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PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil



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Dois tocquevilleanos brasileiros:
Hipólito da Costa e Oliveira Lima
Paulo Roberto de
Almeida
Reconstruindo o paradigma tocquevilleano
O nome do mais famoso sociólogo francês
de extração liberal, no sentido clássico desse conceito, já virou,
há muito tempo, um adjetivo, se não nos dicionários oficiais, pelo
menos no glossário da sociologia política. Seu significado pode ser
o de uma análise de um sistema político construída segundo uma visão
do mundo propriamente liberal, tal como reconhecido, no século XX,
por herdeiros espirituais da qualidade de Raymond Aron e François
Furet.
Podem, assim, ser chamados de tocquevilleanos todos aqueles que
empreendem um estudo abrangente de uma formação social e de um
sistema político tendo como parâmetros a centralidade do fenômeno da
liberdade e a essencialidade da auto-organização social, por
oposição a uma abordagem que tenha como eixo analítico a própria
organização do Estado e seu papel nos ordenamentos sociais
subseqüentes, o que, aliás, é próprio da formação histórica francesa
(com processos típicos de sua trajetória política e econômica, como
podem ser o colbertismo exacerbado, o “l’État c’est moi” e os
bonapartismos imperial e republicano, sem falar na incontinência
grevista e no domínio do próprio aparelho de Estado pela énarquie).
O mais curioso é que
a obra clássica de Alexis de Tocqueville – cujo nome completo era
Alexis Charles Henri Maurice Clérel de Tocqueville (1805–59) –,
De la démocratie en Amérique (dois volumes: 1835-40), deveria
ser, tão somente, um estudo do sistema penal americano, conduzido
segundo os requerimentos das investigações empíricas, quais sejam:
visita direta, questionários, relatório de viagem e síntese final.
Um estudo setorial converteu-se, por força do método analítico de
seu condutor, na mais famosa exposição de um sistema político em
formação, com as deficiências e qualidades próprias a todo
ordenamento embrionário, típicas de um work in progress, uma
democracia in fieri, como convém, aliás, a uma formação
social, a dos EUA, em constante renovação e aperfeiçoamento.
Tocqueville detectou, precisamente, que a democracia, nos EUA, não
se limitava à superestrutura: ela não era um simples regime político
– como na maior parte dos países, e como ainda tendemos a
interpretar nos sistemas pré-democráticos, como os latinos e
ibero-americanos em geral –, mas perpassava toda a estrutura social
e a própria mentalidade do atores políticos, que no caso dos EUA
eram (quase) todos os cidadãos (à exclusão, obviamente, dos
escravos, em sua época e durante muito tempo após).
Não se tratava de
uma forma de organização do Estado, mas de uma característica
essencial da própria sociedade americana, um mores social,
como corresponde, aliás, à velha tradição britânica da democracia de
aldeia, com seus juízes e xerifes diretamente eleitos pela
comunidade. Não era o Estado que era (ou não) democrático – e na
época de Tocqueville, como de certa forma muito tempo depois de sua
análise, o Estado americano era essencialmente oligárquico ou, mais
exatamente, plutocrático –, e sim a sociedade que era profundamente
democrática (como Tocqueville percebeu, vindo de uma nação de velhas
tradições aristocráticas e elitistas como a França). Isso ele
percebeu e deixou como o principal legado de seu estudo pouco lido e
menos ainda comentado entre os analistas de tradição marxista, que,
a despeito de referirem-se retoricamente à “infra-estrutura” das
forças produtivas, sempre tendem a privilegiar a superestrutura, ao
tratar da relação das classes sociais com o aparelho de Estado
(nisto seguindo o Marx do 18 Brumário e das Lutas de
Classe em França, ou o Lênin d’O Estado e a Revolução).
Um Tocqueville
avant la lettre: Hipólito da Costa e o nascimento dos EUA
Seja como for,
Alexis de Tocqueville é geralmente considerado como um dos
founding fathers da moderna ciência política, assim como dessa
vertente especial das ciências sociais (que usualmente adota o
método comparativo, mesmo se de forma inconsciente), voltada para o
estudo das formações nacionais, no seu caso o “americanismo”. Com
efeito, De la démocratie en Amérique tornou-se um clássico
praticamente desde a publicação de sua primeira parte, poucos anos
depois de sua viagem exploratória ao novo mundo (em 1831-32), a
ponto de suscitar as maiores expectativas quanto à divulgação da
segunda parte, cinco anos depois. Esse trabalho sobre os fundamentos
sociais da igualdade na jovem nação americana granjeou-lhe uma
reputação de primeira grandeza, não apenas em sua França natal (onde
ele logo galgou os degraus da Academia), mas igualmente nos países
anglo-saxônicos.
Poucos sabem, talvez, que uma geração
antes de Tocqueville, Hipólito José da Costa Pereira, muito antes de
se estabelecer na Inglaterra, fugindo da Inquisição portuguesa, e de
ali editar seu Correio Braziliense, viajou pela costa leste
dos Estados Unidos, tendo deixado um pouco conhecido Diário de
Minha Viagem para Filadélfia, 1798-1799, encontrado inédito na
Biblioteca de Évora por Alceu Amoroso Lima e publicado pela Academia
Brasileira de Letras em 1955.
Não se tratou, propriamente, de um estudo de especialista, uma vez
que o jovem (24 anos) português nascido na Colônia do Sacramento,
criado no território do Rio Grande do Sul e formado em Coimbra,
viajou a serviço do cortesão D. Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de
Linhares, futuro ministro dos Negócios Estrangeiros, tendo produzido
um relatório específico e detalhado sobre suas observações
agrícolas, industriais e botânicas nos Estados Unidos.
Tratou-se, contudo,
da primeira obra sobre os Estados Unidos escrita do ponto de vista
de um observador do Brasil, preocupado em trazer para a colônia
lusitana da América as espécies vegetais e animais e os
melhoramentos técnicos que julgava poder contribuírem para o
engrandecimento de sua pátria de fato. Não destinado à publicação,
mas sumamente adaptado ao formato do ensaísmo bem informado, seu
Diário poderia ser comparado, sem nenhum deslustro, a uma
espécie de Baedecker de alto vôo, um ensaio intelectual que
ainda hoje surpreende pela pertinência e acuidade das observações
sociológicas, bem como pela atualidade dos seus julgamentos
certeiros, a começar pelos hábitos e características da população,
pela proliferação de sua “indústria religiosa” e por uma certa
“rusticidade” de sua classe dirigente.
Ao partir para os
Estados Unidos, no final de 1798, Hipólito provavelmente não
pretendia se tornar jornalista, “profissão” que ele assumiu
involuntariamente mais tarde, ao lhe serem fechadas as
possibilidades de trabalho (e de vida) em Portugal. Mas ele tinha,
incontestavelmente, o dom da escrita. Na verdade, a missão nos
Estados Unidos comportava um caráter sobretudo técnico, mais do que
de prospecção de mercados ou de incentivo ao comércio. Tratava-se de
levantar os recursos naturais e apreciar os conhecimentos
científicos que a jovem nação independente da América do Norte
mobilizava em sua marcha ascensional para o progresso econômico.
Em outros termos, o
encargo comportava também aspectos que, hoje em dia, poderiam ser
equiparados à “espionagem industrial ou tecnológica”, numa etapa
histórica na qual os direitos de propriedade intelectual não
desfrutavam da mesma proteção absoluta como na atualidade. O futuro
“pai da imprensa” brasileira estava amplamente habilitado para
fazê-lo, uma vez que, ademais dos conhecimentos práticos aprendidos
em sua vida de fazenda no Rio Grande, ele tinha sido formado em
outras matérias que apenas filosofia e direito. Os estudos de
filosofia em Coimbra comportavam, precisamente, o ensino de
botânica, agricultura, zoologia, mineralogia, física, química e
mineralogia, artes e disciplinas nas quais também tinha se destacado
o futuro “pai da independência”, José Bonifácio, freqüentador das
academias européias.
As instruções de Coutinho eram no
sentido de se obter informações as mais detalhadas possíveis sobre
todos os progressos havidos na América do Norte nos terrenos das
artes práticas, das culturas agrícolas e dos ofícios ligados ao
fabrico e manufatura de bens em geral, complementando a missão pelo
encargo de recolher as espécimes e variedades de plantas e cultivos
que se pudessem aproveitar em Portugal e na colônia brasileira.
Atenção especial deveria ser dada ao cultivo do tabaco, então
concentrado em Maryland e na Virgínia, ao passo que no México,
ademais de observar as minas de ouro e prata, a instrução essencial
era a de lograr subtrair o inseto e a planta da cochonilha, iludindo
a vigilância rigorosa das alfândegas espanholas. De tudo, Hipólito
deveria mandar relatórios circunstanciados, o que ele obviamente fez
de maneira rigorosa, ao despachar notícias teóricas e comentários
práticos sobre tudo o que viu e ouviu em sua longa estada naquelas
partes, nos anos finais do século XVIII.
Paralelamente às
anotações que compunha para o seu relatório oficial, Hipólito
manteve, durante todo o período de estada na costa leste dos Estados
Unidos, um diário de viagem, no qual consignou suas observações
pessoais sobre os encontros, conversas e cenas assistidas durante os
quinze meses da missão. Nesse Diário de Minha Viagem para
Filadélfia, 1798-1799, Hipólito consignou suas conversas com
artesãos, cientistas e agricultores, ademais de um relato breve
sobre seus encontros fortuitos com o futuro, Thomas Jefferson, e com
o então presidente dos Estados Unidos, John Adams, cuja
informalidade e falta de protocolo surpreenderam um pouco o súdito
de uma monarquia absoluta, rigorosa com o cerimonial.
Seu “diário de
viagem” não é uma simples coleção de observações naturalistas e
agrícolas, pois que Hipólito tece considerações extensas sobre
questões econômicas e monetárias. Não deixou de notar a preferência
dos americanos pelo comércio, e o seu gosto acentuado pela
especulação, sendo o dinheiro um valor absoluto naquela sociedade.
Já naquela época, os bancos emprestavam facilmente, acima das posses
reais, animando os empreendimentos e facilitando as especulações
mercantis, muito embora no interior do país a falta de dinheiro
condenasse os produtores muitas vezes ao escambo. Ele observou,
também, as tendências a falências abruptas e a uma mobilidade
excepcional nos negócios, traços que ainda hoje marcam a modalidade
peculiar do capitalismo americano. Hipólito escreveu isto em seu
diário, em junho e julho de 1799:
Nos Estados
Unidos, os bancos dão mais dinheiro imaginário, fazem os
particulares empreenderem além das suas posses reais; eis porque
há tantas rôtas [falências] e quebras. (...) Uma prova da
pobreza das famílias nos Estados Unidos é a grande quantidade de
boardings e lodgings... quase todas as casas
admitem gente para morar e comer por uma certa paga; ora, isso
não aconteceria se eles tivessem dinheiro. (...) Outra prova da
pobreza desta terra é que as rendas [impostos] são pagas quase
todas em frutos [produtos]... (4 e 12 de junho de 1799). (...) O
juro ordinário é de 2 por 100 no mês, não é raro 3, e algumas
vezes mais. As gazetas de tantos de Julho se queixavam que os
usurários estragavam o comércio e arruinavam os negociantes
levando continuamente o juro de 5 por cento cada mês. (...)
Indubitavelmente, o comércio dos Estados Unidos é demasiado, não
sendo por nenhum modo proporcionado à agricultura e [à] produção
do país. [O] resultado é que eles têm desprezado a agricultura,
e empregado-se de tal modo ao comércio, que é a paixão
dominante; a especulação é o espírito público; o dinheiro é a
única virtude que ambicionam. (14 de julho de 1799)
Como se vê, nada de
muito novo em termos de funcionamento do sistema econômico,
particularmente no que toca a “infectious greed” (apud e
copyright Alan Greenspan) que não parece ter contaminado apenas
recentemente os executivos das empresas americanos.
Os Estados Unidos do
final do século XVIII estavam obviamente longe de se constituírem em
uma sociedade industrial e, de fato, eles se tornaram a primeira
potência econômica do planeta apenas no final do século XIX, quando
ultrapassaram o volume da produção industrial combinada da
Grã-Bretanha e da Alemanha. Naquela conjuntura, os fluxos de
comércio, as inovações técnicas e as finanças internacionais ainda
eram dominados pelos países mais avançados da Europa, mas o “modo
inventivo” americano já exibia todas as características sociais e
financeiras que converteriam o país de uma sociedade agrária em
potência industrial. Ainda que não descritas com tal estilo
“sociológico” em seu diário de viagem, essas características
empíricas da sociedade americana – mais do que qualquer teoria
econômica ou doutrina comercial, das quais os EUA continuariam,
aliás, sendo importadores líquidos pelo resto do século XIX – devem
ter impressionado a mente do jovem Hipólito, determinando muito de
suas reflexões pragmáticas posteriores sobre os problemas
econômicos, comerciais e monetários “brazilienses”.
Lido à distância de
mais de dois séculos, não tanto pela sua forma, mas pelo seu
conteúdo efetivo, o Diário de Viagem de Hipólito sustenta a
comparação com o bem mais cuidadosamente elaborado ensaio de
Tocqueville sobre os Estados Unidos, este, sim, feito para expor aos
franceses os contornos sociais e políticos do imenso laboratório
humano e social que então constituía a América do Norte. Justamente
por não pretender, primariamente, à divulgação, as anotações e
observações de Hipólito adquirem um caráter de ensaio sociológico
avant la lettre, possuindo todos os requisitos literários para
figurar como obra fundadora do americanismo brasileiro, e quiçá
universal. Seu diário é uma grande reportagem com desconcertantes
antecipações sobre a sociedade americana e que confirma, também por
antecipação, a densidade analítica e o gênio de “escrevinhador” do
futuro jornalista (aliás único) do Correio Braziliense.
Um Tocqueville
post factum: Oliveira Lima e a ascensão imperial dos EUA
O outro grande
observador dos Estados Unidos que também pode ser colocado dentro da
tradição tocquevilleana é, obviamente, o historiador Manoel de
Oliveira Lima, que ali morou como secretário de Legação no final do
século XIX, tendo produzido uma coleção de artigos depois reunidos
no livro Nos Estados Unidos, Impressões políticas e sociais
(Leipzig: Brockhaus,1899; atualmente em curso de reedição pelo
Senado Federal, 2008). Os ensaios de Oliveira Lima fornecem um
retrato fiel sobre a emergência econômica e geopolítica dos EUA
enquanto potência em construção.
Na verdade, ao
escrever sobre os Estados Unidos, Oliveira Lima estava, de fato,
pensando no Brasil, como ele mesmo revela já na introdução: “No
Brasil fala-se ou muito bem ou muito mal dos Estados Unidos.
Apontam-nos os seus admiradores como o único modelo a seguir..., o
melhor figurino a copiar nos mais ligeiros pormenores, sem cogitarem
da diferença dos meios, das respectivas tradições nacionais e dos
costumes de cada povo. Os seus detratores culpam-nos de todos os
crimes, desde a ambição devoradora de terras e de nacionalidades,
até a corrupção política e social mais desbragada.” O próprio
Oliveira Lima não escondia sua opinião: “À parte os exageros do
fanatismo, a verdade está incomparavelmente mais com os primeiros.”
Ele confessava, talvez com pouco senso crítico, que pretendia ver o
Brasil seguir o exemplo do “grande país americano... no ingente
progresso material, (...) no seu discernimento dos males da
demagogia, na tolerância, na paixão pelo estudo, na energia
individual, na vontade perseverante de atingir a perfeição.”
Foi Oliveira Lima
quem deu início aos exercícios comparativos da longa série de
reflexões críticas que os intelectuais brasileiros do século XX
efetuariam sobre as causas do baixo desenvolvimento nacional, no
confronto com a pujança dos EUA. Corrente, esta, que seria
continuada por figuras como Monteiro Lobato e que encontraria em
Bandeirantes e Pioneiros, de Vianna Moog, sua mais perfeita
expressão weberiana. Ele o fez a partir de sua atenta observação das
realidades americanas, colocando-as inclusive em comparação com o
que já conhecia do velho continente: “Na América do Norte
apoderou-se de mim, e a breve trecho converteu-se numa quase
obsessão, uma forte impressão do nosso atraso, que na Europa eu
nunca havia experimentado, acostumados como justamente andamos a
considerá-la um antiqüíssimo campo de experiências e de progressos.
Do outro lado do Atlântico, porém, num país de civilização tão
moderna quanto o Brasil, a comparação impõe-se irresistivelmente, em
nosso grave desabono...”.
Oliveira Lima
oferece, portanto, sua interpretação dos Estados Unidos. Mas a sua
visão é a do intelectual preocupado primariamente com o Brasil: “eu
apenas olhei para os Estados Unidos com olhos de brasileiro, a
saber, constantemente buscando o que de aproveitável para nós
poderia a meu ver resultar do exame e da confrontação”. Ele registra
sua “impressão de melancolia pelo muito que os Estados Unidos têm
alcançado, e pelo pouco que nós temos relativamente feito.” O
rotundo diplomata – que mais tarde seria chamado de Dom Quixote
Gordo por Gilberto Freyre – poderia, legitimamente, ser considerado
como o primeiro, ou mesmo como “o” founding father dos
americanistas brasileiros, não fosse pela precedência histórica do
“pai da imprensa brasileira”.
Exatamente um século
depois de Hipólito da Costa, como resultado de mais de três anos de
suas próprias observações e andanças, Oliveira Lima fixava nos
ensaios recolhidos neste livro suas impressões políticas e
sociais a respeito da extraordinária expansão então
experimentada pela já poderosa nação do Norte. Ao elaborar uma visão
própria sobre a pujança da potência norte-americana, ainda nos
tempos de Cleveland e McKinley, o historiador consolidou mais tarde
sua análise das razões do “sucesso” americano, comparativamente ao
“fracasso” das ex-colônias ibéricas, em outros escritos
sociológicos, a partir de visitas aos EUA, numa era de triunfalismo
rooseveltiano e wilsoniano. Assim foi que, uma década e meia após
seu primeiro exercício americanista, Oliveira Lima coletou a série
de lectures que ele proferiu em universidades dos Estados
Unidos no volume The Evolution of Brazil Compared with that of
Spain and Anglo-Saxon America (1914), publicado no Brasil como
América Latina e América Inglesa: a evolução Brasileira comparada
com a Anglo-Americana. Tratou-se, neste caso, de uma abordagem
essencialmente histórica, na qual ele não deixou de consignar
comentários de caráter sociológico sobre as diferentes vias de
desenvolvimento político, social e econômico seguidas nas diversas
partes do hemisfério, com a inevitável deferência às teorias
racialistas então em voga.
Em suas memórias,
Oliveira Lima lembraria que aprendeu bem mais sobre os EUA durante
os meses como lecturer em doze universidades americanas, em
1912, e nos seis meses nos quais ele foi professor em Harvard, em
1915 e 1916, do que nos três anos anteriores em Washington como
Secretário de Legação. Na então rarefeita bibliografia americana
sobre o Brasil e também brasileira sobre os Estados Unidos, Oliveira
Lima aparece como uma ponte intelectual entre os dois países,
exemplo, aliás, pouco replicado no decorrer do século XX. Ele
continuaria, mais tarde, suas reflexões histórico-sociológicas, ao
colaborar, desde a sua fundação, em 1918, com a Hispanic American
Historical Review, criada por historiadores da American
Historical Association dedicados ao estudo da América Latina.
Nas suas primeiras
“impressões” dos EUA, Oliveira Lima oferece análises pessoais sobre
diferentes aspectos da vida americana e da política externa daquele
país; mas os ensaios vêm sempre sustentados na bibliografia
disponível em sua época e em materiais oficiais do país. Os
problemas selecionados são os que ele acredita possam apresentar
relevância para o Brasil, como ele próprio explica na introdução:
“busco nos diferentes capítulos em que se divide o volume – o
problema negro, a imigração, a política externa, as virtudes
nacionais, a influência feminina, o catolicismo americano, o
figurino político – senão tratar, pelo menos apresentar as questões
que mais diretamente nos interessam ou nos dizem respeito, e cuja
solução ou aspecto nos Estados Unidos é capaz de oferecer-nos
ensinamento.”
Num dos ensaios
dessa sua obra, Oliveira Lima confirma, como Hipólito da Costa, que
o dinheiro está “impresso” em quase todas as dimensões da vida
americana e a fortuna preside a quase todos os destinos na vida
pública, inclusive ao hábito tão comum, desde sempre, de se nomear
embaixadores os colaboradores financeiros dos dois grandes partidos.
Naquele mesmo momento, o debate mais relevante nos EUA estava
voltado para a questão do padrão monetário, se monometálico, com
base no ouro, ou se bimetalista como queriam os populistas,
incorporando a prata, também. No mesmo trabalho (quinto capítulo do
livro), Oliveira Lima se refere à “obra clássica de Tocqueville”
(1835) sobre a democracia americana, não sem deixar de mencionar a
“infalível corrupção dos regimes populares”.
O capítulo VI, “O
figurino político”, oferece a Oliveira Lima a oportunidade de
colocar o sistema político americano como modelo para o brasileiro,
assim como o da Inglaterra o foi durante o período do
constitucionalismo monárquico. Por certo o padrão constitucional
republicano adotado no Brasil esposou basicamente os mesmos
princípios. Mas ele se apressa em lembrar que “Copiar uma
constituição é uma coisa, aplicá-la, porém, é outra.” Ele não deixou
de notar a crescente predominância do executivo, sobretudo a partir
da política de expansão territorial, com a incorporação do Havaí,
das Filipinas, de Cuba e de Porto Rico, transformando o presidente
numa espécie de “ditador constitucional” desses novos territórios.
No campo das relações exteriores, Oliveira Lima salientou que “o
Senado não se limita a aprovar ou rejeitar as convenções
[estrangeiras] celebradas pelo Executivo, como assumiu a faculdade
de emendá-las”, o que levanta problemas de diversas ordens para o
executivo.
Em paralelo com o
Brasil, Oliveira Lima registra que os políticos americanos “têm de
lisonjear humildemente e prestar conta dos seus atos à massa que os
elege e de vontade própria os conserva no poder, ao passo que os
nossos têm apenas que conchavar-se uns com outros e ninguém a quem
dar contas fora das suas agremiações” (hoje, talvez nem isso). Nem
por isso deixa de existir forte corrupção legislativa e
administrativa, ainda que medidas já tivessem sido adotadas para
coibi-las:
O Presidente
Cleveland pôs mais da metade dos lugares que antigamente o chefe
eleito da nação tinha ao seu dispor, na competitive list
ou lista dos lugares dados por concurso e cujas nomeações não
são dependentes de serviços partidários: foram assim subtraídos
à ganância dos politiqueiros quase todos os empregos nos
departamentos federais abaixo do chief clerk, e muitos
nas alfândegas, recebedorias da receita interna etc.
Ainda assim,
exemplos abundam de velhas práticas – até Cleveland, o presidente
“contava para a distribuição com nada menos do que 125.000 cargos
somando anualmente 60 milhões de dólares de vencimentos” –, que
talvez se tenham tornado permanentes:
Alguns funcionários há que por terem
revelado aptidão mais que a ordinária para o lugar ou por outras
razões mais discretas são nele mantidos. No serviço diplomático, por
exemplo, vemos o Sr. Denby, nomeado pelo Sr. Cleveland, atravessar
incólume a administração Harrison e ficar ministro na China durante
treze anos.
Oliveira Lima termina esse capítulo
relembrando as dramáticas diferenças educacionais entre o Brasil e
os EUA: o recenseamento de 1891 havia identificado uma população
total de 14,3 milhões de pessoas, das quais 12,2 eram rigorosamente
analfabetas. Nos EUA havia, segundo ele, 15,5 milhões de alunos de
escolas públicas, servidas por quase meio milhão de mestres, “sendo
até em alguns estados fornecidos grátis os livros de texto para as
aulas”. Os dados não estão no livro de Oliveira Lima, mas, à época
em que ele escrevia, a taxa de matrículas no ensino primário dos EUA
correspondia a quase 2 mil por 10.000 habitantes, ao passo que no
Brasil esta cifra alcançava, se tanto, 258 pessoas, tendo atingido a
proporção dos EUA apenas nos anos 1980, ou seja, quase um século
depois.
Oliveira Lima segue
a trajetória de expansão territorial e de projeção imperial dos EUA
no século XIX. Mas seu julgamento, mesmo numa era de novas
aquisições, tende a ser complacente:
Engana-se muito quem o lobrigar sempre á
espreita das ocasiões de aumentar o seu já tão considerável
território. As conquistas ultimamente realizadas, exceção feita de
Porto Rico que representa uma necessidade da defesa e uma condição
da supremacia no mar das Antilhas, foram mais impostas pelas
circunstancias do que intencionais. A política de extensão
territorial, hoje que as fronteiras se acham consolidadas, está
longe de encontrar unânimes defensores, principalmente entre as
classes cultivadas e diretivas – se assim as podemos qualificar
nesta vigorosa e ciosa democracia. O entusiasmo pela causa cubana
não escondia nem esconde gerais desejos de incorporação: foi em
grande parte uma característica expansão de americanismo, a
florescência das sementes de amor da liberdade humana que a guerra
gloriosa da Independência e o desenvolvimento muito mais glorioso da
União numa atmosfera de paz depositaram na alma nacional.
Ele reconhece, em
todo caso, que todas essas demonstrações de força tinham motivações
basicamente econômicas e comerciais: “Além da aplicação de certas
conquistas da civilização, como o arbitramento, o tratamento
generoso do inimigo vencido e outras, a obra da diplomacia americana
tem tendido toda para a liberdade da navegação e o fomento do
comércio, envidando seus esforços para a proteção das patentes de
invenção e marcas de fábrica, dos cabos submarinos, até da
propriedade literária...” Ele responde, em particular, às acusações
que nessa mesma época fazia Eduardo Prado – chamado de “panfletário
de grande talento” – ao novo gigante americano, recorrendo a um
jurista inglês para dizer que “Nenhuma nação mais do que os Estados
Unidos tem contribuído para modelar as tendências contemporâneas do
direito internacional.”
No que se refere à
doutrina Monroe, cabe em primeiro lugar registrar que Oliveira Lima
escrevia no auge do expansionismo territorial e imperial americano,
logo em seguida à guerra hispano-americana. A guerra transferiu,
digamos assim, a soberania de Cuba e das Filipinas da Espanha para
os EUA – mas antes do chamado “corolário Roosevelt” a essa doutrina,
este implicando um papel de “polícia” que os EUA se auto-atribuíam
no hemisfério, em face de possíveis ou reais intervenções européias.
Cabe também recordar que a primeira formulação da doutrina, mediante
mensagem enviada por Monroe ao Congresso, em 1823, estipulava
basicamente dois princípios: (a) que o continente americano não
deveria mais ser objeto de tentativas de recolonização por parte de
potências européias; (b) que qualquer tentativa nesse sentido seria
considerada pelos EUA como perigosa para sua própria paz e
segurança.
Oliveira Lima
considera que os EUA foram moderados na aplicação dessa doutrina –
embora apoiando o México, por exemplo, na questão da invasão
francesa –, não sem terem, eles mesmos, deixado de exercer pressão
sobre outros países da região sempre quando seus interesses
políticos (e, mais freqüentemente, econômicos) estivessem em causa.
A prova seria dada logo mais adiante pelo desmembramento da
Colômbia, no affair do canal do Panamá, bem como em
diferentes episódios de intervenção direta no Caribe e na América
Central, em total desprezo pela soberania dessas nações, casos
justamente consolidados no follow-up rooseveltiano à doutrina
Monroe. Em todo caso, os EUA não gostavam que as potências européias
fizessem no seu “quintal” aquilo que elas, e eles próprios, estavam
fazendo na China e em outras paragens da imensa periferia
subdesenvolvida e aberta à recolonização.
O que mais
interessava aos EUA, como registra com razão Oliveira Lima, era a
constituição de um espaço econômico integrado no hemisfério, ou pelo
menos uma vasta zona de livre comércio aberta aos seus interesses
mercantis. Daí a proposta, feita na primeira conferência
internacional americana de 1889 (na qual o Brasil começou sob a
monarquia e terminou já no regime republicano), de uma customs
union, contando inclusive com padrão monetário bimetalista – os
EUA só adeririam ao padrão ouro mais para o final do século – e
acordos abrangentes em outras áreas que não apenas a liberalização
comercial, entendimentos que não chegaram a termo, como, aliás, o da
Alca mais de um século depois, por oposição da Argentina e do
Brasil. Ele, de certa forma, lamenta pelo menos uma das frustrações
dessa malograda conferência:
Ficou sem resolução a questão de um
padrão monetário uniforme e de uma moeda comum. Os Estados Unidos
possuem de fato uma circulação metálica de base ouro (não falando da
fiduciária por ser resgatável em ouro) com a prata como auxiliar,
que foi definida e defendida no último pleito presidencial, no qual
a maioria da população pronunciou-se contra a livre cunhagem da
prata, metal dito essencialmente nacional. No México, pelo
contrário, a prata constitui o padrão legal. Em quase todos os
outros países americanos o excesso das emissões fiduciárias expulsou
todo o metal da circulação e produziu o desequilíbrio do câmbio. Em
tais condições tornava-se difícil a harmonia financeira, embora
teórica, entre as potências do continente.
Oliveira Lima tinha
plena consciência da natureza complexa desses arranjos e nunca
propugnou por uma aliança estreita com os EUA, em matéria econômica
ou em outras esferas. De resto, ele nunca foi um americanófilo, como
talvez possa ter sido Joaquim Nabuco, o que fica bem patente em suas
duas outras obras de “política externa” que ele escreveu naquela
conjuntura de ascensão imperial americana: Panamericanismo:
Monroe, Bolivar, Roosevelt (1907) e Cousas Diplomáticas
(1908). Diferente de Nabuco, que tendia a uma visão idealizada do
pan-americanismo, ele o considerava, efetivamente, como uma
“conquista pacífica do hemisfério em proveito da produção
americana”. A “reciprocidade comercial” prometida era ilusória.
Mas Oliveira Lima
não escondia suas simpatias pela grande potência em construção, de
que é testemunho este julgamento “acolhedor” sobre as conseqüências
imediatas da guerra contra a Espanha, da qual emergem engrandecidos
os EUA, reproduzindo, de certa forma, a trajetória conquistadora
européia:
Os seus resultados foram a inteira
destruição de duas esquadras espanholas, a cessão aos Estados Unidos
de quase todo o domínio colonial espanhol e a inauguração do
imperialismo norte-americano, que é a última conseqüência da
constante expansão territorial do país, da sua magnífica civilização
industrial e da necessidade em que se encontra de dar razão ao
excesso da sua produção agrícola e fabril, para a qual já não vai
sendo bastante o mercado nacional e que nos mercados europeus tem
que lutar com a concorrência doméstica das respectivas nações,
defendida pelo protecionismo de que os Estados Unidos foram os
primeiros a exagerar os rigores. Não procedem noutra intenção as
grandes nações da Europa disseminando seus agentes comerciais pelo
mundo inteiro e manifestando pela aquisição de colônias uma tão
cínica cobiça.
De certa forma, ele
antecipa a mudança, ou evolução gradual, do monroismo para uma
vertente mais afirmativa ou agressiva: os EUA “de há tempos que
davam mostras de sufocar dentro da couraça, agora apertada, forjada
pelo Presidente Monroe”. Sua antevisão – ele estava escrevendo em
1898 ou início de 1899 – é bastante clara: “Que o primitivo, ou
melhor, o verdadeiro monroismo deixaria de vigorar na sua acepção
limitada antes de surgir o século XX, tornara-se palpável”. Não era
ainda questão, nessa época, de construir um canal transoceânico no
Panamá, e sim na Nicarágua, projeto abandonado em vista das imensas
dificuldades materiais (mas já substituído por “estudos” na região
do atual Panamá). Ele também menciona o início dos conflitos
político-diplomáticos com o Japão, quando da anexação do Havaí pelos
EUA, ilhas nas quais viviam alguns milhares de japoneses. O
Congresso, sempre hesitante quanto a aumentar o número de soldados a
serem despachados para Cuba, Porto Rico, Havaí e Filipinas, aprovou,
em qualquer hipótese, a expansão da Marinha, considerada
“indispensável à expansão colonial dos Estados Unidos, proteção do
seu comércio, necessidades da sua defesa e exigências da sua
situação de potência de primeira ordem ou mais propriamente, na
expressão inglesa, de world power.” Ele também comenta, com
detalhes, as obras do então capitão Alfred Taher Mahan, o grande
estrategista do poder naval americano.
O capítulo X está
todo ele voltado para as relações do Brasil com os EUA, que ele
chama de “duas maiores potências do continente americano”. Ele
demonstra certa ironia em relação às nações hispano-americanas,
dizendo que “as nossas revoluções [isto é, do Brasil] são em média
decenais, as deles anuais”. Para as relações cordiais e amistosas
entretidas pelos dois gigantes hemisféricos contribuíram a “visita
de D. Pedro II à Exposição de Filadélfia em1876, o seu giro pela
União, as suas maneiras despretensiosas e afáveis, a sua
inteligência viva e curiosa, [que] produziram maior efeito do que
cem volumes de propaganda”. Durante a guerra contra a Espanha, pela
“independência” de Cuba, o Brasil teria sido, segundo a imprensa
americana”, um país “neutral but a firm friend”, da mesma
forma como já o tinha sido durante a guerra de Secessão. Como
registra sinceramente Oliveira Lima:
A liberdade do tráfico comercial foi
sempre, eles o confessam, o ponto sensível dos homens de Estado
americanos, e por causa dessa liberdade insistiram longamente os
Estados Unidos pela abertura do Amazonas e tributários à navegação
mercante estrangeira.
Oliveira Lima não
esconde os numerosos incidentes diplomáticos bilaterais que
permearam as relações no decorrer do século XIX, mas expressamente
se contrapõe ao antiamericanismo de Eduardo Prado, que ele considera
como dominado pela “cegueira partidária”: ele “faz da sua má vontade
aos Estados Unidos um dos artigos da profissão de fé monárquica no
Brasil.” Respondendo diretamente ao título do mais famoso panfleto
do publicista anti-americano, dizia Oliveira Lima que “à ilusão
americana é conveniente contrapor a realidade americana.”
Para Oliveira Lima,
“Não há coisa alguma que hoje divida o Brasil e os Estados Unidos.
Os seus interesses podem não ser todos os mesmos, mas não os há que
sejam opostos ou hostis.” Sua visão das relações é ao mesmo tempo
realista e condescendente com as diferenças estruturais:
É infinitamente menos provável que entre
o Brasil e os Estados Unidos surjam jamais verdadeiros conflitos. Na
própria diferença das respectivas condições econômicas encontra-se
uma das razões de tal situação. O Brasil é um país que procura
consumidores para a sua produção natural e agrícola; os Estados
Unidos um país que procura sobretudo colocar o excesso da sua
produção industrial. A maior parte do nosso café e da nossa
borracha, um pouco do nosso açúcar, um nada do nosso tabaco para
aqui vêm: para lá buscam eles mandar em maior escala o que nos
fornecem os países manufatureiros europeus, a Inglaterra, a França,
a Alemanha, e com que não podem competir nossas poucas indústrias.
Mais adiante, ele
diz que a relação é boa devido aos interesses dos próprios EUA: “Aos
Estados Unidos convém a nossa simpatia, que já lhes tem sido útil e
sem a qual eles correriam muito o risco de isolamento no continente
meridional.” Como modo de alcançar o Brasil o nível de
desenvolvimento dos EUA, Oliveira Lima preconiza, no mesmo espírito
de culto ao “homem branco” da época, uma “sã emigração européia”,
capaz de inculcar, nos países latino-americanos e mestiços como o
Brasil, a “prática das virtudes que explicam o poderio da raça
saxônica”. O exemplo do desenvolvimento americano deveria, segundo
ele, oferecer motivos de otimismo quanto ao futuro:
O exame, o estudo dos Estados Unidos
como comunidade laboriosa, ordeira e progressiva, ser-nos-á mais
proveitoso ainda do que sua amizade para habilitar-nos a realizar
por nós mesmos aquela evolução, para a qual nos negam competência, e
cumprir nosso destino, que é árduo pela imensidade da perspectiva,
mas poderá ser por isso tanto mais glorioso.
O último capítulo,
bastante longo, está voltado para a política colonial, de modo
genérico, mas americana em particular, partindo Oliveira Lima do
pressuposto de que o “mundo inteiro já está convencido de que os
Estados Unidos vão tornar-se uma grande potência colonial”. A
exemplo de Porto Rico e do Havaí, ele acreditava que “Cuba acabará
igualmente por ser anexada, quando a maioria dos Cubanos tiver
amplamente revelado sua incapacidade para a manutenção de um governo
autônomo e digno”.
Ele registra o
inevitável afastamento de uma política comercial mais liberal, em
troca do protecionismo alfandegário, sob a influência de lobbies
poderosos como o sugar trust:
O protecionismo nos Estados Unidos já
entrou demasiado na estrutura nacional para poder ser de todo
eliminado sem a maior dificuldade, pelo menos nos tempos mais
próximos. Os exageros atuais hão de porventura ser breve sanados,
especialmente se os aumentos de despesa causados pela política
colonial obrigarem os Poderes Públicos a recorrer a uma tarifa mais
baixa e portanto mais produtiva; os próprios democratas porém já
abandonaram o ideal do livre câmbio.
Tampouco importava
como e onde seria construído o canal transoceânico, à condição que
se ficasse sob a “proteção” do nascente império: “De qualquer forma
que se realize, o canal ligando o Atlântico ao Pacífico será
dominado pelos Estados Unidos, posto que dando a República penhor,
senão de sua neutralização, pelo menos da proteção devida aos
interesses dos neutros.” Independentemente dos custos das aventuras
imperiais e das hesitações do Congresso em sustentar certas
operações, os “partidários do imperialismo (...) proclamam que as
colônias retribuirão perfeitamente a metrópole pelos gastos
realizados”. Ele também constata uma realidade econômica
fin-de-siècle: “De há tempos começou-se a dar um fato novo nos
anais econômicos do mundo, a saber, a Europa está ficando devedora
da América”.
Nem tudo se passou
bem com as primeiras aventuras coloniais, ocorrendo algumas
improvisações, fruto da inexperiência prática, como a detinham os
europeus. Oliveira Lima transcreve a opinião de um periódico
americano:
Iniciamos nossa carreira colonial,
absolutamente sem experiência, sem sistema, sem o mecanismo
necessário para o governo colonial, e com um Congresso e condições
políticas que sugerem graves dúvidas sobre nossa competência para
administrar sabiamente.
Mais adiante ele se
corrige: “Não se pode contudo afirmar que os Estados Unidos não
contam experiência alguma de governo colonial. Este há praticamente
sido ensaiado nas porções do continente sucessivamente anexadas,
abrangendo aplicação e ausência de self government.” A
própria Inglaterra, inimiga ainda até a segunda década do século
XIX, poderia servir de exemplo: “A crescente amizade entre os
Estados Unidos e a Grã-Bretanha poderia aliás contribuir melhor do
que qualquer doutrina para experimentalmente ensinar aqueles o
melhor modo de governar colônias com mútua prosperidade, delas e da
metrópole.”
Oliveira Lima era
realista, ou circunspecto, quanto às vantagens da liberalização
comercial, que ele achava relativamente prematura para dar certo:
O free trade,
para o qual as colônias terão de influir e cuja introdução no
sistema econômico americano deveria ser gradual e paulatina para
não destruir bruscamente as condições existentes, só faria
afinal soçobrar as indústrias exóticas, sem base ou
probabilidade de vida independente. As indústrias com elementos
próprios inquestionavelmente vingariam. (...) O free trade,
se por um lado envolve a diminuição dos salários pela
concorrência feita a certas indústrias, auxilia por outro a
extensão do comércio e anima portanto as manufaturas, barateando
aliás a vida nos Estados Unidos com o aumento das permutas.
(...) O momento, devemos reconhecê-lo, não é favorável para
livre câmbio.
Cem anos antes do historiador britânico
Niall Ferguson – que, em seus livros Empire e Colossus,
recomenda aos EUA adotar a mesma postura imperial do Reino Unido –,
Oliveira Lima acolhe com simpatia essa emulação:
O Império
britânico é um modelo deveras [difícil] para recomendar-se
porquanto abrange formas variadas de governo colonial. (...)
Não podendo razoavelmente ficar aquém da autonomia, terão os
Estados Unidos, se converterem em anexação o seu protetorado, de
conceder a Cuba as franquias políticas quase soberanas de uma
Victoria [província canadense] ou de uma Nova Gales do Sul [na
Austrália]; ao passo que manterão justamente Porto Rico e Havaí
na situação de algumas dessas Crown
collonies...
O livro de Oliveira
Lima revela com perfeita verossimilhança como eram os EUA de um
século atrás e como eram construídas as explicações e rationales
que fundamentavam o “darwinismo” social e geopolítico, ou seja, a
supremacia do homem branco e natural dominação das sociedades
industriais, economicamente mais avançadas, sobre todas as demais.
Desse ponto de vista, o livro oferece um retrato perfeito do
imperialismo e do colonialismo em seu ponto mais alto de afirmação e
justificação.
No plano mais específico das comparações
que poderiam ser feitas com o caso do Brasil, a recomendação a ser
feita é que este livro seja lido em paralelo com as lectures
feitas por Oliveira Lima em universidades americanas mais de uma
década depois.
As razões do avanço americano e as do nosso atraso relativo já
estavam inseridas, por assim dizer, nas estruturas da colonização
desde vários séculos antes. Elas ainda não foram de todo superadas,
embora os quase dois séculos de independência política já nos tenham
permitido assumir plena responsabilidade por nossa trajetória e
modelo de desenvolvimento.
Oliveira Lima nos
ajuda a ver, embora com argumentos que hoje tendem a ser
desconsiderados como “politicamente incorretos”, os fatores
responsáveis por nosso lento desenvolvimento material e sobretudo
educacional. Vale a pena percorrer estas páginas e constatar o que
mudou e, em especial, o que não mudou, tanto nos EUA, como no Brasil
desde um século aproximadamente. As lições podem não ser todas
agradáveis, mas elas são certamente instrutivas...
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