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RUDÁ RICCI
Sociólogo,
Mestre em Ciência Política e Doutor em Ciências Sociais.
Coordenador do

Instituto
Cultiva e membro da Executiva Nacional do Fórum Brasil
do Orçamento. Membro do Observatório Internacional da Democracia
Participativa

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Tutela do Voto em 2008
Rudá Ricci
A campanha eleitoral de Belo Horizonte
neste ano é emblemática e revela uma das possibilidades da sinuosa
história política de nosso país. Trata-se da possibilidade da tutela
do voto a partir da via democrática.
O primeiro fator que possibilita a
tutela, na democracia, é o sistema partidário concentrado, restrito,
ou controlado por uma hegemonia partidária nítida. Esta situação vem
se desenhando no Brasil desde o início do século XXI.
Nas eleições municipais deste ano, o
PMDB obteve um total de 17,8 milhões de votos no primeiro turno,
seguido pelo PT, com 16 milhões. O PSDB veio logo em seguida, com 14
milhões. DEM, PDT e PP giraram na casa dos 6 milhões, muito abaixo
do primeiro pelotão.
O PT elegeu ao menos 546 prefeitos, o
que representa crescimento de 33%, em relação ao total de eleitos em
2004 (411), e de 43% sobre o número atual de administrações do
partido (382). Com tal resultado, subiu da 6ª para a 4ª posição no
ranking do número de prefeituras por partido. Ainda na comparação
com 2004, apenas seis partidos cresceram quanto ao número de
prefeitos: PT, PCdoB, PSB, PV, PMDB e PDT. O PMDB manteve-se como
partido com mais prefeitos no Brasil, subindo de 1.057 para 1.200
(+14%). Na outra ponta da tabela, dos que encolheram de tamanho, se
encontram as três legendas que mais fazem oposição ao governo Lula:
DEM, PSDB e PPS.
O PPS perdeu 58% das prefeituras, caindo
de 306 para 130; enquanto o DEM foi reduzido de 790 para 497 (-37%)
e o PSDB de 871 para 784 (-10%).
PMDB, PT e PSDB concentram o sistema
partidário do Brasil, desde alguns anos. Seu poder político, de
definição da agenda nacional, agora se reproduz no enraizamento do
tecido municipal brasileiro. Em parte, pela política de coalizão
presidencialista implementada pelo governo Lula. Este é o segundo
fator para a tutela: a intencionalidade política para a concentração
do sistema de representação formal, partidário.
A influência de Lula no primeiro turno
das eleições deste ano foi relativa. Em alguns municípios
interioranos, Lula parece ter feito a diferença e sua imagem foi
disputada a tapa. Mas nas capitais esta influência foi muito baixa
ou irregular. Num partido cuja militância decaiu desde a primeira
vitória de Lula à Presidência, este fator também não parece ser
conclusivo. Mesmo porque, ficou evidente o papel de cabos eleitorais
pagos, clássicos da política nacional, segurando bandeiras num
"corredor polonês" sem qualquer originalidade, paramentados e
aguardando o próximo lanche.
Mas a influência de Lula no voto mais
interiorano, dos rincões do país, pode significar justamente o
enraizamento das políticas assistenciais de seu governo. Em outros
termos, nas capitais, o distanciamento da disputa partidária do
dia-a-dia, devido à própria dificuldade em se estabelecer laços
afetivos em grandes multidões. Mas nos pequenos municípios, a
relação política e os laços afetivos se justapõem com razoável
freqüência. E parece que aí a figura carismática e protetora
construída pelo lulismo se infiltrou no cotidiano do homem simples.
Mas o projeto lulista não se reduz à
figura ou perenização de Lula. Está focalizado na construção de um
grande pacto partidário, a coalizão presidencialista (ou um novo
“bloco no poder”, no antigo conceito de Poulantzas). O governador
Aécio Neves parece ter se tornado uma peça importante neste jogo de
xadrez. Daí que, em coletiva de imprensa recente, realizada em
Cuiabá (MT), afirmar que o Brasil precisa construir uma convergência
política nova, com propostas claras que o Brasil ainda não conseguiu
ver. A fala mais significativa foi:
Pode considerar uma utopia, mas
queria ver em 2010 uma disputa que não fosse entre esse ou
aquele partido, para não reeditarmos a radicalização de 1994,
1998 e das duas últimas eleições. Acho que poderíamos construir
algo extremamente novo, uma convergência nova, com propostas
claras que o Brasil não conseguiu ver ainda. Agora é um novo
momento, não devemos nós, do PSDB, encarnar o anti-Lula. Temos
que pensar no pós-Lula, o que podemos fazer de melhor.
Aproveitar as boas experiências de Fernando Henrique e as boas
de Lula e fazer melhor daqui para frente.
Esta é a senha para se compreender as
eleições em Belo Horizonte, que tiveram um candidato modelar (Márcio
Lacerda), recentemente filiado ao PSB, como uma peça secundária do
jogo eleitoral. Lacerda foi um candidato sem personalidade durante
toda campanha do primeiro turno porque interessava deixar claro que
os candidatos eram, de fato, o prefeito petista Fernando Pimentel e
o governador tucano Aécio Neves. Construiu-se, a partir daí, o
primeiro passo para o voto tutelado no Brasil, um tipo de
neo-clientelismo inovador.
O jogo se desenhou num tabuleiro
multifacetado em que Lacerda acenava para a aliança da campanha
presidencial tendo Aécio Neves e Ciro Gomes (Lacerda é, desde
sempre, braço direito do ex-ministro Ciro Gomes), mas também para a
candidatura de Pimentel ao governo do Estado. Uma troca de agrados
em que o eleitor foi sempre uma figura secundária.
Houve, no final da eleição, alguma
intuição do eleitor a respeito. Na última semana de campanha do
primeiro turno, o eleitor indeciso de Belo Horizonte somava um grupo
de 11% do total de eleitores. O surpreendente é que este segmento
envolvia uma parcela considerável dos eleitores entre 35 e 40 anos
de idade e aqueles acima de 50 anos. Um segmento social descrito
sociologicamente como cioso de sua autonomia. E resistia a votar em
alguém que não conhecia. Ao final, dirigiu seu voto para a
realização do segundo turno, como revela a tabela abaixo, construída
pela Fundação Perseu Abramo:
Tabela 01: Evolução de voto
estimulada para prefeito de Belo Horizonte (2008, 1º turno)

A tabela revela uma tendência
interessante: a partir de 10 de setembro (pouco menos de um mês
antes das eleições) começava a evolução da intenção de votos em
Leonardo Quintão (PMDB, oposição ao candidato da aliança PT-PSDB),
crescendo 6% nas duas semanas seguintes. A partir de 30 de setembro,
cresce 12 pontos na intenção de votos. Já Márcio Lacerda evolui de
40% para 45% até 30 de setembro. A partir daí, cai 8% até o dia da
eleição, sendo que o momento de maior queda ocorre justamente no
último dia de campanha.
Embora uma campanha eleitoral não seja
nem de longe conclusiva, fica a hipótese da tentativa de tutela nas
eleições de Belo Horizonte, fundada numa articulação partidária
hegemônica. Considerando esta hipótese, mesmo parcialmente rejeitada
pelo eleitor, avanço na reflexão teórica sobre este fenômeno que, em
outros termos, questiona a relação entre maioria mecânica e
democracia.
A tutela e a banalização do voto: a
tese de Luciano Canfora
No livro "Crítica da Retórica
Democrática" (Editora Estação Liberdade, 2007), o historiador
italiano Luciano Canfora reflete sobre o voto da maioria, a partir
do julgamento de Sócrates, quando se pergunta se a política é algo
que pode ser ensinado, assim como pintar ou tocar flauta. Relembra
Louis Blanc, que questionou se o direito é um algarismo. Segue em
frente, citando Gramsci, que relacionou maioria à opressão.
No segundo capítulo, o autor analisa a
"vitória" de Bush em novembro de 2000, que jogou no lixo o desejo da
maioria dos EUA (com farta citação, de Tocqueville a George Lewis,
para quem a democracia não era o forte dos norte-americanos).
O que Canfora parece destacar é o
caráter contraditório, não aparente, entre maioria e controle
social, tecnicamente possível na prática democrática moderna. Daí
ressaltar que democracia não significaria regime político fundado no
consenso
(...) visto que todos regimes
plebiscitários (o mais elegante dos quais foi certamente o de
Napoleão III) foram fundados no consenso. Por outro lado,
consenso é um conceito superficial, ainda que esteja na moda. O
essencial é compreender como o consenso é obtido, e a
distinção entre conquista e manipulação da opinião pública.
(idem, ibidem, p. 45).
A democracia seria, então, capaz de
conter as oligarquias na política? O eleitor não seria coagido a
escolher (o voto útil) a partir de opções pré-determinadas? Dito de
outra maneira: a marginalização gradativa das camadas menos
competitivas não redimensionaria sua representatividade e a própria
opção do cidadão?
Como dizia Gramsci: “o fato é que não é
absolutamente verdade que o número seja uma lei suprema, nem que o
peso da opinião de cada eleitor seja exatamente igual”.
O sufrágio universal vem consolidando,
desde o final do século XX, os partidos moderados de massa,
aumentando a área de convergência e construção de alianças de tipo
hegemônica, como presenciamos no Brasil. Um segundo fenômeno, citado
por Canfora, é o progressivo deslocamento da tomada de decisão para
fora das instâncias clássicas governamentais, construindo arenas de
negociação com o grande capital. Forja-se, ainda segundo Canfora, a
transferência de poder (do poder do eleitor) para sedes não
eletivas, mas profundamente técnicas.
Este seria o risco da primeira estocada
dos partidos hegemônicos para construção da tutela do voto, a partir
de Belo Horizonte. Daí nenhuma coincidência desta iniciativa com o
perfil profundamente técnico, racional e pouco carismático das
lideranças envolvidas (tanto Pimentel, quanto Aécio Neves ou Márcio
Lacerda). Há uma evidente identidade entre perfil e propósitos.
Um fenômeno político importantíssimo que
teve apenas um primeiro lance no jogo de xadrez político do país. Um
primeiro que, mesmo não se realizando neste ano, será sucedido por
outros daqui por diante.
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