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ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
Professor do Mestrado em Educação
nas Ciências da UNIJUÍ - RS e da Universidade Johannes Kepler de
Linz (Áustria). Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela
Universidade de Osnabrück (Alemanha)

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Transgênicos, produção de alimentos e combate
à fome
Antônio Inácio Andrioli

A atual produção mundial de alimentos
é superior à capacidade de consumo dos seres
humanos. Assim, podemos constatar que a fome não resulta de uma
baixa produtividade ou de pouca
produção
de alimentos no mundo. A
questão, entretanto, é a seguinte: como os 860
milhões
de seres
humanos
que passam fome
podem ter
acesso
aos alimentos? Alternativas técnicas, como a transgenia, poderiam
contribuir para combater a fome?
As questões políticas fundamentais
que se colocam no debate sobre a produção de alimentos
giram em torno do que, porque, como, por
quem e para quem algo é produzido. Nos
últimos
anos, se vislumbrou, de forma crescente, a possibilidade de lucrar
com a produção de alimentos. Uma das formas
é disponibilizar alimentos baratos sob tais
condições que
a produção local em outros países seja
destruída e se gere uma dependência
na importação. Por exemplo, o Brasil exporta frangos para a Europa,
os europeus
consomem as partes mais
nobres e as que não desejam consumir são exportadas
gratuitamente
para a África, com o suposto propósito de combate à
fome. Assim, o frango
exportado para os países africanos destrói a
produção local, pois estes não têm
condições de competir com as doações de alimentos.
Essa é uma forma de
dependência
acompanhada de um “espírito de solidariedade” e assistencialismo,
pois os europeus argumentam que, assim, estariam ajudando os
países
pobres.
Mas, quais alimentos são produzidos? No
caso do Brasil, é evidente que o país produz demasiadamente soja,
que, em sua maior parte, se destina à alimentação de bovinos, suínos e aves dos europeus,
estadunidenses e chineses. E, atualmente, também passa a contribuir
para abastecer veículos na forma de agrodiesel. A monocultura da
soja destrói o meio ambiente e a produção local de alimentos para
servir de combustível para
os países
ricos.
O Brasil produz excessivamente soja,
café, algodão, cacau, laranja, enfim, as monoculturas destinadas à
exportação, produtos que, em sua maioria, não são consumidos pelos
brasileiros. Por outro lado, o país produz pouco
arroz, feijão e mandioca, produtos que constituem a
base alimentar dos brasileiros e passaram a ser importados com
dinheiro
das assim
chamadas
divisas do superávit da balança comercial,
resultante das
exportações
agrícolas. Essa é uma das formas de
desigualdade que contribui para a concentração de renda nos países
ricos e pobres e para o aumento da fome. Por exemplo, o Brasil é o
maior
produtor de café
em grão do mundo. A Alemanha, país mais rico da Europa, é o maior exportador
de café refinado do
mundo
sem produzir
um único grão do produto. Isso não ocorre somente com o café.
Trata-se de uma política de geração de dependência, que há mais de
500 anos vigora no Brasil.
Por isso, a fome e a produção de
alimentos
constituem uma questão política e não
técnica. Trata-se da soberania
alimentar
de uma população. Além disso,
determinadas
tecnologias, como a transgenia,
proporcionam a algumas empresas o poder
de se apropriarem de recursos naturais, que deveriam estar
à disposição de
todos, para o aumento de seus lucros. Essas mesmas
empresas são beneficiadas com a fome (a assim
chamada crise
alimentar), que é
muito
mais resultado
de uma especulação
com
alimentos do que
da sua falta de
disponibilidade ou do aumento do consumo em algumas regiões do mundo.
Os chineses, por exemplo, estão consumindo mais alimentos importados
exatamente em função do forçado processo de industrialização e
urbanização em curso naquele país, diminuindo a produção de
alimentos, aumentando o êxodo rural e, por consequência, o número de
pessoas que deixam de produzir para consumo próprio.
Além dos fatores anteriormente citados,
é principalmente a concentração
no sistema
alimentar
mundial que tem contribuído para o
aumento da fome. No Brasil, isso não significa apenas afirmar
que
determinadas empresas
monopolizam diretamente a produção de
alimentos, pois elas estão controlando o uso da
terra. A terra continua
concentrada como propriedade de empresas que
passam a produzir
soja,
etanol, agrodiesel e celulose. É esse o futuro projetado para a agricultura
brasileira pelo “agronegócio” e, com
isso, se produz mais fome,
pois estão sendo excluídos do acesso
à alimentação aqueles
que poderiam produzir
para se alimentarem a si
mesmos e que
estariam em
condições
de produzir um excedente para
abastecer
o mercado
local
e regional. Esse
tipo
de agricultura está sendo destruído, o
qual é responsável pela
alimentação da
maior
parte das pessoas
no planeta: a agricultura familiar.
A agricultura familiar ,não recebe apoio público na forma como deveria
receber, considerando sua importância para a soberania alimentar das
nações. O debate sobre os subsídios agrícolas também é fundamental no que se
refere à alimentação. Na Europa, por exemplo, é subsidiada a
agricultura que não precisa do subsídio (os grandes produtores rurais e
corporações agrícolas), em função da pressão política das suas
organizações. O governo apoia, prioritariamente, quem expande sua
capacidade produtiva, o que gera um problema de superprodução. Em
seguida, para compensar os baixos preços decorrentes do excesso
produzido, os governos subsidiam a exportação desses produtos, que
entram no mercado
internacional, destruindo a produção em outros países e gerando uma nova dependência.
Com referência aos transgênicos,
que
foram anunciados com a promessa de
contribuir para o aumento da produção de alimentos, é evidente que
empresas como a Monsanto, a Syngenta, a Bayer e a Basf não estão
interessadas em
combater a fome.
Seu objetivo é aumentar o poder de controle sobre
a produção de
alimentos
desde a gênese
do alimento: a semente. Nunca na história
da humanidade se obteve um domínio tão grande sobre a produção de
alimentos, porque nunca era possível determinar a partir de uma técnica a apropriação dos resultados econômicos dessa
tecnologia. Atualmente isso é
possível. A transgenia e algumas outras
biotecnologias que ainda estão por
vir permitem que algumas empresas possam controlar
onde e qual planta será
cultivada, que tipo de insumos
se vai utilizar (os insumos que essas empresas
tem a oferecer) e para
quem
essa comida será produzida.
Há diversos problemas éticos envolvidos
nesse debate. Existem pesquisadores (intelectuais liberais) que não
conseguem entender
porque
as pessoas
pobres
não querem consumir o que os ricos
rejeitam: os alimentos
transgênicos,
com altos
riscos à saúde,
enormes conseqüências ao meio ambiente e problemas sociais, que se tornaram conhecidos nos
últimos dez
anos, em
que apenas duas
formas
de transgenia foram liberadas para cultivo.
Trata-se de uma planta resistente a um herbicida e uma planta
resistente a determinados
insetos. Após 5 anos de
cultivo essa tecnologia passa a perder a sua
validade e precisam ser acrescentadas novas
características para que ela
possa continuar
sendo eficiente, representando um alto custo econômico, ecológico e
social.
Está comprovado que a transgenia é uma
tecnologia
que não
deu certo, com a constatação de resistência de inços ao glifosato,
no caso da planta
resistente a herbicida, e a resistência
dos insetos contra a toxina
produzida pela bactéria bacilus turinguiensis, introduzida
nas plantas Bt. Mas, apesar disso, existe um lobby enorme sobre
parlamentos e governos, uma forte pressão da mídia e um aparato de propaganda para forçar a sociedade
a consumir o que ela não está disposta
a consumir e os agricultores estão sendo forçados a
produzir
de uma só forma. Se o agricultor não consegue mais
produzir de outra
forma, o consumidor
não terá mais
a possibilidade de escolher o tipo
de alimento. Portanto, de uma só vez, estão sendo restringidos dois direitos históricos dos seres
humanos: a) a liberdade dos agricultores
de definirem sua forma de produzir; b) a liberdade dos consumidores
em sua opção de consumirem alimentos melhores, mais saudáveis e que
não contenham
toxinas
ou resíduos de agrotóxicos.
Com os transgênicos estão sendo
produzidos alimentos de pior
qualidade, com menor produtividade e com
mais custos
econômicos, ecológicos e sociais. Por detrás dessa temática está o debate
sobre o tipo
de agricultura que um país pretende
priorizar, o acesso aos recursos naturais,
a Reforma Agrária, enfim, a
possibilidade de um povo se alimentar de uma forma mais saudável e de viver com mais qualidade. A silenciosa contaminação de solos e alimentos,
através dos cultivos transgênicos, integra uma
estratégia
de dominação associada a uma perspectiva
de aumento dos preços dos
alimentos. Assim, é possível controlar
populações
inteiras que ficam
subordinadas aos interesses de algumas corporações multinacionais,
fazendo da produção de
alimentos
uma forma de enriquecimento privado e um
poder político sem precedentes na história
da humanidade.
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