|
PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil



|
|
Falácias acadêmicas, 3: o mito do
marco teórico
Paulo Roberto de Almeida
1. Tente entender...
Veja, caro leitor, se você consegue entender este filósofo francês,
muito lido e muito citado em certos círculos acadêmicos:
“Assim,
por um lado, a repetição é isso, sem o que não haveria verdade: a
verdade do ente sob a forma inteligível da idealidade descobre no eîdos o que pode se repetir, sendo o mesmo, o claro, o estável,
o identificável em sua igualdade a si. E apenas o eîdos pode
dar lugar à repetição como anamnésia ou maêutica,
dialética ou diática. Aqui a repetição se dá como repetição de vida.
A tautologia é a vida, só saindo de si para voltar a entrar em si.
Mantendo-se junto a si na mnéme, no lógos e na phoné.
Mas, por outro lado, a repetição é o próprio movimento da
não-verdade: a presença do ente perde-se nele, dispersa-se,
multiplica-se por mimemas, ícones, fantasmas, simulacros etc.” (J.
Derrida, A Farmácia de Platão. SP: Iluminuras, 2005, p. 122).
Entendeu, leitor? Provavelmente não, mas não se preocupe, eu também
não entendi nada, mas não me preocupo mais com isto: há muito tempo
desisti de tentar entender esses filósofos franceses, que
converteram em hábito – praticamente uma profissão – os atos de
escrever difícil e de falar complicado, apenas para épater la
galerie e impressionar o distinto público, no que eles foram,
aparentemente, bem sucedidos (alguns ficaram ricos e famosos com
toda essa empulhação). Aliás, acredito que esse autor não estava
querendo explicar absolutamente nada a ninguém: estava apenas
gozando da cara de eventuais alunos e de leitores desprevenidos. No
que me concerne, não me deixo impressionar por falcatruas
intelectuais.
Agora, considere este outro filósofo francês, ainda mais lido e mais
citado nos mesmos meios (provavelmente não pelas boas ou corretas
razões), e que se converteu em verdadeiro paradigma das ditas
ciências sociais, quando ele, na verdade, é apenas um comentarista
filosófico da história (o que não o impediu de monopolizar várias
áreas das ciências humanas, impregnando todo o discurso acadêmico
durante mais de uma geração):
“Deveríamos fazer uma tentativa de estudar o poder não a partir dos
termos primitivos da relação de poder, mas a partir da relação de
poder em si, na medida que ela mesma determina os elementos sobre os
quais se estabelece: em lugar de pensar em indivíduos ideais aos
quais se pede que cedam algo de si mesmos ou de seus poderes para
serem submetidos, deveríamos indagar como as relações de dominação
podem por si mesmas construir os indivíduos. Da mesma forma, em vez
de investigar a única forma, o ponto central ao qual todas as formas
de poder derivam como conseqüência ou como desenvolvimento,
deveríamos abordar sua multiplicidade, suas diferenças, suas
especificidades, sua reversibilidade: estudá-las, portanto, como
relações de força que se entrecruzam, se excluem mutuamente,
convergem ou, ao contrário, se opõem e tendem a se anular. Em
resumo, em lugar de considerar a lei uma manifestação do poder, nos
seria talvez mais útil tentar descobrir as diferentes técnicas de
coerção que coloca a lei em funcionamento.” (Michel Foucault, trecho
do Résumé des Cours; Paris: Collège de France, 1989)
Bem mais compreensível, não é mesmo, caro leitor? Você acha que
poderia “trabalhar” com ele, por exemplo, para sustentar a
argumentação teórica de algum ensaio acadêmico, talvez “encomendado”
ou sugerido pelo seu professor orientador?
Textos como este, de Michel Foucault – sem falar de outros, mais
enfadonhos ou mais excitantes, de Pierre Bourdieu, de Jürgen
Habermas e de vários outros encore – têm sido usados de modo
recorrente na academia, provavelmente mais para torturar alunos
(ainda que de forma involuntária) do que para ensinar-lhes algo, de
verdade. Textos como esses, escolhidos por professores de
metodologia – por vezes, apenas trechos selecionados desse tipo de
texto, oferecidos aos alunos por professores das disciplinas
setoriais de ciências humanas – têm a função de servir de suposto
suporte teórico para a confecção de trabalhos acadêmicos:
monografias, dissertações, talvez até mesmo teses doutorais.
Pessoalmente, não tenho nada contra Bourdieu, Foucault, Habermas,
Derrida e outras sumidades do mundo acadêmico (enfim, os dois
primeiros até podem ser leituras agradáveis, mas os dois últimos são
simplesmente aborrecidamente prolixos, ou francamente ilegíveis).
Apenas acho que estes e outros autores do mesmo naipe são usados
indevidamente por professores acomodados à bibliografia convencional
e que não se preocupam em buscar explicações mais convincentes aos
problemas-temas do trabalho de seus orientandos. Eles recorrem assim
às “vacas sagradas” consagradas da conjuntura acadêmica dominante,
como uma espécie de solução de facilidade – para eles, obviamente –
ao mesmo tempo em que jogam os estudantes numa camisa de força
conceitual que pode servir para muitas coisas, menos para o
enriquecimento intelectual destes últimos.
2. A praga do marco teórico
A primeira responsabilidade do trabalhador acadêmico está
constituída pela honestidade intelectual, o que implica a
consideração de todos os elementos possíveis de serem usados numa
análise abrangente de qualquer problema social, não apenas daqueles
que correspondem às suas preferências políticas ou simpatias
filosóficas do momento. Considero este critério o mais relevante no
trabalho científico, aliás, o único relevante no campo das ciências
humanas ou sociais, e é em torno dele que eu gostaria de formular
estes comentários a mais uma das falácias acadêmicas.
De minha parte, em meus trabalhos de investigação histórica
(estritamente factual), de observação política (e, portanto, algo
subjetiva) e de análise sociológica (que, gostaria fosse a mais
objetiva possível), não tenho por hábito preocupar-me além da conta
(talvez mesmo nada) com a teoria, qualquer que seja ela. Não creio,
sinceramente, que ela seja indispensável no (e ao) desenvolvimento
de todos os tipos possíveis de trabalho intelectual. Vou ser claro:
em nossos trabalhos de elaboração intelectual, todos nós “partimos”
de alguma teoria, mesmo de forma inconsciente. Mas isso não tem nada
a ver (ou, pelo menos, não deveria ter) com a “necessidade” de expor
sua teoria previamente ao trabalho com os fatos. Prefiro deixar que
os fatos falem por si, e se alguém quiser, depois, aplicar alguma
teoria a eles, que o faça por sua própria conta e risco. Eu não vou
me preocupar em desenvolver nenhuma nova teoria para tentar
encaixar, ou amoldar, os fatos dentro dessa nova camisa de força
conceitual. Podem me acusar de radical anti-teórico, mas é assim que
vejo o mundo; desculpem-me os muito acadêmicos, mas estou me lixando
para suas preocupações
Esta é também uma das razões pelas quais eu praticamente passo por
cima dos capítulos teóricos nas dissertações e teses para cuja
avaliação eu sou convidado. Acho que os professores “torturam” os
seus alunos, obrigando-os a encontrar o famoso “quadro teórico” da
sua pesquisa, quando os pobres alunos mal dão conta do emaranhado de
fatos brutos que devem processar. Mas isso é uma outra discussão que
farei em outra oportunidade. Para confirmar quão comum é esse tipo
de atitude, permito-me transcrever aqui uma das muitas mensagens que
recebo de alunos quase desesperados com essa “obrigação”. Esta é uma
das mais recentes:
“…sou acadêmica do curso de Relações
Internacionais da Universidade xxx, estou no sétimo período já
fazendo o meu projeto de monografia. O meu tema é: Política Externa
do Governo Lula (2003-2008) o acordo IBAS (Índia, Brasil e África do
Sul) como instrumento de cooperação via Sul-Sul. Venho através deste
lhe solicitar um auxílio de materiais sobre este assunto, estou com
dúvida também de qual teoria das Relações Internacionais eu posso
usar, porque meu professor me indicou Teoria da Interdependência,
outros já me indicaram Intergovernamentalismo (o qual ainda não
encontrei material o suficiente) e até mesmo o Institucionalismo,
então não sei realmente o que aplicar, uma vez que quero trabalhar o
que levou esses países a cooperarem, quero verificar se realmente
esse acordo está contribuindo para uma maior inserção destes países
emergentes em âmbito internacional. Espero ter sido clara o
suficiente e que você com toda sua experiência possa me fornecer um
auxílio. Desde já muito obrigada pela sua presteza e tenho certeza
que seu auxílio contribuirá muito com minha formação. Grata mais uma
vez, xxx” (11/09/2008; 08:49)
O que é que eu respondi a este aluno desesperado? Isto:
PRA: “Vou ser bastante franco com você,
xxx. Uma iniciativa concreta de diplomacia, neste caso a
decisão do governo Lula de empreender um programa reforçado de
cooperação com dois outros países considerados ‘parceiros
estratégicos’, não precisa ter nenhuma justificativa teórica, nem se
sustentar em nenhum quadro conceitual vigente, para existir e se
desenvolver de fato. Essa ‘ditadura do marco teórico’, que
professores exigem de alunos que iniciam um trabalho acadêmico, é um
verdadeiro absurdo, uma camisa de força que não encontra respaldo em
nenhuma regra acadêmica, ou formalização conceitual. Se trata de uma
exigência que se justifica por ela mesma, e que, portanto, é
irracional, e se a exigência é incontornável ela se torna estúpida.
Não possuo e não conheço nenhuma teoria que possa sustentar o IBAS,
e não dou a mínima importância para isso. Uma iniciativa diplomática
não precisa passar pelo moedor de carne dos rituais acadêmicos para
existir e, portanto, pode ser perfeitamente dispensável o tal de
marco teórico. Pode dizer isto ao seu professor; eu recomendo que
você faça um trabalho intelectualmente honesto sobre o IBAS,
considerando todos os elementos factuais de que você dispõe, sem
precisar rechear o assunto com qualquer penduricalho acadêmico que
possa existir.”
Também sou habitualmente convidado a emitir pareceres sobre artigos
acadêmicos submetidos a revistas convencionais desse campo, o que se
aproxima bastante do tipo de exercício a que sou convidado exercer
quando desse tipo de consulta individual. Vejamos um exemplo recente
desse tipo de consulta.
Pergunta: “O artigo é bem escrito?
Baseia-se em pesquisa bem feita, com utilização de fontes
apropriadas? Suas conclusões são justificadas? Sua estrutura
organizacional e argumentação são claras?”
PRA: Sim, o artigo é bem escrito;
existe, talvez, certo pedantismo na análise, que não precisaria
passar pelo famoso “marco teórico”, que o autor escolheu na obra de
Derrida, a rigor irrelevante para se analisar o discurso de Xxxx
sobre o terrorismo, mas se trata, provavelmente, de ritual imposto
por algum professor viciado em desconstrucionismo.
Pergunta: “O artigo dá uma contribuição
para o seu campo de estudo? De que maneira pode ser considerado
original?”
PRA: Não creio que se necessite recorrer a um pensador deliberada e
voluntariamente obscuro, como Derrida, para explicar discursos
políticos sobre o fenômeno do terrorismo, discursos que
necessariamente carregam as ambigüidades de uma indefinição
persistente e inevitável, em vista da complexidade do conceito e do
fenômeno. Trata-se de um filósofo “obscurantista”, que busca,
expressamente, uma linguagem pretensamente complicada, críptica,
desnecessariamente prolixa e falsamente empolada, apenas para
impressionar os incautos: ele será esquecido e remetido à lata de
lixo da filosofia assim que os franceses recobrarem a razão. (...)
Ele apenas satisfaz egos filosóficos ingenuamente encantados com
filosofices inúteis de um pensador futuramente descartável.
Enfim, não pretendo deter a chave do conhecimento filosófico ou sair
por aí atirando um ou outro philosophe em alguma lata de
lixo, mas eu constato que muitos professores falam de um “marco
teórico” como algo “indispensável” ao trabalho do mestrando ou
doutorando. Com isso, eles conseguem tirar várias noites de sono do
candidato, que adentra na selva selvaggia da bibliografia
pertinente – geralmente restrita a poucos “barões” da teoria em
ciências humanas, de extração francesa ou alemã – em busca de algum
enquadramento teórico para o objeto escolhido. A maior parte dos
pobres alunos sai dessa selva arranhada, com urticária metodológica
e sérios problemas para retomar o fio da meada de seu objeto
próprio.
3. O que é e o que não precisa ser o tal de marco teórico
O marco teórico normalmente faz parte daquela seção metodológica que
se segue à introdução nos trabalhos de candidatos. A discussão da
metodologia a ser empregada na pesquisa compreende, por sua vez,
algumas hipóteses de trabalho que normalmente se apóiam em alguma
teoria disponível no supermercado acadêmico. A teoria certamente
ajuda a pensar, mas ela não deve representar uma camisa de força,
que obrigue o candidato a enquadrar o seu tema em alguns dos molhos
prêt-à-porter que estão disponíveis nas estantes pertinentes
do supermercado.
Um candidato desprevenido, que pretenda, por exemplo, fazer uma
dissertação sobre a informalidade laboral no Brasil, não precisa
necessariamente se interrogar sobre o que o inefável Foucault teria
a dizer sobre isso. Não creio, pessoalmente, que o “marco teórico”
deva ser um monstro metafísico que ameace engolir o candidato se ele
se sentir desconfortável com o tal de “enquadramento conceitual” do
seu objeto: determinados temas, bem mais “pedestres” em sua
concepção e desenvolvimento, podem dispensar essas filigranas
teóricas.
A metodologia é, sobretudo, uma ferramenta analítica utilizada para
descrever e discutir o objeto escolhido e a teoria é uma espécie de
fundamentação conceitual desse objeto, com algumas generalizações
sobre o tema em espécie. Estudos de caso e pesquisa empírica são
sempre bem-vindos, mesmo se eles não se encaixam em algum molde
conceitual – o famoso “marco teórico” – que o professor acha que o
candidato deva obrigatoriamente exibir. Na elaboração metodológica,
o candidato deve eventualmente se propor algumas hipóteses de
trabalho que serão, no decurso do trabalho, confirmadas ou
desmentidas pelo tratamento oferecido ao tema escolhido.
Mas essa “fundamentação teórica”, que os professores exigem dos
candidatos, não precisa ser considerada um elemento absolutamente
indispensável do trabalho acadêmico, pois nem sempre é o caso. Ou
seja, o trabalho pode ser – este é um direito do candidato –
simplesmente expositivo-descritivo, sem referência a qualquer autor
famoso na comunidade acadêmica, posto que um determinado tema
escolhido se presta, hipoteticamente, a uma descrição empírica de
fatos da vida real. Ou, então o candidato pode ter decidido, por
exemplo, fazer uma síntese da literatura existente a respeito do seu
tema, sem maiores inovações teóricas. Por causa dessa obsessão com o
marco teórico alguns alunos tropeçam feio nessa parte, e acabam
escrevendo uma “metodologia” que tem pouco a ver, finalmente, com o
conteúdo em si do trabalho.
Resumindo: metodologia é simplesmente a forma como o autor organiza
os seus dados, seus materiais primários, seus elementos empíricos, e
até suas leituras, e os apresenta em seguida na discussão
fundamentada da terceira parte, com análise crítica e um
levantamento de outros problemas que tenha detectado em sua
pesquisa. O autor pode, também, aproveitar essa parte para dizer
como outros analistas do mesmo problema estudaram a questão, se
concorda com eles, se utilizará métodos já empregados anteriormente,
etc.
Conseguindo cumprir essa etapa do ritual, o candidato se descobre
então um feliz sobrevivente de uma navegação acadêmica que costuma
fazer naufragar alguns outros colegas que seguem o mesmo caminho.
Depois disso, basta escrever e, se não for pedir muito, sobreviver
ao esforço acadêmico... |
|
versão para imprimir (arquivo em pdf)
|