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JOÃO
DOS SANTOS FILHO
Professor
da Universidade Estadual de Maringá. Autor do
livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas
primeiras”, EDUSC, Universidade de Caxias do Sul
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Hospitalidade no Brasil Império: visão do
naturalista George Gardner - Parte II
João dos Santos Filho
Nesse
contexto, surge a noção de raça pura e sangue azul e, obviamente, do
espaço perfeito para o surgimento e alimento para as teorias do
racismo. Assim afirma o filosofo Georg Lukács:
Los
ideólogos de la nobleza comienzan a defender las desigualdades
estamentales entre los hombres com el argumento de que estos
privilégios no son sino la espresión jurídica de la desigualdad
que la propia natureza establece entre las diversas clases de
hombres entre las razas, razón por la cual forman parte de la
“naturaleza” misma, contra la que ninguna institución puede
atentar sin atentar, al mismo tiempo, contra los más altos
valores de la humanidade. (Lukács,
1972: 539)
Esses princípios ideológicos dominavam o
pensamento científico da época e não era diferente no jovem
naturalista George Gardner, que expressa, em suas descrições,
atitudes racistas, pois sua formação era resultado do mundo em que
vivia. Queiramos ou não, ele era um homem de sua época, que não
podia ser desqualificado, mas, sim, admirado por aquilo que deixou
registrado em suas observações no campo da hospitalidade.
Gardner, em sua viagem exploratória ao
Rio de Janeiro, trabalhou em pesquisas para a identificação de
espécies vegetais e animais. Fez um comentário extremamente
importante para a história da nascente rede hoteleira no Brasil e
que pode servir para investigação para novas pesquisas:
Em Piedade, onde apenas se
encontravam umas poucas casas esparsas, estava em construção um
grande hotel, do Coronel Leite, senhor brasileiro que vinha
abrindo à própria custa uma nova estrada através da Serra dos
Órgãos, para se ligar à (sic) que vai de Porto Estrela aos
distritos de mineração. (Gardner, 1975: 34)
Pode parecer sem significado imediato o
relato anterior, mas o mesmo é de suma importância para auxiliar no
processo de que todos nós devemos colaborar no intuito de resgatar
uma historiografia nacional do fenômeno turístico.
O autor relata que, quando estava na
fazenda do amigo inglês Mr. March, foi levado a visitar um
brasileiro na casa deste, na qual teve o privilégio de degustar um
jantar substancial:
O jantar era substancial e bem
preparado, mas todos os pratos conforme o costume do país, eram
muito temperados com alho. Cobria a mesa uma toalha limpa, em
que numa das pontas se amontoava uma porção de farinha de
mandioca, e, na outra, de farinha de milho. Sobre uma destas se
colocava grande prato de feijão cozido, com um pedaço de
toucinho no meio; enquanto sobre o outro havia um prato de
galinha ensopada. Também havia porco assado e chouriço. De
iguarias e de farinha cada um se servia por si. De vegetal,
tínhamos um prato de palmito (Euterpe edulis), macio e
delicioso, com sabor semelhante ao de aspargos.
Durante o jantar foi-nos servido um
copo de vinho de Lisboa e, à sobremesa, doces de várias
espécies. (Gardner, 1975: 41 e 42)
Em sua viagem à Bahia, relata a
hospedagem num hotel, passagem que não foi nada agradável:
Após breve permanência, dirigimo-nos
a um grande hotel em frente ao teatro, onde nos alojamos por
essa noite; mas com leitos desconfortáveis, com os ruídos de rua
e com o tilintar ainda mais alto de dólares num aposento bem em
baixo (sic) do nosso, até quase quatro horas da madrugada, nosso
repouso noturno não foi dos mais tonificantes. (Gardner, 1975:
48)
Provavelmente, o teatro mencionado é o
São João, construído em 1812, localizado na Praça Castro Alves, e
local de praia de pescadores e desembarque de pequenos navios. O
autor refere-se ao jogo de cartas que estava ocorrendo abaixo de sua
habitação e ao barulho na rua, que deveria ser zona portuária.
Dirigindo-se para Maceió, depara-se com
uma situação que apesar de sua visão racista, como já comentamos,
sabia perceber as diferenças sociais, com certo rigor crítico, e
comenta:
Como o capitão da canoa era da
aldeia, fui convidado a pousar em sua casa; mas, como não havia
cama, fui obrigado a deitar- me num couro, no recanto de um
quartinho. Mal adormecera, fui despertado por uma legião de
percevejos, que se despejaram das fendas das paredes de barro.
Não podendo suportar o tormento, levantei-me e, levando para
fora da casa o material que me servia de leito, sacudi-o bem e,
estendendo-o ao ar livre, ali dormi confortavelmente até a manhã
surgir. (Gardner, 1975: 61)
Com muita tranquilidade, aceita, a
hospitalidade de pessoas que pertencem a distintos extratos sociais,
na verdade há casos em que não havia muitas opções de escolha, pois
a realidade de pobreza e de miséria no país se fazia presente. Mas,
isso, ao contrário, não compromete a hospitalidade para com o
visitante, pois a “ato de bem- servir ao próximo”, além de ser
bíblico, faz parte da personalidade do brasileiro que, segundo Darcy
Ribeiro deve-se a:
O Brasil tem sido, ao longo dos
séculos, um terrível moinho de gastar gentes, ainda que, também,
um prodigioso criatório. Nele se gastaram milhões de índios,
milhões de africanos e milhões de europeus. Nascemos de seu
desfazimento, refazimento e multiplicação pela mestiçagem. Foi
desindianizando o índio, desafricanizando o negro,
deseuropeizando o europeu e fundindo suas heranças culturais que
nos fizemos.
Somos, em conseqüência, um povo
síntese, mestiço na carne e na alma, orgulhoso de si mesmo,
porque entre nós a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Um
povo sem peias que nos atenham a qualquer servidão, desafiado a
florescer, finalmente, como uma civilização nova, autônoma e
melhor. (Ribeiro, 1995: 13)
Podemos ir, aos poucos, afirmando que
Gardner vai incorporando uma compreensão cada vez mais social da
realidade brasileira, e para isso, despoja-se lentamente de seus
preconceitos europeus. Como podemos perceber, quando de sua
chegada,a noite, em Sergipe, teve que se hospedar em uma casa de
prostituição:
Eu teria preferido uma casa vaga;
mas, como esta não se podia obter, fiz levar minha bagagem à
única que o Pedro pudera arranjar, e que só mais tarde soube ser
habitada por uma rapariga solteira, que ali exercia uma
profissão que não é tão desconceituada no Brasil como na maior
parte dos outros países. Em pequeno cômodo desta casa passamos a
noite em nossas redes, suspensas de um e outro lado do quarto.
(Gardner, 1975: 65)
Pela manhã, Gardner usa suas cartas de
apresentação e entrega-as ao Juiz de Direito do distrito que,
sensibilizado para com visitante, convida-o a hospedar-se em sua
casa, principalmente quando vai averiguar as condições de onde
Gardner estava instalado. Comovido, o juiz reafirma o convite e
explica que hospedagem no Brasil é, muitas vezes, uma dificuldade,
com exceção da cidade do Rio de Janeiro e da Bahia.
O interessante é que Gardner relata que
o juiz pronuncia um breve comentário, chamando a atenção para a
hospedagem no Brasil, portanto, o primeiro relato no interior da
historiografia brasileira que menciona o problema de hospedagem:
Em nenhuma cidade ou vila deste
Império, exceto no Rio, Bahia e em um ou outro distrito de
mineração, se encontra uma estalagem de qualquer espécie, e as
poucas que há pertencem a estrangeiros. E muito tempo ainda terá
de passar antes que tal comodidade ingresse nos costumes do
país; porque os brasileiros, quando viajam, levam consigo
criados, provisões, apetrechos de cozinha e camas; e é raro que
não encontrem uma ou outra casa vaga em alguma aldeia durante a
viagem. (Gardner, 1975: 65)
É interessante destacar a existência das
“casas vagas” nos povoados para atender aos viajantes. Na verdade,
poderíamos afirmar que há uma rede de casas vazias, sem qualquer
serviço à disposição do visitante, lembrando um rancho coberto.
Significa que a noção de criar hotéis em áreas fora do eixo de poder
(desconsiderando São Paulo) era algo longe de ser sentido, em razão
do baixo desenvolvimento das relações de produção.
Com relação à hospitalidade dos
brasileiros, Gardner não cansa de elogiá-la. Em algumas de suas
muitas descrições, relata:
Na véspera da partida inúmeros
presentes me foram mandados para meu uso na viagem, potinhos de
doces, biscoitos feitos de farinha de arroz ou milho, frangos
assados e outros segundo um costume quase universal no norte do
Brasil (Gardner, 1975: 88).
Nos quatro meses que passei nesta
cidade (Oeiras) fui tratado com a máxima polidez e hospitalidade
por todas as classes sociais, muito mais com efeito, que em
qualquer outro ponto do império em que morei por algum tempo. O
Barão (de Parnaíba) me foi particularmente obsequioso: porque,
além de me prover casa, mandou meus cavalos às pastagens de uma
sua fazenda e teve-me como freqüente convidado à sua mesa. Ele
toma as refeições bem à velha maneira dos barões, em uma mesa
muito longa que se estende de uma a outra extremidade de grande
sala. Senta-se à cabeceira e os hóspedes em bancos compridos
colocados aos lados, com os lugares mais baixos freqüentemente
ocupados pelos seus campeadores mais comuns (Gardner, 1975:
131).
Darwin, em seu Diário, menciona que
há poucas casas no Chile onde um viajante não seja recebido para
pousar à noite, mas dele se espera uma gratificação pela manhã e
que mesmo um rico aceitará dois ou três xelins. No Brasil é
muito diferente: no caminho, ora muito freqüentado, do Rio de
Janeiro até a zona de mineração, sempre se encontram casas que
fazem às vezes de estalagens e em que se espera pagamento do
viajante; mas, se ele se hospeda em qualquer das grandes
fazendas, deixam-no comer gratuitamente à mesa, só pagando as
rações necessárias aos animais. Nas partes mais distantes do
país sempre encontrei a mais ilimitada hospitalidade mesmo das
classes menos favorecidas, e muitas vezes a tênue recompensa que
essa pobre gente aceitava era um pouco de pólvora ou sal,
artigos que muitas vezes não se obtém (sic) por preço algum.
(Gardner, 1975: 137)
A base da hospitalidade brasileira no
período do Império, constitui-se, muitas vezes, pela relação de
escambo, que sinaliza uma sociedade extremamente rural, em que as
relações de produção e as forças produtivas estão baseadas nas
relações de compadrio e de intensa relação associativa. Quando
chegavam os viajantes provenientes da costa brasileira, era normal
“bem-atender” ao visitante, com a perceptiva de conseguir produtos
que só seriam possíveis de ser obtidos nos grandes centros, como o
valiosíssimo sal e a procurada pólvora.
Gardner relata, também, o comportamento
avarento e explorador que alguns coronéis demonstraram ao
hospedá-lo:
O dono da fazenda, Capitão Faustino
Vieira, mostrou-se de índole avarenta e muito menos hospitaleiro
que os fazendeiros que conheci nesta província. Embora sua casa
fosse boa e cômoda, tivemos de nos instalar em rancho aberto,
que servia para cobrir o engenho de cana da fazenda. Cobrou-nos,
os preços mais exorbitantes por tudo o que lhe compramos,
exigindo pela carne de vaca cinqüenta por cento mais que o preço
corrente naquela região do país e fez o mesmo com relação à
farinha e ao milho para os cavalos. (Gardner, 1975: 175)
Mas adiante, depois de percorrer viagem
a manhã toda, Gardner e seus companheiros param para o rancho do
almoço, e mais uma vez, demonstra sensibilidade política ao se
referir à hospitalidade dos mais humildes para com sua expedição:
Na manhã seguinte, depois de
longuíssima légua e meia de marcha, paramos para o almoço em uma
pequena habitação chamada Boa Vista, nome impróprio porque o
sítio, além de côncavo, é cercado de árvores. A casa era de
miserável aspecto, mas uma velha dona, muito atenciosa e cortês,
ofereceu-nos umas limas doces, que saboreamos com delícia,
depois de escaldados por um sol ardente. (Gardner, 1975: 176)
Gardner refere-se também à hospitalidade
de um negro supostamente alforriado:
[...] passamos a tarde e a noite na
fazenda de S. Antônio, de propriedade de um preto muito
hospitaleiro. Partindo desse lugar de manhã cedo uma jornada de
duas bem longas léguas levou-nos à fazenda seguinte chamada
Dores, que fora abandonada desde algum tempo por seus
habitantes. (Gardner, 1975: 177)
Mais adiante, descreve a hospitalidade
de um índio:
Meia légua adiante paramos durante o
dia na casa de um índio, em um lugar chamado Pascoada. Quando
chegamos, o homem estava fora trabalhando na roça, mas sua
mulher nos recebeu com grande hospitalidade, mandando
imediatamente um de seus filhos levarem-nos grande cesto de
laranjas e outro de batatas-doces e uns ovos, tratando-nos de
modo bem diferente daquele a que estávamos desde algum tempo
acostumados. (Gardner, 1975: 181)
Considerações finais
As observações de Gardner permitem
entender algumas características da hospitalidade do povo
brasileiro, no período do Império. Dentre elas, podemos destacar:
-
O povo brasileiro é hospitaleiro,
pois independente de seu padrão social, a maioria colocava à
disposição do forasteiro sua própria casa para abrigá-lo,
compartilhando da alimentação, bebidas e da função do anfitrião
em tornar alegre e segura sua pequena estada.
-
O processo de hospitalidade era
facilitado, quando o forasteiro conseguia providenciar cartas de
apresentação, que eram entregues a coronéis com poder econômico
e social, bem como a juízes ou padres da comunidade.
-
A hospitalidade possuía forte
ligação com a atividade de escambo, ou seja, o sal e a pólvora
eram elementos fundamentais para alimentar e facilitar o
processo do “bem-receber”, pois, muitas vezes, constituía-se na
forma de pagamento pela hospitalidade recebida.
-
As poucas estalagens existentes eram
de propriedade de estrangeiros as quais possuíam infra-estrutura
básica, entretanto, surgiria à estalagem “tipo brasileiro”,
quartos vazios, em que o hospedes tinham que armar sua rede,
fazer as alimentações e acomodar seus pertences.
-
Os brasileiros, quando viajavam,
simplesmente deslocavam sua criadagem para acompanhá-los,
levando todas as provisões necessárias, apetrechos de cozinha
para preparar as refeições, e as redes ou couro de boi para as
camas, visto que raro encontrar uma ou outra casa vaga, em
alguma aldeia, durante a viagem.
-
Havia uma prática por parte dos
brasileiros de construir “casas vagas”, destinadas a receber os
forasteiros. Essas seriam casas sem mobiliário, preparadas para
atender ao visitante, pela qual se pagava qual se paga uma taxa
ao proprietário.
Com o estudo da obra Viagens ao
interior do Brasil: principalmente nas províncias do Norte e nos
distritos do ouro e do diamante durante os anos de 1836 -1841,
de George Gardner, a historiografia brasileira, no campo da
hospitalidade e do turismo, ganha a possibilidade de recompor seu
arcabouço teórico-filosófico, pois os estudos dos relatos históricos
sobre a colônia e Império estão apresentando novos caminhos para as
pesquisas e alimentam a formatação de uma história nacional da
hospitalidade e do turismo, fortalecendo o entendimento do turismo
como ciência, e afastando, de alguma forma, a leitura etnocentrista,
ainda forte no estudo do turismo brasileiro.
Referências bibliográficas
Equipamentos, usos e costumes
da Casa Brasileira / coordenadora-geral da
coleção Marlene Milan Acayaba. 2001; organizadora do volume Renata
da Silva Simões. São Paulo: Museu da Casa Brasileira.
FERNANDES, Florestan. 1974.
Elementos de sociologia teórica. São Paulo: Nacional, 2. ed.
GARDNER, George. 1975. Viagens ao
interior do Brasil: principalmente nas províncias do Norte
e nos distritos do ouro e do diamante durante os anos de 1836-1841.
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LUKÁCS,
Georg. 1972. El asalto a la razon: La trayectoria del
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Barcelona e México, D. F: Grijalbo.
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A Ideologia Alemã I:
Crítica da filosofia Alemã mais recente na
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RIBEIRO, Darcy. 1995. O Brasil como
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SANTOS FILHO, João dos. 2001. Ordem
Régia de Censura a Roteiros Turísticos do Século XVIII: André João
Antonil no Índex. Turismo em Análise, Escola de Comunicação e
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SELWYN, Tom. 2004.
Uma antropologia da hospitalidade.
In:
LASHLEY, Conrad e MORRISON, Alison (orgs.).
Em busca da
hospitalidade:
perspectivas para um mundo globalizado. Barueri, São Paulo: Manole.
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