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LARRY HUFFORD
Professor de Relações Internacionais
em St. Mary’s University, San Antonio, Texas. Suas áreas de
interesse são Resolução de Conflitos, Desenvolvimento
Sustentável, e Teoria de Relações Internacionais |
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A administração mais perigosa da história dos
Estados Unidos da América
Larry Hufford[*]
O dia 20 de janeiro de 2009 trará o fim
da mais perigosa administração na história dos Estados Unidos da
América. Historicamente, aqui há dois países: um é a república
secular constitucional, que são os Estados Unidos da América. Ou
outro é o país messiânico, mítico, que é a “América.” Este é o país
através do qual Deus trabalha para espalhar a “boa nova” ao mundo. A
república secular constitucional não é uma ameaça para o resto do
mundo. A América, por outro lado, é uma ameaça, já que a Divina
Providência escolheu esta nação para refazer o mundo à Sua imagem.
Isto pode ser visto historicamente na Expansão ao oeste, na “White
Man’s Burden”—“A obrigação do homem branco,” “O destino manifesto,”
e nos últimos oito anos na política neo-conservativa da
administração Bush-Cheney.
O meu raciocínio para dizer que a
administração Bush-Cheney é a mais perigosa na nossa história se
deve à junção de três formas de fundamentalismo. Um é uma política
exterior enraizada na teoria fundamentalista neo-conservativa de Leo
Strauss. A segunda é um fundamentalismo econômico baseado na
tradução literal da filosofia econômica de Milton Friedman, e a
terceira é o fundamentalismo evangélico cristão. A síntese destas
três formas de fundamentalismo criou uma política exterior
globalmente expansionista e militarista, um ímpeto para desregular a
economia enquanto continuava a baixar os impostos, e uma teologia
messiânica do fim dos tempos que negou o papel da humanidade no
problema do aquecimento global, justificou uma guerra preventiva no
Iraque, assim como uma guerra sem fim determinado contra o
terrorismo. Como resultado, a imagem dos Estados Unidos está
politicamente, economicamente e culturalmente falida. Os EUA
atualmente têm um débito de 800 bilhões de dólares relacionados à
guerra do Iraque, com os especialistas sugerindo que o custo final
pode chegar a 2 trilhões de dólares. Agora nós vemos a aprovação uma
ajuda de 700 bilhões de dólares para salvar o setor financeiro
americano, o mesmo que por muito tempo se refestelou com ações
gananciosas e sem ética. E, finalmente, a direita religiosa
evangélica cristã continua sendo a maior influência no partido
republicado.
Globalmente, a civilização ocidental já
conheceu cinco culturas universalistas: a da Grécia antiga, da Roma
antiga, o cristianismo medieval e o islamismo, e o iluminismo. Três
eram seculares, duas eram religiosas. Cada uma trouxe uma
contribuição ao mundo, mas cada uma também trouxe grande sofrimento.
No presente momento, eu diria, nós estamos vivendo uma sexta ordem
universal: o fundamentalismo do mercado global. Esta ordem ameaça
todas as coisas locais, tradicionais e particulares. No momento em
que muitas nações estão tentando transicionar do autoritarismo a
formas mais democráticas de governo, a globalização econômica e
financeira significa que os líderes destes países têm muito pouca
influência sobre a economia nacional. Esta é uma receita para que as
pessoas percam a esperança que a democracia política mude de uma
forma positiva a realidade em que elas vivem.
A recente campanha presidencial nos
Estados Unidos demonstrou que o fanatismo racial e religioso está
vivo e vive bem dentro do país. Benjamin Barber escreveu que os
Estados Unidos freqüentemente se refere a si mesmo como um modelo de
multiculturalismo, mas mostra pouco respeito pela diversidade
cultural ou pela heterogeneidade religiosa quando ambas estão fora
da imaginação americana. Isto se tornará mais evidente à medida que
aumentem os números de imigrantes não-ocidentais, e não-cristãos
entrem nos Estados Unidos. O que isto ilustra é o fato que os
Estados Unidos da América continuam a ter problemas internos que o
fazem um péssimo modelo para democracias emergentes. Sem dúvida,
“América” não é, e nunca foi, um modelo para outros países, a não
ser que eles sejam expansionistas e imperialistas.
A análise acima apresenta uma imagem
sombria dos Estados Unidos da América. Mas, apesar de estar ainda
imerso no regime fundamentalista de Bush-Cheney, eu continuo
esperançoso pelo futuro do país. Em todos os Estados Unidos e no
mundo inteiro existe um entendimento que está aumentando ao nível do
povo, de que é necessário criar relações e comunidades baseadas em
pactos e não em contratos. Jonathan Sacks escreve que os contratos
são limitados a condições e circunstâncias específicas, enquanto que
os pactos são relacionais, isto é, eles afirmam o bem comum. Os
contratos criam estados, enquanto que os pactos criam comunidades.
Nos pactos, as relações que promovem a dignidade e a integridade do
outro não podem ser baseadas no poder econômico, político, militar
ou cultural. O uso do poder fica de fora desta equação, em respeito
à dignidade humana. Em outras palavras, se os Estados Unidos e outro
país estão ligados devido ao poder militar ou econômico dos Estados
Unidos, então os cidadãos dos Estados Unidos conseguiram sua
liberdade à custa dos cidadãos do outro país. Um pacto é uma ação
destinada a criar confiança, a qual será realizada em lealdade
mútua.
Os resultados democráticos dependem da
luta democrática e da presteza dos cidadãos em participar desta
luta. A força contrária à idéia da “América” mítica e messiânica é o
envolvimento cívico global reconhecido como a democracia preventiva.
O medo reduz os cidadãos a meros espectadores. O medo anula a
vontade, ao fazer que os indivíduos se sintam impotentes, incapazes
de agir. O envolvimento cívico global pode construir paredes ao
redor do medo, e é a democracia em ação. Os cidadãos dos Estados
Unidos devem assumir sua responsabilidade em organizar pactos ao
nível da comunidade, e através destas comunidades pressionarem os
líderes nacionais a rejeitar “América” quando trabalham para
fortalecer a república secular constitucional. Globalmente, os
cidadãos dos outros países devem fazer a mesma coisa. Através da
criação de pactos novas relações globais podem emergir, baseadas em
respeito pela diversidade, confiança, reconhecimento da dignidade
humana e uma rejeição de relações baseadas em poder e medo. A
responsabilidade é de cada um de nós e requer que trabalhemos e nos
organizemos cooperativamente para encontrar e promover o bem comum
local, nacional e global.
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