos de uma ciência
que respeite e valorize a unidade da vida.
Tento mostrar
no meu livro – disse Capra – que Leonardo foi o precursor daquilo
que chamamos hoje de ciência holística. Tinha um método totalmente
empírico, mas com um conteúdo diferente daquela ciência mecanicista
de Galileu e Newton. Não estou dizendo que a ciência newtoniana
esteja errada. Estou dizendo que ela é limitada. Leonardo começou
como um pintor. E ele afirmava: “Para pintar a natureza como artista
eu tenho que entendê-la, conhecer a essência das formas”. Na
verdade, parte do método científico é registrar suas observações.
Em suas
considerações, Capra afirmou ainda que hoje temos todo o
conhecimento que precisamos, todas as técnicas e tecnologias, os
modos de organização e gerenciamento, bem como os meios para irmos
em direção à sustentabilidade. O que falta são os valores e a
vontade política. Fez destaque ao livro intitulado “Plano B 3.0:
Mobilising to Save Civilisation” (Plano B 3.0: Mobilizando-se
para salvar a civilização), escrito por Lester Brown,
fundador do Instituto Worldwatch,
presidente do Instituto para as Políticas da Terra, com sede em
Washington.
O livro de
Brown está publicado em português e tem duas partes. Nele o autor
mostra primeiro como os problemas do mundo se juntam e estão
interconectados. Na segunda parte, dá respostas para todos os
problemas, soluções que se baseiam em pesquisa muito meticulosa.
Para cada solução, cita exemplos que já foram tentados em algum
lugar do mundo e que funcionou. Para cada solução ele também dá um
orçamento. Ao final, mostra que o custo total para salvar a
civilização é de cerca de 1/3 do orçamento americano militar ou 1/6
do orçamento militar mundial. Portanto, temos recursos. Só
precisamos da vontade política.
Capra também
se disse muito entusiasmado com a ascendência de Barack Hussein
Obama à presidência dos EUA pelo fato de ele possuir uma história
multicultural, incorporar traços multi-raciais; por ter trabalhado
como organizador de comunidades e advogado dos direitos civis. Obama
é conhecido pela habilidade de saber ouvir as pessoas e mediar
situações. Ele tem total consciência dos nossos problemas
ambientais. Parte importante do seu programa é dar suporte e
estimular o desenvolvimento de energias alternativas para nos livrar
da dependência do petróleo. Podemos esperar uma abordagem muito
diferente e bastante sistêmica por parte de Obama. Acredito –
afirmou Capra – que os Estados Unidos vão se unir através do
diálogo. Tenho grandes esperanças!
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