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JOÃO
DOS SANTOS FILHO
Professor
da Universidade Estadual de Maringá. Autor do
livro “Ontologia do turismo: estudo de suas causas
primeiras”, EDUSC, Universidade de Caxias do Sul
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Hospitalidade no Brasil Império:
visão do naturalista George Gardner
Parte I
João dos Santos Filho
Tenho muito de que me congratular
porque, embora tantas vezes exposto ao tempo dia e noite, minha
saúde foi sempre boa, exceto uma única vez; e, com poucas
exceções recebi as maiores expressões de bondade de todos os
semelhantes com quem entrei em contacto.
[...]
Não foi sem grande pesar que deixei
o Brasil, porque a vida que lá vivi era independente e livre e
para minha saúde, seu clima era melhor que o da Inglaterra; que
o país é belo e mais rico que qualquer outro do mundo nos
objetos naturais a cujo estudo devotei a minha vida. (Gardner,
1975: 250)
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Resumo:
A historiografia brasileira, referente ao
fenômeno do turismo e da hospitalidade, é ainda extremamente
tímida, pois utiliza o parâmetro histórico determinados pela
lógica da visão etnocentrista. Para tentar mudar essa
leitura, estamos desenvolvendo estudos sobre a literatura
dos escritores estrangeiros, do século XVI ao XIX, que, por
causas diversas, vieram para o Brasil para viver, trabalhar,
pesquisar ou passear, e resolveram documentar sua estada em
território nacional. Começamos com George Gardner,
naturalista escocês, que veio para o Brasil em 1836 aqui
permaneceu até 1841, e escreveu, em 1946, na Inglaterra, o
livro: Viagem ao interior do Brasil, principalmente nas
províncias do Norte e nos distritos do ouro e do diamante,
durante os anos de 1836-1841.
Palavras-chave:
Historiografia brasileira, hospitalidade,
turismo, roteiros. |
Esclarecimentos
iniciais
O presente trabalho faz parte de um
conjunto de pesquisas, que buscam entender a história da
hospitalidade na América Latina. No presente caso, selecionamos o
período Brasil Império, relatado pelo naturalista George Gardner, em
sua na obra Viagem ao interior do Brasil: principalmente nas
províncias do Norte e nos distritos do ouro e do diamante durante os
anos 1836 - 1841, publicado em 1846, 1849 e, em 1973, na
Inglaterra traduzida para o português somente em 1942, e reeditada,
em 1975 pela Editora Itatiaia e pela Universidade de São Paulo.
Constitui-se em uma das mais belas peças
literárias sobre os costumes do Brasil Império, pois Gardner, como
naturalista/historiador nato, sentiu-se atraído pela riqueza e
diversidade da espécie animal e vegetal brasileira, descrevendo, em
detalhes, o cotidiano de suas viagens, com atenta observação para os
personagens com os quais se relacionava. Viajou por parte do
território nacional, desenvolvendo pesquisas no campo da botânica,
da zoologia e da geografia, deixando relatos etnográficos de
importância ímpar para a antropologia brasileira e para a própria
sociologia descritiva.
Percorreu, durante cinco anos, o Brasil,
em viagens de estudo e de coleta de dados. O interessante é que
suas observações vão além do interesse profissional e avançam para
questões ligadas à hospitalidade do povo brasileiro, descrevendo
roteiros, detalhando o tratamento que recebeu de nacionais, no campo
da gastronomia e hospedagem. Nesse caso, podemos afirmar que
alguns escritos sobre o Brasil Colônia e Império resultaram em
roteiros preciosos para a historiografia sobre o Brasil, no campo da
hospitalidade e do turismo, como já registramos em trabalho
publicado em 2001, na Revista Turismo em Análise da ECA/USP:
Os roteiros do século XVIII podem
ser vistos como roteiros turísticos, pois já se configuram em um
produto com valor de uso e de troca e se colocam ao mundo como
uma mercadoria a ser consumida pelo interesse econômico e
geopolítico. (Santos Filho, 2001: 79)
Gardner chegou ao Brasil em 1836,
permanecendo aqui até 1841. Escreveu uma obra literária rica
em observações para a elaboração de roteiros, bem como descrições do
cotidiano das diferentes classes sociais que compunham a
estratificação social e o modo de ser da população daquela época.
Dentro de nossa pesquisa geral,
selecionamos obras escritas entre o início da chegada dos
exploradores à América, do século XVI até o XIX, correspondendo,
aproximadamente ao período entre 1524 até 1890. Gardner fez um dos
inúmeros relatos de viajantes, considerado historiador nato dentre
jesuítas, cientistas e estrangeiros, mostrou-se preocupado
assertivamente em captar a noção de hospitalidade do povo
brasileiro.
Conceito de hospitalidade utilizado
para a pesquisa
Em primeiro lugar, devemos considerar
que os conceitos formulados de um determinado objeto são sempre
provisórios, e na maioria das vezes, podem ser considerados
ultrapassados. Essa premissa tem guarida no materialismo histórico,
que considera o movimento histórico dialético inerente ao movimento
da sociedade, entendendo que os conceitos não possuem eternalidade,
em virtude da dinâmica histórica que os homens estabelecem no
processo histórico da luta de classes.
Com isso, concordamos com os princípios
explicitados por Karl Marx, quando afirma:
As premissas de que partimos não
constituem bases arbitrárias, nem dogmas; são antes bases reais
de que só é possível abstrair no âmbito da imaginação. As nossas
premissas são os indivíduos reais, a sua acção (sic) e as suas
condições materiais de existência, quer se trate daquelas que
encontrou já elaboradas quando (sic) do seu aparecimento quer
das que ele próprio criou. Estas bases são, portanto
verificáveis por vias puramente empíricas. (Marx, 1976: 18)
Tal princípio serve de trilha, a seguir
academicamente, contra toda e qualquer referência teórica do
conceito positivista de hospitalidade que pode vir traduzida por uma
leitura economicista e ou politicista da realidade. Essa preocupação
epistemológica faz-se necessária pela claridade e dimensão que
queremos dar ao conceito de hospitalidade nesse estudo como produto
do avanço das relações de produção, isto é, a relação entre o
“forasteiro” e os nacionais realiza-se dentro de relações timbradas
pela cultura de hospitalidade ao outro.
Hospitalidade em termos sociológicos
pode ser sinalizada pela predisposição do ser humano para a
sociabilidade, ou seja, para interagir com o outro via: acomodação,
competição, conflito e cooperação, formas de manifestar a vida
social que, segundo o professor Florestan Fernandes:
Qualquer que seja o nível de
organização da vida que se considere, existir socialmente
sempre significa, de um modo ou de outro, compartilhar de
condições e situações, desenvolver atividades e reações,
praticar ações e relações que são interdependentes e se
interinfluenciam (sic) recìprocamente. (Florestan, 1974: 75)
Por isso, a hospitalidade pode variar
por dois motivos: o primeiro é que o mesmo depende do estágio de
desenvolvimento das relações de produção e das forças produtivas; e
o segundo, a hospitalidade manifesta-se em decorrência do processo
cultural de uma determinada sociedade. Nesse sentido, a mesma é
produto de uma materialidade histórica, dialética decorrente da
sociedade que pulsa na relação com os outros, cuja função básica é
realizar um relacionamento ou reforçar os já existentes.
A base da hospitalidade ocorre no
processo da troca de produtos materiais e simbólicos, que resulta
dos serviços que se realizam entre anfitriões e hóspedes. Isso
significa entender que o movimento da hospitalidade permite
transformar: “estranhos em conhecidos, inimigos em amigos, amigos em
melhores amigos, forasteiros em pessoas íntimas, não-parentes em
parentes” (Selwyn, 2004: 26-7). Essa potencialidade modificadora,
contida nas relações de hospitalidade, nada mais é, que o substrato
das relações sociais.
Relatos sobre hospitalidade
A primeira coisa que devemos considerar,
para que se concretize a relação de hospitalidade, é entender qual a
sensação que o visitante (George Gardner) teve ao desembarcar no
Brasil; num ambiente que não conhecia, e até certo ponto hostil para
um estrangeiro, é nesse momento que se canalizam os aspectos
sinalizadores do processo de hospitalidade. O sentir-se bem, o
gostar esteticamente do sítio geográfico que lhe dá prazer aparecem
em seu relato, e tudo indica que houve perfeita empatia eufórica,
pois o mesmo ficou embevecido com a paisagem do Rio de Janeiro:
Passando pela magnífica entrada,
ancoramos a poucas milhas abaixo da cidade, sem poder avançar
mais antes de receber a visita das autoridades. Impossível
exprimir os sentimentos que dominam o observador enquanto os
seus olhos contemplam o cenário belamente variado que se
apresenta à entrada do porto, cenário talvez sem rival na face
da terra, e em que a natureza parece ter esgotado todas as suas
energias. Tenho visitado desde então muitos lugares famosos pela
beleza e magnificência, mas nenhum deles me deixou na mente
igual impressão. (Gardner, 1975: 20)
Gardner vai formando seu conceito sobre
a cidade do Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, expõe, também, seus
preconceitos; a idéia de inferioridade das chamadas raça nativa e
africana faz parte de sua visão etnocêntrica européia de mundo:
As numerosas canoas e pequenos botes
que cortam o porto são todos tripulados por pretos africanos; da
mesma raça são transeuntes que passam pelas longas e estreitas,
seminus muito deles, suando sob pesados fardos, a exalar odor
tão forte, que se torna quase insuportável.
[...]
As ruas estreitas e sórdidas, a
catinga de milhares de negros, as emanações dos armazéns de
provisões, davam a impressão que podia ser tudo, menos
agradável. (Gardner, 1975: 20)
Ao mesmo tempo, admite, também, o lado
amistoso e hospitaleiro da cidade do Rio de Janeiro, pois poucos
estrangeiros foram tão generosos em sua descrição sobre a Capital
Federal, ao detalhar que:
Há algumas belas igrejas, mas poucas
se acham situadas em posição de realçar a vista. A de Nossa
Senhora da Glória é uma das mais notáveis, colocada sobre um
outeiro arredondado, do mesmo nome, e que se projeta do mar
entre a cidade e a Praia do Flamengo. Além das igrejas há muitos
outros edifícios públicos, entre os quais se pode mencionar o
Mosteiro de S. Bento, perto do porto, o convento de Sta. Teresa
no topo de uma colina, além do belo aqueduto pelo qual corre das
montanhas a água que supre a cidade; uma casa da moeda, uma casa
da Ópera, um teatro, uma biblioteca que se diz conter cerca de
cem mil volumes; um museu de história natural, uma escola de
medicina, dois hospitais e, o que é orgulho dos cidadãos a
Câmara dos senadores, equivalente à nossa Câmara dos Lordes. É
um belo edifício erigido há poucos anos na face norte do Campo
de Santana. Encontram-se espalhadas pela cidade umas das belas
fontes supridas por aqueduto. Uma destas está situada na praça
do palácio e destina-se ao suprimento dos navios surtos no
porto. O aqueduto tem mais de seis milhas de extensão e termina
junto da cidade por magnífico renque de arcadas duplas.
(Gardner, 1975: 21)
Gardner encanta-se com o perfil
cosmopolita da cidade do Rio de Janeiro e descreve a Rua Do Ouvidor,
por sua beleza e estética européia, com lojas luxuosas ao estilo
britânico e, mais uma vez, brinda-nos com os seguintes dizeres:
A rua do Ouvidor é uma das mais
belas da cidade, não por ser larga, mais limpa ou mais bem
pavimentada que as outras, mas porque suas lojas são
principalmente ocupadas por modistas francesas, joalheiros,
alfaiates, livreiros, confeiteiros, sapateiros e barbeiros.
Estas lojas são montadas com elegância que surpreende o
estrangeiro, sendo muitas delas providas de grandes espelhos
semelhantes aos que se vêem freqüentemente em todas as grandes
cidades da Grã- Bretanha. (Gardner, 1975: 21)
Revela, mais uma vez, seu etnocentrismo
para com a leitura da realidade, entretanto, não custa lembrar que
esse pensar é mais ou menos comum entre os europeus como as idéias
do famoso naturalista Georges-Louis Leclerc, conde
de Buffon, por exemplo. O que significa que o aporte preconceituoso
de ver a realidade tem suas bases no conhecimento científico da
época .
A primeira hospedagem de
Gardner no Rio parece não ter sido tão hospitaleira assim, o pobre
escocês sofre seu primeiro desencanto com a rede hoteleira carioca,
em 1846:
Alojei-me ao
desembarcar num hotel italiano, numa das ruas principais; mas,
com (sic) não era lugar adequado aos meus objetivos, mudei-me,
logo que tive comigo toda a bagagem, para a casa da pensão de
velha senhora inglesa, residente no país havia uns trinta anos.
(Gardner, 1975: 22)
O autor não deixa que isso confunda seu
entendimento sobre a hospitalidade do brasileiro e com grande
interesse busca saber como é formada a população da Capital Federal,
afirmando:
A população do Rio é formada
principalmente de portugueses e seus descendentes, brancos e de
cor; só os nascidos no país são chamados brasileiros; e desde a
(sic) independência, em 1822, tem reinado forte animosidade
entre estes e os nativos de Portugal. (Gardner, 1975: 23)
Denuncia algo que era comum naquele
reinado, a animosidade entre o já brasileiro e os “colonizadores”
portugueses, que alcançava dimensões no eixo da política de
independência do Brasil do jugo português e afetava o comportamento
do “bem-receber”. Em uma das passagens, Gardner percebeu e comenta
esse fato, de forma mais enfática:
Têm sido os portugueses grandemente
perseguidos, desde os tempos da independência; e, sempre que
surgem quaisquer perturbações, muitos são, como natural
conseqüência, assassinados e esbulhados de quanto possuem: não
há sentimento de simpatia entre as duas nações. (Gardner, 1975:
23)
Mas, esse fato não tira Gardner do
centro de seus relatos, pois não podemos esquecer que ele esta
descrevendo o convívio de cinco anos no Brasil e com alto grau de
agradecimento que permeia seus escritos. Além do que não manifesta,
profundamente, nenhuma crítica que quebre seu estilo alegre,
parcimonioso e também muitas vezes preconceituoso. Isso se torna
claro, quando, mesmo escrevendo sobre a hospitalidade brasileira,
não deixa de exprimir preconceitos em relação ao brasileiro:
Onde quer que se encontre o
brasileiro, é sempre cortês e raramente não é hospitaleiro,
especialmente nas zonas menos freqüentadas do país. É muito mais
moderado no beber que no comer e muito dado ao uso do rapé e do
fumo: daí a freqüência entre eles da dispepsia e moléstias
nervosas. O casamento é menos comum no Brasil que na Europa,
fato que explica o baixo nível moral aqui existente entre ambos
os sexos. (Gardner, 1975: 23)
O caro escocês demonstra que sua base de
formação tem como suporte as idéias do naturalista Buffon, na
verdade, podemos arriscar, afirmando que ele diria “que apesar de
hospitaleiro, o povo brasileiro é indolente por causa do cruzamento
do negro e do índio com europeu”. Percebemos, na citação a seguir, o
forte etnocentrismo da época:
As senhoras são quase sem exceção
bondosas para com os escravos domésticos de ambos os sexos, mas
principalmente para com as que foram amas de leite. Em lugares
onde não havia nenhum recurso médico, por vezes vi a senhora
atendendo em pessoa aos doentes escravos nas enfermarias.
A índole dos escravos, porém, varia.
Pela própria natureza do negro – por sua comprovada
inferioridade intelectual [...].
Não é das menos fortes provas da
deficiência mental do negro o fato de que, mesmo nas zonas
mais remotas do país, três ou quatro brancos podem conter
trezentos ou mesmo quatrocentos deles na mais perfeita
submissão. (Gardner, 1975: 25 e 26) (grifo nosso)
Os preconceitos de Gardner
fundamentam-se, também, no diplomata francês Arthur de Gobineau que,
em 1854, publicou um livro acerca da "Desigualdade das raças
Humanas", em que defendia que a raça "ariana" era superior a todas
as outras, embora contivesse algumas "impurezas" em razão das
misturas com raças inferiores. Essa visão de mundo é decorrente de
um processo que vinha sendo gestado no século XVIII, ou seja, de
analisar a realidade pelos critérios exclusivos do biologismo que
serve para dar guarida aos interesses da classe dominante.
Os interpretes da época, academicamente
de categoria duvidosa, propõem aquelas analogias terríveis entre a
biologismo e o cotidiano da sociedade, pelas quais a classe
dominante faz tudo para defender seus privilégios, até apelar para o
conceito de raças superiores e repudiar a mistura das mesmas.
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