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JOSE JAKSON AMANCIO
ALVES
Professor do
Departamento de Geografia (Centro de Humanidades - Universidade
Estadual da Paraíba). Doutor em Recursos Naturais pela
Universidade Federal de Campina Grande, pesquisador-líder do
Grupo de Estudos em Recursos Naturais (GERN) e
Editor-Responsável da GERN Revista Plantar

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2008: Ano Centenário de Josué de Castro – 61 Anos
da Geografia da Fome
Jose Jakson Amancio Alves
Em setembro de 2008, solenizamos o
centenário de vida de Josué de Castro e ano, em que seu livro,
“Geografia da Fome” de 1947, completa sessenta e um anos de
história. Essa publicação é marco profundo dos estudos brasileiros
sobre segurança alimentar e a fome.
Segundo ABRAMOVAY apud ALVES
(2007: 32) a palavra fome tem dois significados bem distintos: Um
deles é o de apetite, vontade de comer, um fenômeno instintivo que
nos leva a buscar alimentos e, conseqüentemente, preservar a nossa
vida; o outro, de subalimentação ou desnutrição, tem a ver com a
impossibilidade de se alimentar ou com o fato de se alimentar de
forma errada.
No dicionário etimológico, fome é uma
palavra originária do lat. famelicus , significando faminto,
e no sf., como “grande apetite de comer” (CUNHA. 1997: 363). Já no
Aurélio do século XXI, fome aparece definido como “grande apetite de
alimentos” ou “mingua de víveres” (FERREIRA. 2000: 327). Ambos os
conceitos definem fome como uma questão relativa a aptidão biológica
do ser humano entre o apetite e a oferta de alimentos.
Contudo à época do lançamento – 1946 –,
o conceito de fome era de um fenômeno natural e impossível de ser
revertido.
Mesmo assim, escreveu Josué de Castro na
introdução do livro geografia da fome: “interesses e preconceitos de
ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada
civilização ocidental tornaram a fome um tema proibido, ou pelo
menos pouco aconselhável de ser abordado”.
Ao quebrar este silêncio, o autor ganhou
destaque internacional e suas obras traduzidas para mais de 25
países e recomendadas pela Organização das Nações Unidas para
Agricultura e Alimentação (FAO).
Os estudos sobre alimentação e nutrição,
do geógrafo Josué de Castro tornou-se uma referência para o Mundo,
como especialista nos problemas da fome e do subdesenvolvimento em
geral. Josué de Castro levantava comprovações radicais de uma série
de idéias, não só pela seriedade e audácia com que enfrentou o
grande tabu, a fome, mas pela denúncia que fez da situação em que
vivia a maioria da população do país, usando metodologia
eminentemente geográfica, analisou as suas características
físico-naturais e sociais (ALVES, 2007: 18).
"Denunciei a fome como flagelo fabricado
pelos homens, contra outros homens", afirmava Josué de Castro,
apontando a dimensão social do problema.
Anna Maria de Castro, conta que
geografia da fome serviu para desmistificar a crença de que o
fenômeno é um mal ligado à raça. “A fome foi criada artificialmente
pelo modelo adotado então. Dizia-se que o Brasil era um país de
indolentes, mestiços, de gente de cor e que, por isso, a fome
deveria fazer parte do dia-a-dia do brasileiro”, comenta a socióloga
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Para desmistificar tal discurso, Josué
de Castro viajou todo o Brasil, dividindo-o em cinco regiões,
conforme características alimentares de cada uma: Amazônia, Nordeste
açucareiro, que abrange somente a Zona da mata e o litoral, Sertão
Nordestino, Centro-Oeste, também, foi incorporado o estado de Minas
Gerais e o Sul do país. Ele dedicou um capítulo de Geografia da Fome
a cada uma dessas localidades e analisou o processo de colonização
das áreas, de produção de alimentos e de aparecimento de doenças nos
moradores.
Assim, comprovou que o consumo irregular
de proteínas, cálcio e ferro, em algumas regiões, e de vitaminas,
iodo e cloreto de sódio em outras, não decorre de fenômenos
naturais, mas da prioridade dos governantes. Para o autor, a forma
de evitar tais carências nutritivas seria a distribuição de terra.
“É indispensável alterar substancialmente os métodos de produção, o
que só é possível reformando as estruturas rurais vigentes.
Apresenta-se, deste modo, a reforma agrária como uma necessidade
histórica nesta hora de transformação social que atravessamos como
um imperativo Nacional” escreveu Josué de Castro, na análise final
do livro.
Ele é autor de frases emblemáticas que
serviram para popularizar as injustiças que o “fenômeno da fome”
trouxe, e ainda traz a milhões de indivíduos do planeta Terra:
"Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros
homens”; “Metade da população brasileira não dorme porque tem fome;
a outra metade não dorme porque tem medo de quem está com fome”; “Só
há um tipo verdadeiro de desenvolvimento: o desenvolvimento do
homem”.
A Lei Orgânica de Segurança Alimentar e
Nutricional (LOSAN), sancionada em setembro de 2006, é o coroamento
da idéia de Josué de Castro, pois se antigamente nem era possível
falar em fome no Brasil, hoje a constituição prevê o acesso à
alimentação como um direito humano (CUNHA, 2007: 1-2). Mas a LOSAN
vai além: responsabiliza o poder público pelo acesso regular e
permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, a
toda população (ALVES, 2007: 43-44).
Na realidade Josué de Castro foi um
cientista de múltiplas dimensões profissionais.
Sendo que a fome é a questão central dos seus estudos e eixo da
luta. Por meio desse eixo principal, o autor dimensiona suas
análises em diversos outros temas como, por exemplo, a reforma
agrária, a questão ecológica, o subdesenvolvimento e as
desigualdades sociais. Afirma, explicitamente, que a fome é o
problema ecológico número um na medida que todo ser vivo deve se
alimentar para se manter vivo (GONÇALVES & FERNANDES, 2000)
Esta discussão, porém, não são
exclusivas da geografia, de um modo geral, outras disciplinas da
área das ciências sociais e da natureza, se vêm envoltas em
discussão semelhante. Entretanto, e talvez o mais importante, é que
todos os cientistas são vítimas desta perplexidade.
Josué de Castro, também, não escapou
disso.
Castro desenvolveu seu trabalho a partir
da constatação de que num mundo onde não se consiga obter condições
de vida similares para todos os homens ao nascer, se produzirão
conseqüentemente grandes contrastes nos futuros níveis de saúde e
capacidade intelectual destas populações. Ter ou não ter o que comer
diferencia mais do que a raça, do que a cor. Denunciava que a
herança que caberia a cada um dos membros da sociedade não estava,
assim, muito bem distribuída. Em seus trabalhos, dividia a sociedade
não em burguesia e proletariado, mas entre os que não comem e não
dormem porque têm fome e os que comem, mas não dormem com medo dos
que têm fome.
Sempre afirmou que a fome, a miséria são
criações de nossa sociedade, não são fenômenos naturais. São
fenômenos artificialmente criados pelos homens que desenvolveram um
tipo de economia que visa tão somente o atendimento do capital e não
das necessidades do homem.
Infelizmente, suas denúncias sobre as
causas que geram o subdesenvolvimento, a fome, a miséria de nosso
povo permanecem extremamente atuais. Assim, sua obra vem sendo
relida e discutida, na medida em que o autor sempre apresentou
propostas e caminhos possíveis e viáveis para superar a situação de
penúria, de fome de alimentos e de saber que vão caracterizar o os
integrantes do terceiro mundo.
Passados tantos anos da descoberta da
fome como um problema político, no Brasil ela sempre se encontra tão
atual como nunca, e as tentativas de acabar são muitas, através de
diversas entidades não governamentais, Ongs, etc., porém todas as
receitas caminham sobre uma única cartilha, as orientações do mestre
Josué de Castro (ALVES, 2007: 32) e uma resposta de FURTADO (2002:
16) que para acabar com o problema da fome com base na
leitura geográfica de Castro, afirmou: “visto apenas
do ângulo da fome, o problema da pobreza pode ter no Brasil solução
relativamente fácil. Mas no Brasil não há escassez de alimentos.
Somos um país exportador de alimentos, temos um potencial agrícola
enorme. Basta, num primeiro momento, assegurar o acesso a uma cesta
básica de alimentos”.
Josué de Castro foi um cientista
coerente e sempre se manteve fiel a seus pensamentos, princípios e
teorias, mesmo quando colhido pela adversidade. Por fim, o que
surpreende nos dias atuais, é a atualidade de sua obra.
Referências
ALVES, Jose Jakson
Amancio. Uma leitura geográfica da fome com Josué de Castro.
Pontífica Universidad Católica de Chile / Instituto de Geografía.
Revista de Geografía Norte Grande., N. 38: 5 – 20p, Diciembre 2007.
ALVES, Jose Jakson
Amancio. Josué & a Fome. João Pessoa: Edição Sal da Terra., Paraíba.
74p. 2007.
CASTRO, Josué de.
Geografia da Fome. 6ª Edição. Rio de Janeiro:
Editora Civilização Brasileira, 2006.
CASTRO, Anna
Maria de.
Disponível em <
http://www.josuedecastro.org.br > Acessado em 24
de setembro de 2007.
CUNHA, Antonio Geraldo da. Dicionário
Etimológico. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,
1997.
CUNHA, Rodrigo. Segurança
alimentar: um conceito em construção. Disponível em < http://
www.comciencia.br
> Acessado em 03
de julho de 2007.
FERNANDES, Bernardo
Mançano; GONÇALVES, Carlos Water. Josué de Castro: Vida e Obra. São
Paulo: Editora Expressão Popular, 2000.
FERREIRA, Aurélio
Buarque de Holanda. Mini Aurélio século XXI. Rio de Janeiro: Editora
Nova Fronteira, 2000.
FURTADO, C. Em busca
de novo modelo. Reflexões sobre a crise contemporânea. São Paulo:
Editora Paz e Terra, 2002.
Professor DE
do Departamento de Geografia - Centro de Humanidades -
Universidade Estadual da Paraíba. Email:
jaksonamancio@hotmail.com
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