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RUDÁ RICCI
Sociólogo,
Mestre em Ciência Política e Doutor em Ciências Sociais.
Coordenador do

Instituto
Cultiva e membro da Executiva Nacional do Fórum Brasil
do Orçamento. Membro do Observatório Internacional da Democracia
Participativa

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Escolas sindicais da CUT: uma obra inacabada
Rudá Ricci
Na primeira metade da década de 90 fui
membro da Secretaria Nacional de Formação da CUT (Central Única dos
Trabalhadores). Assumi, inicialmente, a assessoria nacional para
elaboração do programa de formação dos trabalhadores rurais, junto
ao Departamento Nacional dos Trabalhadores Rurais da CUT (DNTR-CUT).
O trabalho consistiu em três frentes: a) ampliação ou adaptação dos
programas nacionais de formação sindical da CUT à realidade rural;
b) fortalecimento ou consolidação da rede nacional de formação
sindical rural da CUT (a partir das escolas sindicais já existentes,
da formação de secretarias estaduais de formação sindical rural e
aproximação com ONGs e universidades que pudessem criar pesquisas e
programas educacionais em colaboração com a CUT); c) apoio às
escolas sindicais cutistas para constituição de programas educativos
que incluíssem a realidade rural (tanto para rurais, quanto para
sindicalistas urbanos).
Eu concluía, naquele momento, minha
dissertação de mestrado na UNICAMP, que tinha como foco a análise da
crise de representação sindical dos trabalhadores rurais do Brasil,
a partir da emergência do MST, do Movimento de Atingidos por
Barragens (MAB), do movimento de seringueiros, do movimento de
canavieiros e tantos outros que, curiosamente, se formavam à margem
da estrutura sindical oficial (a partir da CONTAG - maior
confederação de trabalhadores do país –, das poderosas FETAGs – as
federações de trabalhadores na agricultura-, e uma rede de
sindicatos de trabalhadores rurais, enraizada no sertão brasileiro,
envolvendo mais de 8 milhões de sindicalizados).
Participei, nesta condição, como
colaborador do programa de formação sindical do Instituto Cajamar
(São Paulo) e Escola Sindical 7 de Outubro (Belo Horizonte) até que,
em 1993, me transferi como coordenador do programa de formação rural
da escola sindical de Belo Horizonte. Era um momento tenso porque a
direção nacional da CUT começava a pressionar as escolas sindicais
para se tornarem totalmente orgânicas da central sindical, o que na
prática significava serem dirigidas a partir dos interesses das
forças e correntes sindicais majoritárias.
Lendo o livro de Paulo Sérgio Tumolo
(“Da contestação à conformação: a formação sindical da CUT e a
reestruturação capitalista”, Editora da UNICAMP, 2002), que retoma a
política nacional de formação da CUT desde 1984, fiquei motivado a
escrever este breve testemunho-reflexão. Para Tumolo, a CUT faz uma
inflexão a partir de 1991 (quando da realização do quarto congresso
da central sindical), quando as greves começam a rarear e inicia sua
participação nas câmaras setoriais. Segundo o autor, a mudança se
relaciona à hegemonia da corrente Articulação Sindical, que
defenderia o que denomina de “sindicalismo propositivo dentro da
ordem”. No que tange à formação sindical, a CUT teria se dirigido à
educação de tipo instrumental, em detrimento da formação crítica
(que apreendesse a realidade contraditória). Finaliza destacando o
ano de 1995, ano da realização da 7ª Plenária Nacional da CUT, onde
abraça definitivamente a formação profissional, a partir do uso dos
recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Destaca, nesta
trajetória, o papel desempenhado pelo Instituto Cajamar (depois,
Escola São Paulo) e Escola Sul (sediada em Florianópolis, que o
autor classifica como primeira experiência de tipo empresarial da
CUT).
Acredito que este livro contribui para
analisarmos a trajetória recente da esquerda brasileira e não apenas
das forças sindicais. E como observador privilegiado do período de
transição, gostaria de aprofundar algumas sugestões indicadas por
Tumolo.
A CUT possui, hoje, sete escolas
sindicais: Escola Sul (Florianópolis), Escola São Paulo, Escola 7 de
Outubro (Belo Horizonte, Escola Amazônia (Belém), Escola Chico
Mendes (Porto Velho), Escola Centro-Oeste (Goiânia) e Escola Marise
Paiva de Moraes (Recife).
A Escola São Paulo foi fundada em
1993, ano decisivo para a mudança da história das escolas sindicais
da CUT, e se oficializou em 1995, ano de formalização da rede
sindical própria da CUT. Dois anos depois se dedicava exclusivamente
à formação para sindicalistas. Esta é a informação oficial desta
escola. Fica a pergunta: mas o que fazia antes? Antes, toda
estrutura da escola constituía o Instituto Cajamar, cuja sede ficava
na rodovia Anhanguera. O Cajamar foi criado a partir de uma generosa
proposta de formação política de sindicalistas e militantes do
Partido dos Trabalhadores. A idéia vinha na esteira das discussões
da Secretaria Nacional de Formação do PT, em 1985, data em que se
formalizou um conjunto de programas permanentes (seminários e
cursos) de formação militante e que desaguaria na 1ª Plenária
Nacional de Formação Política (1986). O Instituto Cajamar foi
criado em julho daquele ano, como organização educacional autônoma.
A primeira atividade desta instituição foi um seminário sobre
participação popular na Assembléia Nacional Constituinte, realizado
em dezembro de 1986. O Cajamar já havia formado quase 3 mil
militantes quando se inicia a discussão para criação de uma rede de
formação própria da CUT.
A Escola Sul foi criada em 1990.
Foi se constituindo em referência no sul do país e, aos poucos,
apadrinhada pelo secretário nacional de formação sindical da CUT na
época, Jorge Lorenzetti, foi ganhando projeção nacional. Foi, desde
o início, marcada por este signo ideológico de disputa interna no
interior da central sindical.
A Escola Sindical 7 de Outubro
foi fundada em 1987. Foi uma iniciativa ímpar porque nasceu de um
programa de cooperação com a Federação Italiana Metalúrgica,
vinculada à Central Italiana de Sindicatos de Trabalhadores. Desde
seu início mantinha uma grande autonomia pedagógica frente à direção
da CUT. O mesmo ocorria em relação à EQUIP, escola de
formação e pesquisa sediada ainda hoje em Recife. O princípio
político-pedagógico era claro: as escolas sindicais poderiam
colaborar, mas não se alinhar (ou subordinar) às direções sindicais
do momento, sob pena de se transformarem em correias de transmissão
das correntes majoritárias naquele momento, perdendo seu espírito
crítico.
As outras escolas sindicais cutistas
ainda hoje existentes foram criadas posteriormente à deliberação de
criação da rede orgânica de escolas da central sindical.
Escola Sindical 7 de Outubro e EQUIP
faziam coro ao espírito político do pensamento que havia criado o PT
e a CUT, marcado pela ideologia anti-soviética, absolutamente
crítica à manipulação dos interesses e organizações populares a
partir das decisões da cúpula partidária. O vínculo direto, de
dominação e mando, entre partido e sindicatos, assim como partido e
Estado, era duramente questionado.
Contudo, a partir de 92-93, toda esta
concepção foi se deslocando e se aproximando das velhas doutrinas do
PCB pré-64. A correia de transmissão retornava como palavra de
ordem. Justamente pelas mãos de ex-militantes do PCB que ingressavam
na CUT e PT recentemente. Não foi uma mera coincidência.
Muitos dirigentes sindicais afirmam que
tudo se alterou a partir do 6º CONCUT, realizado em 1997, quando a
central sindical adota a linha de “resistência propositiva” ou
“disputa de hegemonia”. Mas a mudança já ocorria bem antes. E por
motivos menos intelectualizados. O grande divisor de águas foi a
filiação da CUT à CIOSL, a Confederação Internacional de
Organizações Sindicais Livres. Em 1991, o debate sobre sua filiação
já era tenso no interior da CUT. Em 1990, o Instituto Cajamar sediou
o seminário “Perspectivas Internacionais e o Movimento Sindical”
abriu o debate. O representante da Organização Regional
Interamericana do Trabalho (ORIT, seção da CIOSL), Luís Anderson,
sugeriu, na oportunidade, a substituição da greve geral como
instrumento de luta pela concertação social. Em 1992, a CUT se
filiou à CIOSL.
A partir de então, o triunvirato que
dirigia a central sindical (Delúbio Soares, Gilmar Carneiro e Jorge
Lorenzetti) decidiu jogar todas suas fichas para transformar a CUT
em membro ativo da direção da confederação internacional. E, para
tanto, desfechou um ambicioso programa de filiação em massa de
entidades sindicais brasileiras. Ser membro ativo da CIOSL abria
portas e cofres aos dirigentes sindicais. E a CUT disputava palmo a
palmo a liderança com a Força Sindical, que havia se filiado à CIOSL
pouco antes.
Tinha início, naquele momento, um
conflito interno dos mais relevantes, que redundou no fim das
estruturas departamentais (paralelas à estrutura sindical oficial do
país, como era o caso do DNTR) da CUT. Afinal, a central sindical
necessitava filiar federações e confederações sindicais oficiais
para revelar seu poder de representação. Havia, naquele momento, uma
leitura alarmista sobre a crise da representação sindical, frente
aos novos modelos de gestão fabril (toyotismo, por exemplo) e
implantação de automação e robótica nas plantas industriais,
substituindo postos de trabalho. Concentrar forças e representação e
alterar os instrumentos de luta eram conteúdos de grande parte dos
documentos internos da Articulação Sindical da CUT.
A centralização política (muitas vezes
denominada de unidade, silogismo muito empregado pela Unidade
Sindical, corrente sindical pré-CUT vinculada ao PCB), alcançou
imediatamente as escolas sindicais.
Não por outro motivo, programas de
formação sindical criados desde 1984 (como Concepção, Estrutura e
Prática Sindical)
foram caindo no ostracismo. A partir de 1992-1993, discussões
ideológicas (não pragmáticas) eram contraproducentes para as
intenções políticas da executiva nacional da CUT.
Obviamente que a autonomia das escolas
sindicais também aparecia como perigosa. E foi então que todas foram
convidadas a alterarem seu status político, subordinando-se, a
partir de então, às direções sindicais, que passariam a ser seu
corpo dirigente.
As equipes educacionais das escolas 7 de
Outubro e EQUIP resistiram fortemente a esta orientação. Recife
manteve-se na mesma linha. Mas a escola mineira foi asfixiada
financeiramente. As articulações internacionais da Secretaria
Nacional de Formação da CUT funcionaram. O recado foi dado. E uma
das equipes educacionais mais importantes do mundo sindical
brasileiro foi desfeita. Intelectuais do porte de Michel Le Ven e
Magda Neves, que faziam parte do corpo docente desta escola se
afastaram pouco a pouco, como tantos outros.
Aquele foi um momento decisivo para a
esquerda petista e cutista. Justamente porque a “cultura política do
Partidão” retornava à cena política pelas mãos da direção do partido
e central sindical que a haviam substituído dez anos antes.
Não por acaso, tomava corpo uma forte
aliança entre o triunvirato que dirigia a CUT no momento com as
forças lideradas, no PT, por José Dirceu. O resultado político de
tal aliança é conhecida e continua sendo noticiado pela grande
imprensa.
Enfim, um momento de grande importância
para desvendar a atual lógica política por que passa o país e que
ainda merece uma investigação à sua altura.
A CIOSL foi fundada em 1949 para se contrapor ao
sindicalismo de tipo comunista ou soviético. Nas Américas, a
organização sindical que esteve à frente da CIOSL foi a
famosa AFL-CIO (Federação Americana do Trabalho/Congresso
das Organizações da Indústria), que pregou por muito tempo o
anti-comunismo. Com a queda do Muro de Berlim, no final da
década de 80, a posição da CIOSL foi se alterando. O
sindicalismo moderado do Norte abriu-se a alianças com o
sindicalismo mais à esquerda na Europa e no Terceiro Mundo.
Este é o período de filiação da CUT, da COSATU – Congresso
dos Sindicatos da África do Sul - e a Confederação de
Sindicatos da Coréia do Sul, além de que centrais sindicais
européias como as Comisiones Obreras de España e a CGIL
(Confederação Geral Italiana do Trabalho da Itália).
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