A obra de Maurício
Tragtenberg – in memoriam
Antonio Ozaí da Silva
“Duas vezes se
morre:
Primeiro na carne, depois no
nome.
A carne desaparece, o nome
persiste mas
Esvaziando-se de seu casto
conteúdo
– Tantos gestos, palavras,
silêncios –
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou
de remorso?)
Que o nome querido já não nos
soa como os outros”.
Manuel Bandeira
Maurício
Tragtenberg (1929-1998) nos legou uma vasta obra que trata de temas
históricos, sociológicos, políticos, educacionais, etc. São livros e
artigos publicados em jornais de circulação nacional e revistas
especializadas.
É uma obra que expressa um compromisso militante e uma perspectiva
política crítica à sociedade capitalista e às concepções
autoritárias sobre o socialismo. Escritos em linguagem simples, são
textos de denúncia que estabelecem o diálogo com os operários e os
excluídos do sistema de ensino formal, em especial a universidade.
Representam uma contribuição importante à crítica da pedagogia
burocrática e à afirmação de uma alternativa pedagógica inspirada em
pensadores libertários.
Como escreve Tragtenberg, alguém que
influenciou a “mudança de paradigmas numa área” e fecundou “uma obra
como a de Fernando Prestes Motta, José Henrique Faria, na teoria
administrativa, Fernando Coutinho Garcia da UFMG, conseguiu seus
objetivos. Isto porque, segundo os clássicos chineses, influenciar é
ter poder” (TRAGTENBERG, Memorial, p.20).
Analisar a extensão e influência da sua
obra é, portanto, tarefa das mais difíceis – ainda mais se
considerarmos os limites inerentes ao perfil de um texto como este.
Neste artigo nos limitaremos a apresentar alguns aspectos. O
objetivo não é esgotar a análise, mas estimular a leitura dos seus
textos.
A primeira obra
O livro Planificação: desafio do
século XX, publicado em 1967, resulta da monografia apresentada
por Maurício Tragtenberg na Universidade de S. Paulo, a qual lhe deu
o direito de prestar o vestibular. Nesta obra, Tragtenberg analisa
as diversas concepções sobre o homem: a judaico-cristã, o homem da
polis grega, a naturalista – o homo faber. Ele se
apóia em autores que constituem um campo amplo e variado: de
filósofos como Nietzsche e Kant aos clássicos da literatura
(Dostoievski e Franz Kafka), passando por Max Weber e os clássicos
do marxismo (Marx, Engels, Lenin, Trotsky, Rosa Luxemburgo). Seu
estudo abrange as condições de surgimento do capitalismo ocidental,
a evolução da sociedade russa e as origens ao stalinismo. O livro
expressa o conjunto das leituras realizadas, de forma autodidata,
por vários anos. Por outro lado, demonstra a abertura de espírito à
absorção do conhecimento em suas diversas fontes.
O “testemunho de um amigo de muitos anos
e algumas vicissitudes comuns”, Antonio Candido, enfatiza o caráter
heterodoxo deste trabalho:
O livro que se vai ler foi escrito
com profundo empenho vital e intelectual, por um homem que vive
em profundidade os problemas da sociedade e do espírito. O
leitor verá a tentativa bem conduzida de caracterizar momentos
importantes na evolução do capitalismo e do espírito burguês e,
depois, nos embates que estes sofreram dos grandes movimentos
revolucionários do nosso tempo. Simultaneamente, verá o esforço
de reconhecer, na diversidade dos tempos e dos caminhos da
história, algumas constantes que permitem localizar o processo
desfechado na idéia e na prática da planificação econômica.
Com honestidade e heterodoxia, longe de dogmas e preconceitos, o
autor circula entre fatos históricos, sociais e econômicos com
uma formosa liberdade, manifestando a cada instante uma equação
pessoal que não se quer omitir e atua como presença fecundante.
Apesar de alguma obscuridade ocasional de expressão, saímos da
leitura mais capazes de compreender os temas abordados
(TRAGTENBERG, 1967, grifos nosso).
Este depoimento, a título de
apresentação da obra, proporciona a síntese dos temas tratados. Em
Planificação: desafio do século XX, Maurício analisa o
processo revolucionário russo, expondo as contradições e
vicissitudes. Sua crítica à burocratização da Revolução Russa
incorpora as análises de Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo, mas também
Max Weber e o pensamento libertário.
Ele não apresenta novidade ao analisar a
revolução russa sob este prisma crítico. Não obstante, sua posição
poderia ser outra: trotskista, stalinista, liberal ou direitista.
Talvez seja apressado defini-lo como libertário a partir deste texto
– e talvez nem seja o caso de procurar enquadrá-lo numa definição.
Vemos, contudo, que sua análise é profundamente simpática aos
anarquistas. Isto fica evidente na defesa dos marinheiros de
Kronstadt, contra a posição oficial do governo bolchevique. Ele
manterá essa postura até a morte.
Burocracia, ideologia e poder
A crítica à burocracia e ao poder
burocrático constituem aspectos fundamentais da obra de Maurício
Tragtenberg. Isto é evidente a partir da elaboração e publicação de
Burocracia e Ideologia (1974), que, sem dúvida, constitui um
marco na sua produção intelectual. Este trabalho é o resultado do
seu doutoramento. Apoiando-se em clássicos como Hegel, Karl Marx,
além de Max Weber, ele efetiva uma análise histórico-crítica das
formas de dominação burocráticas presentes tanto no modo de produção
asiático quanto na sociedade capitalista moderna e no estatismo
soviético. Desta maneira, Maurício dá continuidade às análises já
presentes em Planificação: desafios para o século XX,
particularmente a crítica à burocratização da Revolução Russa.
Em Burocracia e Ideologia,
Tragtenberg relata como as teorias administrativas assumem um
aspecto ideológico, possibilitando aos incautos tomá-las como se
fossem meras teorias explicativas da administração e da organização
racional dos processos produtivos. Destarte, elas são despidas de
sua natureza ideológica, enquanto expressão da dominação de classe.
Negadoras dos conflitos entre as classes sociais, e portanto da
necessidade de estabelecer formas de controle social nas unidades
produtivas e nas relações de assalariamento em geral, as teorias
administrativas, de Saint-Simon a Elton Mayo, são apresentadas como
harmonias administrativas. Assim, tais teorias se constituem
herdeiras do positivismo durkheimiano.
Tragtenberg desmistifica esta concepção.
O desvendamento das teorias administrativas enquanto ideologias
de harmonias, seja pela imposição hierárquica monocrática e/ou
por estratégias de manipulação, marca sua preocupação intelectual e
política em esmiuçar os mecanismos do poder e da opressão de classe.
A burocracia é despida do seu manto ideológico e surge em sua
realidade concreta, enquanto ideologia e poder de dominação
A crítica da co-gestão
Em Burocracia e Ideologia,
Tragtenberg analisa a emergência das teorias administrativas e sua
natureza intrinsecamente ideológica. Administração significa
controle burocrático do trabalho vivo. Este processo adquire formas
diferenciadas em contextos históricos diversos: despotismo
explícito, formas despóticas esclarecidas e participativas. É esta
última que Tragtenberg examina em Administração, Poder e
Ideologia.
Nesta obra Tragtenberg retoma a análise
da ideologia administrativa, enfatizando as grandes corporações
capitalistas. Após expor criticamente as teorias sobre as
corporações, ele passa a examinar “Alice no país das maravilhas”,
uma ironia insinuante às teorias participativas e de co-gestão. Ele
desvenda o mistério de Alice mostrando que o
participacionismo é uma sofisticada estratégia de manipulação e
controle. Para tanto, ele retoma o modelo administrativo das
“relações humanas”, cuja linguagem psicologizante e polida oculta os
verdadeiros objetivos.
No centro da análise de Tragtenberg está
a preocupação em desvendar as relações de poder. Em que medida as
práticas de co-gestão modificam estas relações? Qual o poder real
conferido aos trabalhadores? Tragtenberg argumenta que a co-gestão,
a exemplo da Escola de Relações Humanas, “é entendida
oficialmente como equilíbrio de poderes, tendo em vista o bom
funcionamento da empresa” (TRAGTENBERG, 1989a, p.42). A co-gestão
equivale essencialmente à participação nos lucros e pressupõe a
cooperação.
Tragtenberg conclui que, a exemplo das
demais teorias administrativas, o objetivo da co-gestão é garantir a
ordem e paz social, constituindo-se, portanto, em mais uma
manifestação das tentativas de alcançar a harmonia administrativa
no âmbito privado e estatal.
Atitude e pensar heterodoxos
Maurício Tragtenberg, em Burocracia e
Ideologia, explicita tanto um método de estudo e pesquisa quanto
uma postura metodológica. Podemos percebê-los no tratamento das
fontes, nas notas de referência e na diversidade dos autores,
normalmente adotados isoladamente nas Ciências Humanas.
O proceder metodológico não dogmático,
respeitoso e fundado na liberdade do intelecto, permite a
Tragtenberg reunir teorias conflitantes sem aprisioná-las nas grades
da ortodoxia, sem tratá-las como cânones acima da crítica. Desta
maneira, Tragtenberg afirma a formosa liberdade e a
heterodoxia como fundamento da sua atitude intelectual. Como Max
Weber, Maurício Tragtenberg recusa-se a fazer o sacrifício do
intelecto.
Eis o método de Maurício Tragtenberg:
não se deixar prender nas algemas visíveis e invisíveis das escolas
de pensamento. Ele se mantém aberto aos conhecimentos e se vale dos
meios que as Ciências põem à disposição. Sua obra não se presta a
maniqueísmos e dogmatismos. Tragtenberg é um daqueles indivíduos
difíceis de enquadrar em rótulos: os ismos que comumente
ouvimos e falamos no ambiente acadêmico e político não permitem
compreendê-lo.
Tragtenberg incorpora as contribuições
de Max Weber, superando-o; lê Marx, sem adotá-lo de maneira
canônica; apresenta-nos Bakunin sem transformá-lo em ícone. Revela
os limites do modelo sociológico weberiano, na medida em que se
fundamenta e tem como referência a conduta individual, mas reconhece
sua contribuição para a compreensão da burocracia e, especialmente,
dos fatores referentes à superestrutura da formação social
capitalista (a explicação da influência da ética protestante, a
sociologia da religião, etc.). Em Karl Marx, ele enfatiza a análise
do funcionamento da sociedade capitalista, dos aspectos que
constituem a estrutura econômica, as relações de produção.
Eis a atitude intelectual de
Tragtenberg: admitir a influência de um pensador para superá-lo. Só
os espíritos livres, os que se recusam a fazer o sacrifício do
intelecto, são capazes de dialogar e superar.
Uma das condições essenciais para garantir este procedimento é a
irrestrita liberdade intelectual de crítica, sem a qual não é
possível a Ciência.
Marxismo heterodoxo
A heterodoxia evidencia-se, ainda, na
maneira específica como Tragtenberg se posiciona em relação ao
marxismo e ao anarquismo enquanto ideologias e movimentos políticos.
Ele os analisa criticamente, particularmente quanto à prática
político-ideológica que se auto-intitula marxista.
No início dos anos 80, Maurício
organizou uma coletânea de textos cujos autores, desconhecidos para
a maioria do público acadêmico e não-acadêmico brasileiro,
vinculam-se ao marxismo heterodoxo.
Tragtenberg recorre a Marx e Lenin
contra a leitura hegemônica que os auto-intitulados marxismos,
do stalinismo ao trotskismo, fazem do partido enquanto vanguarda do
proletariado e da ditadura do proletariado. Por intermédio dos
pensadores “heréticos” ele promove o resgate de uma concepção
político-ideológica crítica ao socialismo burocrático,
recolocando em pauta a possibilidade de um projeto socialista
fundado na auto-organização dos trabalhadores e na liberdade
enquanto valores intrínsecos do socialismo libertário.
Há um fio condutor entre a posição
política que Tragtenberg enfatiza em Marxismo Heterodoxo e os
seus primeiros textos. Seu pressuposto é a crítica ao socialismo
autoritário. Tragtenberg examina este processo histórico nos livros
Reflexões Sobre o Socialismo (1986) e A Revolução Russa
(1988a). São obras escritas num palavreado simples e
apresentadas didaticamente para facilitar a leitura aos neófitos, em
especial aos militantes.
Em Reflexões Sobre o Socialismo
ele salienta os temas críticos à Revolução Russa: a autogestão, a
rebelião de Kronstadt, a revolução makhnovista, a luta pela
autogestão no Leste Europeu, a experiência autogestionária
espanhola.
Em A Revolução Russa (1988a),
também em estilo didático, Tragtenberg retoma a crítica à burocracia
e a defesa da autogestão. Ele resgata as origens da Rússia imperial,
enfatizando os aspectos críticos e os movimentos de contestação que
surgiram. Esta obra expõe uma interpretação da Revolução Russa
crítica às leituras oficiais, numa perspectiva político-ideológica à
esquerda.
Ele reafirma a defesa dos marinheiros de
Kronstadt, do movimento liderado por Makhno e da Oposição Operária.
Observando a pluralidade de partidos que se autodenominavam
representantes dos trabalhadores, isto nos primeiros anos da
Revolução Russa, Tragtenberg assinala que, “por simples dedução
lógica”, fica demonstrado “que não existe nenhum partido da
classe trabalhadora”. Na verdade, “todos os partidos carismáticos
(que cultivam o liderismo) desconfiam profundamente da classe
operária” (TRAGTENBERG, 1988a, p.118).
Tragtenberg reafirma a posição política
de Rosa Luxemburgo. Ele relembra que esta revolucionária, em plena
Revolução Russa, criticou tanto o governo Lenin/Trotsky quanto
Kautsky.
Para Luxemburgo, o socialismo não pode ser outorgado ou introduzido
por um decreto, nem poderá ser obra exclusiva de um partido.
Marxismo e anarquismo
Maurício Tragtenberg resgata as obras e
conceitos de Karl Marx que permitem afirmar um pensamento socialista
não-autoritário. Isto significa tratar os textos de modo
não-canônico e assimilar sua contribuição, sem fazer o sacrifício do
exercício da dúvida e do pensar livre. Aliás, como sugere a leitura
da obra de Karl Marx. Paralelamente à crítica aos “marxismos”, ele
vislumbra a construção de uma alternativa teórica e ideológica que
resgate os aspectos libertários da obra de Karl Marx.
Em Marx/Bakunin (1983a)
Tragtenberg faz uma análise comparativa nada ortodoxa da obra destes
autores. Ele sublinha a necessidade de separar a produção
intelectual de Marx em relação às interpretações dos seus
seguidores. Recorda que o próprio Marx recusou a alcunha de
“marxista”: “Tudo que sei é que eu não sou marxista”.
O termo “marxismo” surge no calor da polêmica com Bakunin.
Nestes artigos, Tragtenberg alerta para
o fato de o debate entre “autoritários” e “libertários” tender
“a tornar-se meramente filológico e
paroquial, na medida em que está descolado do movimento real do
proletariado, onde se dá o processo de união via associação, que
procura vencer não simplesmente o “autoritarismo” dominante, mas
a divisão social do trabalho, fonte do chamado “autoritarismo”.
Discuti-lo como categoria em si mesmo, é uma inutilidade, pois
ela é expressão de uma relação social” (TRAGTENBERG, 1983a., p.
294).
Ele também chama a atenção para a
necessidade de romper o círculo vicioso próprio do discípulo
acrítico: a adesão fanática a um dos lados, identificando o outro
como “o inimigo”. A leitura crítica impõe a identificação dos
limites inerentes às escolas de pensamento. Maurício se propõe a
desmistificar as fáceis interpretações e as verdades tidas como
inquestionáveis, tanto dos anarquistas em relação a Marx quanto dos
marxistas em relação a autores como Bakunin.
Na análise das complexas relações entre
Marx/Bakunin, marxismo/anarquismo, distinguem-se as características
que marcam a obra de Tragtenberg: o espírito livre e heterodoxo e a
preocupação em analisar os eventos históricos inseridos em seus
próprios contextos e como possibilidade de contribuir para atuar
diante dos dilemas atuais. Vemos, novamente, que ele consegue
amalgamar diversas fontes, tratando-as com liberdade e heterodoxia.
Em outras palavras, Tragtenberg está longe de ser um anarquista
ortodoxo; sua análise do anarquismo busca apreender a atualidade das
suas formulações no sentido de contribuir para a práxis militante
contemporânea. Não é uma simples afirmação de princípios ou uma
adesão acrítica.
Maurício Tragtenberg contribuiu
decisivamente para a difusão do pensamento anarquista. Ele dirigiu,
organizou e escreveu as introduções de textos clássicos do
anarquismo publicados na Coleção Pensamento e Ação.
Um aspecto a observar é o próprio nome da coleção. Com efeito,
Maurício procura vincular a teoria à prática, pensar e agir. Os
autores que ele divulga têm esta característica.
A iniciativa de Maurício Tragtenberg em
facilitar o acesso dos leitores brasileiros a estas obras revela
simpatias libertárias e também uma forma de militância. Ele
apresenta autores como Bakunin e Malatesta, sem concessões e
apologismo. Não obstante, observamos a ênfase em determinados
aspectos, insights que confirmam uma concepção libertária do
socialismo.
Da leitura das introduções, notas e
apresentações dos autores publicados na coleção Pensamento e Ação,
ressalta-se a defesa da liberdade. Qualquer libertação que se
apóie na opressão dos “poucos” sobre os “muitos”, chame-se Revolução
Francesa ou Socialismo de Estado, não é libertação real, mas
opressão. O formalismo liberal restringe a liberdade aos direitos
formais do indivíduo cindido (cidadão/burguês); o Socialismo de
Estado universaliza a liberdade fazendo-a prisioneira da razão de
Estado e do partido, que, em tese, representaria os interesses do
conjunto da sociedade.
A maneira como Tragtenberg apresenta
estes autores ilustra a preocupação de atualizar o pensamento
libertário. Atualizá-lo, porém, não no sentido de sacralizar, isto
é, de dispor para as novas gerações textos sacramentados pela
tradição. O atual para Maurício Tragtenberg significa que
estas obras, escritas em contextos sociais completamente diferentes,
podem contribuir para a compreensão e superação de dilemas que
enfrentamos em nosso tempo. Não porque seus autores sejam profetas e
suas palavras representem a doutrina válida para quaisquer
circunstâncias históricas, mas porque, simplesmente, os problemas
daquela época persistem, ainda que assumam outros aspectos.
Aos desavisados poderia parecer que o
dispêndio de energias para resgatar e difundir textos e autores do
passado teria apenas uma função propagandista e ideológica. Pelo
contrário, Tragtenberg esforça-se para publicá-los porque acredita
que esta é uma forma de contribuir com a ação sobre a realidade
social e política vigente.
Estes escritos, portanto, oferecem a
possibilidade de os militantes refletirem sobre a burocratização e
institucionalização do movimento operário, quando a organização
meio transforma-se em fim, e o discurso revolucionário de
ontem é anulado pelo apego à preservação dos privilégios.
Tragtenberg possibilita às novas gerações a oportunidade de
aprenderem com a História e a não se iludirem com os novos e
falsos profetas.
Concluindo...
A obra de Maurício Tragtenberg apresenta
uma característica fundamental: não se volta prioritariamente para a
academia, para aquilo que Freire e Schor (1986, p.131) chamam de
“balé de conceitos”, isto é, o academicismo da discussão infindável
em torno de abstrações desvinculadas do mundo real. Tragtenberg
emprega a palavra no sentido sartreano, isto é, sua palavra é
comprometida, engajada.
Por meio da escrita ele assume um compromisso social e também uma
posição política diante dos temas históricos do passado e do
presente.
Há uma linha de continuidade na obra de
Maurício Tragtenberg evidenciada na crítica permanente aos processos
de burocratização dos movimentos e organizações de cunho operário,
na crítica ao vanguardismo e, concomitantemente, na defesa dos
valores que reforçam a solidariedade entre os trabalhadores e a
auto-organização nas experiências autogestionárias. Nesta
perspectiva, ele enfatiza os movimentos que colocam a burocracia do
partido e do Estado em xeque, ainda que esse partido se autoproclame
representante do proletariado e o Estado se autodefina como
socialista.
A influência política da obra de
Maurício Tragtenberg reside na reafirmação de uma concepção de
socialismo libertário. Maurício transporta as teorias para o âmbito
da prática, fundando a análise no movimento real dos trabalhadores e
inserida numa perspectiva de engajamento político.
Sua obra é um convite à reflexão crítica
sobre a trajetória recente do movimento operário brasileiro, aos
caminhos e descaminhos tomados pelos projetos político-partidários
identificados como de esquerda. Ela contribui para compreendermos as
ilusões e desilusões neste processo histórico. Fica o convite à
leitura – até porque esta é a minha leitura e interpretação. Que os
leitores tirem as suas próprias conclusões...
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Revista Educação & Sociedade, 65, dezembro de 1998, Campinas-SP.
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