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ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI
Professor do Mestrado em Educação
nas Ciências da UNIJUÍ - RS e da Universidade Johannes Kepler de
Linz (Áustria). Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela
Universidade de Osnabrück (Alemanha)

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Agricultura familiar e sustentabilidade
ambiental
Antônio Inácio Andrioli
A agricultura familiar é
constituída por famílias de agricultores que
com o seu
próprio trabalho vêm
produzindo alimentos. São duas características
importantes a destacar: a) na agricultura familiar
é o próprio trabalho
da família que é
responsável
pela geração
de valor, diferente da agricultura
patronal, na qual há uma relação
típica
de exploração de
trabalho
alheio de
empregados
ou trabalhadores
assalariados; b) a agricultura
familiar
é responsável
pela
maior parte
da produção de alimentos, principalmente por sua característica de integrar a produção e o consumo. Agricultores familiares, portanto, ao mesmo tempo que produzem, eles
também
consomem parte de
sua
produção. Esses alimentos podem ser de maior
qualidade, pois os produtores usufruem da sua própria produção e,
para conseguir fazer com que o trabalho da família
possa ser empregado ou possa gerar valor durante o
ano inteiro, ele
terá que ocupar-se com várias atividades. Nesse sentido, a monocultura seria um problema para a agricultura familiar,
porque na agricultura
familiar
é necessário que o
trabalho
da família gere
valor
durante o ano
todo.
Muitos autores,
quando se referem à agricultura familiar,
destacam sua pouca integração à lógica capitalista. Alexander
Chayanov, um dos autores clássicos no debate sobre agricultura
familiar, dizia que, na Rússia, os
agricultores eram sujeitos sociais
que não
necessariamente estavam integrados na lógica
do capital
ou
na lógica
que
o capitalismo coloca a maioria dos trabalhadores
numa situação de exploração. Alguns chegam a caracterizar
isso como
uma situação de
produção
pré-capitalista ou, então, com uma parte
integrada ao capitalismo e uma outra parte ainda não. Isso não significa dizer que se trata de uma produção
atrasada ou uma
produção
que não
esteja em
condições
de subsistir ou, inclusive, de
funcionar
paralelamente à
produção
capitalista. Mas, é importante afirmar
que, na agricultura familiar, pelas suas características, não
se trata de uma
produção
tipicamente capitalista.
Na agricultura familiar
há
um fenômeno
historicamente
conhecido como
dependência dos agricultores em relação a alguns fatores
de produção. Um
problema
clássico da produção
agrícola é a terra, um recurso limitado, que não pode ser reproduzido. Terra,
portanto, não é capital, porque ninguém
consegue produzir
terra. Os agricultores
têm acesso
à terra, a esse
recurso natural
e, a partir dele, conseguem
produzir
determinada renda. A dependência ocorre
em função da relação direta
da agricultura com a natureza.
A agricultura é uma atividade
dependente da
natureza. Sem condições
adequadas de solo, clima, água, enfim,
condições
climáticas favoráveis, a base da agricultura deixa de
existir. Além disso, há o trabalho da família e um terceiro
fator que, geralmente, é um fator limitante para os agricultores familiares, pela
estrutura agrária e da política agrícola
da maioria dos países: o
acesso ao crédito e ao capital. A forma
como os
agricultores
têm conseguido acesso ao capital, têm os colocado numa
condição
de dependência capitalista.
Ao produzirem, os agricultores estão numa situação de concorrência entre si, tendo em
vista que
a superprodução de cereais e
de alimentos no mundo
faz com
que
os preços dos
produtos
agrícolas tendencialmente venham a baixar. Por outro lado, os agricultores estão numa
condição
de submissão em
função
da dependência de insumos que eles mesmos não podem produzir. As grandes
corporações agrícolas multinacionais têm
monopolizado o fornecimento
desses insumos, inclusive aquilo costumeiramente chamado de
tecnologia
agrícola.
Portanto, os agricultores
estão confrontados com uma situação
de concorrência
entre
si no mercado
internacional com
a baixa de
preço
dos seus
produtos
e, por
outro
lado, com
o monopólio
crescente
do fornecimento de
insumos. As duas situações
combinadas fazem com que, ao final, o seu
trabalho seja menos remunerado. Trata-se de uma nova forma de reestruturação do capital
ou uma de uma
nova
forma de divisão social do trabalho, através da qual a renda ou o valor que é gerado na produção agrícola vem sendo transferido para
alguns grupos
econômicos. Essa é a situação
que, historicamente, muitos intelectuais
têm apresentado como uma tendência do próprio processo produtivo
agrícola: ao final sobrariam apenas alguns proprietários e os demais seriam trabalhadores
assalariados.
A agricultura familiar, que
integra a propriedade da
terra
e o trabalho, teria
que
se locomover ou se
movimentar
de uma outra
forma
dentro dessa lógica para poder subsistir.
Imaginemos, por exemplo, que o cálculo econômico do agricultor
familiar é diferenciado em relação ao cálculo do
agricultor
patronal, não somente
porque
é a própria
família
que está produzindo (e um capitalista jamais agiria com
os seus
empregados
da mesma
forma
como o pai
e mãe agem
com
filhos e vice-versa), mas também porque são eles mesmos que
atuam no processo
produtivo. Podemos citar
aqui o exemplo
da aplicação de pesticidas que interferem
sobre
o meio
ambiente
onde se produz, sendo esse, ao mesmo
tempo, o meio
ambiente
onde essas
pessoas
vivem. Portanto, na
agricultura familiar, nós temos uma relação
direta com a natureza
e, por isso, os problemas
ambientais passam a ser
um
problema social. Assim, se analisarmos a
forma como o capitalismo hoje
vem estruturando o processo
produtivo, o cálculo
que
os agricultores
familiares
vêm realizando teria que
ser
diferenciado em
relação
ao cálculo
econômico
da agricultura
patronal. Na agricultura
patronal, interessa uma redução de
custos de produção para que, por unidade
produzida, se tenha maior valor gerado ou
acumulado. Para efetuar essa redução de custos, os
empresários
rurais têm utilizado tecnologias que reduzem a força
de trabalho
necessária
para se produzir
determinada
unidade de produção
(saca de soja,
saca
de milho, etc.). Para que um
agricultor familiar possa reduzir o
tempo
de trabalho necessário
para se produzir algo, isso
significaria que ele teria que desempregar a
si mesmo, seus filhos ou
alguém da sua
família. E, com
um
agravante: essas mesmas pessoas
continuariam consumindo. Se essas pessoas
continuam consumindo sem que o seu trabalho seja remunerado, nós
termos uma condição
especial
na agricultura familiar: um
empobrecimento ou uma auto-exploração, de forma que os que trabalham precisam trabalhar
mais para sustentar aqueles que somente consomem.
Portanto, na agricultura familiar
interessa que o trabalho
que
os agricultores integram no processo produtivo
seja remunerado e remunerado com um maior valor agregado. Para que
esse valor
possa ser
agregado,
certamente o
agricultor
precisaria também
industrializar
a sua
produção. Poderíamos denominar isso
de pequena manufatura,
ou pequena
forma de industrialização
até as formas
mais sofisticadas
que
hoje também
são possíveis, o que também implicaria em uma organização
cooperativa com
outros
agricultores
em uma mesma
comunidade. Então, ao invés de um agricultor aumentar a sua área de
produção, o que normalmente
os empresários rurais
tem feito, diminuindo o número de pessoas
necessárias pra
produzir, os pequenos
agricultores, que não podem simplesmente
aumentar a sua
área de produção
sem diminuir a área de
produção
de um
vizinho, a alternativa seria fazer
com que o trabalho investido na
produção possa ter mais valor. Uma
das formas
possíveis
é conseguir agregar valor à produção, industrializando e comercializando
diretamente ao consumidor.
Uma outra forma é a
possibilidade de os agricultores
familiares
produzirem alimentos com maior
qualidade. Faz parte das características da agricultura
familiar, produzir
com
maior qualidade,
porque
as pessoas que produzem são
as mesmas que consomem. Assim, interessaria à agricultura familiar produzir
alimentos com maior
qualidade, com base numa melhor relação com o meio
ambiente, de forma
que
também se economize
em
insumos, que
são os fatores
limitantes, pois implicam em
investimentos de capital.
O trabalho, aliado a conhecimentos
necessários para produzir alimentos com mais qualidade, poderia
favorecer o agricultor, de
tal
forma que aquele conhecimento
especial que
é introduzido na produção,
para
que possa ser
produzido de uma forma
mais
saudável, possa, no
consumidor
final, ser mais valorizado.
Isso é possível agregando elementos
da agroecologia na agricultura familiar. A agricultura
familiar, portanto, pelas suas características, por
suas necessidades
e por sua perspectiva econômica e social, apresenta uma
tendência
maior de incorporar
elementos da agroecologia, porque essa seria uma forma
de fazer com que sua produção seja menos dependente
de capital
externo, de insumos
(sobre os quais algumas multinacionais
tem o seu
controle
monopolizado) e introduzir no processo produtivo conhecimentos
da agroecologia,combinando-os com
conhecimentos tradicionais. Isso
implicaria também em um processo de apropriação
de conhecimento existente, de
valorização de conhecimentos já desenvolvidos
e de construção de
novos
conhecimentos.
Certamente, isso carece
também de uma nova forma de considerar a integração
dos fatores de produção, a
assim chamada pluriatividade, ou
então, multifuncionalidade da agricultura familiar.
A produção de alimentos pode ser integrada a outras
atividades
econômicas, como, por exemplo
o turismo, ou, então, à produção
de conhecimento na
atividade
agrícola numa
relação
diferente com
o meio
ambiente. Essas diversas
atividades integradas, por sua vez, podem contribuir para que os
agricultores possam ter uma melhor ocupação do seu
tempo de trabalho durante o ano. Isso não
significa apologizar ou então propagandear uma maior
necessidade de trabalho. O trabalho é a relação
do ser humano com a natureza
e com os outros seres humanos
(que
são parte
da natureza) de uma forma
mais
adaptada àquilo
que
a natureza consegue oferecer em termos de fatores de produção. Ao
invés de adaptar a natureza ao processo
produtivo é possível adaptar o processo
produtivo
à natureza, levando em
consideração que a natureza
pode “trabalhar” para os
agricultores. Isso não significa que a natureza
esteja trabalhando no conceito clássico de trabalho, mas que,
através de uma forma diferenciada de relação do ser humano com a
natureza, preservando o meio ambiente, é possível somar mais para o
trabalho, que o trabalho possa receber mais valor sem que ele tenha
que ser, por isso, mais penoso. Esse é um
elemento
central para
a agricultura familiar, tendo em vista
que a penosidade do trabalho
não
interessa aos agricultores familiares, da
mesma
forma que ela também não interessa aos agricultores
empresariais (nesse caso, se a agricultura mais penosa gerar mais
custos).
No caso da agricultura
familiar, o trabalho
penoso
está relacionado com a qualidade
de vida da família,
diferente daquela
relação
da agricultura patronal, na qual os custos de produção seriam o
agravante (e não
a penosidade em
função
do sacrifício de
algum
empregado ou trabalhador assalariado). Na
agricultura
familiar a
qualidade
de vida está
diretamente
relacionada à forma
como
o trabalho é realizado e como ele se relaciona com
a natureza. Dessa forma, é possível evitar
determinadas atividades que são
resultado de problemas técnicos gerados pelo processo de modernização capitalista da agricultura. Como os
agricultores
familiares
não foram totalmente integrados ao processo
de modernização capitalista
da agricultura (alguns
sequer chegaram a fazer
parte desse processo), há um espaço de
mobilização social, em que os agricultores
familiares poderiam
construir
uma forma diferenciada de
construção
da vida, sem necessidade de utilizar determinados
insumos, como fertilizantes químicos e agrotóxicos.
Os insumos químicos, sem renovabilidade,
foram introduzidos pela
agricultura capitalista, colocando os agricultores numa situação de dependência. No futuro a agricultura não pode continuar
dependendo desse tipo de
insumos, porque esses recursos se esgotam. Por outro lado, através da interação de animais
e plantas
ou
da interação
vegetal
com a vida
animal é possível evitar determinados problemas
técnicos que
foram causados exatamente
pelo
uso desses
produtos
químicos na agricultura.
É possível, por
exemplo, controlar inços, que
geram problemas significativos
na produção agrícola,
através
da compreensão de como as plantas interagem entre
si. É uma forma
antiga de conceber
a relação das plantas, diferente da monocultura
e que, inclusive, os povos indígenas realizavam. Na linguagem científica isso
recebe a denominação de alelopatia: compreender
como
plantas se ajudam ou prejudicam,
inclusive funcionando como herbicidas naturais.
Da mesma
forma, no que se
refere a pragas
ou insetos que
se tornam nocivos
para
a produção, se sabe que as plantas são
mais saudáveis se for evitado o uso
de uma planta só: a
uniformização da produção. Com a diversificação da produção e a rotação de
culturas é possível reduzir a possibilidade de infestações de pragas da mesma
forma como os
ataques de
doenças.
Pelas experiências já existentes com as
tecnologias socialmente e ecologicamente apropriadas é possível
reduzir o tempo de trabalho necessário do agricultor no processo
produtivo, sem diminuir o seu valor gerado, tendo em vista que, para
isso, o agricultor precisa introduzir mais conhecimento. Assim,
teríamos uma nova forma de trabalho que agrega
valor: a construção de
conhecimento
para resolver
problemas
técnicos que a
agricultura
tradicional não tem condições
de resolver. A agricultura
ecológica, na agricultura
familiar, seria a forma
mais
avançada de
tecnologia
na produção de alimentos. Ao agregar mais
valor à produção,
industrializando-a e colocando-a no mercado
de uma forma diferenciada torna-se
necessário articular a relação
com
o consumidor. Dessa forma, é possível produzir alimentos
mais
saudáveis, para o mercado
local. Numa primeira instância os agricultores
familiares
seriam favorecidos, em função da melhoria de sua
própria qualidade de vida. Num segunda instância, aumentaria a
produção de alimentos para além das necessidades dos agricultores,
contribuindo para a melhoria da qualidade de vida de toda uma
região, tendo o trabalho familiar como base de uma nova relação com
a natureza e o capital. |
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