|
TÂNIA GUIMARÃES
Doutora em Letras (UEL) e docente do
Departamento de Letras (UEM)

|
|
Leitura/leitores: concepções vigentes e
algumas impressões particulares
Tânia Guimarães
Neste artigo vou discutir e compartilhar
algumas impressões que me intrigam e me acompanham na minha vida de
professora, pesquisadora e antes de tudo leitora e reunir alguns
textos e excertos que trazem a emoção libertadora que advém da
leitura.
Inúmeras vezes, pergunto-me quais os
fatores que contribuem para formar leitores. Esse é um assunto
primordial em nosso contexto social, tendo em vista os testes de
desempenho denunciadores de habilidades leitoras insuficientes por
parte dos estudantes brasileiros. A propalada ‘‘crise da leitura’’ é
uma constante, embora não faltem iniciativas que tentem reverter o
quadro. Projetos vêm sendo implantados em várias regiões do país,
comprovável numa simples pesquisa em ferramenta de busca com a
palavra-chave ‘leitura’. Existem vídeos interessantes no site you
tube sobre o assunto, como o intitulado
Ler devia ser proibido,
que traz o seguinte texto:
Pensando a respeito, eu acho que ler
devia ser proibido. Nada contra quem lê, mas certas coisas não se
duvidem. Ler não é nada bom. A leitura nos torna incapazes de
suportar a realidade. A leitura tira o homem de sua vida pacata e o
transporta a lugares nada convencionais. Para uma criança o perigo é
ainda maior porque ela pode crescer inconformada com os problemas do
mundo e querer mudá-lo. Dá para imaginar? E tem outra coisa: ler
pode estimular a criatividade e você não quer uma criança bancando o
geniozinho por aí, quer? Além disso, a leitura torna o homem mais
consciente e ia ser uma confusão se todos começassem a exigir o que
merecem. Nada de vagar pelos caminhos da imaginação simplesmente
porque leu um bom livro. Há quem diga que ler engrandece, mas eu não
conheço um caso sequer. Silêncio. Ler só serve aos sonhadores e sua
vida não é brincadeira. Cuidado. Ler pode tornar as pessoas
perigosamente mais humanas.
Esse texto quer dizer o seu contrário
quando associado às imagens que o acompanham, a exemplo do trecho em
que fala: “Há quem diga que ler engrandece, mas eu não conheço um
caso sequer”, para o qual as imagens veiculadas são fotos de
personalidades como Gandhi, Dalai Lama, Stephen Hawkin, Einstein,
Ziraldo, Jorge Amado, ou seja, pelo discurso contrário pretender
enfatizar como a pessoa pode ampliar seus horizontes por meio desde
hábito, tentando fisgá-la.
Todas essas iniciativas que tentam
conquistar leitores, me fazem pensar em como eu me tornei leitora?
Ninguém ficou insistindo para que eu lesse. Havia em mim sempre uma
curiosidade. Meu pai trazia gibis. Eu lembro de ficar esperando que
ele terminasse de ler a edição especial da Disney – exemplar mais
grosso –, tão rápido!!!, enquanto eu passava a tarde inteira lê-lo.
Como a curiosidade, essa simples curiosidade, torna-se um vício??
Qual é o pulo do gato a que se refere Martins (2005)? Quando você
não precisa mais incentivar ou ser incentivado, atingindo a
autonomia?
No livro Comédias para se ler na
escola, de Luiz Fernando Veríssimo, deparei-me com um texto em
que o autor descreve uma fobia acometedora de muitos viciados em
livros e afins. Eis:
Não sei como se chamaria o medo de
não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de
lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos),
acrofobia (medo de altura), collorfobia (medo do que ele vai nos
aprontar agora) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de
gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até treiskaidekafobia
(medo do número treze), mas o pânico de estar, por exemplo, num
quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome
tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a
gutembergomania, uma dependência patológica ma palavra impressa.
Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel,
no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras
tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha
sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri a
lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos, no
número de personagens, seria um razoável substituto para um
romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma
etiqueta, qualquer coisa.
Alguns hotéis brasileiros imitam os
americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha
salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um
best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para
acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens,
romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência
– e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto
narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e
“João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir
depois do Apocalipse. Mas, e quando não tem nem a Bíblia? Uma
vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
-
Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia
feminina...
-
Você
não entendeu! Eu quero uma revista Amiga. Capricho, Vida
Rotariana, qualquer coisa.
-
Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
- Não
é possível! O que você faz durante a noite?
-
Tricô.
Uma esperança!
-
Com
manual?
- Não.
Danação.
-
Você
não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.
-
Bem... Tem uma carta da mamãe.
- Manda!”
Esta crônica é engraçadíssima. Confesso
que sou daquelas, que não gosta de ir ao médico, mas, uma vez na
sala de espera, torce para que demore a chamar para ler todas as
Caras, Veja, Tititi, revistas de médico e da associação
comercial que conseguir naquele intervalo de tempo. Que pena!!!
Quando o médico atende no horário...
Meu avô não permita que os filhos lessem
gibis, porque acreditava que não era ‘‘boa’’ leitura. E queria que
eles lessem “Barsa”. Outro incentivava os filhos, pedindo-lhes para
ler e, em troca da resenha do livro, dava um dinheiro, recaindo, sem
saber, no esquema estímulo-resposta de Skinner. Esses relatos
pessoais envolvem as concepções de leitura que temos, as mesmas que
ajudam ou atrapalham na formação do leitor.
Monteiro Lobato dizia que um país se faz
com homens e livros. Ao ler o resultado de enquetes feitas pela
revista Istoé para a eleição do “O jurista do século”,
eleição que já completou oito anos, guardei esses exemplos porque e,
comprovando que a frase de Lobato não era apenas de efeito. Essas
histórias de homens ilustres e de suas práticas de leitura me
impressionaram pelos pontos em comum de busca recorrente que
poderiam ser resumidos em I can’t get no satisfaction. A sede
nunca saciável. Eis trechos de biografias que me chamaram atenção:
Rui Barbosa
– Na Faculdade de Direito do Recife (...)
desconsolado com uma nota baixa, gastava parte do dinheiro que o
pai mandava comprando velas, usadas para estudar nas madrugadas
que varava. Quase diariamente, ia às livrarias bisbilhotar e
comprar os 35 mil livros que hoje enchem as estantes da
Fundação Casa de Rui Barbosa (...)
Celso Furtado
– Só fica agitado durante os três meses por ano que passa em
Paris – segundo ele, o melhor local para ir ao cinema e
escrever. Para ler, qualquer hora ou lugar serve. “Se estiver
num consultório médico, devora revistas de fofoca”, conta
Rosa. “Desde que entrou na Academia Brasileira de Letras, em
1997, providenciei duas estantes novas para colocar os livros
que ele não pára de comprar”. A paixão pela literatura já lhe
rendeu uma reprimenda do ex-ministro da Fazenda Eugênio Gudin:
“Você apela para a imaginação em suas análises. Devia escrever
romances em vez de ser economista”.
Clóvis Beviláqua
– Beviláqua morava num casarão, na rua Barão de Mesquita, na
Tijuca, acordando sempre às quatro e meia da manhã para
entreter-se com os 20 mil volumes da sua biblioteca.
Sobral Pinto
– Depois de folhear pelo menos quatro jornais, trabalhava
em casa até o meio-dia.
Pontes de Miranda
– morou a maior parte de sua vida numa mansão na rua Prudente de
Morais, em Ipanema, zona sul do Rio, onde trabalhava 14 horas
por dia e deliciava-se com os 20 mil volumes das cinco
bibliotecas montadas em casa.
Miguel Reale
– passa os fins de semana no sítio da família, um pedaço de
terra de 50 mil metros quadrados encravado entre favelas e
indústrias no município de Diadema, no ABC paulista. Foi lá que,
nos anos 50, ele firmou um pacto com o relógio. Ao perceber
que as 24 horas de um dia estavam longe de satisfazer a avidez
pelos livros, decidiu abolir a conversa fiada, o jogo de
xadrez e as partidas de bocha. Hoje, aos 88 anos, continua
desafiando o tempo.
Octavio Gouvêa de Bulhões
– Nos estudos tirava notas baixas e passava de ano sempre
raspando. “Fui um aluno medíocre, bastante relapso”,
reconheceria depois. Mas ninguém podia imaginar também que
Octavio chegava em casa e, depois das aulas tediosas,
debruçava-se durante horas sobre os livros de economia que
pegava na biblioteca de casa. Sem nenhuma orientação,
devorou a obra de Adam Smith e despertou a vocação
que fez dele um economista pragmático e extremamente criativo.
(grifo nosso).
Quem não conhece a importância do
trabalho desses homens que foram votados como os possíveis juristas
do século, pode conferir a história profissional e de vida de cada
no link da revista.
Os relatos mostram que nem sempre a
relação leitura e desempenho escolar se interligam numa relação de
direta proporcionalidade, do tipo, quando mais lê melhor se sai na
escola. Pelo que sei a tática não funcionou com Veríssimo, que
contou a sua relação com os livros e com a escola:
O fato de viver numa
casa em que havia livros e o livro era uma coisa importante.
Determinou o meu gosto pela leitura e, eventualmente, meu
trabalho. A escola teve pouco a ver com isso. Eu era um péssimo
aluno e aproveitei muito pouco da escola. (em entrevista a
Luiz Costa Pereira Jr., colunista do site UOL, concedida em
outubro de 2005). (WIKIQUOTE)
Ziraldo,
conhecido autor de obras infantis, defende que ler é mais importante
que estudar por compreendê-la como atividade precípua a todas
as atividades que se desenvolvem em sala de aula. Porém, fica
evidente que tais personalidades trouxeram contribuição ao país,
proporcionada pela visão abrangente de mundo alcançada pelo hábito
de se entregar aos livros não necessariamente da escola ou na
escola.
Quem tem esse vício, denominado por
Veríssimo de gutembergomania, entende os pares, os outros viciados
que se encontram nas livrarias, bibliotecas, bancas e em lugares
mais improváveis. Nota-se que nos trechos dos relatos, destacados em
negrito, as palavras que mostram o envolvimento com a leitura
denotam intenso prazer: deliciava-se, avidez, devorou, despertou.
Nas práticas de leitura do brasileiro
não consta o hábito de ler em espaços públicos, mas, de vem em
quando, presencio pessoas com livros em filas, em praias e em
praças. Estariam as campanhas atingindo seus propósitos?
Precisamos de alguém para nos iniciar
nos prazeres da leitura? Podemos descobri-los sozinhos? Quem lê
viaja? Essas idéias estão bastante discutidas na nossa sociedade e
ninguém discorda delas. Outras parecem ainda obscuras como ‘‘Onde
está o embrião deste interesse?’’ Midlin, mais conhecido por ter a
maior biblioteca do país, fala que quer inocular o vírus da leitura
do maior número de pessoas possível. Parece que a situação está
melhor. As mudanças de concepções quanto ao que se deve ler e como
de deve ler avançaram bastante. Não creio que hoje alguém ainda
espere que o filho leia a Barsa ou que se contente com a sua
correlata contemporânea que é a Wikipédia. Gibis já são usados há
algum tempo como materiais de apoio. Tudo isso faz pensar que Lobato
estava certo quando disse que um país se faz com homens e livros...
a diferença é que, hoje, acrescentaria: se faz com homens, livros,
jornais, gibis, revistas de fofocas...
Referências
FOLHA DE LONDRINA. O lado bom dos
gibis. 15 de novembro de 2002.
MARTINS, Maria Helena. O que é
leitura. São Paulo: Brasiliense, 2005.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias
para se ler na escola. São Paulo: Objetiva, 2001
Sites
Veríssimo
http://pt.wikiquote.org/wiki/Luis_Fernando_Verissimo
Acesso em: 05 de agosto de 2008.
Projeto Brasileiro do Século –
Jurista do Século
http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/justica/indice.htm
Acesso em: 05 de agosto de 2008.
Outros projetos
http://www.vivaleitura.com.br/artigos.asp Acesso em: 05 de
agosto de 2008.
Vídeos sobre leitura
Ler
devia ser proibido
http://www.youtube.com/watch?v=57hum9zwjZc&feature=related
Acesso em: 05 de agosto de 2008.
Ziraldo - Ler é mais importante que estudar. Parte1 -
http://www.youtube.com/watch?v=YXnSEJTtb9M&NR=1 Acesso
em: 05 de agosto de 2008.
|
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)
|