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LUIZ ALBERTO MONIZ
BANDEIRA
Cientista
político, professor titular de história da política exterior do
Brasil, na Universidade de Brasília (aposentado) e autor de mais
de 20 obras, entre as quais Fórmula para o caos – A derrubada
de Salvador Allende (1970-1973) e Formação do Império
Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque),
pela qual recebeu o Troféu Juca Pato, eleito pela União
Brasileira de Escritores (UBE) Intelectual do Ano 2005

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A importância geopolítica da América do Sul na
estratégia dos Estados Unidos
Luiz Alberto Moniz Bandeira
“Procuremos precisar quais os interesses em jogo na questão.
Petróleo! Exclamam de todos os lados. O petróleo opera prodígios,
tem ditado a política internacional das grandes potências, assentou
e derrubou governos, abalou uma dinastia, criou fortunas fabulosas e
conta entre os seus servidores estadistas dos mais notáveis”.
Embaixador José Joaquim Moniz de Aragão, secretário-geral do
Itamaraty, durante a Guerra do Chaco, 1934
“No matter how selfless America perceives its aims, an explicit
insistence on predominance would gradually unite the world against
the United States and force into impositions that would eventually
leave it isolated and drained”.
Henry Kissinger
G. W. F. Hegel
O conflito entre a Rússia e a Geórgia mostrou que o
“arc of crisis”, que Zbigniew Brzezinski dizia
estender-se do Paquistão até a Etiópia, circundando o Oriente Médio,
é muito mais amplo e abrange toda a Ásia Central e o Cáucaso. Diante
de tal situação, a importância geopolítica da América do Sul
aumentou ainda mais, na estratégia de segurança dos Estados Unidos,
que buscam fontes de fornecimento de gás e petróleo em regiões mais
estáveis. O próprio Halford J. Mackinder, na sua conferência sobre o
"The Geographical Pivot of History, em 1904, ressaltou que o
desenvolvimento das vastas potencialidades da América do Sul podia
ter “decisive influence” sobre o sistema internacional de
poder e fortalecer os Estados Unidos ou, do outro lado, a Alemanha,
se desafiasse, com sucesso, a Doutrina Monroe.
Os Estados Unidos e a Alemanha, desde fim do século
XIX, já se haviam tornado as duas maiores potências industriais do
mundo e conseqüentemente rivais. Porém, ao contrário da Alemanha,
que não possuía qualquer domínio importante, ao qual pudesse
estender o círculo de consumo para o capital, os Estados Unidos
dispunham de enorme espaço econômico. As Américas Central e do Sul,
assim como o Caribe, configuravam uma espécie de colônia, a única
região do mundo, em que não havia séria rivalidade entre as grandes
potências. Lá os Estados Unidos eram, praticamente, “soberanos” e
seu fiat tinha força de lei, conforme o secretário de Estado,
Richard Olney, escreveu em 1895. E acrescentou que os “infinite
resources” da América (Estados Unidos), combinados com sua
posição isolada, tornavam-na “master of the situation and
practically invulnerable as against any or all other powers”.
Nem a Alemanha nem a Grã-Bretanha nem a França quiseram desafiar a
Doutrina Monroe, expressão de uma política unilateral dos Estados
Unidos, formulada em 2 de Dezembro de 1823, pelo presidente James
Monroe (1817-1825).
O que disse Halford J. Mackinder a respeito do "closed
heartland of Euro-Asia", afirmando que o Estado que o
controlasse teria condições de projetar o poder de um lado para o
outro lado da região e era inaccessível a uma força naval, aplica-se
aos Estados Unidos, mas no sentido inverso. Com um território
distendido ao longo da América do Norte, entre dois oceanos, o
Atlântico e o Pacífico, os Estados Unidos não tinham vizinhos que
pudessem ameaçar sua segurança. Seu extensivo litoral impedia que
qualquer bloqueio fosse efetivamente mantido.
E, ao ascender ao primeiro lugar no ranking das maiores potências
industriais, nos anos 1890, os Estados Unidos começaram a robustecer
seu poder naval, até então menor que o do Brasil, Argentina ou
Chile.
Assim puderam projetar sua influência, para um lado e para o outro,
i. e., para o Ocidente e o Oriente, avançando sobre os mares, que a
Grã-Bretanha ainda controlava, como o “chief builder and
shipowner”, com “vast imperial responsabilities”
na Ásia e na África.
O comandante Alfred T. Mahan foi quem racionalizou a
construção do poder naval dos Estados Unidos, argumentando que a
grandeza de uma nação dependia do seu comércio no além-mar, o
comércio dependia do poder naval e o poder naval, de colônias. Sem
estabelecimentos no estrangeiro, colonial ou militar, os navios de
guerra dos Estados Unidos seriam como pássaros sem terra, incapazes
de voar muito além de suas próprias costas. Tornava-se, portanto,
necessário o estabelecimento de bases e depósitos de carvão, para o
abastecimento dos navios, numa extensa cadeia de ilhas, que
possibilitassem a sustentação do poder naval e permitissem a
expansão marítima e comercial dos Estados Unidos. O domínio de Cuba,
bem como de Porto Rico e das Ilhas Virgens, cuja cessão o presidente
William McKinley (1897 – 1901) solicitara à Dinamarca, afigurava-se
fundamental para a segurança das rotas no Golfo do México e a defesa
do canal, que os Estados Unidos projetavam abrir no istmo do Panamá.
E o presidente McKinley, em 1898, aproveitou a luta pela
independência de Cuba para declarar guerra à Espanha, visando a
conquistar o que ainda restava do seu vasto império colonial. No
entanto, a campanha militar contra a Espanha, impulsionada por
interesses econômicos e objetivos estratégicos, não se limitou às
ilhas do Caribe. Estendeu-se ao arquipélago das Filipinas, cuja
conquista possibilitaria sua penetração nos mercados da Ásia,
particularmente da China. Esta guerra permitiu que os Estados
Unidos, como salientou Sir Halford Mackinder, conquistassem
importantes possessões em ambos oceanos – o Pacífico e o Atlântico –
e assumissem a construção do Canal do Panamá, com objetivo de ganhar
a vantagem da insularidade para a mobilização de suas frotas de
guerra.
Realmente, em termos estratégicos, a projeção
geopolítica dos Estados Unidos, na direção da Ásia, e a vastidão do
seu próprio território continental, que separava o litoral do
Atlântico do litoral do Pacífico, constituíam um problema para a
defesa, dado que era difícil separar e, quando necessário, reunir
suas frotas, em caso de guerra.
Esta foi uma das razões pelas quais o presidente Theodore Roosevelt
(1901-1909)
apressou a abertura de um canal inter-oceânico, no istmo do Panamá,
território pertencente à Colômbia,
a fim de consolidar os alicerces do império, cuja soberania se
expandira de Cuba e Porto Rico, no Caribe, até Tutuila, no
arquipélago de Samoa, e Guam, ao sul do Pacífico, quinze milhas a
leste das Filipinas,
possibilitando que suas frotas pudessem circular livremente e
reunir-se, no momento e no local em que as circunstâncias
táticas
e estratégicas o exigissem. Motivos, tanto militares quanto civis,
faziam “imperativo” o estabelecimento de “fácil e rápida”
comunicação por mar, entre o Atlântico e o Pacífico.
Doutrina Monroe
O presidente Theodore Roosevelt rejuvenesceu então a
Doutrina Monroe com um Corolário, mediante o qual racionalizou o
direito de intervir em outros Estados latino-americanos, sobretudo
na América Central e no Caribe, em casos de “wrong-doing or
impotence” dos seus governos. Esta doutrina, sintetizada no lema
“a América para os americanos”, passara a funcionar, a partir do
final do século XIX, como cobertura ideológica para objetivo
estratégico dos Estados Unidos, que consistia em manter sua
hegemonia sobre todo o Hemisfério Ocidental, conquistar e assegurar
as fontes de matéria-prima e os mercados da América do Sul para as
suas manufaturas, alijando do subcontinente a competição da
Grã-Bretanha e de outras potências industriais da Europa. Daí a
proposta para formar com os Estados latino-americanos uma comunidade
comercial, uma espécie de união aduaneira, apresentada durante a 1ª
Conferência Pan-Americana, instalada em Washington, em novembro de
1889. A idéia, entretanto, não fora aceita, devido à oposição da
Argentina e do Chile, e o resultado da 1° Conferência Pan-Americana
consistiu somente na instalação do Bureau Internacional das
Repúblicas Americanas. Mas em 1896 Charles Emory Smith, líder do
Partido Republicano na Filadélfia e editor de jornal, declarou que “our
spirit, if not our flag will rules the hemisphere”.
Com razão o notável
jurista brasileiro Rui
Barbosa, que fora o primeiro ministro da Fazenda após a proclamação
da república, denunciou, em artigo publicado em A Imprensa,
em 10 de maio de 1899, que os princípios da Doutrina Monroe “nunca
exprimiram senão um interesse dos Estados Unidos, nunca encerraram
compromisso nenhum, por parte deles, a favor dos povos
sul-americanos”.
Conforme ressaltou, “deixar aberto esse campo à dilatação vindoira
do seu império era, como nos vai mostrar o exame ulterior do
assunto, à luz da teoria e dos fatos, o intento substancial da
fórmula de Monroe”.
Este, de fato, sempre foi o propósito dos Estados Unidos. Durante a
Conferência de Versailles (1919), o presidente Woodrow Wilson (1913-
1921) empenhou-se para conservar a América Latina como área de
influência exclusiva dos Estados Unidos, ao incluir no Pacto da Liga
das Nações o Art. XXI, determinando que nada seria considerado que
pudesse “afetar a validade de acordos internacionais tais como
tratados de arbitramento ou entendimentos regionais, a exemplo da
Doutrina Monroe”,
que viessem a assegurar a manutenção da paz.
A Doutrina Monroe, em realidade, constituía apenas uma declaração
política unilateral dos Estados Unidos, feita em 1823, e nunca fora
um entendimento regional. Mas, identificando a Doutrina Monroe com o
pan-americanismo, como um acordo regional, o presidente Woodrow
Wilson conseguiu excluir a América Latina da jurisdição da Liga das
Nações.
Na 17ª Conferência Internacional dos Estados
Americanos, realizada em Montevidéu, entre 3 de 26 de dezembro de
1933, os Estados Unidos renunciaram à intervenção armada em outros
países e não apenas anuíram com a abolição da Platt Amendment,
que autorizava a intervenção em Cuba, como retiraram os fuzileiros
navais da Nicarágua e do Haiti. Assim o presidente Franklin D.
Roosevelt (1933-1945) começou a implementar a Good Neighbor
Policy, mas não conseguiu que todos os países da região
reduzissem suas tarifas alfandegárias e abrissem o mercado para as
exportações dos Estados Unidos, através de um tratado multilateral,
ou acordos bilaterais, desdobrando a Doutrina Monroe em sua dimensão
econômica, com a implantação de uma área de livre comércio no
hemisfério. Ao declarar a guerra contra o Eixo, a pretexto do ataque
do Japão a Pearl Harbor, o presidente Franklin D. Roosevelt
pressionou então os Estados latino-americanos para que rompessem as
relações com a Alemanha, que mais e mais penetrava na região,
sobretudo na América do Sul, a fim de eliminar o principal
concorrente comercial dos Estados Unidos.
Importância geopolítica da América do Sul
A Segunda Guerra Mundial evidenciou a importância
geopolítica da América do Sul na estratégia dos Estados Unidos, que
necessitavam não apenas assegurar as fontes de matéria-prima –
ferro, manganês e outros minerais indispensáveis à sua indústria
bélica – como também manter a segurança de sua retaguarda e do
Atlântico Sul. O Brasil fornecia aos Estados Unidos produtos
agrícolas, borracha, manganês, ferro e outros minerais estratégicos.
Mas sua posição no subcontinente, a América do Sul, revestia-se de
maior relevância geopolítica, devido ao imenso espaço territorial e
aos recursos que possuía e ao fato de ter fronteiras com todos os
países da região (exceto Chile e Equador), ocupar grande parte do
litoral do Atlântico Sul, defrontado com a África Ocidental. E os
Estados Unidos temiam que as forças da Alemanha, a partir da costa
do Senegal, avançassem em direção das Américas, atravessando o
estreito Natal-Dakar, ocupassem o arquipélago de Fernando de
Noronha, e terminassem por conquistar o Saliente Nordestino, que
abrangia o Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. Daí a
pressão para que Brasil permitisse a implantação de bases navais e
aéreas nas principais cidades litorâneas do Nordeste, de onde os
aviões da IV Frota americana, fundeada em Recife, realizaram vôos
diários, através do Cinturão do Atlântico Sul (Saliente Nordestino –
ilha de Ascensão -África)
com a missão de patrulhar o oceano, entre
as bases de Natal e Ascensão, visando a detectar submarinos do Eixo
e principalmente navios furadores de bloqueio, que transportavam da
Ásia, principalmente, matérias-prima estratégicas para o esforço de
guerra da Alemanha.
O Saliente Nordestino dista somente 3.000 quilômetros
do ponto mais ocidental da África francesa, e por ai passam
importantes rotas do tráfego marítimo, procedente do Golfo Pérsico e
do Extremo-Oriente, com destino aos portos situados ao norte da
América do Sul, no Caribe e na América do Norte. E a base aérea de
Paranamirim-Natal, cedida aos Estados Unidos juntamente com a base
de Belém do Pará, possibilitou o estabelecimento de uma ponte aérea,
estrategicamente fundamental para o abastecimento das tropas
inglesas que combatiam no norte da África e no Oriente Médio, bem
como, depois, para a invasão da Europa, através da Itália, e
inclusive o apoio às operações militares no Extremo Oriente. O
patrulhamento aéreo do Cinturão do Atlântico
Sul, entre Recife e Ascensão, foi reforçado por quatro
grupos-tarefas e aviões Liberators, e navios da IV Frota dos Estados
Unidos, baseada em Recife, afundaram diversos submarinos de 1.200 t
(U-848, U-849 e U-177) e os furadores de bloqueio – Essemberg, Karin,
Wesserland, Rio Grande e o Burgenland - navios que traziam
mercadorias do Oriente para a Alemanha.
A partir da vitória na Segunda Guerra Mundial, os
Estados Unidos buscaram consolidar a supremacia econômica, política,
militar e cultural, que conquistaram, derrotando a Alemanha e
avassalando a Grã-Bretanha, a França e demais países da Europa
Ocidental. E, embora verbalmente condenassem as políticas de esfera
de influência e de equilíbrio de poder, apontando para uma era de
paz apoiada na segurança coletiva da ONU, os Estados Unidos não
renunciaram à hegemonia na América Latina. Assim como o fizeram em
1919, no Pacto da Liga das Nações, cuidaram de evitar que a ONU
pudesse exercer diretamente qualquer influência nas questões do
hemisfério ocidental. O Art. 52 da Carta de São Francisco legitimou
outra vez a “existência de acordos ou organismos regionais capazes
de tratar das questões relativas à manutenção da paz e da segurança
internacionais”.
Destarte, por meio do Art. 52 da Carta de São
Francisco, os Estados Unidos reafirmaram a Doutrina Monroe,
reservando-se o direito de tratar unilateralmente as questões que
eventualmente surgissem na América Latina, sem se submeterem a um
possível veto no Conselho de Segurança da ONU. E, em 1947,
celebraram com todos os países da região o Tratado Interamericano de
Assistência Recíproca (TIAR), também conhecido como Tratado do Rio
de Janeiro, considerando qualquer ataque ao território de um Estado
americano como um ataque a todos os demais, ao mesmo tempo em que
eles se comprometiam a resolver suas disputas entre si antes de
recorrer à ONU. Estava demarcada, portanto, a zona de segurança do
hemisfério entre o Pólo Norte até o extremo sul da Patagônia. E, no
ano seguinte, 1948, a 9ª Conferência Interamericana, em Bogotá,
recriou a União Pan-Americana sob o nome de Organização dos Estados
Americanos (OEA), uma vez mais tratando de excluir a América Latina
da jurisdição imediata da ONU.
Zona estratégica
A política exterior dos Estados Unidos visou
tradicionalmente a promover interesses privados específicos,
interesses empresariais, com ênfase na promoção de mercados abertos,
livre iniciativa e boas vindas aos investimentos estrangeiros –
objetivos geralmente apresentados como do interesse da humanidade.
Também sua estratégia global sempre foi determinada pelos interesses
e necessidades do seu processo produtivo e de sua sociedade, i. e.,
assegurar as fontes de materiais estratégicos, tais como os campos
de petróleo na Venezuela, as minas de estanho na Bolívia, as minas
de cobre no Chile etc., existentes na América do Sul, e manter
abertas as linhas de acesso, as vias de comunicação e transporte, no
Atlântico Sul e no Caribe.
O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães salientou, em
sua importante obra Quinhentos anos de periferia, que a
América Latina, ao contrário do que muitos imaginam, “é de fato
a zona estratégica mais importante para os Estados Unidos”.
Porém, dentro da América Latina, configurada pelos países situados
abaixo do Rio Grande ou Rio Bravo do Norte, a América do Sul é a
região que apresenta maior significação geopolítica, na estratégia
dos Estados Unidos, devido ao seu enorme potencial econômico e
político. São doze países dentro de um espaço contíguo, da ordem de
17 milhões de quilômetros quadrados, o dobro do território dos
Estados Unidos (9.631.418 km2).
Sua população, em 2007, era de aproximadamente 400 milhões de
habitantes, também maior que a dos Estados Unidos (303,8 milhões),
representando cerca de 67% de toda a chamada América Latina e 6% da
população mundial, com integração lingüística, porquanto a imensa
maioria fala português ou espanhol, línguas que se comunicam.
Ademais, a América do Sul possui grandes reservas de água doce e
biodiversidade da terra, enormes riquezas em recursos minerais e
energéticos – petróleo e gás – pesca, agricultura e pecuária. E a
integração do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) com
os países da Comunidade Andina (CAN), Chile e Venezuela, permite a
formação de uma massa econômica que se pode calcular em mais de US$
3 trilhões, maior do que a da Alemanha, da ordem de US$ 2,8
trilhões, em 2007, calculada com base na paridade do poder de
compra.
A importância geopolítica da América do Sul na
estratégia dos Estados Unidos, para manter a hegemonia global, está
em larga medida e intrinsecamente vinculada à sua dimensão econômica
e comercial. Daí porque o presidente George W. H. Bush anunciou em
27 de junho de 1990
The
Enterprise of the Americas Initiative (EAI), com a intenção
de instituir uma zona de livre-comércio, desde Anchorage, no Alaska,
até a Terra do Fogo. O presidente William J. Clinton (1993-2001),
que o sucedeu, reanimou a idéia e apresentou a proposta,
unilateralmente, aos demais chefes de governo, na Cúpula das
Américas, realizada em Miami, entre
9 e 11 de
dezembro
de
1994,
sob o nome de Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Esta
proposta de integração econômica regional encapava, porém, objetivos
geopolíticos, com respeito à segurança continental, mediante o
fortalecimento das instituições democráticas e combate ao
narcotráfico e ao terrorismo, ameaças que substituíram a subversão e
o comunismo, na agenda militarista dos Estados Unidos, após a
decomposição do Bloco Socialista e da União Soviética. O coronel (R)
Joseph R. Núñez, do Exército dos Estados Unidos, ressaltou em estudo
publicado pelo Strategic Studies Institute, do U.S. Army War College,
que
with current concerns about the Free Trade Area
of the Americas and the strength of democratic regimes, along
with the growing need for homeland—even hemispheric—security, it
is most important that we seriously consider new ways to respond
to our strategic situation.
O que os Estados Unidos pretendiam, com a formação da
ALCA, bem como da APEC (Asia-Pacif Economic Cooperation) e a
celebração de mais de 200 acordos comerciais, entre os quais os da
Rodada Uruguai, era construir uma rede de compromissos
internacionais, de modo a modelar o sistema econômico mundial e
fazê-lo funcionar em benefício da América, i. e., dos Estados
Unidos, como centro mais dinâmico da economia global, no século XXI.
A própria Secretária de Estado, Madeleine K. Albright, na época,
proclamou que “(...)
We must continue shaping a global economic system
that works for America”.
E a embaixadora Charlene Barshefsky, como chefe da United States
Trade Representative (USTR), defendeu a aprovação da fast track,
na House of Representatives, argumentando que o princípio subjacente
da política comercial da administração do presidente Clinton era “to
support U.S. prosperity, U.S. jobs and the health of the U.S.
companies”.
Conforme o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães
sustentou, a ALCA representava parte da estratégia de manutenção da
hegemonia
econômica
e política
dos Estados sobre a América do Sul, porquanto,
muito mais do que uma tradicional área de livre comércio, ela, se
implantada, envolveria compromissos internacionais nas áreas do
comércio de bens e serviços, de investimentos
diretos,
de compras governamentais, de patentes industriais, de normas
técnicas e, muito provavelmente, de meio ambiente e padrões
trabalhistas.
Seu
propósito central consistia em criar um conjunto de regras, afim de
incorporar os países da América do Sul, sobretudo o Brasil, ao
espaço econômico (e ao sistema político) dos Estados Unidos, de
forma assimétrica e subordinada, limitando sua capacidade de
formular e executar política econômica própria, para atrair
e disciplinar os investimentos estrangeiros, ampliar a capacidade
industrial instalada, estimular a criação e integração das cadeias
produtivas, promover a transferência
efetiva de tecnologia e o fortalecimento do capital
nacional.
A proposta de formação da Área de Livre Comércio das
América (ALCA), como a vertente econômica da estratégia global dos
Estados Unidos para manter a hegemonia no hemisfério, conjugou-se
com a aplicação das medidas neoliberais, estabelecidas pelo Consenso
de Washington (consenso entre o Fundo Monetário
Internacional, Banco Mundial e Departamento do Tesouro dos Estados
Unidos), recomendando a privatização das empresas estatais,
desregulamentação da economia e liberalização unilateral do comércio
exterior. O Estado, portanto, devia retirar-se da economia, quer
como empresário quer como regulador das transações domésticas e
internacionais, submetendo-a às forças do mercado. A orientação do
Consenso de Washington foi no sentido de reduzir o papel do Estado,
torná-lo miniatura de Estado, o Estado-mínimo, o que significava, em
meio à globalização da economia, o constrangimento da própria
soberania nacional dos países da América do Sul (também de outros
continentes), com a entrega de todo o poder econômico às corporações
transnacionais, a maioria das quais americanas, que se assenhoreavam
das empresas estatais, postas à venda pelos governos, sob o signo da
privatização, que implicava, na maioria dos casos, sua
estrangeirização.
O que se pretendeu foi abrir o mercado
latino-americano, ou, mais especificamente, o mercado sul-americano
à competição, dando às corporações transnacionais e aos investidores
e banqueiros a liberdade de movimentar capitais, bens, plantas
industriais, lucros e tecnologia, sem que os governos nacionais
pudessem criar obstáculos. Dentro de tal moldura econômica, os
países da América do Sul deviam abdicar de sua soberania,
desarmando-se, militarmente, e aceitando retirar do poder judiciário
nacional e transferir para uma comissão internacional de arbitragem
a capacidade de julgar e decidir qualquer litígio entre o Estado
nacional e
as mega empresas multinacionais dos Estados Unidos.
Com o estabelecimento da ALCA, estas empresas terminariam por
adquirir um poder superior ao dos Estados nacionais, na linha do
Acordo Multilateral de Investimentos (AMI), negociado, mas não
concluído,
no âmbito da Organização para Cooperação e Desenvolvimento (OCDE),
com o propósito de estabelecer normas multilaterais para
regulamentar, liberalizar e proteger os investimentos estrangeiros,
e impedir qualquer intervenção governamental sobre
ativos financeiros de propriedade de pessoas físicas
ou jurídicas estrangeiras, existentes em determinado país.
Contudo, ao fim dos anos 1990, após a aplicação das
medidas neoliberais preconizadas pelo Consenso de Washington, o
general Charles E. Wilhelm, comandante-em-chefe do Southern Commannd
dos Estados Unidos (USSOUTHCOM), reconheceu que, na sua área de
responsabilidade, a América do Sul, “democracy and free market
reforms are not delivering tangible results to the people” e
nações situadas na região estavam pior economicamente do que antes
da restauração da democracia.
“Can democracy survive without an economic system
that produces adequate subsistence and services for the majority of
its citizens?” – perguntou.
Também HenryKissinger, em sua obra Does America Need a Foreign
Policy, reconheceu que “neither globalization nor democracy
has brought stability to the Andes”.
Também na
Bolívia, durante os 15 anos em que a Bolívia se apresentou como
modelo de livre mercado, i. e., de 1985 ao ano 2000, a deterioração
das condições de vida acelerou-se e atingiu principalmente os
camponeses, reduzindo à miséria mais de 80% da população na área
rural. E, na
inauguração de um seminário, quando lançou a Estrategia Boliviana
de Reducción de Pobreza (EBRP), o próprio presidente Hugo Banzer
deplorou que a estabilidade
econômica
não houvesse contribuído para diminuir os índices de pobreza em que
vivia, no ano 2000, mais da metade da população boliviana (63%),
especialmente a de origem indígena.
E a questão agrária, que a revolução de 1952 buscara
equacionar, mediante a repartição dos latifúndios e distribuição de
terras para os trabalhadores rurais, tornou-se outra vez grave fator
de tensões sociais e irromperam os conflitos sociais.
A débâcle econômica e financeira da Argentina, que
não teve alternativa senão praticar o default, i. e.,
suspender o pagamento da dívida externa, em meio de aguda crise
social e política, evidenciou o
caráter perverso do modelo neoliberal. Com toda a razão o professor
norte-americano Paul Krugman comentou, em artigo publicado pelo
New York Times, que o “catastrófico fracasso”(catastrophic
failure) das políticas econômicas lá aplicadas com o selo – “made
in Washington” - representavam igualmente um desastre para a
política exterior dos Estados Unidos, assim como o maior revés para
a proposta da ALCA.
As negociações para a implantação da ALCA,
cujo objetivo era aplicar efetivamente a Doutrina Monroe à economia
e ao comércio da região, não alcançaram, de fato, nenhum resultado,
devido à oposição do Mercosul. O Brasil e a Argentina,
à frente, rechaçaram, inter alia, as pretensões dos Estados
Unidos, com respeito aos investimentos e serviços e outras regras
relativas a patentes, reforçando as já existentes na Organização
Mundial do Comércio (OMC), bem como a abertura do mercado de compras
governamentais, o que impediria o Estado, o maior consumidor de bens
de capital, de orientá-las em benefício das empresas nacionais ou
mesmo das empresas estrangeiras
sediadas
no país.
América do Sul e a formação de identidade própria
Conquanto a América
Central e o Caribe sejam essenciais à defesa do seu território e das
rotas marítimas entre a costa do Pacífico e a costa do Atlântico, a
América do
Sul reveste-se de fundamental importância geopolítica
para os Estados Unidos, sobretudo vis-à-vis a formação da
União Européia e a emergência da China. Dado que celebrara com o
México e o Canadá o
North American Free Trade
Agreement (NAFTA) e os países da América
Central e do Caribe, com exceção de Cuba, tendiam a gravitar,
inevitavelmente, na órbita dos Estados Unidos, afigurava-se
necessário à elite política de Washington e à comunidade dos homens
de negócios, das grandes empresas multinacionais, assegurar o
completo domínio do mercado e das fontes de matérias-primas e
energia da América do Sul. Não lhes convinha, portanto, que o Brasil
e a Argentina, atraindo o Paraguai e o Uruguai, avançassem com o
projeto de construção do Mercosul, constituindo uma união aduaneira,
com a perspectiva de que evoluísse para um mercado comum, similar à
União Européia.
Henry Kissinger,
em Does America Need
a Diplomacy?,
referiu-se à contradição entre o NAFTA e o Mercosul e assinalou o
perigo que representava a tendência da América Latina para
integrar-se de modo autônomo e, talvez, hostil a uma ampla
estrutura hemisférica.
Isto seria não um simples “setback” para as
perspectivas econômicas dos Estados Unidos de integrar um mercado de
400 milhões de pessoas, o qual representava 25% do seu comércio
ultramarino, mas também para a sua esperança de uma nova ordem, “based
on growing comunity of democracies in the Americas and Europe”.
A declaração do presidente Fernando Henrique Cardoso
de que o "Mercosul é mais que um mercado, o Mercosul é, para o
Brasil, um destino", enquanto a ALCA era "uma opção", repercutiu nos
Estados Unidos, e Kissinger advertiu que o Mercosul estava propenso
a apresentar as mesmas tendências manifestadas na União
Européia, que buscava definir uma identidade política européia não
apenas distinta dos Estados Unidos, mas em manifesta oposição aos
Estados Unidos. Ele acentuou que a afirmação dessa "identidade
própria, diferenciada da América do Norte, estava a criar uma
potencial contenda entre Brasil e Estados Unidos sobre o futuro do
Cone Sul".
Segundo afirmou, especialmente no Brasil, havia líderes atraídos
pela perspectiva de uma América Latina politicamente unificada, em
confronto com os Estados Unidos e o NAFTA.
E, como Samuel Pinheiro Guimarães acentuou, o Brasil realmente
configura, na América do Sul, o “único rival possível à influência
hegemônica dos Estados Unidos”, devido às suas dimensões
geográficas, demográficas e econômicas e à sua posição geopolítica e
estratégica,
ao longo de grande parte do Atlântico Sul, defrontando a África
Ocidental. E foi o Brasil, com o apoio da Argentina, que obstou a
implantação da ALCA, prevista para o ano 2005. Estes dois países,
com uma população total de mais de 232 milhões de habitantes (2007,
est.) e um PIB conjunto de US$ 2,3 trilhões (2007), segundo a
paridade do poder de compra, são os que realmente mais interessam
aos Estados Unidos, não apenas pelo amplo mercado que representam,
mas também pelo peso geopolítico e o valor estratégico que possuem.
Entretanto, não obstante o fracasso das negociações
para formação da ALCA, os Estados Unidos, mudando de tática,
trataram de compelir os países da América do Sul, América Central e
Caribe a firmar acordos de livre comércio e abrir seus mercados,
instrumentalizando tanto o
Central America Free Trade Agreement
(CAFTA), nos entendimentos com os países da América Central, como o
Andean Trade Preference Act (ATPA), com
que o Congresso expandiu, em 2008, o Andean Trade
Promotion and Drug Erradication Act (ATPDEA), para as negociações
com Peru, Colômbia, Bolívia e Equador. Esta lei, o ATPDEA, permitia
aos Estados Unidos concederem, unilateralmente, preferências
comerciais, sem reciprocidade, aos países com os quais firmassem
tratados de livre comércio. A parceria entre desiguais evidentemente
só favorecia os Estados Unidos, mas a possibilidade de receber
preferências comerciais, sem reciprocidade, alimentou em
determinados setores empresariais, dentro de todos os países,
interesse em negociar acordos de livre-comércio, antes do
encerramento do prazo de vigência do ATPDEA.
E os quatro países andinos, Peru, Colômbia, Bolívia e Equador,
juntos, representavam, em 2006, um mercado de aproximadamente US$
11,6 bilhões para as exportações dos Estados Unidos, dando acesso a
cerca de 5.600 produtos com isenção tarifária, e um mercado de US$
8,2 bilhões para seus investimentos diretos. Contudo, desde 2004,
quando as negociações estavam em curso, a mudança do contexto
político na América do Sul ainda mais se acentuou, com a eleição de
Evo Morales (2005) e Rafael Correa (2007), ambos líderes de esquerda
e nacionalistas, para a presidência da Bolívia e do Equador. Este
fato complicou a equação estratégica dos Estados Unidos,
evidenciando o crescente desvanecimento de sua influência na região,
tanto que não conseguiram sequer derrocar o presidente Hugo Chávez
do governo da Venezuela, apesar das diversas tentativas encorajadas
pela CIA, como o frustrado golpe militar-empresarial, em abril de
2002, e as greves dos trabalhadores da PDVSA, paralisando a produção
de petróleo.
Militarização da Colômbia
O
principal interesse de Washington, inter alia, nos Estados
andinos são as fontes de energia que lá existem, e garantir os
suprimentos de petróleo oriundos do Equador e da Colômbia, que é
atualmente o terceiro maior exportador de petróleo para os Estados
Unidos, entre os países da América Latina, abaixo apenas da
Venezuela e do México. Cerca de onze das dezoito empresas, que
extraem petróleo na Colômbia, são norte-americanas, cujos
investimentos financiam a exploração de um terço do seu território,
inclusive degradando o meio-ambiente. Novos investimentos são
necessários para manter e aumentar as exportações de petróleo. E a
descoberta de novas reservas torna-se essencial para as exportações,
o que implica a pesquisa e lavra do petróleo em outro terço do país,
controlado ainda pelas Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (FARC)
e pelo Exército de Libertação Nacional (ELN). Não foi por outra
razão que o presidente Bill Clinton, em 2000, lançou o Plano
Colômbia, prevendo investimentos de cerca de US$ 6 bilhões, dos
quais os Estados Unidos participariam com US$ 1,3 bilhão para a
compra de helicópteros e outros armamentos.
Os cinco oleodutos existentes na Colômbia, sobretudo o que
transporta mais de 100.000 bpd do campo de Caño Limón, em Arauca,
para o porto Coveñas, no Caribe, sofrem mais de uma centena de
ataques e atos de sabotagem, por ano, perpetrados pelas das FARC e
pelo ELN. Desde 1986, ocorreram mais de 900 incidentes causando
perdas de mais de 2,5 milhões de barris de petróleo e, entre 1998 e
2008, as empresas estrangeiras e o governo da Colômbia tiveram
prejuízos da ordem de US$ 1 bilhão em conseqüência dos ataques
efetuados pelos guerrilheiros das FARC e do ELN. Esta, a razão pela
qual entre 10% e 15% das tropas do Exército colombiano e dos
assessores militares dos Estados Unidos estão mobilizados, ao longo
dos cinco oleodutos e outras instalações, para proteger a
infra-estrutura energética e as companhias estrangeiras de petróleo,
entre as quais
Occidental
Petroleum Corp. (OXY),
Royal Dutch/Shell
e a BP-Amoco, que fazem doações ao Ministério das Finanças da
Colômbia para a sua própria proteção.
O diário
Los Angeles Times revelou que, em sete anos, desde o
lançamento do Plano Colômbia, o Exército colombiano recebeu US$ 4,35
bilhões, para combater as guerrilhas, e os soldados e policiais
cometeram crescente número de assassinatos, abusos de direitos
humanos e, durante o período de cinco anos, que terminou em junho de
2006, o número de execuções extrajudiciais aumentou em mais de 50%,
com relação ao período anterior.
Em 2009, a ajuda militar concedida pelos Estados Unidos à Colômbia,
desde 2004, alcançará o montante de US$ 3,3 bilhões.
A aplicação de tais recursos, votados pelo Congresso americano,
visou a proteger os interesses econômicos dos Estados Unidos, na
região, especialmente o oleoduto de Caño Limón, operado pela
Occidental Petroleum e pela Royal Dutch/Shell, em Arauca, onde se
concentra a maior parte dos assessores militares dos Estados Unidos
e ocorrem as maiores violações de direitos humanos.
Embora a administração do presidente George W. Bush
apresente o combate ao narcotráfico e ao terrorismo para justificar
a concessão anual U$ 700 milhões à Colômbia, a maior parte como
assistência militar, o principal
objetivo é proteger os oleodutos, sobretudo o de Canon Limón, já
explodido cerca de 79 vezes, a fim de assegurar os suprimentos
futuros de petróleo aos Estados Unidos e inspirar confiança aos
investidores
estrangeiros. E com o fechamento da
Forward Operating Location (FOL),
depois denominada
Cooperative Security Location (CSL),
i. e, a base militar instalada dos Estados Unidos em Manta, no
Equador, previsto para 2009, devido à denúncia do contrato pelo
presidente Rafael Correa, o
U.S. Southern
Command (USSOUTHCOM)
passou a excogitar na sua transferência para a base aérea de
Palanquero, em Puerto Salgar, 120 milhas ao norte de Bogotá. Esta
base aérea, em Puerto Salgar, pode albergar mais de 2.000 homens,
possui uma série de radares, além de cassinos, restaurantes,
supermercados, hospital e teatro. E a pista do aeroporto, a mais
longa da Colômbia, tem 3.500 metros de longitude, 600 metros maior
que a de Manta, e permite a partida simultânea de até três aviões.
Os Estados Unidos terão assim um ponto de apoio, no centro da
Colômbia, ainda melhor que o de Manta, como
Forward Operating Location.
Em 2004,
com a Andean Counterdrug Initiative, o presidente George W.
Bush expandiu o Plano Colômbia, como um dos aspectos da estratégia
dos Estados Unidos para assegurar sua presença militar na América do
Sul e, em particular, na Amazônia.
E o Congresso aprovou a duplicação do número de soldados
estacionados na Colômbia, que subiu de 400 para 800, e o de
contractors, mercenários (ex-militares) empregados pelas
military companies, mediante as quais o Pentágono terceiriza as
funções militares (outsourcing),
aumentou de 400 para 600. Estes militares e mercenários americanos
adestram e apóiam cerca de 17.000 soldados, que executaram o Plano
Patriota, ampla ofensiva de contra-insurgência nas selvas no sul da
Colômbia. Com razão, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, em sua
obra Desafios brasileiros na era dos gigantes, apontou “a
crescente presença de assessores militares americanos e a venda de
equipamentos sofisticados às Forças Armadas colombianas,
pretensamente para apoiar os programas de erradicação das drogas,
mas que podem ser, fácil e eventualmente, utilizados no combate às
FARC e ao ELN”, como um componente relativamente novo na questão de
segurança da Amazônia.
Com a assistência dos Estados Unidos, o Exército da
Colômbia tornou-se o maior e o mais bem equipado, relativamente, da
América do Sul. Com população de 44 milhões de habitantes, a
Colômbia possui um contingente militar de cerca de 208.600 efetivos,
enquanto o Brasil, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados e mais
de 190 milhões de habitantes, tem um contingente de somente 287.870,
e a Argentina, com 40 milhões de habitantes e um território de 2,7
milhões de quilômetros quadrados, tem um efetivo de apenas 71.655. A
Colômbia, com um PIB de $320.4 bilhões (2007 est.), de acordo com a
paridade do poder de compra, destina 3,8% aos gastos militares,
enquanto o Brasil, cujo PIB é de $1.838 trilhões (2007 est.), gasta
apenas um 1,5%, a Argentina com um PIB de $523.7 bilhões (2007
est.), gasta apenas 1,1%. Em 2005, o Congresso estipulou para a
região uma ajuda econômica de US$ 9,2 milhões e cerca de US$ 859,6
milhões para assistência militar.
Na realidade, é o Pentágono que determina e dirige a
política exterior dos Estados Unidos com respeito à América Central
e à América do Sul. A República da Guyana permitiu que a
Beal
Aerospace Technologies, companhia americana, construísse uma base
para lançamento de foguetes e satélites, em Essequibo, território
litigioso, disputado pela Venezuela, o que permitiria estabelecer a
presença militar dos Estados Unidos, ao longo do seu flanco
oriental.
Mas não somente através da Guyana, em cuja costa
a Exxon
Mobil, com a filial
Esso Exploration and Production Guyana Ltd., iniciou a exploração de
petróleo em águas profundas, os Estados Unidos tratam de aumentar
sua presença na Amazônia. O secretário de Defesa dos Estados Unidos,
Robert Gates, propôs ao presidente do Suriname, em outubro de 2007,
o estabelecimento de uma base no seu território para testar os novos
veículos militares desenvolvidos, pela
General Dynamics Combat Systems,
destinados a operações nas selvas.
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Carro de assalto blindado para operações nas selvas
Também no Peru, região de Ayacucho, epicentro da
guerra contra o grupo Sendero Luminoso (1980-2000), o primeiro
contingente de 70 soldados americanos da
Task Force New Horizons
começou a operar, em maio de 2008, sob o mesmo pretexto de realizar
tarefas humanitárias. Este número deveria ser aumentado para um
total de 350, entre 1° de junho e 31 de agosto. E m outubro de
2008, pilotos, tripulantes da U.S. Army CH-47D "Chinook",
e soldados da Task Force New Horizons, fortemente armados, estavam a
dar apoio, com helicópteros pesados, a mais de 990 militares
americanos, operando nessa região,
575 quilômetros ao sudeste de Lima,
onde os Estados Unidos negociavam com as Forças
Armadas do Peru a instalação de uma base militar, no contexto dos
entendimentos para firmar o Tratado de Livre Comércio (TLC),
celebrado em dezembro de 2007.
O interesse dos Estados Unidos em instalar uma base em Ayacucho,
uma zona eqüidistante das áreas dominadas pelas FARC, na Colômbia, e
dos conflitos sociais na Bolívia, é facilitar a mobilização de seus
contingentes em toda região
da América do Sul. Os Estados Unidos contam ainda com uma base naval
em Iquitos, ao norte do Peru, em uma região estratégica da Amazônia,
na qual dispõem de equipamento fluvial, como lanchas de combate, e
outras bases em Santa Lucia e sobre o rio Nanaí.
O
estacionamento permanente de tropas e equipamentos bélicos, no
Suriname e na Guyana, bem como na Colômbia e também no Peru,
como antes no Equador e na Bolívia, dão aos Estados Unidos enorme
vantagem estratégica, para intervir militarmente em qualquer país,
se necessário, a fim de defender seus interesses econômicos e ocupar
as nascentes do rio Amazonas. Em realidade, a militarização da
Colômbia, com a presença de mais de 1.000 militares e mercenários
americanos, empregados pelas military firmas empreiteiras do
Pentágono na região, e em outros países vizinhos, constitui um
desafio para a própria nacional segurança nacional do Brasil, na
medida em que ameaça a segurança da Amazônia.

Fonte: Graphic Maps – World Atlas.Com
De qualquer forma, o objetivo estratégico imediato
dos Estados Unidos é armar e mover a Colômbia como importante peça
no xadrez da América do Sul. É fazê-la um pivot country, um
enclave, como Israel no Oriente Médio, e empregá-la como contrapeso
da Venezuela, para qualquer eventual contingência, i. e., de
intervenção militar, mas sem usar suas próprias tropas e sim
contingentes de um país sul-americano, no caso, a Colômbia, caso o
governo do presidente Hugo Chávez ameace ainda mais seus interesses
econômicos, e. g., suspendendo o fornecimento de petróleo aos
Estados Unidos e desviando para a China toda a sua vasta produção.
Os recursos energéticos da América do Sul
A Venezuela, cujas reservas estão entre as maiores do
mundo, é o quarto maior exportador de petróleo para os Estados
Unidos. Responde por cerca de 15% do seu consumo diário. A
proximidade geográfica entre os dois países torna barato o custo do
transporte, através do Caribe. E as relações extremamente
antagônicas entre o presidente Hugo Chávez (1999) e o governo do
presidente George W. Bush não afetaram o comércio entre os dois
países, inclusive porque os Estados Unidos, por outro lado, são o
principal mercado para a produção de energia da Venezuela. Mas
constitui motivo de preocupação, em Washington, o fato de que a
Venezuela haja começado a exportar petróleo para a China, que busca
mais e mais fontes de energia, a fim de atender ao impetuoso
crescimento econômico, e se tornou seu principal parceiro na América
do Sul. O volume de petróleo, cada vez maior, importado da Venezuela
pela China, cerca de 70.000 bpd, em 2006, subiu para 197.000 bpd, em
2007, ano em que o comércio entre os dois países alcançou o montante
de US$ 2,5 bilhões.
A China está a ampliar seu intercâmbio, não apenas
com a Venezuela, mas também com a Colômbia, Equador, Bolívia, Chile,
Argentina e Brasil. Seu comércio com os países da América Latina, em
geral, alcançou, em 2005, o montante de aproximadamente US$ 50
bilhões, dos quais os negócios com os países do Mercosul – Brasil,
Argentina, Uruguai e Paraguai – representaram 85% do total. Mas a
China está interessada, sobretudo, em assegurar fontes de energia,
como gás e petróleo. A China Petro-Chemical Corp (Sinopec), em 2004,
firmou contrato com a Petrobrás para explorar a plataforma
submarina, em diversas áreas, perto da África, Venezuela, Equador,
Colômbia e Golfo do México.
E essa crescente expansão econômica e comercial da China na América
do Sul alarmou os formuladores da política exterior dos Estados
Unidos até então concentrados nos problemas do Oriente Médio.
Venezuela, Bolívia e Equador possuem importantes reservas de gás e
petróleo. De acordo com a Energy Information Administration, dos
Estados Unidos, a Venezuela, um dos dez maiores produtores de
petróleo do mundo, possui reservas comprovadas de 80 bilhões de
barris e produziu cerca de 2,8 milhões bpd, em 2006. A Bolívia
possui a segunda maior reserva de gás natural, na América do Sul,
depois da Venezuela. Os recursos naturais na região de Santa Cruz de
la Sierra, são estimados em 2,8 trilhões de pés cúbicos de gás dos
26,7 trilhões de reservas provadas da Bolívia. Se somadas às
prováveis, o volume sobe a 48,7 trilhões de pés cúbicos. As reservas
de petróleo do Equador, o quinto maior produtor sul-americano, são
estimadas em 4,5 bilhões e suas exportações somaram 376.000 bpd, em
2006. Brasil, Colômbia, Argentina e Peru também produzem gás e
petróleo. No entanto, de todos esses países, apenas o Brasil,
segundo a avaliação de Stephanie Hanson, editora do Council on
Foreign Relations, think-tank sediado em Nova York desde
1921, tem o potencial de tornar-se significativo produtor mundial de
petróleo, na próxima década, com a exploração das jazidas
encontradas na região do pré-sal, descobertas em águas profundas,
nas bacias do Sul e Sudeste do Brasil.
As reservas provadas atualmente existentes são da ordem de 11
bilhões de barris, mas a produção do Brasil poderá saltar para 2,2
milhões bpd, em 2006, para 3,5 milhões de bpd, em 2012, e permitir a
exportação de maior excedente.
O Brasil no mapa geopolítico do petróleo
A
estimativa da Associação Brasileira de Geólogos de Petróleo (ABGP) é
de que a Bacia de Santos, no litoral do Estado de S. Paulo, contém
33 bilhões de barris. Este volume quadruplica as reservas de
petróleo do Brasil, que sobem de 13 bilhões de barris (provados)
para cerca de 46 bilhões de barris. Os dados são ainda muito
imprecisos. O certo é que, no campo de Tupi (litoral de Santos), há
cerca de 5 a 8 bilhões de barris. Porém, a Petrobrás ainda tem mais
oito campos promissores: Caramba, Bem-te-vi, Carioca, Guará,
Júpiter, Iara e Parati. E aí é possível, segundo os cálculos da
Petrobrás e a informação de Stephanie Hanson, do Council on Foreign
Relations, que a quantidade de petróleo alcance 70 a 100 bilhões de
barris, além de grande volume de gás.
Tudo indica, porém, que a camada de pré-sal se estenda por 800
quilômetros, com 200 quilômetros de largura, desde Espírito Santo,
norte do Rio de Janeiro, a Santa Catarina,
e é mesmo possível que alcance toda a costa da Argentina.

Fonte: Economist.com
As reservas descobertas na camada pré-sal ao longo da costa, entre o
Espírito Santo e Santa Catarina, inseriram o Brasil no mapa
geopolítico do petróleo. Este foi um dos fatores, inter alia,
que provavelmente levaram o presidente George W. Bush a restaurar a
IV Frota, para o Atlântico Sul, sob o pretexto de combater o tráfico
de drogas, de armas e de pessoas, o terrorismo e a pirataria que
ameaça o fluxo do livre comércio nos mares do Caribe e da América do
Sul. Porém, o próprio almirante Gary Roughead, chefe de Operaciones
Navais, anunciou em 24 de abril que se havia decidido restabelecer a
IV Frota, em virtude da imensa importância da segurança marítima no
sul do hemisfério.

Mapa da América Central e da América do Sul sob a
jurisdição do South Command das Forças Armadas dos Estados Unidos
para hemisfério ocidental.
Com as operações navais da IV Frota, os Estados
Unidos complementam o anel de bases militares, que envolve Comapala,
em El Salvador; Guantánamo, em Cuba; Comayuga, em Honduras; Aruba,
em Curaçao; e Manta, no Equador, de onde deverá ser transferida para
a Colômbia. Este anel seria ainda arrematado com a base aérea,
construída em 1983 e posteriormente ampliada, em Mariscal
Estigarribia, no Paraguai,
distante
apenas 200 quilômetros da fronteira com a Bolívia e a Argentina,
e
320 quilômetros do Brasil, muito perto da Tríplice Fronteira.
Esta base aérea,
aonde as tropas da Special Operations Forces (SOF) começaram a
chegar em 2005, com imunidades concedidas pelo governo paraguaio,
possui
uma pista de 3.500 metros de longitude e
tem capacidade para aquartelar
16.000 soldados.

Pista do aeroporto na base aérea em Mariscal
Estigarríbia, no Paraguai
Mas
o ex-bispo
Fernando Lugo,
eleito em 2008
para a presidência
do Paraguai
pela
Alianza Patriótica para el Cambio,
prometeu por fim à
presença de tropas americanas,
com imunidades,
na região estratégica
de Mariscal Estagarribia,
e aos exercícios militares conjuntos com forças
paraguaias, percebidos como preparativos para uma guerra preventiva,
visando ao controle dos recursos naturais da Bolívia, cujo governo
do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada (1993-1997), sob a pressão
dos Estados Unidos e do Fundo Monetário Internacional, vendera em
1995 suas reservas de petróleo e gás à Enron e à Shell por US$ 263,5
milhões, menos do que um por cento do valor dos depósitos.
Entretanto, a eleição do líder indígena Evo Morales,
dirigente do Movimiento al Socialismo (MAS), para a presidência da
Bolívia, ampliou a frente de resistência e oposição aos Estados
Unidos na América do Sul, aliando-se ao presidente Hugo Chávez, da
Venezuela. E ele representa a grande parte do povo boliviano que se
opõe à exportação de gás para os Estados Unidos, cujas reservas, em
2003, representavam apenas 3% das existentes no mundo e o consumo
esgotaria em cerca de oito anos, isto é, até 2011.
Em face
de tão dramática situação, os Estados Unidos intentam apoderar-se de
qualquer reserva, em qualquer região, por menor que seja. Mesmo se
novas descobertas de gás fossem feitas, elas não ultrapassariam 5%
do gás mundial, volume igual ao existente, àquele época, na América
do Sul, onde a Bolívia e a Argentina concentravam a maior parte.
E daí porque as companhias petrolíferas, em larga medida, e as
agências dos Estados Unidos exploram as contradições internas e
encorajam a secessão dos departamentos de Tarija, Chuquisaca, Santa
Cruz, Beni e Pando, que conformam a “media-luna”, o que
representaria duro golpe na liderança do Brasil na América do Sul e
na sua cada vez maior influência internacional.
Objetivos da IV Frota
A
restauração da IV Frota implica, decerto, diversos interesses
estratégicos dos Estados Unidos. Mas o que torna evidente seu real
objetivo é o fato de que o comando da IV Frota foi entregue ao
contra-almirante Joseph Kernan, oficial da US Navy SEAs (United
States Navy Sea, Air and Land Forces), constituída pelas Special
Operations Forces, da Marinha de Guerra, e são empregadas em ações
diretas e em missões de reconhecimento especial, capazes de
empreender guerra não convencional, defesa interna no exterior e
operações contra o terrorismo. Um dos integrantes da IV Frota é um
navio de assalto anfíbio, o USS Kearsarge (LHD 3), cuja principal
missão é embarcação, deslocamento, desembarque de forças em qualquer
parte do mundo, servindo como Expeditionary Strike Group,
conceito militar introduzido na Marinha de Guerra dos Estados
Unidos, no início dos anos 1990, e que consiste de forças altamente
móveis e auto-sustentáveis para executar missões em várias partes do
globo. E sua “missão humanitária” começou em Santa Marta, na
Colômbia, em coordenação com o Comando Geral das Forças Armadas e o
Exército Nacional da Colômbia.
É
evidente que os Estados Unidos, com o domínio dos mares, e do
espaço, nunca deixaram de ter navios de guerra trafegando nas águas
internacionais da América do Sul, embora a IV Frota, criada em 1943,
durante a Segunda Guerra Mundial, houvesse sido extinta,
oficialmente, em 1950. Sua restauração não significa maior mudança
nas atividades militares dos Estados Unidos no Atlântico Sul, uma
vez que 38% do seu comércio global se realiza com países do
hemisfério, 34% do petróleo que importa provém da região e 2/3 dos
navios que transitam pelo Canal do Panamá destinam-se aos portos
americanos.
Apenas oficializou uma presença que de fato nunca deixou de existir,
mas visando a demarcar e reafirmar o Atlântico Sul como área sob seu
domínio, sobretudo em face da descoberta de grandes jazidas de
petróleo, no campo Tupi, na camada pré-sal do litoral de S. Paulo.
Aos Estados Unidos preocupa a crescente presença da China na América
do Sul e pretendem controlar seus recursos minerais e energéticos,
tais como as jazidas de ferro de Mutum e as reservas de gás natural
existentes na Bolívia, a Patagônia da Argentina e o Aqüífero
Guarani, o maior reservatório de água subterrânea do mundo, situado
nos países que integram o Mercosul.
A
restauração da IV Frota ocorreu, contudo, dentro de um contexto que
se afigura altamente desfavorável aos Estados Unidos. O fracasso da
tentativa de golpe contra o presidente Hugo Chávez, em abril de
2002, complicou a equação estratégica regional da administração do
presidente George W. Bush. Chávez consolidou-se no poder e
protagonizou a oposição à política e aos interesses dos Estados
Unidos. E esta foi reforçada, no âmbito sul-americano, com a eleição
do presidente Luiz Inácio Lula Silva, no Brasil, Nestor Kirchner, na
Argentina, Evo Morales, na Bolívia, Tabaré Vázques, no Uruguai, e
Rafael Correa, no Equador. Alguns mais radicais, outros mais
moderados, exprimiram, de um modo ou de outro, a rejeição ao domínio
dos Estados Unidos, pelo menos de significativa parte da população.
A eleição desses líderes, apodados de populistas pelos ideólogos do
conservadorismo, não significa que a América do Sul tendeu ainda
mais para a esquerda. Ela reflete o enorme desgaste da influência
dos Estados Unidos na região, o declínio cada vez maior do seu
domínio, as tensões e incertezas relacionadas com o processo de
globalização da economia, que os governos de Washington trataram de
impulsionar, após o desmoronamento da União Soviética e do Bloco
Socialista.
O
declínio da influência dos Estados Unidos na América do Sul,
revelado pela dificuldade de impedir a eleição ou depor governos de
tendência mais à esquerda, como ocorreu nos anos 1960 e 1970, foi
acelerado pelo fracasso das políticas neoliberais recomendadas pelo
Consenso de Washington, que ainda mais incrementaram a desigualdade
de renda, na maioria dos países, fomentaram o aumento do desemprego
urbano e ampliaram a brecha social entre ricos e pobres, entre os
trabalhadores mais capacitados e os demais, sem qualificação. A
crise acentuou-se, particularmente, nos Estados andinos, como, e.
g., Peru, Bolívia e Equador, onde 92% da população manifestaram
desencanto com a economia de mercado, conforme estudo apresentado ao
Strategic Studies Institute do Army War College dos Estados Unidos.
As pesquisas do
Program
on International Policy Attitudes (PIPA), realizadas conjuntamente
pelo Center on Policy Attitudes (COPA) e o Centro for International
and Securities Studies at Maryland, University of Maryland (CISSM),
em fins de 2006 e início de 2007, mostraram também que a percepção
dos Estados Unidos na América Latina permanecia negativa e que
somente 1/3 dos habitantes do Brasil e do Chile criam que eles
tinham influência positiva no mundo. Os resultados ainda foram mais
baixos no México (12%) e Argentina (13) e em todos os países a
oposição à guerra no Iraque oscilava entre 65% no Chile e 95% na
Argentina.
E outra pesquisa indicou que, globalmente, o conceito sobre os
Estados Unidos estava a evoluir de ruim para pior.
Como
Kissinger observara, no início do século XXI, a América do Sul
buscava definir uma identidade política própria, o que estava a
gerar uma virtual contenda entre o Brasil e os Estados Unidos sobre
o futuro do Cone Sul".
Esta previsão o filósofo alemão George W. Hegel fizera por volta de
1830, quando disse que a América era “a terra do futuro”, na qual,
em tempos vindouros, haveria “algo como uma contenda entre a do
Norte e a América do Sul , e onde a importância da História
Universal deverá manifestar-se”.
A contenda é possível.
A
América do Sul, sob a liderança do Brasil juntamente com a Argentina
e a Venezuela, está tratando realmente de definir sua própria
identidade, diferenciada dos Estados Unidos e mesmo em oposição ao
domínio dos Estados Unidos, o que se evidencia com a criação da
União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e do Conselho Sul-Americano
de Defesa. Tais iniciativas que implicam o desaparecimento do
sistema interamericano, instituído por Washington e configurado pela
Organização dos Estados Americanos (OEA), bem como o do Tratado do
Rio de Janeiro, obsoleto e denunciado pelo México, e da Junta
Interamericana de Defesa (JID).
Mas o acelerado desgaste da influência e do prestígio
dos Estados Unidos na América do Sul e, em geral, na América Latina
debilita inclusive sua estratégia global, que obedece às diretrizes
traçadas desde o governo de George H. W. Bush (1989 -1993), no
sentido de desencorajar qualquer desafio à sua preponderância ou
tentativa de reverter a ordem econômica e política
internacionalmente estabelecida.
No conflito com os Estados Unidos, gerado pela tentativa de
incorporar a Geórgia e a Ucrânia à OTAN e instalar bases antimísseis
na Polônia e na República Tcheca, o presidente Hugo Chávez,
desafiando os Estados Unidos, respaldou a Rússia, que enviou a
Caracas dois bombardeiros estratégicos TU-160, para a realização de
exercícios conjuntos com aviões da Força Aérea Venezuelana, e
sinalizou que mandará também navios de guerra ao Caribe, como
resposta à presença de navios americanos no Mar Negro. E, em meio
ao agravamento do conflito na Bolívia, no início de setembro de
2008, o governo de Evo Morales não apenas
denunciou
a Enron e a Shell, sócias majoritárias dos dutos Transredes, e a
Ashmore Energy Internacional, de haver impulsionado o plano
conspirativo contra seu governo como
considerou persona no grata o embaixador dos Estados Unidos,
Philip Goldberg, acusando-o de
apoiar a rebelião dos departamentos da "media-luna"
contra La Paz e encorajar a secessão da Bolívia, acusação que,
decerto, tinha fundamento.
Solidário com Evo Morales, o presidente Hugo Chávez expulsou o
embaixador dos Estados Unidos em Caracas,
Patrick Duddy e deu-lhe o prazo de apenas 72 horas para abandonar o
pais.
E a Argentina e o Brasil, por sua vez, manifestaram solidariedade ao
governo de Evo Morales, enfaticamente,
condenaram o levante e os atos terroristas e sabotagens da oposição,
no Oriente boliviano, como tentativa de desestabilizar a ordem
constitucional do país, e deixaram claro, de modo inequívoco, que
não aceitariam nem reconheceriam a secessão dos
departamentos do Oriente boliviano.
Conclusões
Não há dúvida de que as tensões e os conflitos na Bolívia e na
Geórgia se entrelaçam, gerados e alimentados pela disputa das fontes
de energia em que os Estados Unidos se empenharam, a fim de manter
seu way of life, com alto nível de consumo e de desperdício.
Como bem observou o cientista político José Luís Fiori está em curso
uma
nova “corrida imperialista”, entre as grandes potências, que lutam
por sua segurança energética e alimentar. A China penetra cada vez
mais na África, onde os países da União Européia buscam conservar a
preeminência sobre suas antigas colônias. E a competição, como
prevê, José Luís Fiori, deverá atingir a América Latina, porém de
forma ainda mais intensa, graças aos seus recursos de gás e
petróleo, às suas grandes reservas minerais e recursos hídricos, e à
sua imensa capacidade de produção alimentar, muito superior à da
África.
Este aspecto econômico-comercial certamente também pesou na decisão
americana de reativar a IV Frota no Atlântico Sul, com a perspectiva
de que a região se torne um dos grandes centros produtores de
petróleo, em virtude das recentes descobertas de jazidas, na camada
pré-sal no litoral de São Paulo e que provavelmente se estendem por
todo o sul até o litoral da Argentina.
E o
envolvimento do Brasil, que mais e mais se projeta como potência
econômica e política, será inevitável. É o maior exportador mundial
de alimentos, brevemente tornar-se-á um dos maiores exportadores de
petróleo, e possui grande parte do Aqüífero Guarani, como das águas
do Amazonas e da biodiversidade existente na região.
Em tais circunstâncias, o Brasil não pode deixar de reequipar e
modernizar suas Forças Armadas, particularmente a Marinha de Guerra,
com a construção do submarino nuclear, e adquirir mais e mais
autonomia e auto-suficiência na produção de material bélico,
condição essencial para alcançar o status de grande potência,
integrando toda a América do Sul. Também não se pode descartar a
hipótese de guerra com uma potência tecnologicamente superior ou de
envolvimento do Brasil em conflito que atinja suas fronteiras e, por
conseguinte, afete a sua segurança nacional, como na Bolívia,
envolvendo a Venezuela. E um Estado, que necessita importar
continuamente armamentos e munições, e navios para o transporte, não
tem condições de enfrentar a eventualidade de uma guerra. Uma
Segunda Guerra Fria foi deflagrada e envolve a América do Sul, onde
a penetração dos Estados Unidos constitui um fator de instabilidade
e inquietação. O elevado grau de turbulência interna e resistência e
oposição da maioria dos governos à vontade dos Estados Unidos,
denota claramente o desvanecimento de sua hegemonia, na região onde
antes seu fiat tinha força de lei, e repercute,
profundamente, sobre sua estratégia global, no sentido de impor a
Pax Americana, i. e, “preservar e estender uma ordem
internacional amigável (friendly) à nossa segurança, nossa
prosperidade e nossos princípios”, conforme as diretrizes do
Project for the New American Century (PNAC).
St. Leon (Baden-Württemberg), setembro de 2008.
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