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ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)
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Resenha:
FERREIRA, Marieta de Moraes e
FORTES, Alexandre. (Organizadores). Muitos caminhos, uma
estrela – memórias de militantes do PT. São Paulo: Editora
Fundação Perseu Abramo, 2008 (447p.)
Rumos e escolhas dos caminhantes que fazem a
História
Antonio Ozaí da Silva
O
livro “Muitos caminhos, uma estrela”, organizado por Marieta
de Moraes Ferreira e Alexandre Fortes, é parte do projeto de
História Oral do PT, desenvolvido pelo Centro Sérgio Buarque de
Holanda, numa parceria entre a Fundação Perseu Abramo e o Centro de
Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação
Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). Ele resgata a memória de militantes que
fundaram e construíram o Partido dos Trabalhadores, lideranças e
personalidades reconhecidas dentro e fora do PT.
O projeto prevê a publicação de três
volumes. O primeiro volume reúne doze depoimentos, com o objetivo de
abranger a diversidade das experiências de vida quanto à origem
social, gênero, raça e vínculos com as diferentes correntes
políticas que desaguaram no caudaloso leito do projeto de formação
do PT. Foram entrevistados: Apolônio de Carvalho, Antonio Candido,
Manoel da Conceição, Djalma Bom, Olívio Dutra, Paulo Rocha, Avelino
Ganzer, Luiz Dulci, Raul Pont, Hamilton Pereira, Benedita da Silva e
Irma Passoni. São diferentes trajetórias de vida que se expressam
sonhos e esperanças de diferentes gerações. O ponto em comum entre
todos consiste na decisão de seguir a estrela.
Cada depoimento é acompanhado de um
verbete introdutório com dados biográficos do entrevistado e também
foi incluído um “Glossário de organizações partidárias”, além do
índice remissivo. São recursos que oferecem informações importantes
e facilitam a leitura. A edição, desde a capa, formato, inclusão de
imagens, etc., revela zelo e estimula a leitura.
As entrevistas começaram a ser feitas no
início de 2005, no período da mais grave crise que acometeu o PT em
sua história. Como reconhecem os organizadores da obra, “é natural
que num projeto dessa natureza, as marcas da evolução da conjuntura
estão presentes, tanto no ritmo de implementação do projeto a partir
de então, quanto na forma como os depoentes estabelecem relações
entre o passado e o presente no momento em que suas falas foram
registradas” (FERREIRA e FORTES, 2008, p.13).
Este fato, em si inevitável, longe de
comprometer o resgate da memória histórica dos entrevistados e,
portanto, de uma interpretação do passado influenciada pela
experiência acumulada e os valores incrustados nos corpos que vivem
o tempo presente, representa dupla contribuição: de um lado, os
entrevistados compartilham lembranças e informações sobre a história
recente do país, contribuindo para a sua análise e compreensão; de
outro, seus olhares sobre este passado representa também uma leitura
do presente, uma justificação das escolhas e posturas políticas e
pessoais no tempo presente, o que contribui para compreendermos a
realidade política atual. É o passado que se faz presente, e,
reinterpretado e influenciado por este, legitima as escolhas de
ontem e de hoje.
A leitura dessa obra pode ajudar-nos a
compreender os caminhos e descaminhos do PT, cujo desenlace é
sintetizado pela conquista eleitoral da presidência da República.
Contudo, como afirmam os organizadores:
“...a leitura das entrevistas aqui
reunidas constitui uma forma de acesso privilegiado ao modo como
essa construção foi vivenciada por vários dos seus
protagonistas. Possibilita também compartilharmos do processo de
reelaboração do sentido das suas experiências pessoais e
coletivas, à medida que foram confrontadas com novas realidades,
muitas das quais absolutamente imprevisíveis quando seus
destinos se cruzaram para dar origem a uma organização que, com
prazer, amargura ou indiferença, qualquer observador é hoje
obrigado a reconhecer que transformou a história política do
país” (Id., p.15).
Nesta perspectiva, este trabalho
extrapola os muros da cidadela petista e representa uma contribuição
fundamental aos historiadores, sociólogos, antropólogos, cientistas
políticos e todos os que se interessem em apreender a história do
Brasil pelo olhar dos que fazem o caminho em seu caminhar e, assim,
humanamente configuram o tempo presente, o tempo em que as novas
gerações vivem e viverão. Estes caminhantes não se restringem aos
líderes e personalidades, mas estes são representativos do seu tempo
e das gerações que os consagraram. Ainda que nós, leitores, não
concordemos politicamente com os entrevistados e o que eles
representam, são histórias de vida que se vinculam às nossas, ao
nosso tempo, e, portanto, a dimensão histórica das suas vidas é
importante.
“Nossas vidas são a acumulação de nossos
passados pessoais, contínuos e indivisíveis”, afirma Thompson (1992,
p.195). Um passado que insiste em permanecer presente, permanência
inscrita em nossos corpos e sedimentada em nossa memória. Mesmo
quando queremos esquecê-lo, ele está lá no recôndito aparentemente
inatingível do nosso ser. Essa memória é rica, plena, efetiva e
expressa a dimensão do vivido pelos homens e mulheres de carne e
ossos, seres que sofrem, sangram e têm os seus medos, mas também se
alegram, riem e, sobretudo, são grávidos de esperança e carregam em
si a utopia do vir-a-ser. São experiências de vida que podem
ser evocadas e compartilhadas com as gerações do tempo presente e,
simultaneamente, contribui para a compreensão do passado tal qual
ele se apresenta, das organizações e movimentos sociais aos quais as
nossas vidas se vincularam. Se o passado teima em viver em nós, é
melhor tentar compreendê-lo.
São as nossas escolhas que explicam o
que somos; e o que somos, ainda que não o reconheçamos, é um
amálgama complexo construído pelas decisões que tomamos em nosso
caminhar. As nossas opções também são influenciadas pelas atitudes
dos outros diante dos dilemas compartilhados. Em certa medida, o que
somos é também a influência dos outros sobre nós. Portanto, ler as
memórias daqueles que, reconhecidamente, influenciaram uma época, é
também uma forma de dialogar com o próprio passado e presente. Isso,
é claro, tem um significado maior para aqueles que em seus caminhos
também seguiram a estrela.
De qualquer forma, é um livro que merece
ser lido, especialmente por todos os que ainda acreditam na utopia,
no vir-a-ser anunciado naqueles bons e velhos tempos da
formação do PT, uma necessidade ainda premente. A caminhada exige a
reflexão crítica sobre os caminhos percorridos e a leitura pode
contribuir nessa direção.
Referências:
FERREIRA, Marieta de Moraes e
FORTES, Alexandre. (Organizadores). Muitos caminhos, uma
estrela – memórias de militantes do PT. São Paulo: Editora
Fundação Perseu Abramo, 2008
THOMPSON, Paul. A voz do
passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
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