|
LUIZ ALBERTO MONIZ
BANDEIRA
Cientista
político, professor titular de história da política exterior do
Brasil, na Universidade de Brasília (aposentado) e autor de mais
de 20 obras, entre as quais Fórmula para o caos – A derrubada
de Salvador Allende (1970-1973) e Formação do Império
Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque),
pela qual recebeu o Troféu Juca Pato, eleito pela União
Brasileira de Escritores (UBE) Intelectual do Ano 2005

|
|
Dimensão estratégica e política externa dos
Estados Unidos
Luiz Alberto Moniz Bandeira
“…America is
too democratic at home to be autocratic abroad. This limits
the use of America’s power, especially its capacity for
military intimidation”.
Zbigniew Brzezinski
A Eurásia
é a massa de terra que
se estende da Europa à Ásia, separada pela cordilheira dos Montes
Urais, tendo a Rússia e a Turquia parte de seus territórios nos dois
continentes. Seu heartland,
situado, fundamentalmente, entre a Ásia Central e o Mar Cáspio,
abrange o Cazaquistão, Armênia, Azerbaijão,
Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão, Usbequistão,
Sibéria Ocidental e parte setentrional do Paquistão, e é
circundado pelo Afeganistão, Rússia, China, Índia e Irã.
Sir Halford John Mackinder, no
início do século XX, em conferência, na London’s Royal Geographical
Society, sob o título "The Geographical Pivot of History"
,
sustentou que este "closed heartland of Euro-Asia" era o "pivot"
do equilíbrio global e o Estado que o controlasse teria condições de
projetar o poder de um lado para o outro lado da região.
Ali o poder terrestre teria
maior vantagem, devido ao fato de que seus rios fluíam para
mares mediterrâneos, o que a tornava inaccessível a uma força naval,
através do Oceano Ártico, e poderia não
apenas explorar os recursos naturais lá existentes como usar os
meios terrestres de comunicação, mais rápidos que os marítimos.
O Estado que dominasse heartland, “the greatest
natural fortress on earth”, teria, portanto, a possibilidade de
comandar toda a Eurásia, chamada por Mackinder de World Island
.

Ásia Central - Heartland
Durante o governo presidente James Earl
Carter (1977-1981), Zbigniew Brzezinski, seu assessor de Segurança
Nacional, tratou de orientar a política externa, dentro dos mesmos
parâmetros de Mackinder. Ele considerava que, naquele contexto da
Guerra Fria, a forma como os Estados manejavam a Eurásia era crítica
e enfatizou a doutrina segundo a qual o Estado que dominasse este
vasto continente, que constituía um eixo geopolítico, controlaria
duas das três mais regiões econômicas mais produtivas e avançadas do
mundo, subordinaria África e tornaria o hemisfério ocidental e a
Oceania geopoliticamente periféricos. Ali, na Eurásia, viviam 75% da
população mundial e estavam depositadas 3/4 das fontes de energia
conhecidas em todo o mundo.
Com esta percepção, Brzezinski
induziu o presidente Carter a abrir um terceiro front, na
Guerra Fria, instigando contra Moscou os povos islâmicos da Ásia
Central, no heartland de Eurásia e integrantes da União
Soviética, com o objetivo de formar um green belt
e conter o avanço dos comunistas na direção das águas quentes do
Golfo Pérsico e dos campos de petróleo do Oriente Médio.
Brzezinski, em
seu livro Game Plan – How to Conduct
the U.S. – Soviet Contest, reconheceu que a contenda
entre os Estados Unidos e a União Soviética não era entre duas
nações. Era “between two empires”, i. e., entre duas nações
que haviam adquirido “imperial attributes even before their
post-World War II colision”.
A União Soviética esbarrondou-se, entre 1989 e 1991, quando perdeu o
domínio não apenas sobre os Estados do Leste-Europeu como, também,
sobre outras repúblicas que a integravam, inclusive as do Báltico e
da Ásia Central, abrindo um vacuum político, que os Estados
Unidos aproveitaram para ocupar. E uma conseqüência geopolítica,
produzida pelo fim da Guerra Fria, foi acirrar a disputa em torno
das imensas fontes de energia – gás e petróleo – existentes naquela
parte do heartland euro-asiático. Com independência das cinco
repúblicas soviética da Ásia Central e a fraqueza dos novos Estados
emergentes dos escombros da União Soviética, os Estados Unidos
aproveitaram o vacuum e avançaram sobre a região. Expandiram
a OTAN às fronteiras da Rússia, incorporando alguns Estados que
antes pertenceram ao Bloco Socialista, impuseram sua preeminência
nos Bálcãs, com o desmembramento da antiga Iugoslávia, e
empreenderam guerras para a ocupação do Afeganistão e Iraque. A
Rússia não podia tolerar que a OTAN, uma aliança militar, se
transformasse em uma espécie de ONU, árbitro político com autoridade
para intervir contra qualquer regime, como fez com respeito à
Sérvia, na questão do Kosovo, e continuasse a incorporar as
repúblicas orientais, como a Geórgia e a Ucrânia, que antes
integraram a extinta União Soviética.
No
governo do presidente George H. W. Bush (1989–1993), período em que
ocorreu o desmoronamento da União Soviética e de todo o Bloco
Socialista, o general Colin
Powell, como chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas,
recomendou que governo preservasse a “credible capability to
forestall any potential adversary from competing militarily” com
os Estados Unidos,
impedisse a União Européia de tornar-se uma potência militar, fora
da OTAN, a remilitarização do Japão e da Rússia, e desencorajasse
qualquer desafio à sua preponderância ou tentativa de reverter a
ordem econômica e política internacionalmente estabelecida. E
assinalou para as Forças Armadas dos países latino-americanos as
suas novas missões, que consistiam em
“to maintain only
such military capabilities as are necessary for self-defense and
alliance commitments counter-narcotrafic efforts, disaster
relief, international peacekeeping forces and consistent with
their laws and constitutions and other missions, with the
principles of the Organization of American States and United
Nations Charters”.
Na mesma época, 1992, Dick Cheney, como
secretário de Defesa do governo de George H. W. Bush, divulgou um
documento, no qual confirmou que a primeira missão política e
militar dos Estados Unidos pós-Guerra Fria consistia em impedir o
surgimento de algum poder rival na Europa, na Ásia e na extinta
União Soviética.
Mas, desde a administração do presidente
Ronald Reagan (1981-1989), o Pentágono, estava a gestar novas
ameaças, como justificativa para os vultosos recursos orçamentários
com os quais financiava o complexo industrial-militar e toda a sua
cadeia produtiva, bem como a cadeia de bases militares e tropas nas
mais diversas regiões do mundo. O “perigo verde”,
identificado com o fundamentalismo islâmico, começou a substituir o
“perigo vermelho”, representado pela União Soviética, e o
“terrorismo internacional” passou a ocupar relevante espaço na
agenda internacional dos Estados Unidos. Em 1984, porém, Reagan
tomou como principal alvo, não mais as organizações responsáveis
pelos atentados, mas alguns Estados, no Terceiro Mundo, os quais
classificou como “rogue states” (estados irresponsáveis,
indisciplinados) e acusou de patrocinar o terrorismo (state-sponsored
terrorism). E após o esbarrondamento da União Soviética e de
todo o Bloco Socialista, o terrorismo e o narcotráfico configuraram
os novos inimigos a combater,
porquanto não mais havia outro Estado ou bloco de Estados com
capacidade de desafiar e por em risco sistema econômico, social e
político dos Estados Unidos, cuja força militar se tornara, desde o
fim da Segunda Guerra Mundial, a única no mundo a ter como principal
missão, não a defensiva, mas a ofensiva, não a de guardar as
fronteiras nacionais, mas a de projetar seu poder sobre todos os
continentes, nos quais instalou seis comandos militares, que
caracterizam o domínio imperial.

Fonte:
http://www.defenselink.mil/specials/unifiedcommand/
Embora
buscasse maior comprometimento multilateral, o presidente William
“Bill” Clinton (1993-2001), do Partido Democrata, manteve
substancialmente a agenda política externa dos seus antecessores do
Partido Republicano, Ronald Reagan e George H. H. Bush. O
“counter-terrorism” foi a “a top priority
for the Clinton Administration”, conforme a Casa Branca anunciou
em 1995.
E Madaleine Albright,
secretária de Estado na sua administração, enfatizou que o
terrorismo constituía a mais importante ameaça que os Estados Unidos
e o mundo enfrentariam no início do século XXI e altos funcionários
norte-americanos reconheceram que os terroristas, mais do que nunca,
estavam em condições de obter e usar armas nucleares, químicas e
biológicas.
O que predominou em Washington, nos anos
1990, foi a doutrina, segundo a qual os Estados Unidos deveriam
exercer seu “unrivaled power”, como um império, a fim de
trazer estabilidade internacional, resolver os problemas do
terrorismo, das “rogue nations”, das armas de destruição em
massa etc... As propostas para tornar os Estados Unidos um império
não eram intelectualmente sérias, na opinião do jornalista William
Pfaff, do International Herald Tribune, mas eram
significativas, porque a classe política e a burocracia estavam
apaixonadas pelo poder internacional e “they want more”.
A enorme cadeia de bases militares, que os Estados Unidos mantêm em
todos os continentes, exceto Antártica, configura, de fato, uma
forma de império.
De acordo, com as estatísticas do Departamento de Defesa, havia
cerca de 725 bases militares dos Estados Unidos, em 38 países, por
volta de 2003, e em torno de 100.000 soldados em toda a Europa.
Só na Alemanha, mesmo terminada a Guerra Fria e a retirada das
tropas pela extinta União Soviética, os Estados Unidos possuíam
cerca de 20 bases militares e quartéis (facilities), devido à
vantagem de estarem mais próximas do Oriente Médio e da Ásia
Central, em um país com uma democracia estável e condições de vida,
que propiciavam melhor conforto e comodidade às suas tropas, cujo
total era de aproximadamente 75.000 soldados, em 2004, somente na
Alemanha.
Os
Estados Unidos, por meio do poder militar, com o suporte da mídia,
como as redes de televisão CNN e Fox, passaram a dominar o mundo e
conformaram um império informal, a partir da derrota da Alemanha e
do Japão, em 1945. Segundo o jornalista William Pfaff ressaltou, “Washington
ignores whenever convenient”
os princípios da soberania nacional e da igualdade das nações, que
desde o século XVII, quando foi celebrado, em 30 de janeiro de 1648,
o Tratado de Westphalia, em Münster (Alemanha), pondo fim à Guerra
dos 30 Anos, constituíram os fundamentos do Direito Internacional.
Foi com base em tais princípios que o grande jurista brasileiro Rui
Barbosa, como chefe da Delegação do Brasil, na Segunda Conferência
de Paz, em Haia (1907), proclamou que “la souverainité est la
grande muraille de la patrie e defendeu a “l’égalité des
Etats souverains”, contra a posição dos Estados Unidos e outras
grandes potências, que pretendiam criar um Supremo Tribunal
Arbitral, discriminando os demais países na sua composição.
Militarização da política externa
Com a
ascensão de George W. Bush à presidência, os neo-conservadores,
conhecidos como neocons,
a “hard right” do Partido
Conservador, trataram de orientar a política internacional dos
Estados Unidos, conforme o
Project for the New
American Century (PNAC),
que consistia em aumentar os gastos com defesa, fortalecer os
vínculos democráticos e desafiar os “regimes hostis aos interesses e
valores” americanos, promover a “liberdade política” em todo o
mundo, e aceitar para os Estados Unidos o papel exclusivo de
“preservar e estender uma ordem internacional amigável (friendly)
à nossa segurança, nossa prosperidade e nossos princípios”.
Contudo, a primeira prioridade do presidente George W. Bush, quando
inaugurou o governo no início de 2001, não foi combater o terrorismo
ou a proliferação de armas de destruição em massa, porém aumentar o
fluxo de petróleo do exterior, devido à redução dos estoques de
petróleo e de gás natural, nos Estados Unidos, evidenciada pelos
blackouts ocorridos na Califórnia, enquanto as importações de
petróleo estavam a ultrapassar 50% do consumo interno.
E os atentados
de
11 de setembro de 2001 contra as
torres-gêmeas do World Trade Center, em Nova York, permitiram que o
governo de Washington, sob a consigna da
“war on terrorism”,
intensificasse a
militarização da política externa e
empreendesse a campanha para assegurar as fontes de energia – gás e
petróleo – e as rotas de abastecimento,
uma “vital sphere” de interesses dos Estados Unidos, da
cordilheira de Hindu Kush, no Afeganistão e nordeste do Paquistão,
envolvendo o Irã e o
Oriente Médio, até o Bosphorus.
Assim, a guerra contra o terrorismo constituiu mera figura de
retórica, um eufemismo, para disfarçar os reais os objetivos do
presidente George W. Bush, que consistiam em vencer a resistência
e/ou a insurgência islâmica, e controlar a Ásia Central e o Oriente
Médio, com suas enormes jazidas de gás e petróleo. A convergência
das necessidades da economia mundial capitalista e os interesses das
grandes corporações pautou a sua política internacional.
A mudança na estratégia de segurança
nacional dos Estados Unidos, substituindo a doutrina de
containment and deterrence (contenção e dissuasão) pela de
preemptive attacks, i. e., de ataques preventivos, contra grupos
terroristas ou países percebidos como ameaça, foi oficializada em
setembro de 2002, com a emissão do documento “The National Security
Strategy of the United States of America”.
Esta mudança era necessária, como fundamento para as intervenções
militares, que o presidente George W. Bush e os neocons
pretendiam promover, visando a assegurar a superioridade militar,
política e estratégica dos Estados Unidos, mediante o controle,
sobretudo, das fontes de energia existentes na Ásia Central e no
Oriente Médio. A perspectiva era, então, a de que a sociedade
americana estaria a enfrentar a maior crise de suprimentos de
energia, nas duas próximas décadas. Previa-se que, nos próximos 20
anos, i. e., até 2020, o consumo de petróleo pelos Estados Unidos
aumentaria para cerca de 6 milhões de barris por dia, enquanto a sua
produção declinaria cerca 1,5 milhão de barris por dia e atenderia a
menos de 20% do consumo. Ao mesmo tempo, o consumo de gás natural
cresceria cerca de 50%, mas a produção aumentaria apenas 14%.
Diante de tais perspectivas, logo nos primeiros meses da
administração de George W. Bush, em 19 de março de 2001, o
secretário de Energia, Spencer Abraham, admitiu em conferência na
National Energy Summit que a “America faces a major energy supply
crisis over the next two decades," told The failure to meet this
challenge will threaten our nation’s economic prosperity, compromise
our national security, and literally alter the way we lead our lives."
Em tais circunstâncias, quando a crise de energia na Califórnia,
àquela época, começou a fugir do controle, Dick Cheney,
vice-presidente dos Estados Unidos e ex-chefe executivo da
Haliburton, reuniu-se, secretamente, com diretores das maiores
companhias de petróleo e gás, a fim de debater a questão energética.
E uma Task Force, nomeada pelo presidente George W. Bush e dirigida
por Dick Cheney, formulou a National Energy Policy, como um problema
de segurança nacional.
Geopolítica do petróleo
A
segurança nacional dos Estados Unidos, portanto, implicava,
necessariamente, o domínio das fontes de energia, no Oriente Médio,
onde estavam depositadas cerca de 64,5% das reservas conhecidas de
petróleo, bem como na Ásia Central. Qualquer outra potência, que
dominasse aquelas regiões, teria poderosa arma para ameaçar a
sociedade americana, cuja segurança energética se tornara bastante
vulnerável, uma vez que mais de 50% do consumo de petróleo nos
Estados Unidos dependia das importações. Daí o ataque ao
Afeganistão, por onde deveria passar um oleoduto, ligando o
Turcomenistão ao Paquistão, e a invasão e ocupação do Iraque, onde
estavam, após as da Arábia Saudita, as maiores reservas provadas de
petróleo, algumas com baixo custo de extração. E,
com o objetivo estratégico de
estabelecer plataformas aéreas para eventuais guerras preventivas ou
outras
missões militares, os Estados Unidos expandiram seu
aparato militar, mediante a
construção de novo arco de bases e instalações nas antigas
repúblicas soviéticas – Quirguistão,
Tadjiquistão
e Usbequistão – no heartland da Eurásia, assim como no
Paquistão, Qatar e Dijibouti.

Documentos datados de março de 2001, que
o Departamento de Comércio dos Estados Unidos teve de
desclassificar, em meados de 2003, como resultado de processo movido
pelas organizações Sierra Club (ambientalista) e pela
Judicial Watch, revelaram que a Task
Force, dirigida pelo vice-presidente Dick Cheney, havia elaborado
dois mapas dos campos de petróleo, oleodutos,
refinarias e terminais, bem como dois mapas detalhando os projetos e
as companhias que pretendiam executá-los.
Depois da invasão pelos Estados Unidos, em 2003, os geólogos das
companhias multinacionais realizaram pesquisas e estimaram que nos
territórios relativamente inexplorados, os desertos do oeste e
sudeste do país, podiam conter reservas adicionais de 45 a 100
bilhões de barris (bbls) de petróleo recuperável.
E, em 19 de junho de 2008, The New York Times publicou um
artigo intitulado "Deals With Iraq Are
Set to Bring Oil Giants Back”, comprovando que a ocupação do
Iraque visou realmente a capturar os campos de petróleo. Com base em
informações de funcionários do ministério responsável pelo petróleo
no Iraque e de um diplomata americano, mantido no anonimato, o
jornalista Andrew Kramer, no artigo, escreveu que a "Exxon Mobil,
Shell, Total and BP ... along with Chevron and a number of smaller
oil companies, are in talks with Iraq's Oil Ministry for no-bid
contracts to service Iraq's largest fields."
De acordo com o Oil and Gas Journal, as reservas de
petróleo provadas existentes no Iraque eram de 115 bilhões barris,
em 2001, mas possivelmente o número seria muito maior ainda.
O controle dessas e outras reservas de
petróleo tornou-se cada vez mais fundamental para os Estados Unidos,
porquanto suas importações totalizaram US$ 327 bilhões em 2007 e, de
acordo com as estimativas, alcançariam US$ 400 bilhões, em 2008, o
que representava um incremento de 300%, com relação a 2002. A conta
do petróleo respondeu por 35% a 40% de todo o déficit comercial dos
Estados, em 2006, um percentual muito maior do que em 2002, que foi
de apenas 25%.
Em 2007, o total do déficit comercial dos Estados Unidos foi de US$
708,5 bilhões.
Embora fosse cerca de US$ 50 bilhões menor do que no ano anterior,
2006, graças à desvalorização do dólar e, conseqüentemente, ao
aumento das exportações, a tendência, no entanto, era aumentar cada
vez mais. Não sem razão, o presidente George W. Bush, na State of
Union de 2006, advertiu que os Estados Unidos, para manter sua
produção competitiva, requeria recursos energéticos baratos e aí
estava o grave problema: “America is addicted to oil, which is
often imported from unstable parts of the world”.
Os Estados
Unidos, a fim de manter a posição de potência mundial, que há mais
de um século alcançaram, dependem mais e mais de fontes de energia
confiáveis, especialmente petróleo, cujas importações, sobretudo da
região do Golfo Pérsico, tendem a crescer, significativamente, nas
próximas décadas. A expectativa era a de que a demanda
mundial de petróleo saltaria de 82 milhões de bpd, em 2004, para 111
milhões bpd em 2025, o que representaria um aumento de 35%. E a
Energy Information Administration (EIA), de acordo com
o Annual Energy Outlook, previa um
incremento ainda maior da demanda de suprimentos de petróleo pelos
Estados Unidos e pelos países emergentes da Ásia – notavelmente a
China – e, conseqüentemente, o aumento do preço, por volta de/até
2030. Destarte, a segurança nacional dos Estados Unidos passou a
significar, também, segurança energética, elemento central da sua
política externa, e o Great Game,
o jogo de poder, intensificou-se no heartland da Eurásia,
devido à emergência da China e à recuperação econômica da Rússia,
envolvendo os países islâmicos, com reflexos diretos sobre o teatro
de guerra no Oriente Médio. Abre-se assim novo capítulo nas relações
internacionais.

O teatro de Guerra no Oriente Médio -
Fonte: Centre for Research on Globalisation
Great Game
Os Estados Unidos, desde o fim da Guerra
Fria, haviam avançado decididamente sobre o Usbekistão,
Turcomenistão, Tadjiquistão e Kazaquistão, países à margem oriental
da baía do Mar Cáspio. Eram as repúblicas mais pobres da extinta
União Soviética, mas possuíam vastas reservas de petróleo, iguais ou
maiores do que as da Arábia Saudita, e as mais ricas reservas de gás
natural do mundo, comprovadamente mais de 236 trilhões de metros
cúbicos, praticamente fechadas. O total das reservas de petróleo de
toda a região poderia ultrapassar a casa de 60 bilhões de barris,
chegando a atingir 200 bilhões, conforme revelou John J. Maresca,
vice-presidente de relações internacionais da Unocal Corporation, em
depoimento prestado ao Subcommittee on Ásia and Pacific e ao
Committee on International Relations da House of Representatives, em
12 de fevereiro de 1998. E as companhias ocidentais tinham condições
de aumentar em mais de 500% a produção, da ordem de apenas 870.000
barris em 1995, até 4,5 milhões, em 2010, o equivalente a 5% da
produção mundial de petróleo.
A estimativa da administração do
presidente Bill Clinton, de acordo com a
National Security Strategy, era a de que havia reservas de
160 bilhões de barris na bacia do Mar Cáspio, reservas que
desempenhariam importante papel na crescente demanda mundial de
energia.
Para manter o controle e a segurança
dessas fontes de energia e dos dutos que transportam gás e petróleo,
os Estados Unidos começaram então a implementar a militarização do
corredor da Eurásia, desde o leste do Mediterrâneo, à margem da
fronteira ocidental da China, para vencer o "Great Game" no
heartland da Eurásia.
Daí que o documento A
National Security Strategy for a New
Century previa
que, “to deter aggression and secure
our own interests, we maintain about 100,000 military personnel in
the region”.
E mais adiante:
“A stable and prosperous
Caucasus and Central Asia will facilitate rapid development and
transport to international markets of large Caspian oil and gas
resources with substantial US commercial participations.
Resolution of regional conflicts such as Nagorno-Karabakh and
Abkhazia is important for creating the stability necessary for
development and transport of Caspian resources”.

Projeções
geopolíticas do Mar Cáspio
Em 1999, o
Congresso dos Estados Unidos aprovou a
Silk Road Strategy (SRS),
renovando o Foreign Assistance Act of 1961, com o objetivo de dar
maior assistência e apoio econômico e independência política aos
países do sul do Cáucaso e da Ásia Central, avançar seus interesses
geoestratégicos na região e opor-se à crescente influência política
de potências regionais como a China, Rússia e Irã.
Conforme explicitado na Silk Road
Strategy, esta região sul do Cáucaso e Ásia Central podia
produzir petróleo e gás em suficientes quantidades para reduzir a
dependência dos Estados Unidos em relação às voláteis fontes de
energia do Golfo Pérsico.
Alguns cálculos indicavam que, por volta de 2050, a “landlocked”
Ásia Central proveria mais do que 80% do petróleo importado pelos
Estados Unidos e daí a premente necessidade de controlar as reservas
de petróleo da região e os oleodutos através do Afeganistão e da
Turquia, principal objetivo da invasão do Afeganistão em 2001.
Os Estados Unidos, contudo, não mais são
o lonely power, que predominou, como um global cop, ao
longo dos anos 1990, após o colapso da União Soviética e o fim da
Guerra Fria. A China emergiu como potência econômica, política e
militar cada vez mais poderosa. E a Rússia, como sucessora jurídica,
herdou todo o poderio bélico da extinta União Soviética, que não
fora, militarmente, derrotada na Guerra Fria, recuperou-se,
beneficiada, em larga medida, pela alto dos preços de energia e
matérias primas, e tornou-se a décima economia mundial, com um PIB
da ordem de US$ 2 trilhões (est. 2007), segundo método da
purchasing power parity.
E não está disposta a permitir que os Estados Unidos ampliem sua
presença na Ásia Central e no Cáucaso, ameaçando sua segurança.
No início de 2007, o então presidente da
Rússia, Vladimir Putin, advertiu que “os Estados Unidos haviam
ultrapassado suas fronteiras nacionais em todos os setores”, o que
era “muito perigoso”, e mostrou-se contrário à expansão da OTAN,
“uma organização político-militar que reforça sua presença em nossas
fronteiras”. E acrescentou: “Um erro”.
O presidente Vladimir Putin sempre deixou
clara a decisão de não tolerar que a OTAN estendesse sua máquina de
guerra às fronteiras da Rússia, ameaçando sua posição estratégica,
nem o estacionamento do escudo antimísseis, nos territórios da
Polônia e da República Tcheca, conforme pretendido pelo presidente
George W. Bush, bem como não aceitava a independência de Kosovo,
conforme o plano do ex-presidente da Finlândia e mediador da ONU,
Martti
Ahtisaari,
que previa
o reconhecimento de uma soberania parcial
da região, sob vigilância internacional. A Rússia, ao perceber a
ameaça implícita nas iniciativas militares dos Estados Unidos, deu
uma demonstração de força. Restaurou outra vez sua frota no
Atlântico e no Mediterrâneo, bem como tratou de transformar o porto
de Tartus, na Síria, em base naval para a sua frota no Mar Negro,
juntamente com a instalação de um sistema de defesa antiaérea, com
mísseis balísticos
S-300PMU-2 Favorit, capazes de alcançar 200 km. Ao mesmo tempo,
reativou os vôos de patrulha por bombardeiros atômicos, suspendidos
desde 1992.
O Ocidente em xeque
Os objetivos estratégicos dos Estados
Unidos e da União Européia, na Ásia Central, colidem com os
interesses geopolíticos da Rússia, que se sente gravemente afetada
com o avanço da OTAN. E o duro ataque militar desfechado em agosto
de 2008 contra as forças da Geórgia, que invadiram a região
separatista da Ossétia do Sul, constituiu séria advertência de que
aquela região, no Cáucaso, à margem do Mar Negro, está na sua esfera
de influência e não permitirá maior penetração dos Estados Unidos e
das potências industriais do Ocidente. Assim, com a invasão da
Geórgia para defender a autonomia da Ossétia do Sul, a Rússia
retaliou o apoio que os Estados Unidos e a União Européia deram à
independência do Kosovo, instrumentalizando a OTAN (Operation
Allied Force) para bombardear a Iugoslávia em 1999. E
demonstrou, como exemplo, o que poderá ocorrer se a Polônia e a
República Tcheca permitirem a instalação, no seu território, das
bases antimísseis pretendida pelo presidente George W. Bush. A
Rússia pôs os Estados Unidos e as potências ocidentais em xeque.
Vários e complexos fatores naturalmente
concorreram para a eclosão deste conflito armado. A Geórgia, das
antigas repúblicas que antes integraram a União Soviética, foi a que
mais estreitamente se aliou os Estados Unidos, depois da chamada
Revolução Rosa, o regime change manipulado pela CIA e pelo
embaixador Richard Miles,
em novembro de 2003. Com a ascensão ao poder do advogado Mikhail
Saakashvili, que cursara a Columbia Law School e a George Washington
University Law School, nos anos 1990, o governo do presidente George
W. Bush, executou o Georgia Train and Equip Program (GTEP), entre
2002 e 2004, e a partir de 2005, o Georgia Security and Stability
Operations Program (Georgia SSOP), enviando ao Cáucaso assessores da
U.S. Special Operation Forces (Green Berets), U.S. Marine
Corps e outros para o treinamento de contingentes militares da
Geórgia. Estes contingentes participaram das operações em Kosovo e,
depois, das guerras no Afeganistão e no Iraque. Posteriormente, em
meio às tensões com a Abecásia e a Ossétia do Sul, regiões
separatistas e que aspiram à integração com a Rússia, o presidente
Mikhail Saakashvili, encorajado pelos Estados Unidos, solicitou a
adesão da Geórgia à OTAN. O mesmo fez o presidente da Ucrânia Viktor
A. Yushchenko, que em novembro de 2004 assumira o poder, mediante
outra operação de regime change, a Revolução Laranja,
fomentada igualmente pela CIA, tendo como vice-presidente, a
bilionária Yulia Timoshenko, conhecida como a “princesa do gás”.
Esses acontecimentos na Geórgia e na
Ucrânia resultaram da política externa do presidente George W. Bush,
orientada no sentido de promover “freedom and democracy” na
Ásia Central, no Oriente Médio e em outras regiões do mundo, o que
significava, de acordo com as diretrizes do Project for New
American Century (PNAC), “desafiar os regimes hostis aos
valores” americanos, e “preservar e estender a uma ordem
internacional (friendly) à nossa segurança, nossa
prosperidade e nossos princípios”.
Em maio de 2005, o presidente George W. Bush visitou Tblisi, capital
da Geórgia, que pretendia transformar em beacon of democracy,
dado que o controle do sul do Cáucaso e da Ásia Central era
percebido como indispensável ao êxito da guerra no Afeganistão. Os
Estados Unidos já haviam assegurado o estabelecimento de bases
aéreas no Usbequistão e no Quirguistão, assentando
seu poder militar no heartland da Ásia Central, e no
sul do Cáucaso, principalmente na Geórgia e no Azerbaijão, cujo
espaço aéreo se tornou essencial para o transporte de material
bélico pesado e tropas da OTAN, com destino ao Afeganistão, primeiro
campo de batalha que o presidente George W. Bush denominou de guerra
contra o terrorismo. Dentro desse esquema logístico, as bases na
Georgia deviam servir como backup das bases na Turquia,
enquanto o Azerbaijão funcionaria como área de sustentação para
eventuais operações militares dos Estados Unidos contra o Irã. O
ataque para derrubar o regime de Saddam Hussein mostrou a
importância do estabelecimento de tais bases nas vizinhanças do
Oriente Médio, quando o Parlamento da Turquia proibiu que as tropas
dos Estados Unidos abrissem uma segunda frente no nordeste do
Iraque, a partir do seu território.
Contudo, apesar do empenho dos Estados
Unidos, a Alemanha e demais Estados
europeus entenderam que ainda não era o momento para admitir tanto a
Geórgia quanto a Ucrânia na OTAN, sob o argumento de que a situação
dos dois países era ainda instável. Em verdade, a Alemanha e alguns
Estados europeus não quiseram provocar a Rússia e criar uma grave
crise, com fortes reflexos econômicos, se a Gazprom,
como represália, cortasse fornecimento de gás do qual enormemente
dependiam e dependem.
Entretanto, as potências ocidentais deixaram as portas abertas à
Geórgia e à Ucrânia para uma eventual admissão, futuramente, como
membros da OTAN. E, se isto realmente se consumasse, os
Estados Unidos e as potências ocidentais conquistariam enorme
vantagem geoestratégica, cercando a Rússia com poderosa estrutura
militar, ao armar os exércitos da Ucrânia e da Geórgia e instalar
bases da OTAN nas suas fronteiras.
Esta possibilidade, ameaçando
diretamente os interesses vitais da Rússia, tornou previsível a
intervenção na Geórgia, em defesa da Ossétia do Sul. O Kremlin
sinalizou que iria reagir, quando aviões de sua Força Aérea Russa
entraram no espaço aéreo da Geórgia e sobrevoaram território da
Ossétia do Sul, poucas horas antes da vista da secretária de Estado
Condollezza Rice a Tbilisi (Tiflis)
e do início (15 de julho) do exercício militar Immediate Response
2008, em que 1.000
soldados dos Estados Unidos treinariam as forças da Geórgia,
Azerbaijão, a Armênia e da
Ucrânia, nas imediações da base militar de Vaziani. O ministro das
Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, declarou então que as
iniciativas de Tbilisi representavam “real ameaça à paz e
segurança”, o que poderia chegar “à beira de um novo conflito
armado, de conseqüências imprevisíveis”.
O presidente Mikhail
Saakashvili sabia e declarou que a Geórgia não tinha condições de
enfrentar a Rússia, porém podia usar os instrumentos políticos e
diplomáticos para impedir sua intervenção. E
empreendeu a aventura, com o propósito de retomar o controle da
Ossétia do Sul, decerto
imaginando que a Rússia não reagiria, militarmente, e esperando
eventual assistência dos Estados Unidos e demais membros da OTAN,
com a qual firmara o Partnership Action
Plan (IPAP), para receber sua assistência, com vista a futura
admissão como membro.
O corredor do petróleo
Os vínculos militares estabelecidos
pelos Estados Unidos com a Geórgia, inclusive incentivando sua
aspiração de ingressar na OTAN, envolvem igualmente importante
interesse econômico e geoestratégico, que é garantir a segurança dos
dutos de petróleo e gás, entre os quais o oleoduto
Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC). Este oleoduto, que passa pelo território
da Turquia, permite às companhias ocidentais desviar da Rússia e do
Irã o fluxo de petróleo procedente do Azerbaijão e de outras
repúblicas da Ásia Central, e destarte reduzir a dependência do
Golfo Pérsico. Sua construção pelas companhias BOTAS Petroleum
Pipeline Corporation e Bechtel Corporation (Bechtel Group), esta
última intimamente vinculada ao presidente dos Estados Unidos,
começou em 2002 e terminou em 2006, ao mesmo tempo em que os Estados
Unidos tratavam de estreitar as relações militares com a Geórgia,
mediante o envio de assessores com a missão de treinar seu exército.

Rota do
oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan -
Fonte: BBC
Esse oleoduto, com capacidade para
transportar 1,0 milhão de barris de petróleo por dia, é o segundo
maior do mundo e estende-se por 1.768 km, desde os campos de
petróleo de Azeri-Chirag-Guneshli, à margem do Mar Cáspio. Liga
Baku, capital do Azerbaijão, passando por Tbilisi, capital da
Geórgia, ao porto de Ceyhan, no sudeste do Mediterrâneo, na costa da
Turquia. O oleoduto Baku-Supsa leva 150.000 barris de petróleo por
dia do Mar Negro ao porto de Supsa na Geórgia. E o gasoduto
Baku-Tbilisi-Erzrum (BTE transporta, por ano, 6 milhões de metros
cúbicos de gás do Azerbaijão para a Turquia.

Fonte: BBC
O Azerbaijão e a Geórgia são dois
países-chaves, não apenas por causa de sua produção de gás e
petróleo, mas porque deles depende o estabelecimento de um corredor
ligue o Cáucaso e a Ásia Central ao Ocidente, sem passar pela
Rússia, e do qual a pedra fundamental foi a construção do oleoduto
BTC. Este oleoduto, cujo terminal é Ceyhan, no Mediterrâneo, muda a
situação do Cáucaso e não somente estabelece como consolida um
vínculo estratégico entre o Azerbaijão, Geórgia, Turquia e Israel,
que não apenas poderá abastecer-se, diretamente, com o petróleo do
Mar Cáspio como ainda reexportá-lo para os mercados asiáticos,
através do porto de Eilat.Conforme
explicou Michel Chossudovsky, professor de economia na Universidade
de Ottawa e diretor do Centre for Research on Globalization, Israel
tornou parte do eixo militar anglo-americano, que “which serves
the interests of the Western oil giants in the Middle East and
Central Asia”.
O que se projeta é ligar o BTC ao oleoduto Trans-Israel (Tipline),
construído em 1968 para
transportar do petróleo desde o porto de
Ashkelon, no Mediterrâneo, para Eilat, no sul de Israel, no Mar
Vermelho.

Oleoduto Trans-Israel Eilat-Ashkelon
- Fonte: Chossudovsky 2008.
Entretanto, a intervenção da Rússia na
Geórgia, em 8 de agosto de 2008, para defender a autonomia da
Ossétia do Sul, bem como a autonomia da Abecásia, outra região
separatista, mostrou que o transporte de petróleo e gás através dos
dutos que atravessam a Geórgia é tão vulnerável quanto
através do Golfo Pérsico. Suas tropas conquistaram a cidade de Gori,
onde nasceu Stalin, e a garganta de Kodori, ocupada pela Geórgia
desde 2006, e destruíram depósitos de armamentos e bases militares.
Os oleodutos não foram atacados, embora fechados pelas próprias
companhias, por motivos de segurança ou precaução. Mas os projetos
de construção de novos dutos ou expansão do BTC ficaram
aparentemente inviabilizados, em virtude da instabilidade
apresentada pela região, alarmando as companhias que lá pretendiam
investir. E a Rússia, por fim, reconheceram a independências das
duas regiões separatistas Abecásia e Ossétia do Sul, nas vizinhanças
do oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan (BTC), que tem capacidade de
transportar 1,2 milhão barris por dia para o Ocidente.
Os limites do poderio militar
Os Estados Unidos nada puderam ou podem
fazer, senão protestar e enviar ajuda humanitária à Geórgia, apesar
de que o vice-presidente Dick Cheney proclamasse que a intervenção
da Rússia em defesa da Ossétia do Sul "must not go unanswered”.
O poderio militar, tecnológico, econômico e diplomático de que
dispõem de nada valeu para defender seus interesses na Geórgia. Os
Estados Unidos estão econômica e financeiramente esgotados com duas
guerras perdidas, no Afeganistão e no Iraque, cujos custos,
incluindo o alto preço do petróleo, as despesas de tratamento dos
veteranos feridos e o pagamento dos juros do dinheiro emprestado,
totalizavam, em novembro de 2007, cerca US$ 1,5 trilhão, acima de
10% do PIB (US$ 13,8 trilhões, est. 2007),
de acordo com estudo feito pelos representantes do Partido
Democrata, integrantes da Comissão Econômica Conjunta do Congresso
americano.
E a estimativa era de que, somente no ano de 2008, os gastos com as
duas guerras ultrapassariam US$ 1,6 bilhão, o dobro de US$ 804
bilhões, anunciado pelo presidente George W. Bush.
Com tais gastos, a dívida pública dos
Estados Unidos saltou de US$ 5,6 trilhões, no ano 2000, para um
total de aproximadamente US$ 9.5 trilhões em abril de 2008.
E a dívida nacional (externa e interna) continua a crescer cerca de
US$ 1,82 bilhão por dia, desde 2007. Em dezembro de 2007, a China
possuía reservas em dólar da ordem de US$ 1,5 trilhão (10% do PIB
americano), dos quais os títulos (securities) do Tesouro
americano, em junho de 2007, totalizavam mais de US$ 922 bilhões,
superando em 61% o Japão como o maior credor dos Estados Unidos.
De acordo com o Fundo Monetário Internacional, essas reservas
representavam 23,9% das reservas em dólares mantidas por todos os
países, cujo total era de US$ 6,4 trilhões.
Isto significa que o valor do dólar poderia cair dramaticamente se a
própria China, que é o maior comprador de títulos dos Estados
Unidos, inclusive da dívida pública, colocasse no mercado mundial
grande parte das reservas que mantém.
E já ameaçou fazê-lo.
Os Estados Unidos estão a depender
pesadamente do influxo de capitais de outros países, sobretudo da
China, a fim de ajudar o desenvolvimento de sua economia e cobrir o
déficit fiscal. São uma potência, virtualmente, falida. Ainda não
ocorreu o default porque o dólar, no atual esquema de fiat money,
é moeda fiduciária e o governo está livre para imprimir a quantidade
que quiser. Isto não significa que o governo de Washington possa
continuar emitindo dólares sem lastro, indefinidamente. Ao contrário
da China e do Japão, os Estados Unidos são atualmente devedores e
necessitam manter a confiança dos investidores estrangeiros. Porém,
mais cedo ou mais tarde, essa bolha vai estourar, como
ocorreu com os financiamentos subprime, a bolha imobiliária.
Ela conjuga-se com a fragilidade do sistema financeiro, gerando
enormes riscos não só para os Estados Unidos como também para todos
os demais países. E o governo de Washington somente terá condições
de evitar uma grande explosão, se cortar os gastos militares e, por
conseguinte, reduzir seu aparato bélico e sua presença em todas as
regiões, algo extremamente difícil, dados os interesses econômicos e
financeiros implicados.
De qualquer forma, o fato é que os
Estados Unidos passaram a depender da China, assim com a
Grã-Bretanha, para vencer na Segunda Guerra Mundial, passou a
depender financeiramente dos Estados Unidos, declinando, a ponto de
tornar-se seu satélite, conforme concluiu Correlli Barnett.
Sem os investimentos de outros países, como o Japão e, sobretudo, a
China, que compram títulos do Tesouro americano, os Estados Unidos
não podem sustentar as guerras no Afeganistão e no Iraque, duas
guerras perdidas. E, econômica e financeiramente constrangidos,
sofreram forte revés político e estratégico com a intervenção da
Rússia em defesa da Ossétia do Sul e da Abecasia. Não podiam correr
o risco de mandar tropas para a Georgia, a fim de assumir o controle
dos portos e aeroportos do país, conforme anunciado pelo governo de
Tblisi, e escalar o conflito, que poderia resultar em confrontação
armada com a Rússia. A dificuldade de recrutar jovens – homens e
mulheres – para servir como soldados nas Forças Armadas tornou-se
cada vez maior, depois da invasão do Iraque.
A crescente oposição interna à Guerra no Iraque, assim como o medo
da morte ou da invalidez causada pelos ferimentos, produziu efeitos
sobre as Forças Armadas e a Guarda Nacional, uma vez que o Pentágono
desde então não consegue atingir suas metas anuais de recrutamento.
Em 2007, a exaustão e a fadiga estavam a
abater as tropas dos Estados Unidos no Iraque e as deserções
aumentavam.
Seria difícil para Washington deflagrar e sustentar outra guerra
convencional. E o impasse existente entre os Estados Unidos e a
extinta União Soviética, que culminou dramaticamente com a crise dos
mísseis instalados em Cuba (1962), demonstrou que uma guerra
nuclear, conforme o então secretário de Defesa, Robert McNamara,
admitiu, era “unthinkable”.
Não haveria vencedor. Não haveria benefícios para nenhuma das
potências. Somente custos imensos, incalculáveis, em vidas e
propriedades. Com razão Zbigniew
Brzezinski observou que as armas nucleares reduziram
praticamente a utilidade da guerra como instrumento da política ou
mesmo como ameaça.
A Segunda Guerra Fria
Diante de tal situação, o poderio
militar dos Estados Unidos, por maior que seja, tem limites.
Washington não atentou para o fato de que a Rússia permanecera como
poderosa potência militar e que a paridade estratégica não havia
acabado, não obstante a desagregação da União Soviética, em 1991 A
Rússia atualmente conta com 1,2 milhão de efetivos nas suas Forças
Armadas, um total 14.000 ogivas nucleares, das quais cerca de 5.192
em estado operacional, enquanto os Estados Unidos possuem 1,3 milhão
de militares na ativa, 5.400 ogivas, das quais 4.075 ativas, ademais
de 3.575 estratégicas e 500 não-estratégicas (est) e estoque um
adicional de 1.260 inativas.
No total, a Rússia possui 62.500 armas nucleares e os Estados
Unidos, 33.500.
Tanto os Estados Unidos quanto da Rússia pouco fizeram para reduzir
o inventário de armamentos nucleares, remanescentes da Guerra Fria,
e que permaneceu, desnecessariamente mais alto dos que as
necessidades de segurança das duas potências.
Entretanto, o presidente George W.
Bush, como antes o presidente Bill Clinton, continuou a provocá-la,
humilhando-a. Logo após assumir o governo, em 2001, retirou os
Estados Unidos do Tratado de Mísseis Antibalísticos (ABM), celebrado
em 1972 com a União Soviética, a fim de implementar o
projeto de construção do sistema de
defesa antimísseis, e empenhou-se não somente em estabelecer bases
antimísseis na Polônia e na República Tcheca como também
levar a OTAN às fronteiras da Rússia, através da Ucrânia e da
Geórgia. Ainda se recusou a ratificar o Tratado de Proibição Total
de Testes, de 1996, e as mudanças no SALT 2, sobre a
limitação
e a redução dos armamentos
estratégicos.
E ordenou a invasão do Iraque, como iniciativa unilateral,
desrespeitando o Conselho de Segurança da ONU. O presidente George
W. Bush derrubou todos os fundamentos da ordem internacional e,
conseqüentemente, da paz, que possibilitou o fim da Guerra Fria.
Porém, não conseguiu desfazer o equilíbrio de poder global, objetivo
do projeto de instalar as bases do sistema de defesa antimísseis na
Polônia e na República Tcheca. Como o próprio Mackinder havia
ressaltado, a Rússia é um player state e não um Estado
periférico.
Está diretamente dentro da pivot area da Eurásia. Pode usar
sua influência e dinheiro, dificultar ou mesmo suspender o
fornecimento de energia (gás e petróleo), de que a União Européia
tanto necessita, bem como solapar os interesses dos Estados Unidos
no Oriente Médio e em outras regiões, vendendo armamentos à Síria,
Irã etc., além de exercer seu poder de veto no Conselho de Segurança
da ONU. A Rússia tem mais condições de afetar o Ocidente, que
precisa mais da Rússia, do que o Ocidente, de afetar a Rússia, que
não precisa tanto do Ocidente. Assim, econômica e financeiramente
recuperada, ela voltou a participar do Great Game, o jogo de
poder na Ásia Central. A Segunda Guerra Fria efetivamente começou.
Os comandos militares, instituídos pelos Estados Unidos, com
jurisdição sobre continentes e determinadas áreas são:
Northern Command (NORTHCOM)
(Peterson Air Force Base, Colorado), the Pacific Command
(Honolulu, Hawaii), the Southern Command (Miami, Florida –
Map 5), The Central Command (CENTCOM) (MacDill Air Force
Base, Florida), the European Command (Stuttgart-Vaihingen,
Germany), the Joint Forces Command (Norfolk, Virginia), the
Special Operations Command (MacDill Air Force Base,
Florida), the Transportation Command (Scott Air Force Base,
Illinois) and the Strategic Command (STRATCOM) (Offutt Air
Force Base, Nebraska).
The White House – Office of the Press Secretary - Fact Sheet
- Counter-Terrorism - The White House's Position on
Terrorism - State Fair Arena, Oklahoma City, Oklahoma April
23, 1995
PFAFF, William – “Empire
isn't the American way
–Addiction in Washington”, International Herald Tribune
09.04.2002
PFAFF,
William – “Empire
isn't the American way
–Addiction in Washington”, International Herald Tribune
09.04.2002.
H. Josef Hebert – “Group: Cheney Task Force Eyed on Iraq
Oil”. Associated Press July 18, 2003
Andrew E. Kramer. “Deals With Iraq Are Set to
Bring Oil Giants Back”.
The New York Times,
June 19, 2008.
“The Global Energy Market: Comprehensive Strategies to Meet
Geopolitical and Financial Risks – The G8, Energy Security,
and Global Climate Issues” Baker Institute Policy Report
(Published by the James A. Baker Institute for Public Policy
of Rice University. Number 37 – July 2008.
U.S. Bureau of Economic Analysis, "U.S. International Trade
in Goods and Services, Exhibit 1", March 11, 2008. News
Release: U.S. International Transactions. Bureau of Economic
Analysis – International Economic Accounts – U.S.
International Transactions: First Quarter 2008 Current
Account
U.S.
Departament of Commerce http://www.bea.gov/newsreleases/international/transactions/transnewsrelease.htm
President Bush
Delivers State of the Union Address
United States Capitol Washington, D.C. Office of the
Press Secretary - January 31, 2006
MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. Formação do Império
Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no
Iraque), Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira,
2ª. ed., p. 585-586.
Silk Road Strategy Act of 1999, 106th CONGRESS -
1st Session - S. 579.
Ian Travnor.
“US campaign behind the turmoil in Kiev”, The
Guardian, November 26 2004.
F. William Engdahl. “Revolution, geopolitics
and pipelines” – Asia Times, June 30, 2005.
A Gazprom é a maior empresa de
energia da Rússia, controlada pelo Estado, e conta com a
participação acionária das empresas alemãs E.On e
BASF-Wintershall,
A Gazprom fornece 60%
do gás natural consumido na Áustria, 35% da Alemanha e 20%
da França. Também fornece gás a outros países, como a
Ucrânia, Estónia, Lituânia e Finlândia. Em 2006, a
Gazprom cortou
o fornecimento à Ucrânia
por causa de uma divergência
em torno de o aumento de
preços, o que afetou
países da União Européia.
Josh White “Hidden Costs' Double Price Of Two Wars,
Democrats Say”. The Washington Post, November
13, 2007, p. A14
Congressional Research Service Report for Congress. China´s
Holdings of U.S. securities – Implications for the U.S.
Economy. Updated May 19, 2008.
IMF, International Financial Statistics, November 2007; IMF
Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves.
Robert Hodierne Concern over US army recruitment. BBC
News- Last Updated: Wednesday,
BBC Radio 4's Crossing Continents
23 August 2006, 22:48 GMT 23:48 UK.
Ann Scott Tyson “Army Having Difficulty Meeting Goals In
Recruiting Fewer Enlistees Are in Pipeline; Many Being
Rushed Into Service”. Washington Post, February 21,
2005, p. A01
Center for Strategic and International Studies (CSIS).
Western Military Balance and Defense Efforts. A Comparative
Summary of Military. Expenditures; Manpower; Land, Air,
Naval, and Nuclear Forces - Anthony H. Cordesman & Arleigh
A. Burke Chair in Strategy with the Assistance of Jennifer
K. Moravitz - CSIS January, 2002.
http://www.csis.org/media/csis/pubs/westmb012302%5B1%5D.pdf
NORRIS,
Robert S., and M. KRISTENSEN, "Russian nuclear forces,
2008",
Robert S. Norr is & Hans M. Kristensen. “Russian nuclear
forces, 2008”. Nuclear Notebook - Bulletin of the Atomic
Scientists. May / June 2008 Vol. 64, No. 2, p.
54-57, 62 DOI: 10.2968/064002013. Robert S. Norr is & Hans
M. Kristensen. “U.S. nuclear forces, 2008”. Nuclear
Notebook - Bulletin of the Atomic Scientists. May /
June 2008 Vol. 64, No. 2, p. 54-57, 62 DOI:
10.2968/064002013
http://thebulletin.metapress.com/content/pr53n270241156n6/fulltext.pdf
-Department of Defense – Active Duty Military Personal by
Rank Grade – August 2007.
http://siadapp.dmdc.osd.mil/personnel/MILITARY/rg0708.pdf
|
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)
|