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JOÃO FÁBIO
BERTONHA
Doutor
em História, Professor
do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR
e Pesquisador do CNPq.
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Modelos para o Brasil:
uma conclusão entre o Estado e o mercado
João Fábio Bertonha
No decorrer dos últimos meses, venho
examinando como diversos países, em várias áreas do mundo,
conseguiram atingir taxas razoáveis de crescimento econômico,
procurando identificar se haveria algo a apreender destas
experiências para aplicar na nossa realidade. Como já indicado, não
acredito que o crescimento econômico, por si só, seja a resposta
para todos os problemas nacionais, que o capitalismo seja o fim da
História ou que a prosperidade material seja o fim último da vida
humana. No entanto, o bem-estar material é, a meu ver, essencial
como base mínima para uma sociedade melhor e uma vida humana mais
digna. Eis a razão pela qual o tema do crescimento econômico (ou,
para usar um termo bem marxista, da base material da sociedade) tem
me atraído tanto recentemente.
É claro que seria completamente
impossível e ilógico procurar, nas nove experiências analisadas
(três da América Latina, três da Ásia e três da Europa), um elemento
comum e único que levou ao crescimento. Do mesmo modo, uma alteração
radical nas condições gerais do sistema capitalista global, como
parece estar ocorrendo agora, depois do crash nos Estados
Unidos, pode levar a uma reavaliação de cada um destes modelos. Por
fim, outras experiências de sucesso ou mesmo de fracasso em termos
de crescimento poderiam ser acrescentadas para ampliar as variáveis.
No entanto, acredito que o já feito é suficiente e que está mais do
que na hora de tentar alguma sistematização final.
A primeira conclusão que chego é que, no
capitalismo globalizado em que, querendo ou não, estamos integrados,
aventuras populistas são inúteis e até perigosas. É possível gerar
crescimento econômico rápido via aumento dos gastos públicos,
diminuição dos juros, etc. A experiência argentina e venezuelana
demonstra, contudo, como esta situação é provisória e que logo a
inflação acaba por reaparecer para cobrar o seu preço.
Uma economia excessivamente centrada no
Estado também não parece uma boa receita de sucesso. Sem querer
mencionar experiências fracassadas de controle estatal completo da
economia, como a soviética, mas nos restringindo às experiências dos
dois países acima citados (e, especialmente, a bolivariana da
Venezuela), percebe-se uma entrada cada vez maior do Estado em
atividades que as empresas capitalistas podem desenvolver com muito
mais eficiência, o que tem levado a desabastecimento e a vários
outros problemas. Essa receita estatista, que teve sentido para a
América Latina durante um bom período, não parece ser mais uma boa
saída para estimular o crescimento.
Por outro lado, também fica evidente
como o Estado é e continua sendo fundamental para qualquer projeto
desenvolvimentista. Ele é necessário tanto para garantir as
fundações da economia (inflação baixa, estabilidade da moeda, taxas
de juros decentes) como para vigiar e disciplinar o próprio mercado
para que ele não se autodestrua, como parece estar acontecendo agora
nos EUA.
O Estado também é fundamental para
estimular as empresas privadas, criando reservas de mercado
provisórias e provendo fundos e apoio para o desenvolvimento
científico e de produtos e a formação da mão-de-obra. Na China, nos
tigres asiáticos e mesmo na Irlanda, esta interação entre um setor
privado dinâmico e o Estado dentro de um projeto nacional de
desenvolvimento mostrou bons resultados e é um caminho a seguir.
A experiência comparativa também parece
indicar que o velho método de fechar completamente o mercado interno
à concorrência e aos fluxos comerciais e de capitais internacionais
pode ter tido algum sentido no passado, mas que não é mais o caso. A
integração na economia mundial é mais do que uma possibilidade, uma
necessidade.
No entanto, os casos da China, dos
Tigres asiáticos e outros indicam como uma abertura total dos
mercados de bens, serviços e financeiros não significa
automaticamente crescimento econômico e que as decisões de abertura
ou fechamento precisam ser mais pragmáticas e menos ideológicas.
Efetivamente, posições radicais de fechamento total ou de abertura
indiscriminada dos mercados não são adequadas. Uma cuidadosa
avaliação de benefícios e perdas, sempre se levando em conta, acima
de tudo, as prioridades e necessidades nacionais, é o caminho que os
casos estudados parecem indicar como correto.
Na verdade, todos os países analisados
procuraram se integrar no mercado mundial e todos o fizeram segundo
as suas possibilidades. A Índia explorando a parcela da sua
população que fala inglês e é bem educada; a Espanha se tornando uma
meca do turismo; a China se tornando a oficina do mundo com a
utilização de sua mão-de-obra barata; a Irlanda e os Tigres
asiáticos procurando se concentrar em serviços e tecnologia e os
demais no fornecimento de matérias primas e alimentos. Há, contudo,
maneiras e maneiras de fazer esta integração e, nesse ponto, a
posição chinesa – de uma integração cuidadosamente negociada e
visando ao interesse próprio – é a mais interessante.
A experiência de Venezuela e Argentina
(e também a da Rússia) também indica como é perigosa a integração no
mercado internacional via recursos naturais, seja de produtos
agrícolas ou minerais. Por agora, Caracas, Moscou e Buenos Aires não
têm muito com o que se preocupar, já que os preços de alimentos e
petróleo estão nas alturas e não devem cair (ao menos não
dramaticamente) nos próximos tempos. Mas uma economia baseada
unicamente na exportação de produtos primários fica sempre na
dependência dos humores dos mercados mundiais e não gera realmente
riqueza e empregos de qualidade, com distribuição de renda, para a
sociedade.
Na verdade, é interessante observar, ao
fim desta série, como o Brasil é um país mais perto da Rússia, em
termos do futuro da sua economia, do que dos outros. Irlanda ou
Espanha são países que podiam contar com os fundos da União
Européia, enquanto os tigres asiáticos e, novamente, a Irlanda só
podiam, pelo seu tamanho e falta de recursos naturais, escolher se
inserir no mundo como base de investimentos ou pólo tecnológico. Já
China e Índia são países em transição do mundo agrícola e
industrial, que é um estágio o qual já ultrapassamos. Mesmo
Argentina, Chile e Venezuela, nossos vizinhos, estão longe do nosso
desenvolvimento industrial e o que nos aproxima são, com a exceção
do Chile, as tentações do populismo e de permanecer eternamente como
exportadores de produtos primários.
Já a Rússia tem o mesmo dilema que o
Brasil pela frente. Ainda que tenha sofrido imensa decadência, não é
mais uma sociedade agrícola, mas urbana e moderna que precisa, se
quiser realmente se desenvolver, entrar no mundo da sociedade
pós-industrial. A tentação de ficar onde está e aproveitar o bom
momento é enorme, mas ou se faz essa transição ou se cai na
estagnação. O mesmo pode ser dito do Brasil.
Um país como o Brasil, na verdade, tem
vantagens imensas frente a vários outros. Pelo seu tamanho e sua
massa populacional, nós podemos nos tornar o celeiro do mundo, um
gigante industrial e comercial e, ao mesmo tempo, entrarmos na
sociedade pós-industrial. Não precisamos, como a Irlanda, optar
unicamente por um setor. Mas acredito que um futuro unicamente (e
ressalte-se aqui esta palavra) agrícola e mineral para o Brasil não
é desejável, como tantas vozes, ultimamente, parecem sugerir. Um
Brasil celeiro e centro minerador do mundo é uma excelente
perspectiva, mas apenas se coexistir com um Brasil industrial e um
Brasil líder nos setores de serviços e informação.
Se tiver que tirar algumas conclusões,
portanto, a partir das nove experiências aqui analisadas é que os
países que estão conseguindo ascender têm, em comum, políticas
macroeconômicas responsáveis e que procuram criar um ambiente
adequado ao crescimento, um Estado minimamente eficiente e ativo na
promoção do mesmo, um setor empresarial forte e competitivo e uma
inserção cada vez mais intensa no mercado internacional. Mais do que
isso, esses países têm uma visão de longo prazo de crescimento e uma
percepção de que exportar minérios, produtos agrícolas ou mesmo
produtos industriais baratos pode ser uma solução de curto prazo,
mas que o futuro implica na entrada no mundo pós-industrial, o que
implica em investimentos maciços em ciência, tecnologia e educação.
A partir da experiência dessa série,
assim, este é o futuro que considero desejável para o Brasil. Um
país que consiga aprender com as experiências acima mencionadas, que
seja capaz de crescer a taxas mais elevadas que as atuais (considero
7-8% um número mínimo para que sejamos capazes de sair de vez do
subdesenvolvimento) e que consiga transformar esse crescimento em
desenvolvimento a longo prazo.
Para tanto, algumas reformas me parecem
imprescindíveis. Em primeiro lugar, uma reforma do Estado para
torná-lo, senão menor, ao menos mais eficiente e menos custoso. Em
segundo lugar, a promoção de uma verdadeira cultura capitalista no
país e de um mercado interno forte, pelo que a distribuição se renda
se torna fundamental. Uma ação conjugada Estado-empresas para um
melhor posicionamento do país no mercado internacional (menos focado
em commodities e mais em produtos de maior valor agregado) também é
essencial. Por fim, um investimento maciço em educação, ciência e
conhecimento, que é a única forma de transformar realmente este país
em longo prazo.
São metas e ideais ambiciosos, claro, e
que refletem mais o desejo do autor do que obrigatoriamente a
realidade que virá, a qual depende mais da vontade dos agentes
políticos e sociais do que da pena dos intelectuais. Mas é este o
nosso papel, enquanto pensadores do social, ou seja, apresentar
idéias e sugestões. Até por isto é que deixarei para o último artigo
desta série um detalhamento mais preciso de como imagino que estas
sugestões e reformas possam e devam ser implementadas. |
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