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Tecnologia,
Transgênicos e Segurança Alimentar
Henrique Rattner
Sobre o papel da tecnologia
Assumindo que
inovações tecnológicas devem assegurar a eqüidade e justiça social e
econômica dentro e entre as sociedades contemporâneas, podemos
considerá-la como condição necessária para a continuidade ou a
sustentabilidade do processo de desenvolvimento. No entanto a
experiência histórica mostra que quando novas tecnologias são
introduzidas em sociedades mais pobres e atrasadas sem que se adotem
medidas políticas específicas para assegurar práticas distributivas,
elas causam a exacerbação das iniqüidades em termos de renda e de
poder. As classes mais ricas obtêm uma parcela maior dos benéficos
gerados pelas inovações, enquanto as camadas mais pobres tornam-se
ainda mais pobres e espoliadas. Veja-se, como exemplo, o impacto da
“revolução verde” em termos da concentração das terras, da
expropriação de pequenos lavradores e da expulsão dos trabalhadores
“sem terra”, nos países conotados como “em desenvolvimento”.
Devido aos
interesses econômicos e práticas comerciais firmemente estabelecidos
que se constituem em parte importante das relações de poder em nossa
sociedade, os custos reais das atividades econômicas e seus impactos
sociais e ambientais não são contabilizados na formação dos preços
dos produtos. Estudos apontam para os custos sociais ou ambientais
por US$ 1,00 de produção, que vão de US$ 2,03 a US$ 2,89 nas
atividades de mineração de ferro e da produção de ferro-liga,
representando um viés gritante na contabilidade econômica.
A não
inclusão dos danos e a depredação ambiental nos custos e preços dos
produtos significam sua transferência para a sociedade, sendo que os
lucros são creditados à eficiência dos administradores e os
dividendos são pagos aos acionistas das empresas.
O
desenvolvimento e a aplicação de biotecnologias (transgênicos ou
organismos geneticamente modificados), utilizando grandes
quantidades de defensivos químicos, resulta em degradação de
recursos naturais por seus resíduos tóxicos e prejudiciais à saúde
humana.
O agravamento
da situação atual caracterizada pela acelerada deterioração do meio
ambiente em escala global – o efeito estufa, a destruição da camada
de ozônio, a chuva ácida, a destruição das florestas, a erosão dos
solos e a expansão de desertos, a perda de inúmeras espécies de
plantas e animais, a contaminação tóxica do ar e da água -
provocarão pressões sociais e políticas para que se imponham
restrições mais severas às violações das normas e leis de
conservação e proteção ambiental.
Até aqui
tratamos apenas dos efeitos negativos das tecnologias agrícolas e
industriais no meio ambiente físico e biológico.
Devemos
acrescentar também algumas observações sobre os impactos no meio
ambiente social e cultural das estratégias de crescimento econômico
dominantes.
O avanço e a
expansão da agroindústria moderna causaram a destruição de tribos e
comunidades nativas, com a conseqüente perda da diversidade
cultural, patrimônio de toda a humanidade.
Em vez de
reduzir desigualdades e desequilíbrios sociais, as políticas
econômicas vigentes aumentam as diferenças e aprofundam a segregação
e polarização social. Sem negar a importância de um aumento da
oferta de bens materiais e de alimentos para assegurar maior
estabilidade nas relações sociais, principalmente nas regiões mais
pobres do mundo, serão as opções políticas tomadas pelos governos e
não necessariamente a aplicação de novas tecnologias que definirão o
escopo de “nosso futuro comum”.
O discurso
oficial promete soluções por meio do progresso técnico. Mas, ciência
e tecnologia não são politicamente neutras. Em cada contexto
histórico e social, as formas concretas da tecnologia representam
uma combinação de diferentes níveis de poder econômico e político,
centralizada nas mãos do capital e enfrentando as aspirações dos
trabalhadores, não somente por melhores salários, mas por mais
autonomia e autogestão.
As práticas
políticas refletem essas contradições e estabelecem os limites de
ciência e tecnologia como instrumentos de mudança social. O
desenvolvimento tecnológico bem como sua incorporação ao sistema
produtivo, obedecem aos critérios da chamada racionalidade econômica
ou, a maximização do retorno sobre o investimento. Por isso,
postular mudanças sociais no sentido de mais eqüidade e justiça
social, com base em diretrizes tecnológicas e econômicas
convencionais, parece ingênuo ou beira a mistificação.
A estrutura
do poder político define, em última análise, a distribuição de
riquezas e o acesso aos bens materiais e simbólicos, para a
satisfação e bem-estar da população. Para conseguir isto, as elites
terão de sustentar uma estratégia que possa arregimentar a maioria
da população, a fim de conseguir coesão e solidariedade na busca dos
objetivos da sociedade.
Propostas e
esforços comuns criam uma malha complexa de idéias, crenças e
valores coletivos que conferem legitimidade às políticas
governamentais e induzem poderosos processos de identificação,
motivação e participação e, dessa forma, energizam e potencializam a
vontade e as aspirações coletivas.
Qualquer
progresso em direção à solução dos problemas ambientais, locais,
nacionais e globais dependerá, em última análise, de ações
coletivas, de envolvimento, identificação e participação em
programas e projetos de grupos de pessoas suficientemente
organizados, educados e motivados.
As
organizações de base e as próprias comunidades fornecem os canais
mais próximos e acessíveis para uma participação efetiva e para a
expressão dos anseios e das aspirações da população.
O objetivo
central de todo esse processo deve ser constituído de um esforço
contínuo para a descentralização e o incremento da participação da
população nos processos decisórios. Novas formas de organização e de
gerenciamento, diferentes das atuais estruturas hierárquicas e
burocráticas dominantes, tornam-se necessárias a fim de elevar a
“eficiência coletiva” de grupos e comunidades em vez da performance
individual e competitiva, hoje enfatizada demais nas instituições
públicas e privadas, nos escritórios e nas fábricas.
Transgênicos – organismos
geneticamente modificados
À medida que
disparam os preços de alimentos e a escassez de alguns deles assume
dimensões alarmantes, o recurso a safras geneticamente modificadas
parece cada vez mais tentador para elevar a produtividade da
agricultura, sem usar mais energia ou produtos químicos. As safras
geneticamente modificadas são cultivadas de forma muito extensiva no
mundo para uso como ração animal e como ingredientes de alimentos
industrializados.
Mesmo na
Europa, onde as safras GM sofrem mais restrições, ao contrário dos
EUA e da Argentina, a cada dia levantam-se mais vozes em sua defesa
como única tecnologia capaz de resolver a crise mundial de
alimentos.
A reunião
recente do G8 no Japão admitiu o potencial das safras GM,
condicionando seu uso à promoção de análises de risco, com base
científica, inclusive das sementes desenvolvidas por meio da
biotecnologia. Mas muitos grupos de ambientalistas e de defesa do
consumidor continuam opostos à sua introdução, afirmando que as
safras GM representam riscos para a saúde humana e para o meio
ambiente. Alegam que os alimentos não foram testados devidamente em
animais, antes de serem colocados no mercado, desde 1996. Alguns dos
testes realizados apresentaram resultados preocupantes, com
toxicidade hepática e renal. Quanto ao meio ambiente, os opositores
afirmam que as safras GM reduzem a biodiversidade e ameaçam as
plantas e os animais silvestres. Os seus defensores alegam supostos
benefícios ambientais, pela redução de uso de pesticidas o que
compensaria os efeitos adversos.
Na América e
em certas regiões da Ásia, a área plantada com safras GM vem
crescendo rapidamente nos últimos anos. Segundo o ISAAA (sigla em
inglês para Serviço Internacional de Aplicações Agrícolas de
Biotecnologia) que monitora o uso mundial de safras GM, a área
cultivada mundial cresceu 12% para 114 milhões de hectares, em 2007.
Projeções de
analistas especialistas prevêem que as safras GM mais que duplicarão
nos próximos oito anos e cobrirão 20% das terras aráveis no mundo.
Até agora, os
cultivos realizados envolvem apenas quatro safras: soja, milho,
algodão e canela e; apresentam dois traços: resistência a herbicidas
e pestes.
Os opositores
apontam que essa primeira geração de biotecnologia não propicia um
aumento das safras de forma direta. Cultivadas em perfeitas
condições, as variedades GM não superam as versões comuns das
plantas, sem genes adicionados. Propõem, como alternativa, ajudar os
agricultores a enfrentar insetos e plantas invasoras.
Quanto à
tolerância de herbicidas, o mercado de safras de GM é dominado pela
Monsanto que produz a “Roundup Ready”, que permitiria aos
agricultores eliminar as plantas invasoras, borrifando as plantações
com este produto relativamente barato. A resistência a insetos é
produzida por um gene de um micróbio chamado Bacillus
Thurigiensis, transferido para a planta e produz uma toxina
capaz de matar pestes vorazes.
Os
partidários do uso de OGM enfatizam supostos benefícios econômicos e
assim, uma contribuição para a Segurança Alimentar no mundo. Apesar
da oposição política e dos ambientalistas, a Europa não ficou
inteiramente livre de safras GM. O milho Bt, única safra GM dotada
de licença comercial na União Européia, é cultivado na Espanha e, em
escala menor, na Alemanha, França, no Portugal e na Romênia.
A área
plantada com safras GM na Europa equivale a apenas 0,1% do total
mundial. E, os agricultores de que lado ficam? Pelo menos uma parte
dos agricultores europeus está a favor das safras GM, supostamente
mais rentáveis.
São poucas as
empresas internacionais que vendem sementes transgênicas, cujo
acesso aos mercados é combatido e, muitas vezes negado pelos
governos. Tal é o caso da Syngenta, Du Pont, Monsanto e Bayer que
disputam os mercados e pressionam os governos mediante poderosos
lobbies, advogados e até cientistas contratados para realizar
pesquisas cujos resultados são favoráveis aos produtores das
sementes. Em 2005, a União Européia condenou a Syngenta a pagar uma
multa pela importação ilegal de ração animal, por ressalvas
sanitárias.
Na Europa,
são mais de 150 regiões e municípios que declararam suas terras
livres de transgênicos; exigem uma prévia e independente avaliação
científica dos riscos, o acesso a sementes não transgênicos e a
proteção de suas variedades regionais.
No mundo
todo, inúmeras ONGs e partidos verdes adotam posturas críticas à
introdução de transgênicos na agricultura e nos alimentos e centenas
de cientistas independentes se posicionam criticamente, através de
uma moção pública dirigida a todos os governos.
No Brasil, a
liberação de sementes transgênicas é altamente controvertida,
sobretudo após a liberação de sementes de soja e de algodão, em
2007. A Justiça, a CTNBio – Comissão Técnica Nacional de
Biossegurança, composta por ministros, manifestaram-se
sucessivamente a respeito e quanto à importação de sementes de
milho, autorizada apesar de recursos contrários do IBAMA e da
ANVISA. O milho transgênico liberado não produz mais do que o milho
convencional, embora seja resistente a determinados insetos e
herbicidas. Os custos de produção em longo prazo são maiores e, ao
contrário de outras tecnologias, seus efeitos são irreversíveis, por
alterar as características das plantas sobre as quais a ciência não
tem controle.
Os efeitos
reprodutivos constituem outro aspecto alarmante: ratos e cobaias que
tiveram contato com o herbicida Roundup da Monsanto, apresentaram
vários sintomas patológicos.
Ao contrário
do que a indústria química afirma, o princípio ativo glifosato é um
produto classificado como “altamente tóxico” pela OMS – Organização
Mundial de Saúde e pela EPA – Agência de Proteção Ambiental dos EUA,
devido aos seus efeitos cancerígenos e a contaminação de alimentos,
bem como, a sua persistência no solo e nos cultivos.
Em testes
realizados no mundo inteiro, foram constatados danos à saúde de
mamíferos pelos efeitos do Roundup, o que o transforma em problema
de saúde pública.
Segurança alimentar
A Agricultura
Sustentável, baseada em biodiversidade, incluindo cultivos
orgânicos, beneficia os agricultores pobres e precisa de apoio de
políticas públicas adequadas e de medidas regulatórias.
Durante três
anos, de 2005 a 2007, a IAASTD – International Assessment of
Agricultural Science and Technology – realizou uma avaliação baseada
em evidências empíricas sobre o potencial do conhecimento
científico-tecnológico agrícola para reduzir a fome e a pobreza,
melhorando as condições de vida nas áreas rurais e trabalhando por
um desenvolvimento econômico e social sustentável. O IAASTD tem como
objetivo orientar e monitorar a agricultura nos próximos 50 anos e
foi lançado como um processo intergovernamental sob o patrocínio da
FAO, GEF, PNUD, PNUMA, UNESCO, BM, OMS e mais de 400 pesquisadores
envolvidos na elaboração de um relatório, baseado em avaliações de
evidências colhidas por milhares de especialistas do mundo.
Os relatórios
foram analisados por especialistas de grupos de pesquisa, agências
intergovernamentais, ONGs e indústrias, embora os representantes das
indústrias se retirassem do processo em certo momento.
A reunião
plenária intergovernamental foi realizada de 7 a 12 de julho de
2008, em Joannesburgo, África do Sul, para discutir o relatório
global e os cinco relatórios regionais, integrados no relatório de
síntese final.
Este
relatório enfocou oito variáveis transversais e sistêmicas:
bioenergia, biotecnologia, mudança climática, saúde humana, gestão
de recursos naturais, conhecimentos tradicionais e inovações
baseadas na experiência de comunidades, comércio e mercado e o papel
das mulheres na agricultura. 54 governos aceitaram e aprovaram os
diversos componentes do relatório, com exceção dos EUA que
consideraram o relatório “desequilibrado”, particularmente as
análises e propostas de assuntos de comércio e de biotecnologia. As
empresas agroeconômicas e de biotecnologia que no início
participaram plenamente do processo, se retiraram antes da reunião
plenária, sob alegações semelhantes. Argumentaram que na perspectiva
das indústrias, os cultivos geneticamente modificados seriam o
caminho para a redução da pobreza e da fome, o que não teria sido
refletido adequadamente no relatório.
A falta de
apoio específico aos cultivos GM foi baseada na revisão rigorosa
feita por especialistas, das evidências empíricas. Após
considerações sobre as evidências empíricas apresentadas pelos dois
lados, nos debates, o relatório é significativamente mudo sobre os
alegados benefícios de safras GM, alertando sobre as dúvidas e
incertezas quanto aos mesmos, sobretudo para os pequenos e pobres
agricultores.
Outro aspecto
focado em safras GM é a predominância da indústria biotecnológica
nas pesquisas e desenvolvimento de outras áreas das ciências
agrícolas. O relatório do IAASTD reconhece a impossibilidade das
forças do mercado de assegurar segurança alimentar aos pobres e
requer tratamento diferenciado no comércio agrícola visando
segurança alimentar, o bem estar dos agricultores e o
desenvolvimento rural.
Entretanto, a
reunião recente da OMC – Organização Mundial de Comércio, a Rodada
DOHA, não chegou a definir uma orientação específica para os países
pobres em suas negociações. Embora admita a necessidade urgente de
tratar da mudança climática, para a qual a agricultura contribui
significantemente com os gases de efeito estufa, o relatório adverte
os governos sobre os biocombustíveis, argumentando que a diversidade
das safras agrícolas para produzir combustíveis possa elevar os
preços dos alimentos e assim, reduzir a capacidade de aliviar a fome
no mundo.
O relatório
aponta também para as opções políticas que possam resultar em
diferenças significativas no tratamento dos enormes desafios a
frente e que necessitam os esforços coordenados de governos, da
sociedade civil e das agências intergovernamentais, do IAASTD,
especialmente da FAO, BM, PNUD e PNUMA das Nações Unidas.
As
organizações da sociedade civil, participantes da reunião,
convocaram todos os governos, sociedades civis e instituições
internacionais para apoiar as recomendações do relatório e de
implementar suas conclusões, dando início a uma revolução das
políticas agrícolas e das práticas necessárias para alcançar um
sistema de cultivar alimentos de modo mais eqüitativo e sustentável
no futuro. |