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ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
Professor do Mestrado em Educação
nas Ciências da UNIJUÍ - RS e da Universidade Johannes Kepler de
Linz (Áustria). Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela
Universidade de Osnabrück (Alemanha)

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Os liberais e a fragilidade do capitalismo
Antônio Inácio Andrioli
Com
a crise do mercado financeiro, surpreendentemente, economistas e
jornalistas liberais passaram a defender a interferência do Estado
na economia capitalista. Contraditoriamente ao seu discurso
clássico, marcado pela apologia do livre mercado como único
regulador da economia, os liberais defendem a ajuda financeira do
Estado aos bancos e empresas em estado falimentar. Teriam os
liberais revisto suas teorias, analisado seus equívocos e modificado
suas posições? Trata-se de uma crise do capitalismo ou do
liberalismo?
Até bem pouco tempo, sequer a palavra
“capitalismo” era mencionada no discurso político dominante no
mundo. Parecia que estávamos vivendo em uma sociedade em que a
desigualdade, a pobreza, a exclusão social e a destruição ambiental,
quando consideradas, eram geralmente analisadas como sendo
decorrentes da ação de indivíduos, sem que uma lógica estrutural
conduzisse os seres humanos a agir de determinada forma. Inclusive,
em tempos de crise, muitos intelectuais continuam moralizando
a economia, procurando os culpados: os assim considerados “maus
capitalistas”, “maus banqueiros” e “maus investidores”.
Mesmo com uma vasta disponibilidade de
indícios empíricos e de acúmulo teórico de análise crítica das
forças destrutivas do capitalismo, o discurso hegemônico continuava
confundindo as causas com soluções. Por exemplo, diante das
constatações de que o livre mercado era responsável pela
generalização da crise capitalista em nível mundial, as soluções
apontadas sugeriam a ampliação do livre mercado, a privatização e a
interferência cada vez menor do Estado na economia.
Com o aprofundamento da crise e a
perspectiva de uma depressão econômica em nível internacional, agora
os liberais utilizam uma tática ideológica antiga: a
naturalização da economia. Na Idade Média, por exemplo, os
senhores feudais, reis, nobres e demais privilegiados podiam contar
com a crença divina para justificar a situação social gerada pelo
modo de produção hegemônico. Atualmente, os liberais, confrontados
com a negação empírica das suas teorias, tentam difundir um
inexorável determinismo natural combinado com doses de cetiscismo
para explicar seu fracasso teórico. O discurso dominante tende a
considerar que compreender a economia mundial, na complexidade como
ela se desenvolveu contemporaneamente, seria uma tarefa impossível.
Ou seja, a humanidade teria avançado muito em termos de ciências
naturais, de entendimento da astronomia, da física, da química e da
biologia, mas não teria condições de compreender os fenômenos
econômicos em nível internacional.
A tentativa de difundir uma noção de
incompreensibilidade da economia mundial, assim como a tentativa de
naturalizar os fenômenos econômicos, demonstra a perplexidade dos
liberais com os atuais acontecimentos. O comportamento não é novo:
ao invés de assumir que a “mão invisível do mercado” não funciona,
contraditoriamente, se nega o próprio discurso, afirmando a
necessidade de ação emergencial do Estado. Isto é, a negação
hipócrita procura minimizar o fato da atual retórica estar revelando
o fracasso prático da sua teoria.
Curiosamente, entretanto, a atual crise
econômica internacional não é a primeira da história e podemos
verificar enormes paralelos com as crises anteriores, tanto no
processo gerador da crise como na tentativa de sua explicação. A
primeira crise econômica mundial iniciou no dia 09 de maio de 1873
em Viena, atingiu Nova Yorque em seguida e, posteriormente,
Hamburgo, ampliando-se para os principais mercados capitalistas
daquela época. Se seguiram 5 anos de profunda depressão econômica. A
segunda crise econômica mundial, a mais conhecida, iniciou no dia 24
de outubro de 1929 e encerrou somente com o final da segunda Guerra
Mundial, com a vitória dos Estados Unidos e seu domínio sobre o
mercado mundial. Assim como em outros tempos, a maior economia
mundial passou a ser a maior potência militar, impondo seus
interesses, sua ideologia e sua linguagem de forma hegemônica
sobre os demais países.
O atual domínio estadounidense sobre o
mundo se justifica principalmente pelo seu poder militar
(especialmente através das armas nucleares) e a instituição do dólar
como moeda-padrão para a economia mundial. O longo período de
hegemonia dos EUA é marcado por guerras e destruição. O
keynesianismo e a construção do Estado de bem-estar social
contribuíram para estabelecer ciclos de crescimento econômico num
nível nunca antes visto na história da humanidade. Isso
serviu para evitar o surgimento de um contra-poder, iminente com a
existência de um bloco não-capitalista (soviético e chinês),
resultante de revoluções sociais no mesmo período. Mesmo assim, a
economia mundial ameaçava entrar em crise nos anos 1980.
Com o desmoronamento da União Soviética
e a queda do Muro de Berlim (1989-1990), cerca de 2 bilhões de
pessoas, que há mais de 50 anos estavam fora do alcance do
capitalismo, dispondo de ¼ dos recursos mundiais, passaram a
integrar o mercado capitalista, permitindo um novo ciclo de
expansão, caracterizado como globalização econômica. Esse ciclo de
acumulação está chegando ao seu final, deixando, mais uma vez,
explícitas duas características fundamentais do capitalismo como
modo de produção: a instabilidade e a insustentabilidade.
A economia capitalista é marcada por
crises contínuas, umas menores e outras de caráter mundial. Em tese,
portanto, podemos afirmar que não existe capitalismo sem crise
econômica. As crises cíclicas de superprodução são intrínsecas a
esse modo de produção, caracterizado pela separação entre capital e
trabalho. O crescente investimento em capital constante (prédios
máquinas, tecnologia, etc.), desproporcional ao investimento em
capital variável (trabalho vivo), conduz a uma tendencial queda da
taxa de lucros, pois somente o trabalho gera o valor e a mais valia
(fruto da exploração do tempo de trabalho). Diante disso, os
liberais procuram uma saída de sobrevivência ideológica, pois não
querem assumir que Marx tinha razão.
Os capitalistas, confrontados com essa
fatalidade, há muito tempo conhecida, tendem a investir em outros
setores da economia quando determinados investimentos passam a ser
considerados menos lucrativos. Assim, muitos investidores deixaram
de investir na produção, passando a alocar dinheiro no mercado
imobiliário, em bolsas de valores e em bancos. Contudo, “dinheiro
não gera dinheiro”. Para que o dinheiro possa valorizar é necessário
que ele seja investido na produção, de forma que seja possível se
apropriar do excedente de valor gerado pelo trabalho. Por isso, as
consequências negativas sobre o capital produtivo são enormes, pois
para suportar a carga do pagamento de juros e satisfazer a
expectativa dos acionistas, as indústrias, por exemplo, são
obrigadas a aumentar a mais-valia (a exploração do trabalho),
através de maiores jornadas de trabalho e menores salários. O efeito
final, entretanto, somente reforça o problema da crise de
superprodução: os menores salários e o desemprego diminuem o poder
de compra, desaquecendo a economia como um todo e estimulando os
acionistas a investir em outros setores. A crise gira em círculo e o
espiral depressivo somente tende a aumentar.
A expectativa de valorizar dinheiro
através do mercado financeiro e imobiliário é comparável a um jogo
de cassino, onde apenas alguns se apropriam de vantagens a curto
prazo, resultantes das perdas de outros. Com a ampliação do mercado
financeiro e a mundialização do capital, foi generalizada em nível
internacional uma espécie de cassino mundial, embora mantendo o
maior fluxo de capital entre os países capitalistas mais ricos. Para
que o mercado mundial de capitais pudesse crescer em tamanha
proporção, decisões políticas foram necessárias para permitir
equiparações e garantias mínimas aos investidores. A expectativa era
estimular o crescimento da economia através do fluxo de
investimentos que, segundo a crença dos liberais, seria regulado
pela “mão invisível do mercado”.
Atualmente estamos diante de mais um
fracasso histórico do liberalismo. Nunca o mercado havia sido tão
liberalizado e em escala internacional. As expectativas dos liberais
foram frustradas porque suas teorias partem de uma ilusão central: a
idéia de que o mercado seria uma força autoreguladora e que, em
função da concorrência, os recursos econômicos seriam alocados da
melhor maneira possível. Essa idealização do mercado como mecanismo
regulador segue uma lógica de pensamento que corrobora a circulação
e o aquecimento da especulação nas bolsas de valores.
Na realidade, entretanto, o mercado
funciona com base nas relações socias entre seres humanos que trocam
produtos. O mercado é regulado pela oferta e pela procura de
mercadorias, uma relação meramente quantitativa, que cumpre uma
função de mediação. Mas, assim como a mercadoria pode operar como
fetiche, o processo de troca de mercadorias produz e necessita de
ilusões para continuar funcionando. Na lógica do mercado, os
vendedores pressupõem que compradores pagam, em forma de dinheiro
(uma mercadoria comum que serve para trocar mercadorias), e os
compradores pagam porque internalizaram a idéia da troca. Com base
na mesma idéia, credores e devedores negociam, acionistas e
investidores aplicam dinheiro (mesmo quando este continua nos
bancos, sendo apenas uma expectativa, uma virtualidade, pois
trata-se de cifras, de transações bancárias sem o uso de
moeda-papel, de documentos que geram expectativa de pagamento).
Quando a virtualidade do mercado
idealizado foi confrontada com uma crescente impossibilidade real de
pagamento (por parte do assim chamado capitalismo real, dependente
da produção), as expectativas dos “apostadores” se reduziram a
riscos. O problema maior, para além das expectativas de ganho
frustradas (como eram virtuais não poderiam ser caracterizadas como
perdas, pois se baseavam meramente em apostas) dos assim chamados
investidores, é a incidência negativa do crédito sobre a produção
capitalista, gerando endividamento, falências e uma depressão
econômica real. Contudo, a origem do problema continua na produção
capitalista, tendencialmente geradora de crises de superprodução. A
crise financeira é sua decorência e apenas agrava a crise do
capitalismo “real”, surgindo em escala global quando a maioria dos
economistas liberais a menosprezava como distante, localizada e
passageira, ignorando seu potencial destrutivo.
As soluções apresentadas para sair da
crise confirmam o caráter ideológico do liberalismo. A atitude de
negação do próprio discurso em favor do livre mercado e a proposta
de “ajuda econômica” por parte do Estado demonstram claramente o
equívoco da concepção do mercado como alocador de recursos: o
mercado é um instrumento de poder que opera no sentido da
concentração de recursos econômicos, tendo como maiores
consequências negativas o desperdício (destruição do meio ambiente)
e a exclusão social (radicalização da desigualdade).
A força política da idéia de mercado se
manifesta na aceitação da premissa proposta: a necessidade de ajudar
o capitalismo a sair da crise. Em outras palavras, os prejuízos são
socializados (na forma de subsídios, ajuda financeira, isenção de
impostos) e os benefícios privatizados (os jogadores que perderam no
cassino, utilizando dinheiro de outros, recebem uma nova chance de
jogar, novamente com o dinheiro alheio). O Estado se endivida para
ajudar os responsáveis pela crise com dinheiro público e, com isso,
continua reduzindo investimentos em programas sociais e em projetos
de infra-estrutura. E, enquanto isso, a concentração de renda e de
capital continua.
É claro que, diante das evidências do
fracasso e da fragilidade do capitalismo, o Estado poderia estatizar
os bancos endividados, estabelecer regras para evitar crises futuras
e controlar o fluxo de capitais. Mas, pelo contrário, a solução
apresentada pelos liberais consiste em solicitar a ajuda do Estado
para ajudar o sistema a sair da crise e depois deixar o mercado como
regulador até que uma próxima crise se instaure. Essa é a função do
liberalismo, como teoria legitimadora do modo de produção
capitalista, conduzindo à aceitação das suas propostas por parte da
maioria da sociedade, que arca com o ônus da crise gerada em função
da concentração do capital. A evidência da fragilidade do
capitalismo e do fracasso teórico do liberalismo, entretanto, não
conduzem, automaticamente, à sua superação, pois os interesses que
os fundamentam são mais importantes e se situam acima dos
argumentos. Mesmo assumindo a contradição no seu discurso, os
liberais não extraem dela todas as conseqüências, porque o interesse
maior permanece na continuidade da produção capitalista, a razão da
existência do liberalismo como teoria. O “rei está nú”, mas a crença
ilusória no Deus que o instituiu continua lhe servindo de
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