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RUDÁ RICCI
Sociólogo,
Mestre em Ciência Política e Doutor em Ciências Sociais.
Coordenador do

Instituto
Cultiva e membro da Executiva Nacional do Fórum Brasil
do Orçamento. Membro do Observatório Internacional da Democracia
Participativa

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As eleições de 2008: a mesmice
Rudá Ricci
O Brasil é sempre surpreendente.
Recentemente, soubemos que estamos atingindo o índice de natalidade
europeu: a média de filhos por mulher, hoje, é de 1,8 (mesmo nas
áreas rurais ou mais pobres, o índice foi reduzido a 2,1). Todo
discurso de controle de natalidade foi para o ralo da história.
E, nesses dias de eleição municipal,
mais alguns tabus caíram. O mais importante, possivelmente, é que o
mote da mudança não atrai mais eleitores. É perceptível a eleição
(em especial, nas capitais e grandes centros urbanos do país) um
certo continuísmo ou mesmo a influência evidente dos partidos
dominantes. Estamos estabilizados do ponto de vista da representação
política formal. Alguns condicionantes levam a esta situação. O
primeiro é o processo eleitoral que limita a capacidade da vontade
do eleitor ser respeitada. Em virtude do quociente eleitoral, nem
sempre o mais votado é eleito, já que a soma de votos do partido ou
coligação acaba sendo dividido entre os “puxadores de voto” ou “os
caciques partidários”. Um partido estabilizado pode, em virtude de
dois ou quatro puxadores de voto, eleger vereadores com baixa
representatividade, enquanto um candidato de partido inexpressivo,
com grande representatividade, poderá ficar na lista de espera. Um
segundo fator é a consolidação do sistema partidário entre PT, PSDB
e PMDB. PT e PSDB se firmaram no espectro partidário desde os anos
90. Lá se vão quase duas décadas. São dois partidos com programas
similares: socialdemocratas ou social-liberais, que se aproximam
rapidamente para constituir uma aliança anunciada desde a Europa (o
sociólogo francês Alain Touraine desde sempre afirmava que esta
seria a maior solução política para o Brasil). O PMDB, por sua vez,
é o partido dos vários pais, onde em muitos lugares, pela falta
absoluta de identidade nacional, terá sempre um candidato que
reflita a vontade da maioria. O PMDB é o partido mais próximo do
“espírito brasileiro”, o “partido ônibus” que um dia Fernando
Henrique Cardoso procurou teorizar sem grande charme. Com tantos
caciques de caráter regional, é um partido mosaico, como uma
família-mosaico, onde pais e filhos não são exatamente parentes
biológicos, mas se reconhecem como família (instável, mas não
deixando de se apresentar socialmente – ao menos – como família).
A mesmice está no perfil das câmaras
municipais. A Transparência Brasil vem estudando o índice de
relevância das ações dos vereadores de capitais brasileiras. A
relevância não supera 20% de seus atos. O caso mais absurdo é o de
Porto Alegre, onde 86% da atividade legislativa dos vereadores é
absolutamente irrelevante. De 1.442 mil projetos apresentados entre
2005 e 2008 pelos vereadores que se encontram em exercício, 694
foram aprovados. Desses, 171 se referiam a assuntos de impacto real
sobre a vida dos cidadãos de Porto Alegre. Os demais projetos foram
reservados a fixação de datas comemorativas, homenagens e outros
assuntos que mais se aproximam de campanha eleitoral que legislação
do município. São Paulo e Rio de Janeiro não estão muito além desta
situação, onde a taxa de relevância chega a 20%.
Outro indicador da desaceleração das
mudanças na política formal brasileira é a faixa etária dos
vereadores. Em São Paulo e Rio de Janeiro, a faixa etária mais
relevante é a que vai de 40 a 60 anos de idade (76% em São Paulo e
56% no Rio de Janeiro). Rui Maluf, que destacou o fenômeno em artigo
publicado no Valor Econômico (de 02 de outubro último) sugere que o
encantamento com a redemocratização já acabou. Lembremos que nas
últimas eleições para as Assembléias Legislativas, o índice de
mudança real nos parlamentos estaduais foi muito baixo, ocorrendo
uma mudança de nomes, mas não de comando familiar. Em Minas Gerais,
o deputado mais votado era o desconhecido filho do todo poderoso
secretário de governo de Aécio Neves, Danilo de Castro. Muitos
outros seguiam nesta lista. Em Belo Horizonte, encontramos Leonardo
Quintão, filho do prefeito de Ipatinga, em destaque. Em Salvador,
ACM Neto. No Acre, temos a dinastia da família Viana. Os casos se
multiplicam ao longo do país.
O Brasil se acomoda politicamente,
afinal.
A concentração orçamentária e política
que foi se refazendo após a Constituição Municipalista de 1988 é o
fator mais determinante desta situação. Pequenos municípios dependem
de transferências de receita federal e estadual, chegando a 80% de
sua receita disponível. Como deixar de apoiar ou se vincular aos
caciques estaduais e nacionais? Como arriscar ou blefar
politicamente com tal nível de dependência orçamentária? Ser
outsider da política tornou-se uma iniciativa quixotesca.
Há um ou outro fenômeno peculiar e
desigual. Mas são menos significativos.
Este é o caso das ações de impugnação de
candidaturas que parecem se avolumar no país. Não são meras ameaças.
Muitos prefeitos tiveram quatro anos de tortura, disputando
recursos, perdendo e retornando ao cargo. São muitos os casos. E
parecem que se repetirão, como em Recife ou Ipatinga. É um fenômeno
em ascensão que merece atenção.
Há, ainda, fenômenos políticos
regionais, como a polarização PT/Dinastia ACM, na Bahia; a constante
instabilidade e crise de representação no Rio de Janeiro, que
desmancha candidaturas e lideranças até ontem poderosas; o papel das
máquinas partidárias e eleitorais em São Paulo; a disputa
consolidada entre PT-Orçamento Participativo/Jarbas
Vasconcelos-associações de bairro, em Recife. Há casos como esses,
que colorem a mesmice. Mas não passam de detalhes.
O Brasil da política oficial é cada vez
mais igual, mais estável, mais previsível. É cada vez mais
“americanizado”, com espetáculos curtos e de grande efeito que
transformam o eleitor em espectador, em platéia. É o país da
política profissional, onde o eleitor é um mero coadjuvante da
política formal, aparentemente poderoso no dia da eleição. Nem mesmo
suas opções são efetivamente respeitadas, caso mais evidente nas
eleições de Belo Horizonte, onde um desconhecido de sempre foi
vendido como candidato preferido dos caciques de Belo Horizonte e
Minas Gerais. Quem ganha as eleições em situações desta natureza? O
candidato ou seus padrinhos, os caciques?
Assim, temos a emergência de uma nova
geração de políticos profissionais, com perfil próximo dos yuppies,
distantes e formais, com seus ternos escuros e cabelos com gel ou
mousse, suas falas pausadas, sua falta de charme e originalidade,
seu olhar frio e grande intimidade com grandes empresas. É a volta
às grandes obras, à felicidade das grandes empreiteiras, às
desapropriações conhecidas nos anos 70. Na área social ficam os
projetos de transferência de renda de tipo neo-clientelista.
E assim, la nave vá. O que salva o país
é a política não oficial. Mais uma vez.
Sociólogo, 45, Doutor em Ciências Sociais, Fórum Brasil de
Orçamento e do Observatório Internacional da Democracia
Participativa. Co-autor de “A Participação em São Paulo”
(Editora UNESP) e Dicionário da Gestão Democrática (Editora
Autêntica).
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