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HENRIQUE RATTNER
Professor na Faculdade de Economia, Administração
e Contabilidade da USP (FEA/USP); e na pós-graduação no
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Fundador do Programa
LEAD Brasil e da
ABDL - Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças

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Limites do Crescimento –
último alerta
Henrique Rattner
A escassez e o
esgotamento próximo das reservas de petróleo estão estreitamente
relacionados com a recessão econômica que atravessa o mundo, sendo
os altos preços de petróleo e seus reflexos nos preços dos alimentos
e de commodities sentidos em todos os países e continentes.
Estima-se que 60% das reservas de petróleo no mundo, ou seja aquelas
que podem ser extraídas de campos e bacias conhecidos por meio de
tecnologias existentes, encontram-se no Oriente Médio. Juntando-se
as reservas da Rússia e da Venezuela, o total se eleva a 75% dos
quais a Arábia Saudita detém 20%. No nível de produção e de consumo
atual, o mundo dispõe de petróleo para pouco mais de 40 anos.
Quais serão os impactos
previsíveis desta situação concreta e irreversível para o
funcionamento futuro do sistema mundial?
Os séculos XVIII e XIX
da Revolução Industrial tiveram como principal fonte energética o
carvão mineral. O século XX beneficiou-se dos imensos campos de
petróleo barato do Oriente Médio que pareciam inesgotáveis. Chegamos
ao século XXI com os preços do petróleo em níveis nunca alcançados e
o suprimento deste precioso e atualmente insubstituível combustível
controlado por um cartel (OPEP) de poucos países produtores e
exportadores.
Após dois choques de
petróleo na década dos setenta, a reação dos países industriais foi
concentrada na construção de reatores nucleares dos quais existem
hoje aproximadamente 450 no mundo, principalmente nos Estados
Unidos, França, Alemanha e Japão. Em que pesam os elevados custos
unitários, a demora na construção e a resistência das populações,
mesmo que a atual capacidade de geração de energia dos reatores
fosse duplicada nos próximos dez a quinze anos, a energia nuclear
será, na melhor das hipóteses, uma solução parcial insuficiente para
mover as centenas de milhões de veículos a combustão, como meios de
transporte.
Pensando o futuro em
dimensões globais, fica óbvia a inadequação não somente da energia
nuclear mas, também, das outras fontes de energia alternativas –
biocombustíveis, eólica, solar e geotérmica para sustentar o estilo
de vida baseado em transporte individual de nossa civilização.
Exemplificando: nos EUA circulam 80 veículos para cada 100
habitantes (aproximadamente 250 milhões), na Alemanha 55 por 100
habitantes e índices semelhantes encontramos nos outros países
desenvolvidos, membros da OCDE (Organização para a Cooperação e o
Desenvolvimento), somando quase um bilhão de veículos a motor, hoje
alimentados por petróleo. Tentando extrapolar essas taxas para os
BRICs – China, Índia, Brasil, Rússia, México, África do Sul e
outros, fica patente a insustentabilidade do sistema, se o objetivo
for a construção de sociedades mais justas, equilibradas e
ecologicamente sustentáveis. A alta dos preços de combustíveis
arrasta a dos alimentos, dos bens de capital e das commodities,
num círculo vicioso que desestabiliza todas as sociedades, ricas e
pobres, industrializadas e as de subsistência, em todos os
quadrantes do planeta. Acrescenta-se o “efeito estufa” ou o
aquecimento global terrestre; é configurado o cenário de uma
catástrofe imanente que ameaça a própria sobrevivência da
humanidade, mergulhada numa série interminável de conflitos, não
somente pelos recursos escassos, mas também sociais, regionais e
nacionais, pelo controle dos mesmos.
A crise de recursos é
agravada pela presença nos mercados de poderosos grupos
especuladores que movimentam diariamente valores superiores á soma
de produtos e serviços gerados pelo sistema econômico e superiores
aos ativos de todos os bancos centrais. Efetivamente, o sistema
capitalista atingiu um estágio que torna as sociedades
ingovernáveis, pela concentração de renda e riquezas nas mãos de uma
minoria ínfima da população mundial, enquanto reduz a imensa maioria
da população as condições de indigência e marginalidade. Enquanto
cresce o número de milionários e bilionários, conforme relatam as
revistas Fortune, Forbes e as estatísticas de organismos
internacionais aumenta o contingente da população mundial que
sobrevive com menos de um dólar por dia, que na conjuntura atual de
escassez e alta dos preços de alimentos básicos – arroz, milho,
soja, trigo, feijão – torna-se insuficiente para assegurar o mínimo
para a sobrevivência.
Paradoxalmente, a
polarização entre e dentre sociedades não impede a corrida atrás do
crescimento econômico. Ao contrário, estimulados pelo “efeito
demonstração” dezenas e centenas de milhões de pobres nos países
“emergentes” aspiram, além da elevação do consumo material, para a
aquisição de carros, casas, eletrodomésticos, TVs, celulares a
outros bens de consumo materiais e simbólicos que lhes são exibidos
pelos meios de comunicação, jornais, revistas, radio e TV além das
vitrinas das lojas.
Em retrospectiva
histórica, há certa analogia com a década dos setenta. Dois choques
de petróleo (1973 e 1978), seguidos de violenta alta dos preços de
alimentos, crise cambial e bancária e empobrecimento generalizado
das populações do então chamado “Terceiro Mundo”, criaram um clima
de pânico e de preocupação com o futuro por parte de acadêmicos,
políticos e empresários dos quais um grupo resolveu criar o “Clube
de Roma” com o objetivo de oferecer soluções para a crise mundial. O
Clube encomendou um estudo a um grupo de pesquisadores do MIT –
Massachussets Institue of Technology – que trabalhou sob a
inspiração e coordenação do professor Jay W. Forrester, um dos
pioneiros em dinâmica de sistemas. O grupo trabalhou com a hipótese
de se tratar de fenômenos melhor explicados por “multiloop
non-linear feedback systems” ou seja, sistemas realimentados por
oscilações múltiplas e não lineares. Os resultados dos estudos
individuais foram apresentados ao Clube de Roma e publicados em
livro intitulado “Limites de Crescimento”, em 1972 (São Paulo,
editora Perspectiva). Para suas análises, os autores selecionaram
algumas variáveis hipotetizando seu crescimento exponencial,
chegando à conclusão óbvia de um futuro desequilíbrio e até um
colapso total do planeta Terra.
As variáveis estudadas
pelos autores foram:
-
crescimento da
população
-
crescimento do PMB –
produto mundial bruto
-
produção de
alimentos
-
produção de
fertilizantes
-
reservas de recursos
não renováveis – combustíveis e minérios
-
crescimento do
consumo de energia
-
poluição ambiental
por CO2 e outros gases, chuva ácida, metais pesados,
bem como resíduos da produção agrícola e industrial.
É de se estranhar que os
autores praticamente omitiram, em suas análises a variável
fundamental – água; elemento básico para a sobrevivência física da
população humana, desde que seus ancestrais saíram das florestas e
passaram a um estilo de vida sedentário, baseado na agricultura.
Mais sério, contudo, é a ausência de análises sociais e políticas, a
partir das quais estabelecem-se os padrões de distribuição e consumo
de bens materiais.
Trabalhando com a
premissa falaciosa de produção e distribuição de alimentos, água e
outros recursos escassos “per capita”, ou seja abstraindo da
alocação de recursos que reflete as relações de poder, os autores e
seus computadores calculam os limites absolutos mas não relativos de
recursos necessários à sobrevivência de toda a humanidade.
O exercício, ao abstrair
da profunda e crescente divisão entre ricos e pobres, os que “têm” e
os que “não têm” acesso aos bens e serviços, revela-se inócuo e
improdutivo em termos de soluções e propostas alternativas. Assim,
indagam ... “suponhamos as melhores condições sociais possíveis,
qual é o crescimento que o sistema físico poderá suportar”?
(pág.44).
Nas conclusões, os
autores postulam que ... “se as atuais tendências de crescimento da
população mundial – industrialização, produção de alimentos,
poluição e diminuição de recursos naturais continuarem, os limites
de crescimento no planete serão alcançados dentre dos próximos anos
e resultarão em declínio súbito e incontrolável da capacidade
industrial”... (pág.20).
40 anos depois (2008) da
elaboração do estudo, é possível verificar que a população mundial
mais do que dobrou neste intervalo enquanto os indicadores de
pobreza, mortalidade infantil e subnutrição não foram invertidos em
sua tendência perversa. Pelo menos 1/3 da
população vegeta nos limites de sobrevivência, não tendo acesso à
água potável, saneamento, alimentação básica e serviços essenciais
como educação e saúde e isto, apesar da incorporação de centenas de
milhões de deserdados como produtores e consumidores na China e, em
grau menor, na Índia.
Um exemplo da gritante
desigualdade é o acesso à água potável. É sabido que a quantidade de
água doce disponível na terra é de apenas 0,5% do total das águas,
incluindo as calotas polares geladas.
Devido à urbanização
intensa, os desmatamentos e a contaminação por atividades
industriais e agrícolas, mesmo esta pequena quantidade de água está
diminuindo, causando a desertificação progressiva da superfície da
terra. O consumo de água, em consequência da urbanização dobra a
cada 20 anos, mais rapidamente do que o crescimento da população.
Se, de acordo com as estatísticas das Nações Unidas, centenas de
milhões de pessoas carecem de acesso à água potável, por outro lado,
continua o consumo de desperdício do precioso líquido pela parcela
dos mais afortunados que podem pagar pelo serviço. Enquanto regiões
imensas na África, Ásia e América Latina carecem de recursos
hídricos mínimos, nas regiões “desenvolvidas”, além de excesso de
consumo, aumenta a poluição de rios, lagoas e lençóis freáticos e
aqüíferos subterrâneos, tudo em nome de um suposto crescimento
econômico. Alimentos, recursos naturais, água e um meio ambiente
saudável são condições necessárias, porém não suficientes para um
processo de desenvolvimento sustentável, definido por atividades
econômicas racionais sem depredação dos recursos naturais quanto,
sobretudo, do trabalho humano, com distribuição eqüitativa e justa
dos produtos e oferecendo oportunidades iguais para o
desenvolvimento pessoal e o pleno desabrochar da personalidade de
cada indivíduo.
A alegada ou real
escassez de recursos – terra, água, fontes energéticas e
matérias-primas - é o resultado de uma organização social perversa e
injusta que condena metade da humanidade às condições de indigentes
e marginalizados, sem qualquer perspectiva de desenvolver seu
potencial humano criativo. A aposta em inovações tecnológicas, tais
como a Revolução Verde, tem se mostrado contraditória em seus
efeitos. Houve um aumento da produção em conseqüência do uso maciço
de fertilizantes, defensivos e sementes selecionadas, mas seus
benefícios foram apropriados pelos proprietários de terras de
grandes extensões que, além do capital necessário para adotar as
novas técnicas, têm acesso mais fácil aos mercados de seus produtos
e a financiamento. Desalojando pequenos agricultores, criam
desemprego e mais pobreza.
Nem todos os problemas
são suscetíveis de soluções técnicas. Seus condicionantes são
valores sociais e uma postura ética, ausentes entre os donos de
capital, movidos pela busca irrefreada de lucros e sua acumulação.
Infelizmente, a chamada “responsabilidade social” das empresas tem
se revelado mais um instrumento de marketing do que uma mudança no
comportamento real do mundo dos negócios.
As tentativas de apelar
à consciência dos empresários, executivos, políticos e um certo
número de acadêmicos reunidos anualmente no Fórum Econômico Mundial,
em Davos, Suíça, revelam mais perplexidade e são inócuos face as
dimensões dos problemas da humanidade.
Também, o Fórum Social
Mundial, criado como contraponto aos encontros dos empresários, após
um início promissor, com a presença de dezenas de milhares de
ativistas, sobretudo jovens vindos de mais de uma centena de países,
perdeu seu foco e ímpeto, deixando seus participantes perplexos e
desorientados.
Os históricos movimentos
de massa, proclamando mudanças estruturais revolucionárias -
socialistas, comunistas, anarquistas – sofreram o golpe da revelação
das atrocidades cometidas pelo regime stalinista na ex-União
Soviética, que desacreditaram todos os movimentos esquerdistas. Por
outro lado, o avanço espetacular do neoliberalismo proclamando “o
fim da história” e acenando com o acesso ao consumo ilimitado,
desarticulou também os movimentos sindicais cujos dirigentes foram
cooptados pelo aparelho de poder da plutocracia.
Em outras palavras,
atravessamos um ciclo histórico recessivo na evolução da humanidade,
o qual, com a opulência, a riqueza material e o poder concentrados
nas mãos de poucos, nos aproxima aos limites da barbárie.
Parafraseamos um
filósofo grego que, ao contemplar o céu e as estrelas, postulara a
harmonia e o equilíbrio como condições sine qua non do
sistema cósmico e clamou por “um mundo só”, agora e no futuro. Para
melhorar as condições humanas e restaurar a dignidade existencial,
serão necessários sacrifícios individuais e mudanças nas estruturas
de poder econômico e político, no caminho de uma humanidade
solidária, pacífica e sustentável, que tenha condições de satisfazer
as necessidades básicas de todos e criar oportunidades iguais para
cada um, de realizar seu potencial individual.
A situação econômica e
social atual está cada vez mais próxima do caos, da violência e de
confrontos irracionais em todas as regiões do globo. A tendência à
depredação de recursos naturais e humanos não significa que os
limites de crescimento serão alcançados nos próximos anos e
resultarão em declínio súbito e incontrolável da população e de sua
capacidade produtiva. Significa, contudo, que os custos sociais e
ambientais serão transferidos em escala e intensidade crescentes aos
que menos poder de defesa tem, eternas vítimas de um sistema
desumano e implacável.
No começo de julho de
2008, reuniram-se em Tokayo, na ilha de Hokkaido, Japão os chefes de
estado do G-8, os países industrialmente mais desenvolvidos e ricos
(EUA, Japão, Alemanha, Grã Bretanha, França, Itália, Canadá e a
Rússia) para “considerar seriamente” a redução de emissões
causadoras do aquecimento global terrestre. Não houve avanço com
relação à reunião do ano anterior, realizada em Heiligendamm,
Alemanha, durante a qual Japão, União Européia e Canadá propuseram a
redução das emissões globais até 2050, uma meta de longo prazo. Mas,
como dizia Lord Keynes,...”a longo prazo estaremos todos mortos”.
Ainda
assim, os EUA se opõem a apresentar metas quantitativas a menos que
haja compromissos idênticos de outros países, grandes emissores,
sobretudo China, Índia e Brasil. Os G-8 e mais outros oito países –
Austrália, Brasil, China, Índia, Indonésia, México, África do Sul e
Coréia do Sul respondem em conjunto por mais de 80% das emissões que
provocam o “efeito estufa” e o aquecimento global. |
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