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LUIZ ALBERTO MONIZ
BANDEIRA
Cientista
político, professor titular de história da política exterior do
Brasil, na Universidade de Brasília (aposentado) e autor de mais
de 20 obras, entre as quais Fórmula para o caos – A derrubada
de Salvador Allende (1970-1973) e Formação do Império
Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque),
pela qual recebeu o Troféu Juca Pato, eleito pela União
Brasileira de Escritores (UBE) Intelectual do Ano 2005

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O Brasil como potência regional e a
importância estratégica da América do Sul na sua política exterior
Luiz Alberto Moniz Bandeira
Extensão territorial, poder econômico e
poder militar são três fatores que devem ser considerados para
qualificar um país como potência e compreender sua posição na
hierarquia entre Estados. Estes são os fatores que permitem a um
Estado atuar independentemente e influir sobre outros Estados e,
portanto, determinar em que condições ele se expressa como potência
regional internacional. Um Estado, que dispõe de potencial
econômico, força militar e extensão territorial (assumindo, por
suposto, que sua população seja correspondente ao espaço que ocupa),
pode tornar-se hegemônico, o líder e o guia de um sistema de
alianças e acordos de variado alcance.
Para contar com todos os fatores que
garantem a segurança da vitória, tanto quanto seja possível
prever-se, é necessário que o Estado tenha capacidade de exercer
pressão diplomática, i. e., capacidade para obter parte do que
poderia ser o resultado de uma guerra vitoriosa sem necessidade de
combater realmente.
Mesmo assim, a paz interna, como reflexo do exercício eficiente dos
grupos sociais e de sua função interna hegemônica, é indispensável,
se o Estado pretende ser una potência internacional. Em outras
palavras, como ponderou Kart W. Deutsch, o potencial do status
de poder é uma simples estimativa dos recursos materiais e humanos
que podem ser usados para prever quanto êxito poderá ter um país em
uma disputa contra outro país, se usa seus recursos como vantagem.
De acordo com Deutsch, um país tanto mais terá condições de
afirmar-se como potência quanto mais extenso for e quanto mais
numerosa seja sua população e os recursos que pode mobilizar para a
consecução de uma política (57). Poder, pura e simplesmente, é a
habilidade de um ator de prevalecer em um conflito e superar os
obstáculos, se usa com vantagem seus recursos.
Com mais de 196 milhões de habitantes
(em 2007), a extensão territorial de Brasil é apenas pouco menor do
que a dos Estados Unidos continental, incluindo o Alaska. Soma
cerca de 8.514.215 milhões de quilômetros quadrados e seu litoral se
estende por 7.367 quilômetros. Tem 15.735 quilômetros (cerca de
8.000 milhas) de fronteiras, sem litígio, com todos os países da
América do Sul (exceto Equador e Chile). E dentro deste vasto
território, seus recursos naturais são abundantes: terras férteis
para a agricultura, reservas imensas jazidas de ferro e outros
minerais metálicos, urânio, biodiversidade, enormes reservas de água
e recursos hidroelétricos. E, conforme a estimativa da Associação
Brasileira de Geólogos de Petróleo (ABGP), os campos descobertos na
Bacia de Santos, litoral do Estado de S. Paulo, contêm 33 bilhões de
barris, o que quadruplica as reservas de petróleo do Brasil de 13
bilhões de barris (provados) para cerca de 46 bilhões de barris.
Somente no campo de Tupi (litoral de Santos) há cerca de 5 a 8
bilhões de barris. Os dados são ainda muito imprecisos, mas de
acordo com Stephanie Hanson, do Council on Foreign Relations, o
volume de petróleo na camada pré-sal, que provavelmente se estende
por 800 quilômetros, do Espírito Santo, norte do Rio de Janeiro, a
Santa Catarina,
deve ser da ordem de 70 a 100 bilhões de barris, além de grande
volume de gás.
O Produto Interno Bruto do Brasil (PIB) do Brasil, conforme a
paridade do poder de compra, utilizado pelo Banco Mundial, era em
2007 da ordem de U$S 1,849 trilhão, mais de três vezes maior do que
o da Argentina, estimado em U$S 526 bilhões (2005), maior do que o
do Canadá, calculado em U$S 1,271 trilhão (est. 2007), do que o do
México, U$S 1,353 trilhão (2007 est.), do que o da Espanha ( U$S
1,361 trilhão, est. 2007), igual ao da Itália (U$S $1,8 trilhão,
2007 est.), um pouco menor do que o da França (U$S 2,075 trilhões,
2007 est), que o da Rússia (U$S 2,097 trilhões, 2007 est.) e do
Reino Unido (U$S 2,13 trilhão, 2007 est.).
Não sem razão, já em 1976, ao ser
interpelado, no House Foreign Affairs
Commitee, se os Estados Unidos haviam elevado o Brasil ao status
de potência mundial, por terem os dois países assinado um acordo
de consulta, Henry Kissinger, então secretário de Estado na
administração do presidente Gerald Ford (1974-1977),
replicou:
“(...) This agreement does not make Brazil a world power. Brazil
has a population of 100 million, vast economic resources, a very
rapid rate of economic development. Brazil is becoming a world
power, and it does not need our approval to become one, and it is
our obligation in the conduct of foreign policy to deal with the
realities that exist”.
Segundo Kissinger, o Brasil via o seu
relacionamento com os Estados Unidos como similar a dois pilares
gêmeos (twin pillars), cabendo-lhe organizar a América Latina,
enquanto cabia aos Estados Unidos a mesma tarefa, na América do
Norte, duas empresas trabalhando em harmonia, através de freqüente
intercâmbio, e articulando seus propósitos comuns”.
A América Latina, a que Henry Kissinger
se referiu, significava, em realidade, a América do Sul, como se
pode claramente inferir da frase, porquanto a América do Norte,
compreendida como o México e os países da América Central, era a
área de responsabilidade dos Estados Unidos. E com argúcia Kissinger
observou que a igualdade teórica da soberania de cada nação
latino-americana, postulada pelo sistema interamericano, não fazia
parte do vocabulário brasileiro.
Conforme
ressaltou João Augusto de Araújo Castro, embaixador do Brasil em
Washington (1971-1975),
o Brasil jamais considerou suas relações com os Estados Unidos como
um capítulo das relações entre os Estados Unidos e a América Latina
e deseja cooperar com todos os países do continente, mas não queria
ser confundido com qualquer um deles, nem sequer admitia ser
confundido com sua totalidade.
Com efeito, o Brasil não somente não queria ser confundido com a
América Latina, em geral, como não aceitava tal conceito então
generalizado e adotado pelas instituições multilaterais, para
enquadrar toda uma região onde os diversos Estados apresentavam
enormes disparidades e assimetrias.
O Brasil não queria ser diluído em
um conjunto de países, dos quais se diferenciava pela sua dimensão
territorial, demográfica e econômica. Havia, concretamente, uma
hierarquia de poderes, em que o Brasil se sobressaía, dado que, ao
separar-se de Portugal, não se desintegrara, como aconteceu com a
América espanhola, e manteve, sem ruptura da ordem política, a vasta
extensão do seu território.
A percepção de Kissinger quanto ao papel
que o Brasil desempenhava ou pretendia desempenhar tinha fundamento
histórico. Desde a segunda metade do século XIX, o Brasil configurou
uma potência regional. Possuía um aparelho burocrático-militar capaz
de defender e mesmo impor, tanto interna quanto externamente, os
interesses de sua elite dirigente, devido ao fato de que não era um
simples sucessor do Estado português. Era o próprio Estado
português, que se trasladara para a América do Sul, ajustara-se às
condições econômicas e amoldara-se à estrutura social da colônia,
mas conservara sua contextura institucional, assentada no dogma da
soberania una e indivisível da Coroa, a hierarquia, as leis civis,
os métodos administrativos, o estilo político, o instrumental bélico
e diplomático, com experiência internacional, e o vezo de potência.
Daí porque, em 1854, o diplomata Martin Maillefer, ministro
plenipotenciário da França em Montevidéu, chamou o Brasil de “Rússia
tropical”, que tinha “a vantagem da organização e perseverança em
meio dos Estados turbulentos e mal constituídos da América do Sul”
.
Após a Guerra da Tríplice Aliança com o
Paraguai, que comprometeu gravemente as finanças do Brasil, a
Argentina consolidou-se como Estado nacional e, embora as economias
dos dois países não competissem e até mesmo se complementassem, suas
relações caracterizaram-se cada vez mais por forte rivalidade,
gerando tensões e graves crises, entremeadas com esforços de
entendimento e de cooperação, ao longo de toda a primeira metade do
século XX. A partir do final da Segunda Guerra Mundial, com a
implantação da indústria pesada, e particularmente com a implantação
da siderúrgica, o desenvolvimento do Brasil avantajou-se, enquanto a
economia da Argentina, assentada sobre a agropecuária, continuou a
depender das exportações de carne e cereais e importações de bens de
capital, cada vez mais caras, para sustentar uma indústria com
características leves, de bens de consumo. Assim, expansão econômica
do Brasil, a partir dos governos dos presidentes Getúlio Vargas
(1951-1954) e Juscelino Kubitschek (1956-1961), tomou enorme impulso
e, após a crise na primeira metade dos anos 1960, seu PIB desde
1968 passou a crescer a taxas de 9%, 10% e 11% a.a., contrastando
com a relativa estagnação da Argentina, o que aumentou o
desequilíbrio de poderes cada vez mais na América do Sul. Um século
depois, pôde então o Brasil restabelecer a hegemonia que mantivera
na Bacia do Prata, até 1876, quando retirou as tropas do Paraguai,
derrotado na Guerra da Tríplice Aliança.
América do
Sul como conceito geopolítico
O conceito de
América do Sul, como conceito geopolítico, e não o conceito de
América Latina, um conceito étnico, muito genérico, e sem
consistência com seus reais interesses econômicos, políticos e
geopolíticos, foi que sempre pautou, objetivamente, a política
exterior do Brasil, e até a metade do século XX suas atenções
concentraram-se, sobretudo, na região do Rio da Prata, ou seja,
Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, que conformavam sua
vizinhança e com os quais havia fronteiras vivas comuns, i. e,
fronteiras habitadas. O entendimento do Brasil era de que havia duas
Américas, distintas não tanto por suas origens étnicas ou mesmo
diferença de idiomas, mas, principalmente, pela geografia, com as
implicações geopolíticas, e esse foi o parâmetro pelo qual se
orientou a política exterior do Brasil, que no curso do século XIX
se absteve de qualquer envolvimento na América do Norte, Central
e Caribe, enquanto resguardava a América do Sul como sua esfera de
influência.
George Hegel, nas aulas sobre a
filosofia da história mundial, ditadas na década de 1820, salientou
o contraste entre a América do Sul, onde o catolicismo predominava,
e a América do Norte, uma terra de seitas, protestante, onde o
comércio constituía o principal princípio, um princípio muito
simples, ainda que não fosse tão firme como na Inglaterra.
E, ao dizer que a América era a terra do futuro, previu uma
“contenda entre a do Norte e a América do Sul, em que a importância
da História Universal deveria manifestar-se”.
Não explicitou que tipo de contenda. Mas, na sua exposição, o México
figurava como um país à parte, tanto da América do Norte, entendida
como os Estados Unidos, e a América do Sul, que compreendia o Brasil
e os países de língua espanhola. Também o escritor francês
Michel Chevalier na introdução ao livro Lettres sur
l'Amérique du Nord,
publicado em 1837, fez uma
observação semelhante à de Hegel, ao comparar a América do Sul com a
Europa meridional, católica e latina, e a América do Norte, que
pertencia a una população protestante e anglo-saxônica. Tudo indica,
porém, que o conceito de América Latina, integrando o México e
demais países da América Central, foi usado pela primeira vez pelo
intelectual e político chileno Francisco Bilbao Barquín (1823-1865),
em conferência pronunciada em Paris em 24 de junho de 1856.
Alguns meses
depois, em 2 de setembro do mesmo ano, o escritor e diplomata
colombiano José María Torres Caicedo (1830-1889),
em um poema intitulado “Las dos Américas”, referiu-se a “la
raza de la América Latina, al frente tiene la sajona raza, enemiga
mortal que ya amenaza su libertad destruir y su pendón”, e
acrescentou que “la América del Sur está llamada a defender la
libertad genuina, la nueva idea, la moral divina, la santa ley de
amor y caridad”, pois “el mundo yace entre tinieblas hondas:—
en Europa domina el despotismo de América en el Norte, el egoismo,
sed de oro e hipócrita piedad”. Posteriormente, em 1861,
Torres Caicedo lançou as “Bases para la formación de una Liga
Latinoamericana”. E, no mesmo ano, em artigo publicado pela
Revue des Races Latines, L. M. Tisserand denominou como
l’Amérique Latine o que até então se conhecia, na Europa, como
Nouveau Monde ou Amérique du Sud ou républiques
hispanoaméricaines. O abade Emmanuel Domenech
(1825-1903), autor de Journal d'un Missionnaire au Texas et au
Mexique 1846-1852, consolidou o conceito de América Latina, como
“le Mexique, l'Amérique Centrale et l'Amérique du Sud”.
O conceito de América Latina,
desenvolvido para demonstrar as diferenças, contrastes e mesmo
antagonismos com a América do Norte, tal como Chevalier e Tisserand
expressaram e difundiram, passou a integrar o pan-latinismo, ideal
que encapava as pretensões imperialistas da França, sob o reinado de
Louis Bonaparte, Napoleão III, e foi manipulado para legitimar a
intervenção da França no México (janeiro de 1862 – março de 1867),
onde fora entronizado o arquiduque Ferdinand Maximilian, irmão do
imperador da Áustria. O propósito de Napoleão III era construir um
Império Latino, em oposição à Grã-Bretanha, e necessitava
estabelecer um elo de identidade com a Ibero-América a fim de
legitimar sua pretensão. Mas aí o conceito de América Latina,
integrando o pan-latinismo conforme difundiram Chevalier, então
conselheiro de Estado de Napoleão III, e Tisserand, já se
distanciava da formulação de Torres Caicedo, que lhe dera um
caráter defensivo frente à expansão dos Estados Unidos, e de
Francisco Bilbao, em cuja obra La América en Peligro, de
1862, não somente denunciou o despotismo europeu e sua política de
expansão como proclamou a necessidade de defender o México contra a
França.
A América
do Sul na política exterior do Brasil
Como salientou o embaixador Samuel
Pinheiro Guimarães, em sua obra “Quinhentos anos de periferia”, a
América do Sul é a “circunstância inevitável, histórica e geográfica
do Estado e da sociedade brasileira”.
William H. Seward, secretário de Estado do presidente Abraham
Lincoln, convidou o Brasil para intervir no México, juntamente com
os Estados Unidos. Dentro América do Sul, porém, o interesse
fundamental do Brasil, desde os tempos da colonização, cingiu-se,
particularmente, aos países da Bacia do Prata – Argentina, Uruguai,
Paraguai e, de certo modo, Bolívia, e o que amplificou ainda mais a
importância geopolítica da região, primeiro para Portugal, durante
a colonização, e depois para o Brasil, foi o fato de que o
abastecimento de Mato Grosso, Goiás e parte de S. Paulo dependia,
quase que totalmente, da navegação fluvial.
O bloqueio da livre navegação através dos rios da Bacia do Prata
configurava casus belli para o governo imperial.
Com as repúblicas do Pacífico, separadas
por florestas e pela cordilheira dos Andes, as relações do Brasil
nunca adquiriram maior peso e densidade, até a primeira metade do
século XX. O interesse primordial do Brasil consistiu em buscar
solução para as questões de limites e de navegação fluvial, através
do Amazonas,
e daí as missões de Duarte da Ponte Ribeiro (1851), Miguel Maria
Lisboa (1853), João da Costa Rego Monteiro, Felipe Lopes Neto ,
Joaquim Maria Nascentes de Azambuja (1866-1867),
enviadas às repúblicas do Pacífico (Peru, Equador, Colômbia e
Venezuela). A doutrina do uti possidetis serviu de base para
a demarcação das fronteiras, com a prevalência da idéia da
nacionalidade, que conferiu à política brasileira coerência,
racionalidade e continuidade, como Amado Luiz Cervo e Clodoaldo
Buenos salientaram.
E o que o Brasil tratou de assegurar foi sua soberania sobre a
Amazônia, antes de abrir o rio à navegação internacional, e evitar
que as repúblicas do Pacífico fossem induzidas pelos Estados Unidos
a atacá-lo ao norte, aproveitando seu envolvimento na guerra contra
o Paraguai (1864-1870).
José Maria da Silva Paranhos, Barão do
Rio Branco, quando ocupou o cargo de ministro das Relações
Exteriores (1903-1912), buscou consolidar as fronteiras do Brasil,
com todos os seus vizinhos, e sua política exterior pautou-se por
diretrizes similares às do tempo da monarquia (1822-1889), ao
considerar o continente uma espécie de condomínio, em que o Brasil
exerceria livremente sua influência sobre a América do Sul, enquanto
as Américas do Norte e Central, bem como o Caribe teriam nos Estados
Unidos seu centro de gravitação. Por esta razão, embora o imperador
D. Pedro II não aprovasse, pessoalmente, a iniciativa de Napoleão
III,
ocupando o México, seu governo não aceitou o convite, alegando que
não tinha maior interesse na questão.
Essa atitude do governo de D. Pedro II deveu-se ao fato de que o
Brasil considerava o México fora de sua esfera de preocupação e
nunca aspirou a ter qualquer
interferência nos países daquela região, considerada como
pertencente à órbita dos de influência dos Estados Unidos.
Ao tempo da república, quando, em 1903,
Panamá se separou da Colômbia, com o apoio dos Estados Unidos, Rio
Branco, não obstante lamentar o acontecimento, não protestou, e
somente reconheceu a nova república de acordo com a Argentina e o
Chile, a fim de manter a unidade dos três países, com os quais
pretendia estabelecer um acordo diplomático, conhecido como ABC
(Argentina, Brasil e Chile). Em 1908, porém, ele reagiu
energicamente contra a atitude dos Estados Unidos, que estava a
favorecer o Peru no litígio sobre os territórios de Purus e
Juruá, afirmando o “direito nosso (brasileiro) de atuar
politicamente nesta parte sem ter que pedir licença ou dar
explicações” ao governo americano, que, segundo suas palavras, não
devia se envolver “para ajudar nossos desafetos, nas questões em que
estamos empenhados”.
E um ano depois, 1909, ameaçou romper as relações com os Estados
Unidos, se o presidente William Howard Taft executasse o
ultimatum dado ao Chile para pagar dentro de dez dias o montante
de US$ 1 milhão, reclamado pela empresa norte-americana Alsop & Co.
Entretanto, em 1910, Rio Branco não atendeu a um apelo da Nicarágua
para que a ajudasse a impedir que um barco de guerra americano
continuasse a apoiar uma revolução que surgia naquele país.
Não tinha interesse na questão. E somente, unido à Argentina e ao
Chile, configurando o bloco conhecido como ABC, atuou como mediador
para evitar uma guerra entre o México e os Estados Unidos, cujos
soldados haviam ocupado a cidade portuária de Vera Cruz, a pretexto
de capturar um carregamento de armas alemãs, transportado pelo navio
Ypiranga, da Companhia Hamburg-Süd.
Em 1927, no entanto, o diplomata Ronald de Carvalho, em “Relatório
Reservado sobra a Política Exterior do Brasil e a dos Países da
América do Sul”, organizado por ordem do então chanceler Octavio
Mangabeira, deixou bem clara a pretensão do Brasil, ao assinalar,
após definir vários objetivos a cumprir, que “voltaremos a ocupar,
em virtude do crescimento natural de nossa população e do
desenvolvimento das nossas riquezas, o lugar que nos cabe na América
do Sul”, ou, sem outras palavras, a preeminência que tivera durante
o século XIX.
Oswaldo Aranha, quando embaixador do
Brasil em Washington, tomou em 1935 atitude semelhante à do Barão do
Rio Branco, em face da intromissão dos Estados Unidos nos assuntos
dos países com os países vizinhos. Advertiu o Secretário de Estado,
Summer Welles, de que “nada explicava o nosso (brasileiro) apoio aos
Estados Unidos em suas questões na América Central, sem atitude
recíproca de apoio ao Brasil na América do Sul”.
E, posteriormente, na condição de ministro das Relações Exteriores
do presidente Getúlio Vargas (1930-1945), assinou, com Enrique
Ruiz-Guiñazú, chanceler da Argentina, o Tratado de 21 de novembro de
1941, cujo objetivo era “estabelecer, de forma progressiva, um
regime de intercâmbio livre, que permitisse chegar a uma união
aduaneira /.../, aberta à adesão dos países limítrofes”, i. e.,
aberta à adesão dos países da América do Sul. A Argentina
configurava-se cada vez mais importante parceiro comercial do
Brasil, escoadouro natural para seus produtos agrícolas e
manufaturas. E o presidente Getúlio Vargas, durante a Conferência do
Rio de Janeiro, após a qual rompeu as relações com os países do
Eixo, não quis constrangê-la ou que o Brasil dela se afastasse,
porquanto considerava a amizade entre os dois países “parte
integrante de um programa de governo” .
O
Tratado de 1941, para estabelecimento da união aduaneira, não se
efetivou devido ao ataque do Japão à base americana de Pearl
Harbor, em 7 de dezembro de 1941, envolvendo diretamente o
hemisfério na Segunda Guerra Mundial, após a qual começou a ganhar
força o conceito de América Latina, que as organizações
multilaterais passaram a utilizar, após a Segunda Guerra Mundial,
para designar a região, ou seja, todos os países abaixo do Rio
Grande. Entretanto, mesmo quando o Brasil se referia à América
Latina, o que estava subjacente era a idéia de América do Sul, da
qual assumiu abertamente a liderança, quando o presidente Juscelino
Kubitschek lançou, em 1958, a Operação Pan-americana, visando a
reformular os termos do relacionamento com os Estados Unidos.
“Verifico que no Brasil – e creio que nos demais países do
continente – amadureceu a consciência de que não convém mais
formarmos um mero conjunto coral, uma retaguarda incaracterística,
um simples fundo de quadro” – declarou Kubitschek.
Naquelas condições, o continente significava, sobretudo, o
continente sul-americano. E o formidável impulso que tomara o
processo de industrialização do Brasil, em conseqüência da
implantação do parque siderúrgico de Volta Redonda, foi que adensou
e robusteceu sua pretensão de assumir sua liderança vis-à-vis
dos Estados Unidos. Seu papel revestiu-se da maior importância, na
primeira metade dos anos 60, ao defender os princípios de
não-intervenção e auto-determinação dos povos, concorrendo
decisivamente para impedir que os Estados Unidos conseguissem o
apoio da Organização dos Estados Americano (OEA) ao seu propósito de
intervir militarmente em Cuba e derrocar o regime instituído por
Fidel Castro. Tratava-se de uma questão fora de sua órbita, a
América do Sul, mas envolvia a OEA e, conseqüentemente, todo o
hemisfério. Em 1965, porém, o Brasil rompeu sua tradição de não
intervir diretamente em questões da América Central e do Caribe,
atendeu à solicitação de Washington e enviou um contingente militar,
na condição de força interamericana de paz, para coadjuvar na
ocupação da República Dominicana, após a invasão ordenada pelo
presidente Lyndon Johnson.
O Brasil e
os países da região amazônica
Com a
intensificação do seu desenvolvimento industrial, o Brasil voltou-se
mais e mais para os países da região amazônica, ou seja, para a
Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, Colômbia, Suriname e Guiana, cuja
massa demográfica, no conjunto, representava por volta da primeira
metade dos anos 80 do século XX um mercado da ordem de 87 milhões de
habitantes, o equivalente a 61% da população brasileira,
espalhando-se até o Oceano Pacífico e o Caribe. Era necessário abrir
mercados para as suas manufaturas e o comércio da região amazônica
com as repúblicas do Pacífico saltou de US$ 173 milhões, em 1972,
para US$ 2,3 bilhões em 1982.
E seu fomento, visando a integração e unificação da América do Sul,
requeria o desenvolvimento dessa imensa região, a Amazônia, que
separava os mercados às margens do Pacífico e do Caribe dos centros
industriais do Brasil, situados no litoral do Atlântico. O
desenvolvimento da Amazônia dependia, entretanto, da cooperação com
os países vizinhos, porquanto sete das dez fronteiras internacionais
do Brasil localizavam-se quase integralmente naquela região, somando
12.114 km, o que representava cerca de 80% do total de sua fronteira
terrestre. Assim, com o propósito de incrementar o desenvolvimento
trans-fronteiriço, o Itamaraty, durante o governo do general Ernesto
Geisel (1974-1979) empreendeu as negociações, a cargo do embaixador
Rubens Ricupero, para a celebração, em 3 de julho de 1978, do
Tratado de Cooperação Amazônica. O que inspirou a negociação desse
Tratado, com características similares ao Tratado da Bacia do Prata,
foi possibilitar sua ocupação de forma racional e evitar que
potências estranhas à região se introduzissem na Amazônia, sob
qualquer pretexto. Essa preocupação levou o presidente João Batista
Figueiredo a evitar que os
Estados Unidos, em 1981, interviessem no Suriname, conforme o
presidente Ronald Reagan pretendera, para depor o governo de Desiré
Delano (Desi) Bouterse, sob a alegação de que ele estava a
acercar-se politicamente de Cuba.
Assumiu a tarefa de resolver o problema. E conseguiu-o.
Mercosul versus ALCA
A questão Mercosul/ALCA tornou-se
destarte o principal ponto das divergências entre o Brasil e os
Estados Unidos, por envolver profundas contradições, nas quais
interesses econômicos, políticos e estratégicos se entrelaçavam. A
ALCA não convinha aos interesses do Brasil, que não se dispunha a
permitir, como o fez a Argentina, que seu parque industrial se
desmantelasse, se transformasse em sucata, sob nova e devastadora
redução de tarifas, nem a suportar crescentes saldos negativos na
balança comercial. O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que fora
um dos encarregados das negociações dos acordos de integração
Brasil-Argentina, em 1986/1987, quando ainda era o conselheiro e
chefe da Divisão Econômica do Itamarati, denunciou a ALCA como parte
da estratégia de manutenção da hegemonia política e econômica dos
Estados Unidos, “que realizariam seu desígnio histórico de
incorporação subordinada da América Latina a seu território
econômico e a sua área de influência político-militar”,
e insistiu em que o governo brasileiro devia abandonar os acordos
para sua implementação. “A ALCA levará ao desaparecimento do
Mercosul” – advertiu.
Grande parte do empresariado brasileiro
também receava as conseqüências da ALCA, cuja implementação
acarretaria sérios riscos para a indústria nacional. E o
presidente Fernando Henrique Cardoso, em meio das crescentes
dificuldades geradas, dentro do Mercosul, pela desvalorização, em
1999, da moeda brasileira, o real, reavivou o conceito de América do
Sul, que o projeto da ALCSA consubstanciava e fora eclipsado durante
seu primeiro mandato (1995-1999). A ampliação do comércio com os
países da América do Sul implicava, porém, uma série de projetos e o
presidente Fernando Henrique Cardoso convocou uma reunião de cúpula
dos chefes de Estados da América do Sul, realizada em Brasília,
durante os dias 31 de agosto e 1° de setembro de 2000, com o
objetivo de discutir a integração regional, notadamente as
interconexões energética e viária. O plano teria financiamento do
BID e da CAF (Corporación Andina de Fomento) e México mostrou-se
contrariado por não ter sido convidado, imaginando que se tratava de
manobra com intenção de isolá-lo. Fernando Henrique Cardoso mandou
fazer ver ao governo mexicano que o plano de interconexões não
poderia chegar à América do Norte, não havia como, de modo que por
esse motivo a presença do México não havia sido considerada. Para
dirimir quaisquer dúvidas nesse sentido, convidou para a reunião o
Ministro das Relações Exteriores do México, Jorge G. Castañeda, na
qualidade de observador. Mas, evidentemente, a desculpa era apenas
meia-verdade, pois não podia explicar os objetivos políticos
implícitos na convocatória da cúpula Brasília.
Estes objetivos se evidenciaram em
artigo publicado na imprensa, na qual Fernando Henrique Cardoso,
antes da reunião, definiu o acontecimento como de “reafirmação da
identidade própria da América do Sul como região”, onde a democracia
e a paz abriam a perspectiva da integração cada vez mais intensa
entre países que mantinham uma relação de vizinhança”.
E ressaltou:
“A vocação da América do Sul é a de ser
um espaço econômico integrado, um mercado ampliado pela redução ou
eliminação das dificuldades e obstáculos ao comércio, e pelo
aperfeiçoamento das conexões físicas em transportes e comunicações”
.
Não se tratava, portanto, de América
Latina, mas da América do Sul, uma região geograficamente definida,
reconhecida pelos presidentes, no Comunicado Conjunto, como uma
região com características específicas que a distinguiam no cenário
internacional e que as suas peculiaridades e a contigüidade
geográficas criavam uma agenda comum de desafios e oportunidades.
Sua coesão constituía, também, elemento essencial a uma inserção
mais favorável na economia mundial, de forma que pudesse converter
a globalização em meio eficaz para
ampliar as oportunidades de crescimento e desenvolvimento da região
e melhorar de forma sustentada e eqüitativa os seus padrões de
bem-estar social, enfrentando os efeitos desiguais gerados
para diferentes grupos de países,
vis-à-vis sobretudo da América do Norte.
A Cúpula de
Brasília teve um caráter estratégico e avançou a possibilidade de
integração, não apenas física, econômica e comercial, mas igualmente
política, como o presidente Fernando Henrique Cardoso insinuou, ao
dizer que era “o momento de reafirmação da identidade própria
da América do Sul como região onde a democracia e a paz abrem a
perspectiva de uma integração cada vez mais intensa entre países que
convivem em um mesmo espaço de vizinhança”. E a afirmação dessa
“identidade própria”, diferenciada, por conseguinte, da América do
Norte, era o que preocupava Washington, conforme Kissinger exprimiu
em sua obra Does America Need a Foreign Policy?
Mas a integração política passava necessariamente pela perspectiva
de integração do espaço econômico da América do Sul, mediante o
entendimento entre “o Mercosul ampliado e a Comunidade Andina (CAN),
com a aproximação crescente da Guiana e do Suriname”, conforme o
presidente Fernando Henrique Cardoso, apontou, salientando:
“Um acordo de livre comércio entre o
Mercosul e a Comunidade Andina será a espinha dorsal da América do
Sul como espaço econômico ampliado. Deve, portanto, ser visto como
um objetivo político prioritário”.
Por proposta do Brasil, reconheceu-se a
necessidade de implementação da integração da América do Sul, a
partir da formação de uma Área de Livre Comércio Sul-Americana (ALCSA),
iniciada em 1993, ao tempo do governo do presidente Itamar Franco,
que tinha como chanceler o embaixador Celso Amorim. E a proposta de
integração regional não se limitou aos aspectos comerciais. Houve
acordo sobre a necessidade de desenvolvimento de uma Iniciativa para
a Integração da Infra-estrutura Regional da América do Sul (IIRSA),
que modernizasse as relações e potencializasse a proximidade
sul-americana, rompendo os obstáculos fronteiriços e formando um
espaço ampliado através de obras e articulações nas áreas de
transportes, energia e comunicações.
O objetivo
político prioritário, na proposta de integração do espaço econômico
da América do Sul, evidenciou-se ainda mais quando Fernando Henrique
Cardoso declarou que o “Mercosul é mais que um mercado, o Mercosul
é, para o Brasil, um destino” – disse o presidente Fernando Henrique
Cardoso, em 2001, acrescentando que a ALCA era “uma opção”, à qual
poderia aderir ou não.
E esta sua frase, exprimindo a continuidade essencial da política
exterior do Brasil, repercutiu nos Estados Unidos
,
o que levou Henry Kissinger a constatar que o Mercosul tendia a
apresentar as mesmas tendências manifestadas na União Européia, que
buscava definir uma identidade política européia não apenas distinta
dos Estados Unidos, mas em manifesta oposição aos Estados Unidos.
“Especialmente no Brasil, há lideres atraídos pela perspectiva de
uma América Latina politicamente unificada confrontando os Estados
Unidos e o NAFTA” – Kissinger ressaltou.
Segundo observou, enquanto a ALCA era concebida como simples área
de livre comércio, o Mercosul era uma união aduaneira,
trans-fronteiriça, que teria, por sua natureza, tarifas mais
elevadas para o mundo (tarifa externa comum) que entre os estados
associados, pretendendo evoluir para um mercado comum, e isto não
convinha, porque, provavelmente, afirmaria a identidade
latino-americana (sic) como separada e, se
necessário, oposta aos Estados Unidos e à NAFTA. “(...) Tudo isso
tem criado um potencial debate entre Brasil e os Estados Unidos
sobre o futuro do Cone Sul” – Kissinger reconheceu.
Com
efeito, a diplomacia brasileira tornou a integração da América do
Sul, a afirmação de sua identidade própria, a condição prévia para
qualquer esforço de integração hemisférica, tal como o que os
Estados Unidos estavam a propor, com o projeto da ALCA.
Conflitos na América do Sul
O Brasil estava a exercer de fato a
liderança da América do Sul, aceita consensualmente pelos demais
governos da região, dado seu enorme peso econômico, político e
estratégico, sem pretensões de hegemonia, respeitando as
particularidades de cada povo. E a Segunda Reunião de Presidentes da
América do Sul realizou-se em Guayaquil, Equador, entre 26 e 27 de
julho de 2002, quando foi aprovado o “Consenso de Guayaquil sobre
Integração, Segurança e Infra-Estrutura para o Desenvolvimento”,
manifestando o propósito de construir “um futuro de convivência
fecunda e pacífica, de permanente cooperação” e declarando “a
América do Sul como Zona de Paz e Cooperação”. A turbulência
social, política e militar nos países andinos dificultava, no
entanto, a consecução de tal objetivo e preocupava o Brasil. Em 26
de janeiro de 1995, o conflito armado entre tropas do Equador e do
Peru, na fronteira litigiosa em torno do rio Cenepa, perturbara a
paz da região. O presidente Fernando Henrique Cardoso atuou no
sentido de obter o cessar-fogo, levando os dois países, depois de
esporádicos combates, a firmarem um acordo, em Brasília, sob os
auspícios dos quatro Estados garantes do Protocolo do Rio de
Janeiro, de 1942 – Argentina, Brasil, Chile e Estados Unidos. O
Brasil exerceu a liderança no processo de Paz entre o Equador e o
Peru e o Exército brasileiro, na Missão de Observadores Militares
Equador-Peru (MOMEP), fiscalizou na região do rio Cenepa, fronteira
entre os dois países, o cumprimento do acordo.
O Brasil também interveio,
diplomaticamente, para evitar que a crise política, no Paraguai, em
abril de 1996, resultasse em um golpe militar, depois que
parlamentares, vinculados ao general Lino Oviedo, votaram contra o
projeto de lei para construir uma segunda ponte entre o Paraguai e
o Brasil, o que impediu as empresas do presidente Juan Carlos
Wasmosy de obterem a concessão das obras. Wasmosy decidiu então
passá-lo para a reserva e Oviedo,
rebelado, entrincheirou-se em sua unidade, ameaçando derramar sangue
se a medida não fosse revogada. A crise somente não culminou com a
quebra da legalidade constitucional, devido à interferência dos
embaixadores do Mercosul (Argentina, Brasil e Uruguai), dos Estados
Unidos e do próprio secretário executivo da OEA, César Gaviria, que
negociaram um acordo, mediante ameaças de boicote e isolamento
econômico e político do Paraguai, bem como do congelamento de sua
participação no Mercosul e outras sanções punitivas: Oviedo não foi
preso e apresentou voluntariamente o pedido de passar para a
reserva.
De qualquer maneira, o Brasil não estava
disposto a permitir um golpe de estado no Paraguai e contaria com o
respaldo da Argentina e do Uruguai, dado que a ruptura da democracia
política seria intolerável dentro do Mercosul, bem como em termos do
Grupo do Rio e da nova concertação no hemisfério. O compromisso com
a democracia, ou seja, a chamada “cláusula democrática” do Mercosul,
estava implícito no Tratado de Assunção, tanto que Brasil e
Argentina, desde a Declaração de Iguaçu, em novembro de 1985, nunca
cessaram de reiterar a adesão aos princípios democráticos, como
fundamento da cooperação e da integração, não apenas em termos
bilaterais, mas também com respeito aos demais países da América do
Sul. O Foro de Consulta e Concertação Política do Mercosul (FCCP)
deu grande ênfase à implementação da chamada “cláusula democrática”,
o que levou à adoção do Protocolo de Ushuaia pelos países do
Mercosul e Bolívia e Chile. A preservação da democracia no Paraguai
continuou, porém, a constituir a grande preocupação do Brasil. Pouco
depois de contornada a crise, Fernando Henrique Cardoso, em junho de
1996, visitou Assunção, com a intenção de reiterar o respaldo à
ordem constitucional, e no mesmo ano os presidentes dos quatro
países integrantes do Mercosul assinaram uma declaração, assumindo o
compromisso de consultarem-se e aplicarem medidas punitivas, dentro
do espaço normativo do bloco, em caso de ruptura ou ameaça de
ruptura da ordem democrática em algum estado membro.
A débil democracia instalada no
Paraguai, após a queda da ditadura do general Alfredo Stroessner, em
1989, continuou, porém, sob a ameaça de colapso, ao intensificar-se
a luta pelo poder dentro do próprio Partido Colorado, que ainda
controlava mais de 80% do aparelho do Estado. Condenado a 10 anos de
prisão, por chefiar a rebelião militar de 1996, o general Lino
Oviedo não pôde concorrer à sucessão do presidente Juan Carlos
Wasmosy, mas Raúl Cubas, que o substituiu como candidato do Partido
Colorado, venceu a eleição, com o slogan “Cubas no governo e Oviedo
no poder”, e concedeu-lhe indulto, cinco dias depois de assumir o
governo, em agosto de 1998. O assassinato de Luís Carlos Argaña, o
principal adversário do presidente Raúl Cubas, que se opusera à
libertação de Oviedo, desencadeou a grave crise política, em meio de
choques de rua, e mais uma vez os chefes de governo do Brasil e da
Argentina tiveram de intervir, ameaçando isolar o Paraguai econômica
e politicamente e afastá-lo do Mercosul, de conformidade com a
cláusula democrática do Tratado de Assunção caso um golpe de estado
se consumasse. Essa advertência Raúl Cubas ouviu diretamente de
Fernando Henrique Cardoso, que o aconselhou a renunciar à
presidência, antes de que a crise se agravasse e produzisse a
ruptura da legalidade, e percebeu que não tinha condições de
resistir, dado que o Brasil absorvia cerca 30% das exportações dos
produtos paraguaios, como algodão e soja, e essa dependência chegava
a atingir 70%, considerando o total estimado de suas reexportações.
Assim, em 28 de março de 1999, véspera da decisão do Senado sobre o
impeachment, Cubas Grau renunciou à presidência do Paraguai e
asilou-se no Brasil, após Oviedo partir para a Argentina, onde o
presidente Carlos Ménem lhe deu refúgio. Entretanto, outro intento
de golpe ocorreu, na madrugada de 18 para 19 de maio de 2000, quando
integrantes do Primeiro Corpo do Exército, tendo como epicentro a
Primeira Divisão de Cavalaria, e de Polícia Nacional, promoveram a
Operación Aratirí (raio no idioma guarani), questionando a
legitimidade do presidente Luís González Macchi e invocando o
direito constitucional à rebelião. Os insurgentes, após ocupar as
instalações de alguns meios de comunicação, pretenderam dirigir-se
para o Congresso, porém a Marinha e a Força Aérea declararam-se
leais ao governo e sufocaram o levante, sem encontrar resistência.
A guerra civil na Colômbia constituía
outro foco de instabilidade, a preocupar o Brasil, devido,
sobretudo, à possibilidade de uma intervenção militar, efetuada ou
articulada pelos Estados Unidos. O Plano Colômbia, lançado pelo
presidente Bill Clinton um dia antes da Reunião dos Presidentes da
América do Sul, em Brasília, preocupou o governo brasileiro, uma vez
que equacionava o conflito exclusivamente em sua dimensão armada,
destinando mais de US$ 1,2 bilhão – cerca de 80% dos US$ 1,3 bilhão
prometidos pelos EUA – à compra de material bélico, inclusive
aviões, 30 helicópteros tipo Black Hawk e 33 tipo Huey,
pelo Exército colombiano, e apenas US$ 238 milhões à promoção dos
direitos humanos e ao reforço da democracia e do sistema judicial.
Ele fora concebido como uma estratégia de guerra, e tudo indicava
que os Estados Unidos repetiriam a tática usada em Kosovo,
bombardeando intensamente as regiões dominadas pelas Fuerzas Armadas
Revolucionarias de Colombia (FARC) e o Ejército de Libertación
Nacional (ELN), juntamente com a aspersão de agentes biológicos
sobre os cultivos de coca, dado que uma intervenção por terra nas
províncias de Caquetá, Putumayo, na Amazônia colombiana, custaria
muitas perdas de vida.
O Brasil temeu o impacto que a execução
do Plano Colômbia produziria sobre seu território, levando
guerrilheiros ou militares colombianos a invadi-lo, e receou que
fungos (Fusarium orysporum) ou outras armas químicas e
biológicas, eventualmente empregadas pelos Estados Unidos, para
destruir as plantações de coca, contaminassem os rios da Amazônia.
No seu entendimento, não se podia vincular a necessidade de combater
o negócio das drogas com o problema da insurgência, que era da
competência interna da Colômbia e devia ser politicamente resolvido,
embora esta posição não significasse simpatia por qualquer solução
tendente a ceder às FARC e ao ELN as zonas conquistadas, por
implicar uma renúncia do estado colombiano à soberania sobre seu
território. Entretanto, o governo brasileiro considerava que a via
militar, como os Estados Unidos propunham, não resolveria a crise e
recusou-se terminantemente a permitir a utilização de qualquer base
ou outras instalações militares em seu território para operações na
Colômbia.
A partir do final dos anos 90, as
relações do Brasil com a Venezuela, onde Hugo Chávez ascendera ao
governo, tenderam a estreitar-se cada vez mais. Na Cúpula das
América, em Quebec entre 20 e 22 de abril, Hugo Chávez alinhou-se
com Fernando Henrique Cardoso, nas críticas à ALCA, e compareceu à
reunião da Cúpula do Mercosul, realizada em Assunção, em 21 e 22 de
junho, quando formalizou o pedido para o ingresso da Venezuela no
Mercosul e, referindo que Fernando Henrique Cardoso dissera que a “ALCA
es opción y nuestro destino es el Mercosur”, endossou que “este
es nuestro destino, el sur, la Cruz del Sur”.
Nos primeiros anos da década de 2000, a situação agravou-se, no
entanto, em quase todos os países da América do Sul. O processo de
paz fracassou na Colômbia, onde os Estados Unidos aprofundaram sua
intervenção na luta contra as FARC, não propriamente para combater o
narcotráfico, mas, sobretudo, a fim de garantir o fluxo do petróleo,
que saía de lá e do Equador. E, em dezembro de 2001, a Argentina
entrou em colapso financeiro, bancarrota, em meio de dramática
convulsão social e crise política tão profunda que levou Fernando
Henrique Cardoso a advertir o presidente George W. Bush sobre o
perigo de uma ruptura institucional, caso o governo de Eduardo
Duhalde não recebesse ajuda internacional. Também no Equador a
situação configurou-se instável e os indígenas, em fevereiro de
2002, anunciaram que realizariam novas manifestações de massa, em
Quito, contra as privatizações promovidas pelo governo de Gustavo
Noboa com o fito de protestar contra o não cumprimento do acordo que
pôs fim ao levante, no início de 2001.
A Venezuela, com a
qual o Brasil tratava de estreitar seu relacionamento, começou a
enfrentar crescentes dificuldades políticas, fomentadas pela CIA,
DIA e outros agências dos Estados Unidos. De 11 para 12 de abril de
2002, na Venezuela. três generais prenderam o presidente Hugo
Chávez, levaram-no para o Forte Tiuna, e o general Lucas Rincón
Romero, chefe do Estado Maior do Exército da Venezuela, anunciou sua
renúncia à presidência da República. Pedro Carmona Estanca,
presidente da Fedecámaras, assumiu o governo da Venezuela, com o
apoio dos meios de comunicação e o respaldo não tanto encoberto da
administração do presidente americano George W. Bush,
que se dispunha a reconhecê-lo. E a fim de facilitar essa decisão,
dado que a Carta Democrática Interamericana condenava qualquer
ruptura da legalidade, Phillip Chicola, funcionário do Departamento
de Estado, pediu, no dia 12, que a transição conservasse as formas
constitucionais, ou seja, que a Assembléia Nacional e a Corte
Suprema aprovassem a renúncia de Chávez
e novas eleições, com observadores da OEA, fossem convocadas para
dentro de um prazo razoável. A manobra, no entanto, fracassou.
Enquanto as camadas mais pobres da população, favoráveis a Chávez,
ocupavam as ruas de Caracas, saqueando as lojas, espraiando-se a
agitação pelas cidades de Guarenas, Los Teques, Coro e Maracay, a
brigada de pára-quedistas, comandada pelo general Raúl Baudel, bem
como outros regimentos sublevaram-se contra a presidência de
facto de Pedro Carmona.
Se não tinha condições internas de
sustentar-se, apenas respaldado pelas classes médias e altas, o
governo da coalizão empresarial-militar, emanado do golpe de 11/12
de abril, defrontou-se outrossim com enormes dificuldades externas
para o seu reconhecimento. O Grupo do Rio, que realizava em Costa
Rica a XVI Cimeira presidencial, reprovou prontamente a ruptura da
ordem constitucional na Venezuela e solicitou ao embaixador César
Gaviria, secretário-geral da OEA a convocação urgente do Conselho
Permanente, de acordo com o Art. 20 da Carta Democrática
Interamericana,
aprovada na sessão plenária de 11 de setembro de 2001, incorporando
a resolução AG/RES. 1080 (XXI-O/91).
A questão fora levantada primeiramente pelo Brasil e os embaixadores
na OEA aprovaram uma resolução, em que condenaram “a alteração da
ordem constitucional na Venezuela”. Somente em face da atitude de
todos os demais estados da região, inclusive México e Canadá, de
repudiar o golpe contra o governo de Hugo Chávez, a delegação dos
EUA resignou-se a subscrever a moção da OEA. Mas só o fez no sábado,
13 de abril, quando as manifestações de massa haviam compelido
Carmona a renunciar e Chávez retornou ao poder.
União de Nações Sul-Americanas
A crise na Venezuela não cessou. E o
Brasil teve uma atuação ainda mais decisiva, visando a assegurar a
estabilidade na Venezuela, em dezembro de 2002, quando o governo de
Fernando Henrique Cardoso, com o endosso do presidente eleito Luiz
Inácio Lula da Silva, decidiu vender ao
governo do presidente Hugo Chávez um navio petroleiro com 82
milhões de litros de combustível para enfrentar o desabastecimento
provocado pela greve dos trabalhadores da Petróleo de Venezuela SA (PdVSA)
e evitar a sua desestabilização. Apesar das críticas, por parte da
oposição na Venezuela, à qual a iniciativa do Brasil desagradara, o
governo de Lula, logo que inaugurado, tentou intermediar uma solução
pacífica para a crise e enviou a Caracas o professor Marco Aurélio
Garcia, assessor de Assuntos Internacionais do Presidente. O
Brasil tinha investimentos na Venezuela, interesses econômicos,
políticos e estratégicos, e não podia permitir a desestabilização do
governo de Chávez, que fora eleito duas vezes e obtivera 60% dos
votos, conforme o presidente Lula salientou. E daí porque propôs a
formação de um grupo dos amigos da Venezuela (não só de Chávez) com
a participação dos Estados Unidos e da Espanha, coordenado pelo
secretário-geral da OEA, César Gaviria, com a finalidade de
intermediar uma solução pacífica, legal e constitucional para o
impasse que perdurava havia vários meses.
O presidente
Lula, desde o início do seu mandato, demonstrou que sua política
exterior trataria de robustecer a parceria estratégica com a
Venezuela e aprofundar os vínculos com a Argentina, seu principal
sócio no Mercosul, e que a integração da América do Sul era sua
prioridade número um. Ele compreendeu que a base econômica e não
exclusivamente política deveria lastrear a liderança do Brasil na
América do Sul e que ela exigia o aumento das trocas comerciais, no
contexto de um comércio regional mais equilibrado. O Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), sob a direção do
professor Carlos Lessa, desempenhou importante papel no adensamento
dessa política. Foi aberta uma linha de crédito para financiar a
venda ao mercado brasileiro de
máquinas, componentes e peças fabricadas no Mercosul, em
especial na Argentina, ao mesmo tempo em que se previa dar
tratamento semelhante aos do produto nacional nos financiamentos da
Finame bens de capital fabricados na Argentina, Uruguai e Paraguai.
O BNDES também aprovou um crédito de US$ 200 milhões para a
ampliação de um gasoduto na Argentina, com a construção e montagem
da tubulação, em um trecho de 508,85 quilômetros, expandindo a
capacidade de transporte de gás natural da Companhia de
Investimentos de Energia (Ciesa), ligada à filial da Petrobrás
(Petrobrás Energia S/A, ex-Perez Companc), através dos gasodutos
General San Martín e Neuba II, e ampliando a oferta de gás natural e
eletricidade na região da Grande Buenos Aires.
Igualmente com a Venezuela, considerada
um dos pilares da integração da América do Sul, o Brasil tratou de
aprofundar a parceria principalmente na área energética. A Petrobrás
e a PdVSA assinaram 15 acordo que incluíam, entre outros projetos, a
exploração de gás e extração de petróleo pesado, pela indústria
brasileira, na região do rio Orinoco, e a construção de uma nova
refinaria no Brasil, com investimento previsto de cerca de US$ 2
bilhões, com capacidade para produção diária entre 150.000 e
220.000. A entrada de Petrobrás na exploração de gás na Venezuela
rompeu o monopólio virtualmente exercido pelas empresas dos Estados
Unidos e da Europa e a Companhia Vale do Rio Doce projetou
constituir com a venezuelana Corpozulia uma empresa binacional, para
a exploração das reservas de carvão natural de Socuy, na Venezuela.
Durante sua visita a Caracas, Lula firmou com Chávez vinte acordos
de cooperação e investimentos, que incluíam a venda de 20 aviões
militares, modelo Tucano, e créditos para a construção do metrô da
cidade, bem como na área de defesa e vigilância da Amazônia, onde se
previu a possibilidade de realização de exercícios conjuntos dos
exércitos do Brasil e da Venezuela. “A solução para a economia da
Venezuela, do Brasil e de outros países da América do Sul não está
no Norte, além do oceano, mas na nossa integração” – disse Lula.
Esses entendimentos entre Brasília e Caracas causaram, decerto, a
inquietação de Washington, que tentava abusivamente isolar o governo
de Hugo Chávez, por não subordinar-se aos seus desígnios.
O presidente
Lula deu continuidade ao projeto de integração física e energética,
elaborado no governo de Fernando Henrique Cardoso, ampliando-o com a
participação do BNDES. Porém, explicitou e enfatizou ainda mais o
projeto de formação de uma Comunidade Sul-Americana de Nações,
criada na Terceira Reunião dos Presidentes da América do Sul,
em 8 de dezembro de 2004, na cidade de Cuzco (Peru), quando foi
assinada a Declaração de Cuzco pelos presidentes e representantes
dos 12 países da região, i. e., os quatro países do Mercosul
(Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), os cinco da Comunidade
Andina (Venezuela, Colômbia, Peru, Equador e Bolívia), bem como o
Chile, Suriname e Guiana. Na ocasião o presidente Lula anunciou a
construção da Rodovia Interoceânica, que o Brasil e o Peru estavam a
implementar. Era muito mais do que um projeto bilateral,. Interessa
a todos os países da região. E, segundo Lula declarou, mostra que a
Comunidade Sul-Americana de Nações, que estavam a inaugurar, não
era mero exercício de retórica, pois exprimia o empenho dos países
da região em superar as distâncias que ainda os separavam.
Essa obra, a Rodovia Interoceânica, com
1.100 quilômetros de extensão, ligando o estado do Acre aos portos
peruanos de Matarani, Ilo e Maratani, na região de Madre de Díos, no
sudeste peruano, visava a possibilitar que o Brasil alcançasse mais
facilmente os mercados da Ásia, através do Pacífico, e levar mais de
meio milhão de turistas ao sul do Peru, onde o império inca nasceu
e estão as ruínas de Machu Picchu. Ela fora orçada US$ 700 milhões,
US$ 417 milhões (60%), financiados pelo Brasil por meio do Proex
(Programa de Financiamento às Exportações, administrado pelo Banco
do Brasil), e pelo Peru (40%), com o apoio da Corporação Andina de
Fomento (CAF). Além da construção da construção da Rodovia
Interoceânica foram assinados mais 31 projetos de infra-estrutura
para a região, o que significava, em princípio, consolidar a agenda
estratégica da integração física e energética que, desde havia
alguns anos, estava sendo definida.
O chanceler Celso Amorim, em entrevista
à imprensa, ressaltou que a Comunidade Sul-Americana de Nações,
baseada inicialmente em uma área de livre comércio e em projetos de
infra-estrutura, iria reforçar a capacidade de negociação dos países
da região, aumentando seu poder de barganha vis-à-vis dos grandes
blocos econômicos, e admitiu a possibilidade de que ela viesse a
gerar um processo de integração semelhante ao da União Européia,
objetivo estratégico do Brasil. Este projeto, porém, defrontava-se
com uma situação bastante complicada em alguns países, como Equador,
Bolívia e Peru, onde a turbulência social e política não cessava,
além das incertezas no relacionamento entre a Colômbia, instigada
pelos Estados Unidos, e a Venezuela, e entre o Chile e a Bolívia,
cujo plano de exportar gás por território chileno havia gerado a
crise que terminou com a renúncia do presidente Gonzalo Sánchez de
Lozada (17/10/2003) e em face da qual o Brasil decidiu não
envolver-se, diretamente, como fizera no caso do golpe na Venezuela.
Essa conexão da Bolívia com o Chile não
convinha virtualmente à Petrobrás, que não apenas era a sua
maior compradora de gás, incorporando-o à matriz energética do
Brasil e aliviando o consumo de petróleo do parque industrial, como
também se dedicava à exploração, distribuição e comercialização do
petróleo, através de duas subsidiárias -
Empresa Boliviana de Refinamiento e Empresa Boliviana de
Distribución. Seus investimentos na Bolívia somavam cerca de
US$ 2 bilhões, entre 27 multinacionais
que lá atuavam, com um peso equivalente a cerca de 10% do PIB
boliviano. E o fracasso de Washington na tentativa de impedir a
queda de Sánchez de Lozada, seu protegido, permitiu ao Brasil
conquistar posição vital na região. Impedida a saída do combustível
para o oeste e congelado o projeto de construção do gasoduto, que
uniria Tarija ao Chile, as exportações da Bolívia deviam voltar-se
para o leste, através de um gasoduto de 3.150 quilômetros, traçado
pela Petrobrás desde Santa Cruz de la Sierra, com ramificações até
Canoas, no Rio Grande do Sul, e capacidade para transportar 24
milhões de metros cúbicos diários, dos quais cerca de 4 milhões eram
importados pela Argentina, onde a Petrobrás comprara a companhia
petrolífera Pérez Companc. Quando, porém, a crise voltou a
agravar-se, nos primeiros meses de 2005, o governo de Lula, temendo
que o presidente Carlos Mesa fosse deposto e ocorresse uma quebra
institucional, buscou intermediar o conflito entre o governo e Evo
Morales, líder do Movimiento al Socialismo, ao mesmo tempo em que
defendia os interesses da Petrobrás.
A vitória de Tabaré Vázquez, no Uruguai,
em 2004 tendeu a fortalecer a iniciativa para a consolidação da
Comunidade Sul-Americana de Nações. Os acordos no setor energético,
que os governos sul-americanos estavam a celebrar, cumpriam uma
função estratégica para o projeto de fortalecimento da integração
econômica e política no continente. Era previsto um acordo
energético com a Venezuela que permitirá ao Uruguai receber petróleo
a um preço mais barato, em parte pago através de uma linha especial
de crédito e o restante, com o fornecimento de carnes, lãs e
laticínios. O acordo de cooperação energética, firmado a 2 de março
de 2005, em Montevidéu, onde a PdVSA programava a abertura de um
escritório, tinha como objetivo fundamental fortalecer os mecanismos
de solidariedade, complementaridade e cooperação para dar respostas
aos problemas de ambas as nações, e se inseria no esforço de criação
da Comunidade Sul-Americana de Nações. Além dos acordos com o Brasil
e o Uruguai, a Venezuela já firmou convênios com empresas
petrolíferas do Paraguai e da Argentina. dando seqüência ao projeto
da Venezuela de estabelecer acordos estratégicos com os países do
Mercosul, e o presidente Chávez excogitava encorajar a formação de
uma empresa petrolífera dos Estados sul-americanos, a Petrosur.
Era de incertezas e conflitos
A Venezuela, a partir do final do
governo de Fernando Henrique Cardoso, passou a ocupar relevante
papel na política exterior do Brasil, não apenas servindo de
contrapeso para a Argentina como também conformando com ela o
triângulo estratégico, no processo de integração da América do Sul,
o estabelecimento de uma unidade econômica e política entre os
países da região, condição necessária e indispensável a uma inserção
equilibrada no cenário internacional. Entretanto, assim como a
Alemanha e a França constituíram a força propulsora da União
Européia, o Brasil e a Argentina, desde os primórdios, configuraram
os pilares básicos do Mercosul, o núcleo da Comunidade Sul-Americana
de Nações em construção. E a perspectiva era de que a Argentina
executasse uma política externa coerente, constante, uma política
externa de Estado, sem oscilar conforme os humores conjunturais, e
funcionasse como fator de aglutinação dos países
hispano-sulamericanos, o que ela teria condições de fazer, mas
somente respaldada e coligada com o Brasil, o que significava
unificar a América do Sul.
O Brasil estava a exercer a liderança em
uma era de incertezas, em uma região marcada por crescente
instabilidade econômica e política e tensões militares, devido em
larga medida à presença dos Estados Unidos, particularmente na
Colômbia, Equador e Bolívia. O Brasil não admitia que o Estado
colombiano se desintegrasse, com as FARC a controlar 40% do seu
território, mas se recusava a confundir o combate ao narcotráfico
com a repressão da insurgência, e via com desconfiança a presença
dos Estados Unidos nas repúblicas do Pacífico, na região da
Amazônia. Daí porque procurou evitar que degenerasse em conflito
militar o incidente diplomático entre a Colômbia e Venezuela, por
causa da violação de sua soberania com a captura ilegal,
possivelmente com o auxílio da CIA, de um dirigente das FARC em
Caracas. A política do Brasil vis-à-vis da Colômbia manteve a
mesma diretriz, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso,
consubstanciada no apoio ao processo de paz, que em verdade nunca
avançou, desde a presidência de Andrés Pastrana (1998-2001), defesa
da soberania nacional e repúdio à intervenção estrangeira nas
questões internas do país.
Outrossim o Brasil continuou a condenar
o embargo a que Cuba fora submetida pelos Estados Unidos, desde
1960, em meio de pressões e ameaças contra o regime de Fidel Castro.
O presidente Lula, no entanto, visitou Havana, em 2003, onde assinou
12 acordos de cooperação, inclusive para a exploração de Petróleo
pela Petrobrás, e rejeitou as pressões internacionais para que
intercedesse pela liberdade de presos políticos em Cuba. “Não é boa
política um chefe de Estado se meter em assuntos internos de outro
país. Vou tratar dos interesses do Brasil. Não vou dar palpite em
política interna de outro país”, afirmou Lula no México.
Posteriormente, ele apelou para que Castro entendesse que o
“Brasil pode ajudar a construir o processo democrático em Cuba”, e
reiterou a condenação do embargo imposto há mais de 40 anos pelos
Estados Unidos, dizendo: “Temos muito a fazer pela democracia em
Cuba. Temos que ajudar na luta contra o embargo (econômico imposto
pelos norte-americanos há quatro décadas). O Brasil tem uma chance
de ajudar a dar normalidade nas relações de Cuba.”
A questão do regime político em Cuba era o que mais dificultava sua
aproximação, conforme desejada por Fidel Castro, devido à “cláusula
democrática”.
Embora contrariasse a tradicional
política exterior de não envolver-se militarmente em questões no
Caribe e na América Central, tradição esta quebrada apenas quando o
presidente, general Humberto Castelo Branco, também enviou tropa
para Santo Domingo, em 1965, o governo de Lula decidiu despachar um
contingente de 1.100 soldados para o Haiti, também como força
internacional de paz (integrada por americanos, franceses,
canadenses e dos países do Caribe), de acordo com resolução do
Conselho de Segurança da ONU, com a missão de estabilizar o país
após a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristides, com o velado
suporte dos Estados Unidos, segundo tudo indicou. Essa iniciativa
controvertida provocou fortes reações internas, da esquerda do PT,
da CUT e MST, por ferir o princípio de não-intervenção nos assuntos
internos de outros países, consolidado pela Constituição
brasileira. Segundo os críticos, o fato de o Haiti haver sofrido um
golpe de Estado, apoiado pelos Estados Unidos, tornava qualquer
tropa estrangeira no Haiti uma força de ocupação e não parte de uma
missão de paz da ONU.
Indagado sobre a razão de tal
iniciativa, o chanceler Celso Amorim explicou que o Haiti era um
país latino, com as mesmas raízes culturais do Brasil e não lhe
interessava vê-lo tornar-se um narco-Estado. O que o Brasil
procurou, no entanto, foi dar uma demonstração de que se dispunha a
exercer um proeminente papel internacional, pelo menos no âmbito do
hemisfério, e a vigorar sua posição de candidato a uma vaga
permanente no Conselho de Segurança da ONU. Esta questão, a
pretendida vaga no Conselho de Segurança da ONU, era que alimentava
um clima de desconfiança e fricções entre o Brasil e a Argentina,
reacendendo uma rivalidade residual que não fazia qualquer sentido.
Em primeiro lugar, não havia qualquer possibilidade imediata de uma
reforma da ONU, apesar de que fosse necessária, pois os cinco
membros permanentes, principalmente os Estados Unidos não se
dispunham certamente a dar o mesmo poder de veto a outros países. Em
segundo lugar, avaliando o peso específico, tanto econômico quanto
político e estratégico, se a América Latina viesse a ter dois
representantes no Conselho de Segurança da ONU, um seria,
forçosamente, o Brasil, dado o seu status de potência regional que
continuava a insistir na obtenção de uma vaga (prometida aliás pelo
presidente Franklin D. Roosevelt ao presidente Getúlio Vargas,
devido à sua participação na Segunda Guerra Mundial), com o objetivo
de denunciar o congelamento do poder mundial, sua estratificação,
favorecendo apenas cinco potências, que detinham capacidade nuclear.
A política
exterior do México era conflitante com a do Brasil, país com o qual
não mantinha um tratado de livre comércio. O México aceitara a
subordinação aos Estados Unidos e estava a concorrer para a
desarticulação política dos países do Terceiro Mundo nas negociações
econômicas multilaterais e regionais, e, reforçando as pressões
internas neoliberais, tratou de atraí-los para a órbita dos Estados
Unidos, temendo o isolamento do resto da América Latina. As
negociações sobre livre comércio ou acordos preferenciais bilaterais
com alguns países latino-americanos – como Colômbia e Venezuela,
para formar o então G-3 – e o amplo acordo México-Uruguai, sem
resultados comerciais mas que criou sérias dificuldades para o
Mercosul, foram parte de uma estratégia para preservar as
preferências comerciais que o México usufruía na ALADI, e amortecer
as reações à mudança radical na política externa mexicana e até para
abrir caminho para as futuras negociações da ALCA.
O exemplo do México possibilitou que outros governos
latino-americanos aceitassem a proposta dos Estados Unidos para
negociar a criação da ALCA. No entanto, como o embaixador Samuel
Pinheiro Guimarães salientou, “a posição geográfica especial do
México e o acesso (legal ou ilegal) de sua população ao mercado de
trabalho dos Estados Unidos, com as conseqüentes remessas de
dinheiro dos imigrantes, não são válidas para outros países
latino-americanos”.
O mesmo se podia dizer com respeito aos demais países da América
Central e do Caribe, todos dependentes dos Estados Unidos,
particularmente das remessas de dólares, feitas pelos seus nacionais
que para lá emigraram. Em tais circunstâncias, não fazia o menor
sentido pensar na unidade de uma América Latina, separada não apenas
pelo Canal do Panamá, mas dividida efetivamente por interesses e
vínculos econômicos e fatores geopolíticos conflitantes..
O que ao Brasil convinha, assim
como à Argentina, era conduzir, de maneira realista, a consolidação
do Mercosul e a formação da Comunidade Sul-Americana de Nações como
um sistema econômico e político unificado, dentro de um sistema
mundial, fortemente competitivo e violento, em que os Estados Unidos
tratavam de concentrar e congelar o poder mundial. O processo de
globalização sempre significou o crescente domínio das
mega-corporações americanas, o esforço de modelar um novo tipo de
Império, com a transformação dos exércitos dos países
neo-colonizados em forças de polícia, para defender os interesses do
capital financeiro e a dolarização de suas economias. Não obstante,
o sistema mundial tendia a evoluir para a multipolaridade, apesar da
preeminência conjuntural dos Estados Unidos. E nem o Brasil nem a
Argentina deviam considerar essa preeminência como definitiva e
aceitar o destino de províncias avançadas do grande Império. A
previsão do banco Goldman Sachs era a de que, por volta do ano 2025,
as economias do grupo conhecido como BRIC (Brasil, Rússia, Índia e
China, juntas, representariam mais de metade da economia do G6,
formado por Estados Unidos, Japão, Grã-Bretanha, França, Alemanha e
Itália, tendendo a suplantá-la até o ano 2050.
O Brasil, ao encorajar, na reunião de
Cuzco, o lançamento da União Sul-Americana de Nações, depois
denominada União de Nações Sul-americanas (UNASUL), teve um
objetivo estratégico, visando a tornar não propriamente a si
próprio, mas o conjunto dos países do sub-continente, uma potência
mundial, não só econômica, como também política. Sua dimensão
ultrapassava, de longe, o caráter meramente comercial. O Brasil não
abdicara do projeto de tornar-se potência mundial, porém,
compreendera que a consecução de tal objetivo passava pela sua
integração com a Argentina e, em uma segunda etapa, com todos os
demais países da América do Sul.
A união da Argentina e do Brasil não significava uma soma de dois
países, mas uma multiplicação de fatores, como certa vez o
presidente Arturo Frondizi (1958-1962) ressaltou.
E a união dos demais países da América do Sul com o Brasil e a
Argentina, em uma comunidade econômica e política,
conformaria uma grande potência, como
enorme peso no cenário mundial.
Tornava-se necessário, portanto, criar
um quadro institucional, um organismo mais amplo, para abarcar e
agregar todas as nações da América do Sul que não participam
plenamente del Mercosul, com o objetivo de promover a realização de
vários projetos de integração, não só econômica e comercial, mas
também de comunicação, infra-estrutura, transporte, energética,
educacional, cultural, científica e tecnológica. A celebração do
Tratado Constitutivo da União de Nações Sul-americanas (UNASUL) foi
um fato de grande significação histórica. A UNASUL passou a ter uma
personalidade jurídica, com a forma de uma organização
internacional, com um Conselho de Chefes de Estado e de Governo, um
Conselho de Ministros de Relações Exteriores e um Conselho de
Delegados. Constitui um avanço no sentido da coordenação de
políticas. E dentro desse marco institucional deve concretizar-se o
projeto do Banco do Sul e do gasoduto desde Venezuela, passando pelo
Brasil, até a Argentina. Dificuldades, divergências, contradições há
e sempre haverá, em virtude da enorme assimetria que existe entre os
países da América do Sul, principalmente entre o Brasil e seus
vizinhos. Não há, porém, qualquer perspectiva para os países
pequenos se não se unirem e formarem um amplo espaço econômico
comum, de modo a alcançarem melhor inserção nacional.
O Brasil constituiu, por si só, um
enorme espaço econômico, não obstante a assimetria existente entre
os 26 Estados que o compõem. Adquire um peso internacional maior.
Maior, porém, seria o peso da América do Sul integrada. Composta por
doze Estados, dentro de um espaço contíguo, possuía, em 2007, uma
população total de 360 milhões de habitantes, cerca de 67% de toda a
América Latina e o equivalente a 6% da população mundial
(6.706.993.152 – 2008 est.), com integração lingüística, pois imensa
maioria falava português ou espanhol, e detinha uma das maiores
reservas de água doce e biodiversidade do planeta, além de imensas
riquezas em recursos minerais, pesca e agricultura. E não apenas sua
população era maior que a dos Estados Unidos (303.027.571, est.
2008). Seu território, cerca de 17 milhões de quilômetros quadrados,
era o dobro do território americano, com 9.631.418 quilômetros
quadrados. Em tais circunstâncias, a União de Nações Sul-Americanas,
uma vez politicamente unificada, com um PIB da ordem US$ 3,5
trilhões (para o qual o Brasil concorria com US$ 1,849 trilhão (est.
007),
pode representar extraordinária força econômica e política, como
demonstrada em 2008 na crise desencadeada pela tentativa separatista
de Santa Cruz de la Sierra e demais departamentos da Media Luna da
Bolívia. Evidenciou-se assim sua capacidade de influenciar e obter
importantes resultados no sistema internacional, em que prevalecerão
os grandes blocos, constituídos pelos Estados Unidos, União
Européia, Rússia, China e Índia.
Texto para o seminário sobre “A política exterior do
Brasil em sua própria visão e na dos parceiros”.
Consulado-Geral do Brasil em Munique, 7 de novembro de 2008.
“Brazil saw
itself organizing Latin America while the United
States performed the same task in the North America, the two
enterprises to work in harmony through frequent exchanges
aimed at articulating a common set of purposes.”
Id., ibid., p. 159
Despacho nº 17, M. Maillefer a Drouyn de Lhuys, Montevidéu,
05.03.1854, in Revista Histórica nº 51, 449.
“Amerika
ist somit das Land der Zukunft, in welchem sich in vor uns
liegenden Zeiten, etwa im Streite von Nord- und Südamerika,
die weltgeschichtliche Wichtigkeit offenbaren soll”. Hegel,
Band I, 1994, p.208.
Chevalier, Michel. Lettres sur l'Amérique du Nord.
Librairie de Charles Gosselin et Cie, 1837.
2 vol.
Em abril de 1998, os quatro estados do Mercosul celebraram
os estados da Comunidade Andina de Nações (CAN) um
acordo-quadro que previa a criação de uma zona de livre
comércio entre os dois blocos a partir de janeiro de 2000. O
intercâmbio com o CAN, no ano 2000, alcançou um montante da
ordem de US$ 5,5 milhões, 29% maior do que em 1999, sendo os
fluxos de comércio mais importantes os registrados entre
Brasil e Venezuela e Brasil e Colômbia.
Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Brasília.
El Universal,
Caracas, 08.0, 2002.
Wayne Madsen, antigo agente do serviço de inteligência da
marinha norte-americana, revelou ao jornal inglês The
Guardian que, desde junho de 2001, os EUA estavam a
considerar a possibilidade de derrubar Chávez, e seus
navios, estacionados no Caribe, entre 11 e 12 de abril, não
apenas intervieram nas comunicações das embaixadas de Cuba,
Líbia, Irã e Iraque, como permaneceram em estado de alerta,
com o objetivo de evacuar os cidadãos americanos, se
necessário.
Campbell, Duncan – “American navy 'helped Venezuelan coup'”,
The Guardian, Londres, 29.04.2002.
O presidente Hugo Chávez revelou a uma
comitiva de deputados brasileiros, chefiada pelo deputado
Aldo Rebelo (PCdoB/SP), presidente da Comissão de Relações
Exteriores da Câmara, que o governo venezuelano tem
registros da presença de oficiais do exercito americano no
Forte Tiúna no dia do golpe. ''Ele tem tudo anotado, a que
horas os adidos militares americanos saíram dos quartéis e a
que horas chegaram ao forte'', disse o deputado Aldo Rebelo.
“Chávez volta a acusar EUA” , Jornal do Brasil, Rio
de Janeiro, 01.05.2002.
Na mesma sexta-feira, 12 de abril, os advogados do
Departamento de Estado, estudando a constituição da
Venezuela, notaram que a renúncia do presidente da República
não era válida até que fosse aceita pela Assembléia
Nacional, que tinha o poder de instalar um novo chefe de
governo.
O Art. 20 da Carta Democrática Interamericana dispõe que,
“caso num Estado membro ocorra uma alteração da ordem
constitucional que afete gravemente sua ordem democrática,
qualquer Estado membro ou o Secretário-Geral poderá
solicitar a convocação imediata do Conselho Permanente para
realizar uma avaliação coletiva da situação e adotar as
decisões que julgar conveniente”.
Consejo Permanente de la Organización de los Estados
Americanos, Acta de la Sesión Extraordinaria celebrada el 21
de Enero de 2000. A
OEA, mediante a resolução AG/RES. 1080 (XXI-O/91),
estabelecera um mecanismo para ajudar a restabelecer a
democracia representativa onde ela sofresse uma interrupção.
Essa resolução foi aprovada na quinta sessão plenária da
OEA, ocorrida em 5 de junho de 1991.
Marquis, Christopher – “U.S. Cautioned Leader of Plot
Against Chávez”
, The New York Times, 17.04.2002
Os presidentes, Néstor Kirchner, da Argentina; Lucio
Gutiérrez Equador; Nicanor Duarte, Paraguai; e Jorge Batlle,
do Uruguai, não participaram da reunião por diversos
motivos, mas deixaram claro seu apoio à decisão.
Fraga, Plínio. “Não vou palpitar na política de Cuba, diz
Lula. Folha de São Paulo, 26/09/2003
Gielow, Igor Lula diz que ajudará Cuba a ter democracia.
Folha de S. Paulo,
09/04/2005
Guimarães, Samuel Pinheiro. “O papel político internacional
do Mercosul”. 12 de julho de 2004.
The Goldman Sachs Group, Inc – Global Economics Paper No.
99: Dreaming with BRICs: The Path to 2050
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