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HENRIQUE RATTNER
Professor na Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa
LEAD Brasil e da
ABDL - Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

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Crise financeira ou do sistema?
Karl Marx e John Maynard Keynes mandam
lembranças
Henrique Rattner
O pânico que tomou conta do mercado
financeiro norte-americano contagiou em todos os países do mundo,
causando angústia e desespero a centenas de milhões de pessoas que
observam atônitos o derretimento de suas economias e, nos Estados
Unidos, a perda de seus lares.
O sistema financeiro mundial está
destroçado e leva a economia “real”, produtiva, a uma depressão
comparável apenas à da década dos anos vinte. Dos Estados Unidos, a
crise atravessou o Atlântico, atingindo os países da União Européia,
a Rússia e prossegue em sua onda avassaladora até a Índia e os
países do Extremo Oriente. Assusta não somente a extensão geográfica
do desastre, mas sobretudo seus profundos impactos no sistema
econômico. Devido a suas raízes nos mercados financeiros, a crise
penetra e perverte os negócios, as empresas e o precário equilíbrio
entre a oferta e demanda de bens e serviços.
A perda de liquidez de vários bancos
americanos, da maior seguradora do mundo e de duas grandes empresas
imobiliárias – Fany May e Freddy Mac – obrigou o Tesouro norte
americano a tentar estancar a crise do sistema, injetando um
“pacote” de 700 bilhões de dólares para acalmar a população e
restaurar a credibilidade dos bancos. Ademais, o Banco Central e os
governos dos países europeus baixaram as taxas de juros e abriram
seus cofres para socorrer as instituições financeiras falidas. Em
vão, pois a crise continua a se alastrar como um “Tsunami”, deixando
em seu rastro os destroços do até então orgulhoso “livre mercado”,
de joelhos, implorando pela ajuda do Estado. Caiu por terra a
doutrina do neoliberalismo e os arautos do “Fim da História” logo
após o desmoronamento da ex-União Soviética, emudeceram, perplexos e
confusos diante da extensão dos estragos.
A falta de crédito impacta as atividades
produtivas, causando desemprego e queda de consumo, o que, num
círculo vicioso retroalimentador, diminui ainda mais as atividades
produtivas, apesar da queda vertiginosa dos preços de petróleo e das
“commodities”.
Inevitavelmente e apesar das declarações
patéticas do presidente e do ministro da Fazenda do Brasil sobre a
imunidade do país frente à tormenta que assola o mundo, a crise
afeta os planos de crescimento do Brasil, que venderá menos a seus
parceiros comerciais e receberá menos pelos produtos exportados, já
que o real perde valor em relação ao dólar, afetando a balança
comercial e, em seguida, o balanço de pagamentos, o que reduzirá
rapidamente as reservas em moeda forte do país. Acrescentando a
diminuição drástica do crédito às empresas, o nível de atividades
econômicas tende a cair e assim, também, o nível de emprego e de
renda dos trabalhadores.
O “Keynesianismo” tardio, ou seja, a
expectativa generalizada para que o Estado venha a socorrer o
sistema financeiro em frangalhos, embora possa resultar em um alívio
passageiro dos efeitos da crise, não parece mais em condições de
assumir esse papel de “deus ex machina”, de salvador, como foi o
“New Deal” de Roosevelt, nos anos trinta do século passado.
Após trezentos anos, durante os quais o
Estado decidia, regulava, mandava e desmandava nos destinos dos
povos, ele perdeu sua força frente ao capital transnacional,
concentrado nas mãos de algumas centenas de conglomerados
industriais e financeiros que manipulam os mercados, especulam e
realizam suas operações via redes eletrônicas e satélites, muito
mais ágeis e eficientes do que a lenta burocracia das administrações
públicas. A doutrina neoliberal exigiu o “encolhimento” do Estado, a
privatização de suas empresas e a liberdade ilimitada para a
iniciativa privada, incluindo a especulação com o câmbio e os “novos
produtos”, os derivativos e fundos de investimento, que não tinham
lastro real para cobrir a expansão vertiginosa do sistema
financeiro.
O resultado dessa “liberdade” que
permitiu aos executivos das instituições financeiras falidas o
recebimento de prêmios no valor de centenas de milhões de dólares
pela eficiência com que souberam burlar a confiança da população e
apropriar se de verdadeiras fortunas bancadas, em última análise,
pelo contribuinte, está a exigir um procedimento jurídico que
sancione adequadamente esses atos de delinqüência.
Enganam se aqueles que procuram
minimizar os efeitos da crise financeira que varre o mundo. A tão
aclamada globalização da economia, tem derrubado as fronteiras
geográficas e políticas para que o capital possa realizar suas
operações financeiras em escala global por meio de tecnologias
modernas, multiplicando seus lucros de forma inédita na História. O
total do PMB – produto mundial bruto é estimado em 45 trilhões de
US$. Mas, a ciranda financeira, alavancada pela especulação, por
derivativos e outros produtos de criar “passivos” financeiros
atualmente circulando pelos mercados, ultrapassa 450 trilhões de US
dólares. Bastava o estouro da “bolha” do mercado imobiliário norte
americano para detonar uma reação em cadeia de quebras, falências e
inadimplências que arrastaram em seu séqüito todo o sistema
financeiro no mundo.
É ilusória a hipótese de que os estragos
ficarão restritos somente ao sistema bancário. Inevitavelmente, a
economia real, a produção e o emprego, o comércio exterior e as
taxas cambiais já estão sendo atingidos pela avalanche que pôs fim a
uma era delirante de desenvolvimento e “progresso” ilimitados.
A crise revela a face cruel do sistema
que causa a perda de empregos, casas, poupanças e esperanças de um
futuro melhor para a maioria da humanidade. Enquanto a onda de
especulação contribui para concentrar ainda mais riquezas nas mãos
de uma minoria ínfima, a metade da população mundial vive na pobreza
e um quinto subsiste com menos de 1 US$ por dia. As organizações
internacionais – FMI, B.M., BIRD, OMC se revelam inoperantes e
impotentes para estancar as perdas de centenas de bilhões de US$ das
diferentes economias nacionais. Os governos não se atrevem a apontar
os responsáveis pela calamidade e, permanecendo passivos, perdem a
credibilidade perante suas populações. Em vão, os chefes de Estado
lançam apelos à união e adoção de medidas de socorro ao sistema
financeiro, pelo menos nos espaços integrados como a União Européia,
a NAFTA, o Mercosul e outros – a crise é sistêmica e afeta a todos
com impacto redobrado. Nem o dólar, nem o euro, nem o yen e as
demais moedas das economias consideradas mais fortes têm dado sinais
de maior solidez. Bancos e instituições financeiras faliram e foram
adquiridos pelo Estado, para evitar uma corrida generalizada da
população para retirar suas poupanças, pelos governos da Grã
Bretanha e dos Estados Unidos, pondo fim ao mito de “livre empresa”,
do empresário inovador e da superioridade dos mercados, premidos
pela necessidade de intervenção salvadora do Estado, com profundas
implicações para as estruturas políticas e sociais nos anos
vindouros.
A problemática, contudo, transcende as
dimensões econômicas e financeiras e coloca a questão fundamental
sobre a natureza da sociedade e os padrões éticos que devem reger o
convívio social.
O fracasso do socialismo “real”, que foi
a primeira experiência histórica de construir um sistema político e
econômico alternativo ao capitalismo selvagem, não redime este de
suas mazelas, ou seja, a desigualdade gritante e a miséria de
centenas de milhões de pessoas, exploradas e alienadas, vítimas de
crises econômicas recorrentes e das duas hecatombes das guerras
mundiais, no século passado.
Por outro lado, o socialismo democrático
não pode ser a obra de uma minoria – o partido “revolucionário” que
se transforma em oligarquia autoritária, excluindo as massas da
participação nas decisões que afetem seu destino. As lições
extraídas da experiência fracassada da ex-URSS, de seus países
satélites e das tentativas tardias de repetir o exemplo nos países
do Extremo Oriente – Coréia do Norte, Camboja, Vietnã, e mesmo a
China, ensinam que um regime socialista não pode ser construído com
base na pobreza e escassez generalizada de bens e serviços, cuja
distribuição exigirá a formação de filas, as quais, para manter a
ordem e os privilégios dos governantes, apelarão ao aparelho de
segurança do Estado e de suas burocracias, opressores e
autoritários.
A inadequação da democracia formal e
representativa, incapaz de atender aos anseios e expectativas da
população, sobretudo da massa de carentes e marginalizados, leva à
formulação de propostas e experiências de organização da produção e
distribuição de bens e serviços mais compatíveis com a integração
social e participação comunitária, no exercício pleno da cidadania.
Foi a partir da organização crescente da
sociedade civil que o Fórum Social Mundial lançou o desafio que
reverberou por todos os continentes – “Um outro mundo é possível”.
Em lugar do Estado, ou melhor, dentro do
Estado, surge um poder alternativo – as milhões de organizações não
governamentais, por enquanto difusas, atomizadas e não conectadas
que representam um novo ator social, a sociedade civil que, desde o
fim do século XX, começou a despontar no cenário histórico como
poder alternativo. Seus membros recusam o papel de meros objetos
passivos do aparelho burocrático e autoritário, controlado pelas
elites econômicas e políticas. Aspiram a participar nas decisões em
um regime democrático, hoje dominado, usurpado em mãos de
oligarquias incrustadas no aparelho do Estado. A proposta
alternativa almeja uma democracia participativa, um regime de “accountability”,
de responsabilização daqueles que detém um mandato público e que
pode ser revogado quando os representantes eleitos se mostram
indignos do mandato popular.
Os padrões políticos e culturais
impostos e disseminados pelas elites dominantes, tanto no regime
neoliberal quanto no socialismo “real”, recusam os direitos de
cidadania efetiva aos pobres e discriminam os subalternos, aos quais
é vedado o acesso à representação pública.
Para superar o impasse em que se
encontra a sociedade neste limiar de século, postulamos a primazia
da cooperação em lugar da competição como valor fundamental do
convívio social. Na construção de uma nova ordem social mundial,
caberá ao Estado a função de orientar e coordenar as atividades
econômicas, enquanto a população procurará conquistar sua autonomia
e emancipação, até chegar à autogestão, com o pleno desenvolvimento
de suas potencialidades criativas. |
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